sábado, 25 de julho de 2026

Mais que nunca, pensar, Muniz Sodré ,FSP

 A IA anda à procura de filósofos. Dez anos atrás, segundo um boletim repercutido pelo The New York Times, recomendava-se a estudantes em ciências sociais e filosofia aprender programação de computadores se quisessem conseguir empregos no futuro.

Pesquisas recentes indicam, entretanto, que a empregabilidade é cada vez maior entre graduados em estudos culturais e filosofia. Em nada diminuiu a importância da programação, mas já é função assumida pelas próprias máquinas. Elas fazem de tudo na lógica dos números, só não pensam.

Cabeça robótica com aparência humana usando óculos com sensores, montada em estrutura mecânica exposta com componentes eletrônicos visíveis. Fundo desfocado sugere ambiente interno tecnológico.
O primeiro 'homem biônico' do mundo, no Museu da Ciência, em Londres, na Inglaterra; o humanóide tem uma forma humana e possui próteses, um sistema circulatório artificial funcional completo com sangue artificial, bem como um pâncreas artificial, rim, baço e traquéia - Andrew Cowie - 7.fev.13/AFP

Mas as máquinas deixam claro que a existência ultrapassa a lógica, impotente no incessante transformar-se do mundo, onde se mostram apenas a existência e a realidade. Em outras palavras, a razão que faz funcionar a inteligência artificial não é a mesma do pensamento essencial fragmentação da vida, ao mistério do mundo, que é a cultura. Jorge Luis Borges bem o viu: "A solução do mistério é sempre inferior ao mistério. O mistério participa do sobrenatural e do divino; a solução, do jogo manual" (em "O Aleph").

Nenhum esoterismo nessa ideia de mistério. É só uma palavra para o que se oculta no movimento de aparecer e velar da physis, a natureza. Místico é o que se esconde, o que aciona a criatividade de toda cultura. Para isso, é preciso especular, imaginar, pesquisar, seja com as artes do pensamento, da criação ou do trabalho científico.

Tudo disso difere da combinatória dos saberes armazenados para resolver problemas práticos e imediatos. É o que Borges chama de "jogo manual", hoje uma interação com o hardware dos computadores. Num software, o logaritmo é mera sequência lógica de caminhos para dar solução rápida a determinada questão. É funcionamento de máquina, não pensamento ou busca de sentido para as coisas.

Mas há criações humanas que, sem serem meras combinações do já dado, prescindem de sentido. É o caso da música, que engendra o seu próprio real. Igualmente, a matemática, que tem rigorosa coerência, mas não sentido, e se aproxima da linguagem da physis: "O livro da natureza está escrito em linguagem matemática" (Galileu Galilei).

É assim que a matemática, indo além da medição, pode ensejar a construção de mundos, que não apenas replicam a realidade, mas produzem novos universos conceituais. E com todo o seu rigor, costeia a mística. O jovem indiano Ramanujan, um dos maiores matemáticos do século passado, atordoou os luminares britânicos ao revelar que suas complexas equações lhe eram sopradas em sonho por uma divindade familiar.

Agregadas como pensamento, matemática, música, ciências da natureza e do homem mostram que a redução da complexidade da vida à eficácia produtiva e ao consumo é efeito de uma programação neoliberal capaz de levar ao emburrecimento do mundo.

A soberania tecnológica de uma nação depende hoje de IA, mas não resulta da importação de modelos lógicos avançados, e sim de pensamento próprio, de universidades que respirem como territórios livres. Pensar, singularidade humana, não virá salvar apenas empregos, mas a nossa própria espécie.

O país dividido, FSP

 Hélio Schwartsman

São Paulo


Vinte anos não é pouco na vida de uma pessoa, mas é um intervalo de tempo relativamente curto na história de um país. É por isso que impressiona quanto o Brasil mudou nas duas décadas que separam a primeira eleição de Lula, em 2002, da mais recente, em 2022. Essas mudanças são o cerne de "O País Dividido", do cientista político Jairo Nicolau.

Dois grupos de pessoas brasileiras estão separados por uma grande fissura no solo com a bandeira do Brasil ao fundo. De um lado, pessoas com roupas formais e materiais escolares, incluindo adultos e crianças estudando e trabalhando em computador. Do outro lado, pessoas em roupas casuais, algumas segurando crianças e objetos domésticos, observando o grupo oposto. O céu está claro e azul.
Ilustração para coluna de Hélio Schwartsman - Annette Schwartsman

O perfil sociodemográfico do país passou por transformações importantes. O Brasil ficou mais velho, mais instruído e menos pobre. O eleitorado feminino se tornou preponderante. A proporção de evangélicos cresceu significativamente, à custa da fatia de católicos. Nicolau mostra, com base empírica e não em achismos, o impacto que essas transformações tiveram no voto.

Há alguns paradoxos. Ao menos duas dessas mudanças, a da educação e a da renda, são indiscutivelmente positivas. O resultado político, porém, não pode ser classificado como indiscutivelmente positivo. Saímos da transferência de poder civilizada de FHC para Lula para um ambiente de polarização que incluiu até a de tentativa de golpe de Jair Bolsonaro. Não dá obviamente para afirmar que isso ocorreu porque o país ficou mais instruído e menos pobre, mas essas duas transformações, ao lado de outras, tiveram lá seu impacto.

