Não dá para a gente pular direto para a eleição de 2030? Pergunto porque, pelas opções que se nos descortinam agora, estamos lascados. O principal candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, dá diariamente mostras de que não tem condições de conduzir uma patinete por rua tranquila de cidade do interior. É preciso ter perdido o juízo para entregar-lhe a condução de um país com as complexidades do Brasil.
A suposta novidade no pedaço, Renan Santos e seu partido Missão, vendem-se como representantes do liberalismo, mas não desperdiçam nenhuma oportunidade de abraçar posições iliberais. Já o incumbente, Luiz Inácio Lula da Silva, está bem fora de forma e parece perdido em algum lugar entre o passado e o futuro. Com isso, quero dizer que não assimilou as lições do passado e apresenta uma visão de futuro bem obnubilada.
Montagem com os candidatos à Presidência Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) - Montagem
Para um político que disputa sua sétima eleição presidencial, ele cometeu erro infantil ao afirmar não conhecer e jamais ter estado perto da lobista Roberta Luchsinger. Fotos que provam o contrário apareceram em minutos. Na mesma linha, custa crer que Lula, que já passou pelo mensalão e pelo petrolão e sofreu enorme desgaste por causa dos negócios do filho Fábio Luís não tenha tomado medidas preventivas para evitar que a vida empresarial do primogênito não voltasse a assombrá-lo. Algo parecido vale para o caso Marcola. Um presidente precisa saber o que ocorre na antessala de seu gabinete.
O mais desalentador foi a declaração do presidente de que a dívida pública não o preocupa. Deveria. No Brasil, a dívida mobiliária, dadas a reduzida poupança interna e as condições de rolagem, opera como uma âncora que puxa para baixo todas as variáveis necessárias para manter a economia crescendo por períodos mais longos, condenando-nos aos proverbiais voos de galinha. Nos últimos 30 anos, o PIB do Brasil cresceu 105%, pouco perto dos 165% da Colômbia ou 220% do Chile e uma piada diante dos 620% do Vietnã ou 1.200% da China.
Uma sensação única de desconforto nos invade quando o cumprimento é um gesto desajeitado: se estamos esperando um abraço e o outro espera um beijo. Se o gesto “toca aqui” fica parado no ar ou se um sorriso passa despercebido. O sentimento não é tanto de desagrado quanto de embaraço. “Usamos os cumprimentos para dizer que fazemos parte do mesmo grupo, que somos um membro da gangue”, explicou Andy Scott, ex-diplomata que já fez muitas mesuras e deu muitos beijinhos no cenário internacional, falando de sua casa em Londres. Quando ensaiamos um cumprimento sem jeito, ele falou, é como se extrapolássemos os limites. Por um breve instante, nos marginalizamos. Graças a Deus, pelo aperto de mão, o Esperanto dos cumprimentos. Esse sinal universalmente reconhecido, que não pode ser mal-entendido, mas sempre de cortesia e cooperação. Prazer em conhecê-lo. Então, estamos de acordo. Foi um prazer. A totalidade da natureza humana se transmite no aperto da palma de uma mão com a de outra, e também com uma ampla variedade de contágios. Há muito tempo sabemos que, apesar de todas as formalidades e do decoro, um aperto de mão é um prodigioso caldo de cultura de germes e sujeiras. Mas o fator do nojo não importa, porque dependemos do aperto de mão para manter a civilização ocidental funcionando – um acordo de cavalheiros, uma campanha política, uma lição de espírito esportivo após a outra.
