sexta-feira, 20 de março de 2026

Bernardo Carvalho - Movimento invisível que nos arrasta é dança do progresso e do fascismo, FSP

 O grego Christos Papadopoulos, 44, estudou dança, teatro e ciência política. É o coreógrafo da hora. Criou "Mycelium" (micélio), em 2023, para o Balé da Ópera de Lyon. Assisti ao espetáculo durante a passagem da companhia por Nova York, em fevereiro.

"Mycelium" é uma coreografia "orgânica", inspirada nos micromovimentos da estrutura subterrânea dos fungos e suas ramificações pulsantes, em comunicação eletromagnética. São variações mínimas executadas por 20 dançarinos que evoluem, em rede, na penumbra, num fluxo de impulsos e interações milimétricas e repetitivas, como um corpo único e coletivo que se expande e se retrai ao som da música hipnótica do compositor e produtor musical Coti K. "É menos repetição do que evolução constante", diz o coreógrafo.

Imagem mostra uma rede complexa de veias ou vasos sanguíneos iluminados em tons de vermelho e roxo sobre fundo preto, destacando ramificações finas e interconectadas.
Imagem microscópica de rede de fungos - Loreto Oyarte Galvez/Vrije Universiteit Amsterdam/AFP

Faz pensar na personagem de "Sirât", de Oliver Laxe, que não vê repetição na música eletrônica que ela dança até a morte em festas no deserto.

É assustador como, diante da emergência dos fascismos, a reação contra o que é individual e singular, o que não se submete ao grupo, tende a ser imediata e consensual, muitas vezes disfarçada de crítica ao individualismo. É condição de possibilidade do florescimento dos fascismos que também a crítica seja desbaratada, despojada do que nela haveria de próprio, individual e exterior ao grupo.

A crítica depende da distância, de um ponto de vista exterior. O estranho e o estrangeiro são os primeiros bodes expiatórios desse movimento que parece exaltar as individualidades quando no fundo apenas as submete a uma necessidade coletiva, uniforme e unidirecional.

Avesso a todo nacionalismo (o que o levou naturalmente a também pôr o sionismo em questão), por entender que mais cedo ou mais tarde, para sobreviver, o grupo vai aderir às formas mais violentas de poder, Walter Benjamin via no fascismo um movimento intimamente ligado à ideia de progresso. Para ele, o fascismo só poderia ser combatido quando (e se) a ideia de progresso fosse abandonada.

A ideia de progresso faz que nos surpreendamos a cada nova aparição do fascismo, como se fosse a primeira vez que nos deparássemos com ele, paralisados diante de algo novo e inédito. O progresso é a ilusão de que o passado não se repetirá.

Se as redes sociais podem servir como armadilha e método dessa ilusão, é porque nelas o narcisismo é estimulado até as últimas consequências, como regra, até converter o individual no oposto do singular, modelo de reprodução em massa. A internet nos faz crer que nos distinguimos enquanto nos entregamos todos à mesma dependência e exposição.

Papadopoulos se refere à imagem de um trem para explicar sua coreografia, criação de uma "entidade em movimento, [...] em constante evolução, [...] mais vibração do que dança". Os passageiros num trem mantêm-se em princípio em relativa independência, com seus movimentos individuais, seus pensamentos e vontades próprios, mas "ninguém pode ir contra o andamento coletivo, ninguém pode estar fora do ritmo. [...] Como no fluxo dos pássaros ou dos peixes, há uma necessidade nesse movimento".

Os fungos têm servido com frequência de modelo na defesa e exaltação de uma outra forma de inteligência, coletiva e integrada, alternativa à razão individualista e à organização social autodestrutiva dos homens.

Se, por um lado, essa inspiração positiva se reflete na escolha e na consciência do coreógrafo, por outro, o resultado de sua dança é uma representação sufocante. E se há nela uma atualidade e uma urgência espetaculares, não é por nos mostrar uma saída, mas antes porque representa justamente o movimento invisível e imparável que nos arrasta à revelia para onde não queremos ir.

É a dança do progresso, mas também do fascismo. Essa "evolução infinita" na qual de repente nos vemos enredados e cuja interrupção já não depende nem da razão nem da nossa consciência individual.

'Vladimir', na Netflix, cutuca um vespeiro feminista com humor, FSP

 O quanto a existência de uma relação de poder —financeiro, político, físico, intelectual— é determinante para configurar uma dinâmica de assédio entre adultos, mesmo com aparente consenso entre as partes? E o quanto o exercício desse poder com fins sexuais é uma particularidade masculina?

É esse o vespeiro chacoalhado em "Vladimir", minissérie que estreou neste mês na Netflix e provoca o espectador para rever ideias prontas. O título é uma referência óbvia ao autor de "Lolita", Vladimir Nabokov, embora aqui não se fale de menores de idade.

A protagonista-narradora é uma professora universitária e escritora de 54 anos, apresentada apenas como M., que se torna obcecada por um colega mais jovem no mesmo momento em que o marido é acusado de assediar alunas. E é dela que estudantes e colegas exigem resposta.

