quarta-feira, 27 de maio de 2026

Deirdre Nansen McCloskey - Precisamos de mais conversas respeitosas e verdadeiras, FSP

 Algumas semanas atrás, estive em São Paulo por dois dias —a viagem mais curta que fiz ao Brasil em cerca de uma dúzia de idas à Terra do Samba desde os anos 1990. São nove horas e meia de voo noturno partindo de Washington, mas, ao contrário de uma viagem de oeste para leste, não há o terrível jet lag de cruzar muitos fusos horários.

Estive na cidade para participar da comemoração dos 50 anos da Universidade Estadual Paulista (Unesp), uma ocasião esplêndida e equilibrada. Na manhã do primeiro dia, alguns liberais fizeram discursos justificando o liberalismo e, em seguida, três esquerdistas discursaram justificando o esquerdismo econômico. A maioria dos cursos de economia nas universidades brasileiras é de esquerda, incluindo o pós-keynesianismo e o marxismo.

Uma construção de estilo arquitetônico clássico, com paredes em tom claro e telhado de duas águas. O edifício possui várias janelas e uma entrada principal com escadas. Ao redor, há áreas verdes com árvores e plantas, além de um gramado bem cuidado. O céu está parcialmente nublado.
Prédio da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, em Jaboticabal (SP) - Divulgação/Unesp

Mas, você sabe, um grande número de jovens no Brasil se inclina para o liberalismo —o verdadeiro liberalismo clássico, não o Partido Liberal de Bolsonaro. No segundo dia, passei pela reunião anual do Students for Liberty e fiz um pequeno discurso. O trajeto até a reunião foi longo. Experimentei novamente a imensidão de São Paulo.

Depois de outro longo percurso, encontrei-me por cerca de uma hora com meus colegas da Folha. Eu nunca tinha estado no prédio do jornal. Fiquei impressionada com a qualidade intelectual dos jornalistas que conversaram comigo —por exemplo, sobre a pressão da internet e, agora, da IA sobre o jornalismo impresso. Vocês não sabem a sorte que os paulistas têm de que a Folha, ao contrário de muitos jornais no mundo todo após o auge do jornalismo impresso, há 60 ou 100 anos, esteja financeiramente saudável.

Mais cedo, naquele mesmo dia, tive um longo e delicioso almoço num restaurante sofisticado da alta gastronomia brasileira com dois queridos amigos, Ramón e Ana. A última vez que os vi em São Paulo, há cerca de uma década, foi pouco antes do Carnaval, e numa noite fomos a uma escola de samba num ginásio de colégio. Foi uma experiência selvagem, louca e gloriosamente brasileira.

Homem de terno cinza e gravata vermelha está em pé, gesticulando com as mãos juntas, em um ambiente interno com decoração moderna. Ao fundo, há cadeiras vermelhas e uma tela azul com elementos gráficos. Duas pessoas estão parcialmente visíveis em primeiro plano, de costas para a câmera.
O escritor chinês Mo Yan, Prêmio Nobel de Literatura, em evento sobre os 50 anos da Unesp no Memorial da América Latina, em São Paulo - Eduardo Knapp - 13.mai.26/Folhapress

Ramón é um economista argentino que fugiu dos generais de lá e passou o resto da carreira no Brasil. Ele e eu compartilhamos o interesse pela metodologia econômica e pela história da ciência. Ana é professora de linguística e trabalha com uma das fascinantes línguas nativas do Brasil. Como sou uma grande fã de linguística, também adoro conversar com ela.

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Ramón e Ana são esquerdistas moderados. Discordamos respeitosamente. Ramón está acostumado com meu liberalismo devido ao nosso longo convívio e não se surpreendeu com minhas opiniões liberais. Ana me conhece menos. Então, quando eu dizia coisas como "o grande perigo é o governo armado com armas, não as corporações como a Folha, armadas com publicidade", ela discordava. "E os ricos donos de corporações assumindo o governo?" "Bom ponto. Vamos parar com isso e ser democráticos. Mas os ricos sempre fizeram isso, não é?" "Claro."

Conversas respeitosas e verdadeiras. Precisamos de muito mais disso, independentemente de ideologias. Quando Ramón e Ana vierem a Washington e ficarem comigo, faremos isso. E também conversaremos sobre metodologia econômica e línguas nativas brasileiras.

'Escravos', as estátuas que Michelangelo descobriu, Marcelo Viana, FSP

Em 1505, o papa Júlio 2º encomendou ao artista Michelangelo a construção de uma sepultura monumental, incluindo vários níveis arquitetônicos e mais de 40 estátuas. Entre elas, um grupo de seis personagens, chamados Escravos, representando almas aprisionadas.

