Notícia de presente
Não é difícil compreender as dificuldades políticas e as ambiguidades decorrentes da passagem da monarquia escravista, fundada no desumano direito de uma pessoa ser proprietária de outra, à República sem sobressaltos.
No Brasil, a mudança ocasionou ambiguidades, porque, se o futuro pode ser truque populista ou um sincero ideal, o passado tem de ser levado em conta porque ele baliza o presente. Nossa aversão à igualdade republicana revela a permanência de hábitos aristocráticos, responsáveis por anacronismos que vão do “você sabe com quem está falando?”, ao machismo, ao recorde de funcionários públicos e aos abusivos “penduricalhos” que aristocratizam membros do governo. Tais ambiguidades legitimam os habituais roubos do Estado contra a sociedade.
O filho do ex-presidente que foi a maior praga da política nacional se candidata à sua sucessão. Como um príncipe, recebe a unção do pai condenado por ser contra o processo democrático, mas promete ser mais comedido. Alguns republicanos perguntam: além do sangue, quais são as suas credenciais?
Nosso viés aristocrático, que celebriza os ricos, os objetos de “alto luxo e “gente fina”, diz: ele é filho do mito salvador. Só que o Brasil cansou de salvadores e precisa de gente com consciência das exigências e demandas do papel de presidente da República. A demanda é de um presidente que troque o palácio por um apartamento. Aí sim, teríamos um começo de “salvação”.
Para você
Nas repúblicas desenhadas pelos iluministas, o poder monárquico foi fraturado em três, todos submetidos a uma lei geral – a Constituição – que governaria o governo. Mas neste nosso Brasil compadresco e legalista, gerenciado por abnegados revolucionários “cuidadores” dos pobres (que não podem acabar), há uma multidão de salvadores.
Salvá-los de quem? De um passado que não podemos neutralizar, porque vivemos em turmas, casas-grandes e partidos. Somos marcados pelo refrão que eu, na flor dos meus 90 anos, já ouvi mil vezes: “Agora é a nossa vez!”. Tomamos o poder que, como uma coroa, legitima o roubo dos aposentados, a destruição dos Correios, a dominação do crime organizado e as universidades. O ensino público de base – fundamental para a democracia – é uma desgraça. Prova de que uma sociedade que reprime o conflito entre a igualdade e a hierarquia convive com as ambiguidades do personalismo e da esperteza malandra.
Proclamamos a República, mas não abandonamos o ideal de fidalguia que se manifesta na corrupção – que nada mais é do que uma face do negacionismo sobre os conflitos de interesses.
Daí a recorrência do velho dilema que denunciei no livro Carnavais, Malandros e Heróis. Nele, eu mostro que, na maioria das questões públicas, a igualdade era relativizada pela hierarquia. Evitamos o confronto e convivemos com as ambiguidades que formam o nosso modo de atuar no mundo





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