Como substituir o gesto? Foto: Kim Hong-Ji/Reuters
Agora, com o novo coronavírus, acabou com a indústria, a politicagem do toque e atletismo de grupo; ele também impediu que as pessoas apertem as mãos entre si. Os cientistas, principalmente Anthony S. Fauci, do Instituto Nacional de Alergia e Moléstias Contagiosas, aproveitaram da oportunidade para fazer lobby pela morte oportuna do aperto de mão. Será que os aventais brancos sabem o alcance do que estão pedindo? Nossas mãos foram investidas de poderes místicos. Elas falam para nós. Revelam a nossa história. As mãos macias de um funcionário de escritório o distinguem de um operário com suas palmas calosas. O aperto de mão permite que duas vidas colidam em um breve instante de confiança. Dificilmente essa pandemia fará esquecer para sempre aquilo que epidemias anteriores não conseguiram. O próprio Fauci acredita que o nosso compromisso no aperto de mãos, em última análise, pode ser algo inabalável. Além do que, acaso há alguma coisa que possa substituir este gesto tão profundamente significativo? Recusar-se a apertar a mão de uma pessoa é um insulto muito grave. Mostrar-se incomodado por isso chega a ser subversivo, e é por isso que a aversão de longa data do presidente é tão notória. A relação de Donald Trump com esta prática centenária deu uma série de voltas e mais voltas nos últimos anos. Quando candidato, ele se resignou à sua utilidade política. No cargo, ele se deliciou em prolongados apertos de mãos como uma exibição de machismo nacionalista. E, nos capítulos de abertura da pandemia do coronavírus, usando e abusando de sorrisos e apertos, Trump obstinadamente se recusou a abandoná-los como sinal de um otimismo ilusório e, bem, feliz de dar a mão. “Adoro as pessoas deste país. Você não pode ser um político e não apertar as mãos”, disse Trump, em um programa da Fox News em março. “Agora, aperto as mãos de todos.” Mas, finalmente, com o número de óbitos nos Estados Unidos superando os 80 mil, ele evita, desajeitado, os apertos de mãos com toda a finesse de um adolescente que ensaia gestos desajeitados no primeiro encontro. No início desse mês, para enfatizar a segurança do coronavírus, Trump estendeu sua mão ao governador de Arizona, Doug Ducey, e a retirou imediatamente em um gesto semelhante a uma propaganda enganosa, optando por uma pancadinha no ombro, o que fez com que os dois homens praticamente tocassem o nariz um do outro. Aparentemente, não paramos de nos tocar reciprocamente como uma forma de apresentação. “Enquanto seres humanos, nos espalhamos pelo planeta e criamos diferentes culturas. Não obstante, não abandonamos o propósito original fundamental de um cumprimento físico. Desse modo, estamos reafirmando um vínculo e nos testando reciprocamente”, afirmou Scott, que também é o autor de One Kiss or Two? The Art and Science of Saying Hello (Um Beijo ou Dois? A Arte de se Dizer Oi, em tradução livre). O aperto de mão “balança entre os nossos instintos competitivos e cooperativos”. Abandonar para sempre o aperto de mão equivale a pedir ao ser humano que deixe de tentar superar o outro ou de procurar um espírito afim. Significa apagar séculos de dados de identificação cultural e social. Quando estendemos a mão em sinal de paz e camaradagem, estamos oferecendo a força, a intimidade e a humanidade simbolizadas pela mão em si. Os crentes erguem as mãos a Deus, humilhando-se na busca de misericórdia. A imposição das mãos sobre os que sofrem dará a eles repouso. Os visitantes fazem peregrinações à Capela Sistina, onde a mão estendida de Adão busca a mão do Criador que dá a vida. Na morte, os cristãos esperam sentar à direita de Deus – lugar de honra e glória. A mão “tornou-se um símbolo de saudação, de súplica, e de condenação... tornou-se simbólica ou representativa da pessoa integral na arte, no drama e na dança”, escreveu a antropóloga Ethel J. Alpenfeld em The Anthropology and Social Significance of the Human Hand. Seu ensaio de 1955 nota que Immanuel Kant definiu a mão “o outro cérebro do homem”. Passamos a associar a mão direita com o que é bom e a esquerda com o que é mau, com a força e com a fraqueza. Algumas pessoas usam um pingente no formato de uma mão direita para afastar o mal. O homem abotoa a camisa para o lado direito; a mulher para o lado esquerdo. (O patriarcado está escrito em todas as coisas). E, portanto, cumprimentamos os outros com a mão direita, ainda que sejamos canhotos. As mãos leem para os que não veem e falam para os que são mudos. As nossas mãos, acreditam alguns, preveem o nosso futuro com uma linha da vida gravada na nossa palma. As mãos dizem a verdade sobre a nossa idade quando a maioria dos outros indicadores pode ser ocultada, pelo menos por algum tempo, pelo artifício, a