À morte do pontífice, o orçamento para a obra já tinha sido drasticamente reduzido e a partir daí a tendência só se agravou, claro. Michelangelo chamava esse projeto sua "tragédia da sepultura", pelos muitos dissabores que lhe trouxe durante décadas. Quando a construção foi, enfim, concluída na Basílica de São Pedro Acorrentado (Roma), em 1545, o monumento era apenas uma sombra do grandioso projeto original. Nenhum dos Escravos foi incluído.

Duas dessas estátuas foram terminadas, mas Michelangelo deixou as outras quatro inacabadas. Falta de tempo? Perda de interesse nas peças, devido às sucessivas alterações do projeto? Necessidade de trabalhar em encomendas com retorno financeiro mais favorável? Ou gesto deliberado do artista, consciente do poder expressivo da incompletude da obra? Não sabemos.

Escultura em mármore mostra figura masculina nua, parcialmente esculpida, com cabeça e parte do braço direito ausentes. A figura está em posição ereta, com o braço esquerdo apoiado em uma estrutura vertical ao lado.
Estátua "Atlas", de Michelangelo - Wikimedia commons

Mas sabemos que Michelangelo via a escultura como ato de libertação: para ele, a figura existe previamente na pedra e o escultor apenas a liberta de seu invólucro amorfo. Escreveu: "O melhor artista não possui nenhum conceito que o mármore em si não contenha já, dentro de seu excesso". À vista destas estátuas incríveis, é difícil discordar dele. Eu nunca poderei esquecer a primeira vez que vi, num velho livro escolar da minha mãe, uma foto de "Atlas", que continua sendo meu Escravo favorito, seu torso poderoso lutando para emergir do mármore ao redor onde, como negar?, ele sempre existiu desde que o tempo é tempo.

Hoje, os Escravos estão entre as obras-primas mais famosas de Michelangelo, tendo adquirido um simbolismo que transcende em muito o escopo inicial. Tal como muitos de meus colegas, gosto de pensar nelas como alegorias do trabalho do matemático, extraindo padrões da massa amorfa do desconhecimento em que estão ocultos: tal como "Atlas", conceitos e teoremas apenas aguardam que os libertemos de seus invólucros.

Nem todo mundo concorda. Outro grande escultor, o francês Auguste Rodin, afirmava que a obra resulta da vontade criativa do artista, por meio de esforço e decisão, não por meio de revelação. Para ele, a arte não existe até que seja criada pelo artista. Será que é assim para a matemática também? Será que suas ideias são efetivamente criadas, inventadas em vez de descobertas?

Estranhamente, o físico Carlo Rovelli se baseou na metáfora dos Escravos de Michelangelo para argumentar contra (!) a ideia de que os conceitos matemáticos têm existência própria. Segundo ele, é verdade que no bloco de mármore existe uma estátua de "Atlas", mas "nesse exato e mesmo bloco existem infinitas estátuas possíveis". Quando Michelangelo tira o excesso "ele não descobre a única estátua residente ali: ele seleciona, entre infinitas opções, a estátua que faz sentido para ele".

Transferindo essa ideia para a matemática, Rovelli afirma que "o que os matemáticos fazem não é descobrir o que já obedece à natureza, e sim selecionar uma certa matemática, dentro de infinitas possibilidades lógicas", de acordo com a nossa fisiologia, a física do mundo em que vivemos, ou os nossos conceitos estéticos.

Mas o fato de que o trabalho do matemático tem uma componente de seleção não é novidade, e não prova o que o autor pretende. A descoberta das geometrias não-euclidianas, no século 19, já mostrou que diferentes matemáticas podem coexistir: as geometrias curvas de Lobachevsky e de Riemann são tão reais quanto a geometria plana de Euclides. Igualmente válidas e consistentes, todas elas merecem ter emergido do mármore amorfo em que um dia estiveram mergulhadas.

O número de Dunbar: Por que só podemos manter 150 relacionamentos, BBC

 Segundo a teoria de Dunbar, as pessoas conseguem "lidar" com até cerca de 150 relacionamentos – seja nas sociedades primitivas de caçadores-coletores ou no ambiente de trabalho moderno (Crédito: Emmanuel Lafont).

A teoria do número de Dunbar afirma que, na realidade, só conseguimos manter cerca de 150 conexões simultâneas. Mas será que essa regra ainda se aplica ao mundo atual das redes sociais?

Se você já foi rejeitado(a) romanticamente por alguém que só queria ser seu amigo(a), talvez tenha dito algo parecido com: "Já tenho amigos suficientes". A implicação, claro, é que as pessoas só têm energia emocional suficiente para um número limitado de amigos.

