segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Cruzeiro tenta se desfazer da ideia de cruzeiros para atrair quem não gosta de cruzeiros- FSP

 Daigo Oliva

Roma, Barcelona e Portofino (Itália)

Nada de cabines, são suítes. Passageiro? Viajante? Essas são palavras proibidas, e a que deve ser usada é hóspede. E cruzeiro, então? Nem pensar, um cruzeiro aqui é uma "ocean travel", uma viagem no oceano.

Parece até crise de identidade, mas na verdade a Explora Journeys, o braço de luxo dos cruzeiros da MSC, quer se distanciar do que vê como percepções erradas sobre esse tipo de viagem —e que por vezes são reais: música em volume primitivo, superlotação, cabines apertadas, toboáguas, shows e um ar cafona.

Navio de cruzeiro Explora com múltiplos decks e varandas, atracado em porto sob céu claro e sol forte, com reflexo de luz na lateral.
O navio Explora 3, terceira embarcação da divisão de luxo dos cruzeiros da MSC, ancorado em Barcelona, na Espanha - Daigo Oliva/Folhapress

Para muitos, essas características são do turismo de massa, que pouco tem a ver com destinos de luxo, e para atrair um público que não gosta de cruzeiros a marca quer se livrar desses rótulos, até com troca de vocabulário. Na viagem para o lançamento do Explora 3, o slogan mais repetido era "talvez o melhor hotel não é um hotel", porque esse cruzeiro não quer se parecer com um cruzeiro e porque há, sim, diferenças.

As cabines, quer dizer, as suítes, por exemplo, são espaçosas e possuem ambientes distintos, com sala, closet e varanda privativa, com um sofá para ver o mar. Ou seja, nada de cabines minúsculas e fechadas.

Além de levar um número menor de viajantes e de piscinas bem mais silenciosas, outra diferença para os cruzeiros clássicos é o serviço de quarto, que vai além da limpeza e da arrumação e oferece, por exemplo, a possibilidade de tomar o café da manhã ou de receber serviços do spa dentro da própria suíte.

"Estamos desafiando as convenções, a forma como falamos de nós mesmos. E encorajamos os hóspedes a contrariar esse estigma de que 'os cruzeiros não são para mim'", diz Anna Nash, presidente da Explora. A britânica, com passagens por Rosewood Hotels e Orient Express, atuou por dez anos no grupo Aman, de hotéis de alto padrão e um exemplo de "quiet luxury", o que ajuda a explicar por que está na posição atual.

Apoiados num relatório da consultoria McKinsey, a Explora investiu pesado na parte de bem-estar, para atrair os gen Z, geração dos nascidos de 1997 a 2012, e os millenials (1981-1996), identificados como as fatias com o maior interesse em viajar e que dizem separar quase um terço do salário só para turismo.

Assim, se a ideia é ir para alto-mar e fugir das agendas turísticas de trocentos programas num mesmo dia, o viajante, digo, o hóspede, pode fazer tratamentos no spa ou, por exemplo, relaxar numa "caverna de sal". Na área fitness, além de academias bem equipadas, há aulas de pilates e de ioga e uma pista de corrida.

A menina dos olhos do navio, porém, é a quadra de pádel, mistura de tênis e squash, até para aproveitar o fato de que o garoto-propaganda da Explora é Jannik Sinner, 24, tenista número 1 do mundo, italiano como a MSC e jovem como o público que a companhia mira. "Olhamos as tendências, e pádel era um dos temas quentes do momento", afirma Nash. "O wellness é importante para os jovens, e por isso também temos no nosso menu muitos mocktails, os drinques sem álcool. As pessoas estão buscando equilíbrio."

Uma característica dos cruzeiros que não muda são os locais visitados em terra, ainda que a seleção dos destinos busque ser menos óbvia e, como tudo que gravita em torno do mercado de luxo, mais exclusiva.

Flavio Corrêa, diretor comercial da marca no Brasil, diz que outra diferença para os cruzeiros tradicionais é o tempo de parada atracado, "para conhecer os lugares sem correria, sem que você desembarque e volte a bordo sem ter entendido nada", algo que fica bem mais fácil com um volume menor de pessoas. Enquanto o Explora 3 tem capacidade para 930 passageiros, os cruzeiros mais populares abrigam cerca de 5.000.