Os menos escolarizados são o grupo mais fiel ao PT. Foi só em 2018 que esse estrato abandonou o partido. Já o recorte das pessoas com ensino médio é o que mais pende para a direita. A fatia menor da população com diploma superior, que desde 2014 vinha votando na direita, voltou a apoiar Lula em 2022.
O livro tem vários achados interessantíssimos. O recorte religioso é particularmente rico em insights e por isso não falo nada sobre ele, para não dar spoiler.

Só lamento que Nicolau, na melhor tradição da sobriedade acadêmica, quase não se permita especulações. Nas poucas palinhas que ele dá, como a hipótese de que a polarização brasileira seja episódica e transitória, muito centrada nas figuras de Lula e Bolsonaro, deixa o leitor com um gostinho de quero mais.

Crianças precisam resgatar direito sagrado a tédio e joelho ralado- FSP

 Waldemar Magaldi Filho

Analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado"

[RESUMO] O autor afirma que a onipresença das telas dificulta o desenvolvimento infantil ao substituir as brincadeiras, o tédio e a imaginação por estímulos imediatos. Ele defende resgatar a infância ao ar livre como forma de fortalecer a criatividade e a saúde emocional.

Nossas crianças estão ansiosas e ouso dizer que estão esquecendo o idioma ancestral da infância. Aquele dialeto secreto onde uma caixa de papelão vira uma nave espacial e um cabo de vassoura se transforma na espada do rei Arthur.

Hoje elas parecem abduzidas precocemente por um feitiço luminoso. Estão capturadas como pequenos zumbis pelas rolagens contínuas de telas que oferecem mundos inteiros e mastigados em frações de segundo.

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Crianças brincam em gira-gira em São Paulo, no ano de 1968 - Bosco - Acervo UH/Folhapress

O imediatismo do toque na tela criou a geração "touchscreen" que tenta dar zoom em formigas reais e deslizar o dedo na página de um livro de papel esperando que a imagem se mova. O mundo tátil e tridimensional foi reduzido a uma superfície de vidro frio onde a realidade é descartada com um simples arrastar de dedos.

Toda essa facilidade digital é um banquete dopaminérgico que vicia e anestesia. A recompensa instantânea gera uma impaciência crônica para qualquer tipo de espera. Esperar a vez no balanço do parque ou aguardar a semente brotar no algodão molhado virou uma tortura insuportável.

Falta conexão com a terra e com o entorno relacional. O olhar que antes buscava o rosto do amigo agora mergulha no abismo de um buraco negro de pixels.

A tolerância à frustração despencou para níveis subterrâneos e o foco escorre pelas mãos como areia fina. Não por acaso assistimos atônitos ao aumento significativo de casos de TAG (transtorno de ansiedade generalizada), TEA (transtorno do espectro autista) e TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) inundando os consultórios. Uma sopa de letrinhas diagnósticas que denuncia o colapso de um psiquismo bombardeado.

A isso soma-se a nomofobia, aquele pânico suarento e taquicárdico de ficar sem o celular, revelando que o cordão umbilical moderno é um cabo de carregador.

Para mim, o maior dano dessa hiperconectividade não é apenas a miopia precoce ou a má postura. O verdadeiro estrago ocorre na alma. Há uma perda trágica da capacidade de exercitar a potencialidade imaginal.

A imaginação é o principal instrumento da criatividade humana e a ponte direta para o nosso inconsciente. Sem o tédio não há invenção. Criar fantasias e o desafio de superar obstáculos imaginários ficam atrofiados. A competência de simbolizar a vida perde espaço para imagens prontas e enlatadas que o algoritmo decide entregar.

Quando a criança não cria a própria imagem ela engole a imagem do outro sem mastigar. Fica assim instaurada uma sociedade anestesiada e absolutamente incapaz de lidar com a dúvida e com a angústia. O mistério e o não saber, que antes eram motores da curiosidade filosófica, hoje causam pavor em mentes viciadas em respostas instantâneas de buscadores virtuais.

Brincar é coisa muito séria. Significa formar uma aliança profunda com a experiência lúdica e com a própria essência. A palavra diversão carrega em sua raiz a capacidade de lidar com a diversidade. Divertir-se é acolher o múltiplo e possibilitar a inclusão de todas as expressões humanas no grande teatro da vida. Quem não se diverte fica adverso e rígido. Torna-se aquele que divide e separa.

Essa incapacidade de suportar a tensão dos opostos e a angústia do desconhecido estimula apostas unilaterais cegas e um crônico mau-humor social. É exatamente essa rigidez psíquica que justifica e alimenta a atual e nefasta polarização que estamos vivenciando.

Na psicologia analítica lembramos sempre que o que divide é o diabolos e o que une e integra é o símbolo. A tela isola, divide e polariza, enquanto a brincadeira de roda no quintal simboliza e costura os pedaços da nossa humanidade.

Precisamos resgatar o direito sagrado ao tédio e ao joelho ralado. Desligar o roteador de vez em quando é religar a tomada da alma. Deixemos que as crianças voltem a sujar as mãos de terra para que possam moldar o próprio mundo interno com a argila da imaginação livre e selvagem.