Acontece que isso não é apenas uma desculpa. Existem limites bem definidos para o número de amigos e conhecidos que uma pessoa comum consegue manter. Mas a questão de saber se esses limites são os mesmos no mundo digital de hoje – em que é comum ter perfis em redes sociais ou fóruns online com milhares de seguidores – é mais complexa.

Segundo o antropólogo britânico Robin Dunbar, o “número mágico” é 150. Dunbar convenceu-se da existência de uma relação entre o tamanho do cérebro e o tamanho dos grupos através de seus estudos com primatas não humanos. Essa relação foi mapeada utilizando neuroimagem e a observação do tempo gasto em atividades de catação, um importante comportamento social dos primatas. Dunbar concluiu que o tamanho, em relação ao corpo, do neocórtex – a parte do cérebro associada à cognição e à linguagem – está ligado ao tamanho de um grupo social coeso. Essa relação limita a complexidade que um sistema social pode suportar.

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Dunbar e seus colegas aplicaram esse princípio básico aos seres humanos, examinando dados históricos, antropológicos e psicológicos contemporâneos sobre o tamanho de grupos, incluindo o tamanho que os grupos atingem antes de se fragmentarem ou entrarem em colapso. Eles encontraram uma consistência notável em torno do número 150.

Segundo Dunbar e muitos pesquisadores que ele influenciou, essa regra dos 150 continua válida tanto para as primeiras sociedades de caçadores-coletores quanto para uma surpreendente variedade de agrupamentos modernos: escritórios, comunidades, fábricas, acampamentos residenciais, organizações militares, vilarejos ingleses do século XI e até mesmo listas de cartões de Natal . Ultrapassar 150 torna improvável que uma rede dure muito tempo ou se mantenha coesa. (Uma implicação para a era da urbanização pode ser que, para evitar alienação ou tensões, os moradores das cidades devem buscar comunidades semelhantes a vilarejos dentro de suas cidades.)

Segundo a teoria de Dunbar, as pessoas conseguem "lidar" com até cerca de 150 relacionamentos – seja nas sociedades primitivas de caçadores-coletores ou no ambiente de trabalho moderno (Crédito: Emmanuel Lafont).Emmanuel Lafont
Segundo a teoria de Dunbar, as pessoas conseguem "lidar" com até cerca de 150 relacionamentos – seja nas sociedades primitivas de caçadores-coletores ou no ambiente de trabalho moderno (Crédito: Emmanuel Lafont).

Dunbar encara com bom humor o fato de ter se tornado quase sinônimo de um número – um privilégio incomum para um cientista social. "O curioso é que a maioria das pessoas que têm coisas batizadas em sua homenagem já morreram", observa ele, com ironia.

 

Mas o número 150 por si só não conta toda a história. Outros números também estão inseridos na hipótese do cérebro social.

 

Segundo a teoria, o círculo mais restrito tem apenas cinco pessoas – os entes queridos. Seguem-se camadas sucessivas de 15 (bons amigos), 50 (amigos), 150 (contatos significativos), 500 (conhecidos) e 1500 (pessoas que você reconhece). As pessoas transitam entre essas camadas, mas a ideia é que sempre há espaço para novos membros.

 

Dunbar não tem certeza do porquê dessas camadas de números serem todas múltiplos de cinco, mas afirma: "esse número cinco parece ser fundamental para macacos e símios em geral".

 

Claro, todos esses números representam, na verdade, uma variação. Os extrovertidos tendem a ter uma rede maior e a se espalhar mais entre seus amigos, enquanto os introvertidos se concentram em um círculo menor de contatos mais próximos. E as mulheres geralmente têm um número ligeiramente maior de contatos nas camadas mais próximas.

 

Emmanuel Lafont O círculo mais íntimo é composto por apenas cinco pessoas queridas, chegando a um máximo de 1500 pessoas que você consegue reconhecer (Crédito: Emmanuel Lafont)Emmanuel Lafont
O círculo mais íntimo é composto por apenas cinco pessoas queridas, podendo chegar a um máximo de 1500 pessoas que você consegue reconhecer (Crédito: Emmanuel Lafont)

“O que determina essas camadas na vida real, no mundo presencial… é a frequência com que você vê as pessoas”, diz Dunbar. “Você precisa decidir todos os dias como investir o tempo disponível para interação social, e esse tempo é limitado.”

Algumas organizações levaram essas ideias a sério. A Autoridade Tributária Sueca, por exemplo, reestruturou seus escritórios para se manter dentro do limite de 150 funcionários.