diligência e o botox. Quando apertamos as mãos de estranhos, nos apresentamos a eles em nossa inteireza e em meros segundos indagamos: Somos iguais? Você é alguém confiável? É um adversário que vale a pena? Somos o mesmo tipo de pessoas – boas pessoas? As origens do aperto de mão remontam à Europa medieval, quando os cavaleiros estendiam sua mão para mostrar que estavam desarmados. A saudação se popularizou com os Quakers, que a abraçaram como uma alternativa mais igualitária para a mesura. Afirma-se que Thomas Jefferson teria sido um grande defensor de aperto de mão e do que isto representa – pelo menos em teoria. Trata-se de uma saudação de gênero neutro. O costume antigo do homem fazendo o beija-mão é menos um gesto de respeito e mais exibição de dominação. Foi um momento glorioso em 1964, quando o presidente Lyndon Johnson apertou simbolicamente a mão de Martin Luther King Jr. depois de assinar a lei dos direitos civis. O poder não está no movimento para cima e para baixo; é a intimidade da mão na mão. O toque cria confiança. Nós avaliamos esse toque. É forte ou esmagador? Firme ou mole? Usamos estas pequenas informações, usamos e abusamos – abusamos delas em alguns casos – para fazer uma avaliação da integridade do outro. O fim desse ato pode nos libertar desses julgamentos superficiais a respeito de palmas suadas e apertos de peixe morto. E, evidentemente, poderemos parar de espalhar muitos germes. A microscópica estranheza está clara desde o início do século 20. Em 1929, Leila Given, uma enfermeira que acabara de assistir à uma convenção, escreveu que viu uma mulher espirrar e tossir na mão direita e depois usá-la para cumprimentar outros participantes. Posteriormente, a enfermeira perplexa pediu aos seus alunos que procurassem calcular a quantas pessoas a mulher poderia ter passado a sua carga viral. “Podemos indagar por que a América sanitária persiste em um costume que não tem nada que o justifique do ponto de vista da saúde, mas os costumes nacionais não são facilmente abolidos”, escreveu a enfermeira na revista American Journal of Nursing. “É duvidoso que tal aperto de mão possa desaparecer algum dia do nosso meio, e a nossa única esperança está na educação das pessoas para que percebam o perigo das infecções transmitidas pelas mãos, e o uso das medidas preventivas que se encontram no campo da higiene pessoal.” Em outras palavras, lavem as mãos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA
A população estimada no Brasil chegou a 214,2 milhões de pessoas em 1º de julho de 2026, disse o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (28).
O número de habitantes teve crescimento de 0,37% se comparado ao de 2025 (213,4 milhões), quando a variação foi levemente superior (0,39%).
O país tem 15 cidades com mais de 1 milhão de habitantes —o IBGE considera Brasília na lista. São Paulo segue com o maior número de moradores: 11,9 milhões.
Os 15 locais com mais de 1 milhão de pessoas concentram 20% da população brasileira, o equivalente a 42,9 milhões de pessoas. Apenas Guarulhos (SP) e Campinas (SP) não são capitais estaduais.
As informações do IBGE são utilizadas pelo TCU (Tribunal de Contas da União) no cálculo de distribuição dos recursos do FPM (Fundo de Participação dos Municípios) e do FPE (Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal). A data de referência das estimativas é 1º de julho em cada ano.
Serra da Saudade (MG) tem a menor população do Brasil: 857 moradores. Anhanguera (GO), Borá (SP) e Araguainha (MT) também abrigam menos de mil pessoas cada.
CRESCIMENTO CADA VEZ MENOR ANTES DE QUEDA
Pesquisadores do IBGE e outros especialistas afirmam que o Brasil caminha para um crescimento cada vez menor da população devido ao cenário de mudanças demográficas.
No início dos anos 2000, a população nacional crescia mais de 1% ao ano, segundo as estimativas revisadas em 2024.
Em termos absolutos, as projeções indicam que o país teve acréscimo de 790,9 mil habitantes em 2026 na comparação com 2025. Isso equivale a cerca de dez estádios como o Maracanã lotados.
Pessoas caminham em estação de trem em São Paulo - Rafaela Araújo - 5.ago.26/Folhapress
Segundo o IBGE, a população nacional deve crescer até o pico de 220,43 milhões em 2041.
O instituto espera que a queda comece em 2042 e se intensifique nas décadas seguintes, levando o contingente para menos de 200 milhões em 2070 (199,2 milhões).
As estimativas populacionais diferem dos números do Censo Demográfico, cuja edição mais recente é relativa a 2022.
O recenseamento é um levantamento domiciliar. Ou seja, o IBGE visita os lares brasileiros para fazer entrevistas, em uma operação que ocorre uma vez por década.
As estimativas são anuais e têm atualização a partir de dados do Censo e de outras fontes.