Pessoas nadam e caminham na água clara de enseada cercada por morro coberto de vegetação. Barcos estão ancorados ao fundo sob céu azul claro.
Praia de San Fruttuoso, em Portofino, na região italiana da Ligúria, um dos pontos de parada em terra do navio Explora 3 - Daigo Oliva/Folhapress

Na viagem que a reportagem da Folha fez, destinada a jornalistas e agentes de turismo, o itinerário partia de Roma e terminava em Barcelona, com uma parada em Portofino, uma comuna na região da Ligúria com praias que provam de fato o que é a cor verde-água. Não são desertas, como manda o guia da ostentação, mas proporcionam paisagens deslumbrantes e reúnem tanto vendinhas locais, em que é possível comprar um ímã de geladeira, como lojas de grifes de luxo, de Dior e Dolce & Gabbana à The Row, das irmãs Olsen.

No navio, a oferta também não é pequena, e há butiques de marcas como Rolex, Cartier e Piaget, um convite a quem tem tremeliques com a palavra "duty-free", além de uma adega e de uma galeria de arte.

Grande parte do que é consumido a bordo, porém, já está incluso no preço da viagem, que varia segundo o trajeto. O valor para sete noites do itinerário que sai de Copenhague, na Dinamarca, para Southampton, no Reino Unido, por exemplo, começa em R$ 42 mil/pessoa, o que dá direito a sauna, salas de vapor e duchas sensoriais (os tratamentos são pagos à parte), todos os bares, 6 dos 7 restaurantes e os pedidos na suíte.

As acomodações, aliás, variam bastante de tamanho e vão de 35 m² a 315 m². A mais espaçosa, batizada de Owner's Residence, é assinada pela designer espanhola Patricia Urquiola, famosa por formas orgânicas e pelo uso da cor, embora o ambiente que criou no navio seja bem discreto, com uma paleta creme e cinza.

Quem quiser se hospedar nela, ainda com o trajeto de Copenhague a Southampton como exemplo, terá de desembolsar cerca de R$ 269 mil por pessoa para passar sete noites com bastante espaço privativo.

Sala de jantar iluminada por luz natural com mesa redonda preta cercada por seis cadeiras acolchoadas brancas. Ao fundo, cortinas claras cobrem janelas amplas, e há um vaso com flores no centro da mesa. Paredes claras com detalhes em madeira clara e um espelho circular decoram o ambiente.
Sala da Owner's Residence, a maior suíte do Explora 3, de 315 metros quadrados e com projeto da designer espanhola Patricia Urquiola - Daigo Oliva/Folhapress

Como os brasileiros são um público cada vez mais atrativo no mercado de luxo —o país é o nono na lista de bilionários da Forbes—, a marca passou a aceitar pagamento parcelado, provando que o parcelamento não é uma questão de classe social nem de poder aquisitivo, mas uma parte da identidade do brasileiro.

O lançamento do terceiro navio faz parte de um aporte de € 3,5 bi (R$ 21 bi) da Explora em seis cruzeiros, com duas embarcações previstas para o ano que vem e a última para 2028. O Explora 6, inclusive, já vende uma volta ao mundo de 128 dias, viagem que pede programação variada, incluindo uma agenda de festas.

Durante o passeio para a mídia, foram três, com DJs, banda tocando sucessos da década de 1980 como "All Night Long" —o que soou quase como um lapso da Explora, lembrando que um cruzeiro é um cruzeiro— e a de encerramento com Bob Sinclair, famoso DJ francês dos hits "World, Hold On" e "Love Generation".

"A vida a bordo é fluida e descomplicada, e acho que existe a possibilidade de viver algo que você nunca imaginou", diz Nash, a presidente da marca. "Nós não somos um hotel e também não somos um cruzeiro, estamos criando algo singular, e a maior alegria é ouvir um hóspede dizer 'isso não é o que eu esperava'."

O jornalista viajou a convite da Explora Journeys

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