Debatendo Dunbar

Nem todos concordam com a hipótese do cérebro social. Alguns são céticos quanto à possibilidade de se chegar a um número mágico para a interação social.

Ainda assim, pode ser um exercício útil para refletir sobre comunidades e evolução.

 

“Embora existam muitos fatores que podem limitar o número de relacionamentos que criamos e mantemos, esses estudos nos ajudam a entender melhor… e a mensurar a influência dessas variáveis”, afirma Cristina Acedo Carmona, antropóloga e economista da Universidade de León, na Espanha.

 

Entre aqueles que concordam que um número dunbariano pode ser encontrado, alguns questionam se esse número é 150. Pesquisas sobre diversos grupos sociais nos EUA sugerem que suas redes sociais se agrupam em torno de 290 indivíduos . E esses números podem estar significativamente distorcidos por valores discrepantes.

 

Um dos argumentos é que o número de conexões sociais não segue uma distribuição normal (ou seja, não tem o formato de uma curva em forma de sino ), então algumas pessoas com um número enorme de contatos podem estar distorcendo a média.

 

Por exemplo, se alguém tem recursos suficientes para contratar assistentes que gerenciem parcialmente seus relacionamentos — ou para terceirizar parte do trabalho emocional —, essa pessoa pode ter menos restrições quanto ao número de relacionamentos que consegue manter confortavelmente. Como em muitos aspectos da vida social, os superconectados são os superprivilegiados.

 

Algumas redes sociais dos EUA têm cerca de 290 membros, em vez de 150 (Crédito: Emmanuel Lafont)Emmanuel Lafont
Algumas redes sociais dos EUA agrupam-se em torno de 290 membros, em vez de 150 (Crédito: Emmanuel Lafont)

Existem também críticas ao número de Dunbar por razões metodológicas. O tamanho do cérebro dos primatas é influenciado por outros aspectos além da complexidade social: fatores como a dieta também podem explicá-lo. E uma equipe britânico-holandesa argumentou que, embora o neocórtex seja finito, a capacidade social pode ser expandida em diferentes contextos culturais e com o auxílio de diferentes tecnologias. Um exemplo é o uso de extensas listas de contatos em telefones celulares por jamaicanos de baixa renda. Essas listas, que envolvem o cultivo cuidadoso até mesmo de relacionamentos casuais, frequentemente contêm muito mais de 150 contatos.

De fato, o capital social pode ser especialmente importante para pessoas que não possuem outras formas de capital, como sugere a pesquisa comparativa de Acedo Carmona sobre o norte de Gana e Oaxaca, no México . A alta diversidade biológica, os ambientes montanhosos remotos e as influências do colonialismo espanhol sobre as identidades étnicas contribuíram para os pequenos círculos de confiança em Oaxaca, compostos em grande parte por parentes próximos. Mas os recursos ambientais mais escassos no norte de Gana tornaram a cooperação interétnica e círculos de confiança maiores mais importantes para a sobrevivência. Assim, “focar no tamanho do cérebro e nas limitações cognitivas pode ser simplista demais”, enfatiza Acedo Carmona.

O número de Dunbar pode ser mais aplicável a sociedades pré-modernas ou a grupos de renda média em sociedades ocidentais contemporâneas. As pesquisas que o apoiam tendem a se concentrar em sociedades "estranhas" (ocidentais, instruídas, industrializadas, ricas e democráticas).

Mas mesmo essas relações estão se tornando mais complicadas, devido à forma como a cultura da internet está transformando os relacionamentos.

 

Presença online

 

Uma versão moderna de uma reunião ao redor de uma fogueira em uma caverna é o Slack, o aplicativo que substitui o e-mail e que vem encantando profissionais de comunicação no ambiente de trabalho e exaurindo funcionários sobrecarregados desde 2013. E uma pessoa que tem aproveitado as possibilidades de construção de comunidade do Slack é a designer digital americana Carly Ayres.

Há alguns anos, Ayres criou um grupo no Slack para outros designers, o 100s Under 100. Atualmente, o grupo possui 84 ​​canais moderados por 14 administradores, que buscam diversificar sua composição, que inicialmente era formada por mulheres brancas americanas.

O número de Dunbar faz sentido intuitivamente para Ayres, considerando suas observações sobre comunidades online. "Eu realmente acho que há alguma verdade na ideia de que só conseguimos armazenar uma quantidade limitada de informações na nossa cabeça... tantos avatares. Quanto mais você sabe sobre alguém, melhor o relacionamento, mas isso provavelmente também limita o número de relacionamentos que você pode ter", diz ela.

Mesmo online, é mais fácil ter relacionamentos mais fortes quando se tem menos pessoas (Crédito: Emmanuel Lafont)Emmanuel Lafont
Mesmo online, é mais fácil ter relacionamentos mais fortes quando se tem menos pessoas (Crédito: Emmanuel Lafont)

O projeto 100s Under 100 busca um equilíbrio entre tamanho e intimidade, dividindo os canais em menores quando se tornam difíceis de gerenciar. Semelhante a "uma escola pública ou uma grande universidade, você a torna menor com subcomunidades", explica Ayres.

 

O grupo também elimina periodicamente os membros inativos – uma forma mais deliberada da maneira como todos deixam certos relacionamentos se desgastarem por falta de tempo ou energia para mantê-los.

 

Cada vez mais pessoas pregam a ideia de que, quando se trata de vida social online, o pequeno é melhor. A escala pode ser um dos problemas das enormes redes sociais que dominam nossas vidas atualmente. E para certos usuários do Facebook, quanto menores e mais secretos os grupos , melhor.

 

Até o momento, a pesquisa de Dunbar e seus colegas sobre relacionamentos online sugere que estes são semelhantes aos relacionamentos offline em termos de restrições numéricas. "Quando as pessoas observam a estrutura do mundo dos jogos online, elas encontram praticamente as mesmas camadas que encontramos em todos os outros contextos", diz ele. "E parece que são as mesmas características da mente humana que impõem restrições ao número de indivíduos com os quais você pode interagir mentalmente ao mesmo tempo."

 

Dunbar e seus colegas também realizaram pesquisas no Facebook, usando fatores como o número de grupos em comum e mensagens privadas enviadas para mapear o número de vínculos em relação à força desses vínculos.

 

Quando as pessoas têm mais de 150 amigos no Facebook ou 150 seguidores no Twitter, argumenta Dunbar, esses representam as camadas externas normais de contatos (ou as conexões de baixo risco ): os 500 e 1500. Para a maioria das pessoas, a intimidade pode simplesmente não ser possível além de 150 conexões. "Essas mídias digitais – e incluo os telefones nisso – são, na verdade, apenas mais um mecanismo para entrar em contato com amigos", diz Dunbar.

 

Emmanuel Lafont: Existe um equilíbrio entre a quantidade de conexões que você tem e a intimidade dessas conexões (Crédito: Emmanuel Lafont)Emmanuel Lafont
Existe um equilíbrio entre a quantidade de conexões que você tem e a intimidade dessas conexões (Crédito: Emmanuel Lafont)

Para Dunbar, mesmo a possibilidade de anonimato online não parece ser substancialmente diferente do mundo offline. Ele compara as interações anônimas na internet ao uso de confessionários na Igreja Católica. Não é uma relação direta, mas reconhece os benefícios da confidencialidade entre pessoas que se conhecem quase que desconhecidas.

 

“É extremamente difícil chorar no ombro de alguém virtual”, diz Dunbar, com um tom sério. “Ter uma conversa não é como um farol; não é simplesmente piscar lá fora e talvez alguém esteja ouvindo, e talvez não.”

 

Nessa perspectiva, a natureza não física e não em tempo real dos relacionamentos online significa que eles não podem competir de forma significativa com os relacionamentos do mundo real. Os relacionamentos presenciais, com toda a informação não verbal que é tão crucial para a comunicação, continuam sendo fundamentais.

 

Mas a própria pesquisa de Dunbar sugere diferenças geracionais nesse aspecto. Os jovens de 18 a 24 anos têm redes sociais online muito maiores do que aqueles com 55 anos ou mais. E a primazia do contato físico na hipótese do cérebro social pode se aplicar menos aos jovens que nunca conheceram a vida sem internet , para quem os relacionamentos digitais podem ser tão significativos quanto os analógicos.

 

Além disso, grupos online como o 100s Under 100 não são feitos para durar para sempre; Ayres inicialmente previu que o grupo se dissolveria em poucos anos. Sem a pressão pela longevidade, o tamanho ideal da comunidade pode ser menos relevante.

 

Faz sentido que haja um número finito de amigos que a maioria das pessoas pode ter. O que é menos claro é se essa capacidade está sendo expandida ou reduzida pelas formas em constante mudança como as pessoas interagem online.

 

 

Números invisíveis

Curioso para descobrir as forças ocultas que moldam o mundo? Nós também. Este artigo faz parte da nossa série Números Invisíveis , onde exploramos os dígitos, percentagens e equações que regem o nosso dia a dia de maneiras surpreendentes, muitas vezes sem que nos apercebamos disso.