Não se trata de um conto moral, mas de um registro dos nossos tempos. Baseado em um romance lançado em 2022 por Julia May Jonas, o roteiro vertido para a TV por ela mesma é permeado por discussões atuais sobre cancelamento, sexualidade e consentimento. Mas do (raro) ponto de vista de uma mulher que cresceu nos anos 1970 e pensava ter atingido o ápice da liberação sexual até trombar com a geração Z, aquela que diz ter inventado o poliamor.

Rachel Weisz ("O Jardineiro Fiel"), num incomum papel cômico, é M., que contabiliza uma carreira acadêmica respeitável, livros de sucesso com a crítica e com o público, um casamento aberto e sólido com um colega de ofício e uma filha adulta encaminhada. Ah, sim, ela também é bonita.

Ainda assim, por vezes essa mulher que parece um holograma aspiracional nos sai pela tela como uma criatura odienta, cínica e narcisista, que nos força a perguntar: a sensação seria a mesma se o personagem fosse homem? (Spoiler: o marido da protagonista, uma versão de cuecas dela própria vivida por John Slattery, de "Mad Men", é apresentado como um sujeito simpático e agradável.)

Afinal, como ela pode compactuar com o cônjuge predador? Saber que ele saía com alunas de graduação e não ver problema? Mesmo quando as alunas começam a se queixar que, em seus 20 e poucos anos, eram ingênuas e se deixaram atrair pelo professor experiente, que sempre oferecia um elogio certeiro sobre seus escritos, ambições, planos de carreira?

É quando M. está nesse estado de suspensão que surge Vladimir (Leo Woodall, de "The White Lotus" e "Um Dia"), professor e best-seller aos 30 e poucos, com mulher e uma filha pequena. E as fantasias eróticas começam a engolir a vida da narradora, sempre nariz a nariz com o medo de transformar suas lucubrações sexuais em um caso de fato.

Narrada com sarcasmo, a série exaure o recurso da quarta parede —M. fala com o espectador o tempo todo, lembrando o Francis Underwood de Kevin Spacey em "House of Cards" (talvez não por acaso). Nos piores momentos, cansa; nos melhores, instiga aquela fatia mais experimentada e cínica do público a empatizar com a protagonista imperfeita.

A sacada está em retratar os homens como sujeitos passivos e M. como a responsável pelas situações,
obrigando-nos a refletir sobre desejo, agência, consentimento, arbítrio e outras palavras bem em voga.

'Vladimir'

  • Onde Netflix
  • Autoria Julia May Jonas (autora do livro homônimo) e Jeanie Bergen
  • Elenco Rachel Weisz, John Slattery, Leo Woodall, Jessica Henwick, Ellen Robertson e Matt Walsh
  • Direção Shari Springer Berman e Robert Pulcin
  • Gênero Comédia
  • Duração Oito episódios de 30 minutos (minissérie)

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quinta-feira, 19 de março de 2026

Lidando com o choque do petróleo, Braulio Borges - FSP

As tensões no Oriente Médio prosseguem e, com isso, o preço do petróleo tipo Brent subiu ainda mais nos últimos dias, aproximando-se de US$ 110. Ou seja, trata-se de uma alta de quase 60% ante o patamar de cerca de US$ 70 que estava vigorando antes desse conflito regional. As negociações realizadas nos mercados futuros de petróleo apontam que os preços somente deverão cair para menos de US$ 100 em julho, aproximando-se dos US$ 80 no fim de 2026 e dos US$ 70 no final de 2027.

Embora seja bastante difícil antecipar os desdobramentos desse conflito, os mercados futuros parecem precificar uma dinâmica bastante semelhante àquela que efetivamente ocorreu em 2022, logo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Naquele episódio, a alta inicial do preço dessa commodity foi da ordem de 50%, permanecendo acima dos US$ 100 por cerca de seis meses, recuando para um valor semelhante ao observado antes da guerra aproximadamente um ano depois (a despeito de o conflito entre os dois países europeus continuar até hoje).

Portanto, na visão do "mercado", estamos diante de um choque de oferta desfavorável expressivo, com um grau de persistência relativamente alto, mas ainda assim temporário. Essa é uma informação crucial para orientar a reação da política econômica.

Homem com roupa branca tradicional e gorro branco desfocado em primeiro plano à esquerda, com navio cargueiro laranja ancorado em corpo d'água ao fundo sob céu claro.
Petroleiro ancorado na entrada do Estreito de Hormuz - Benoit Tessier - 18.mar.26/Reuters

No caso brasileiro, já observamos algumas reações por parte do governo federal, que reduziu impostos sobre combustíveis em caráter temporário, compensando essa perda de receita com a majoração, também temporária, do imposto sobre exportação de petróleo. Discute-se agora a possibilidade de redução do ICMS pelos estados, que seriam compensados pela União pela perda de receita associada a isso.

A mudança estrutural ocorrida no Brasil nos últimos dez anos, detalhada na minha coluna anterior, cria maior margem de manobra para lidar com esse choque, já que altas dos preços internacionais dessa commodity elevam nosso saldo comercial e, também, a arrecadação fiscal.

Há também outras possibilidades, que podem não somente amenizar o impacto inflacionário mas também ajudar a lidar com o risco de déficit de suprimento, sobretudo de derivados (somos superavitários em petróleo bruto, mas importadores líquidos de diesel e fertilizantes).

O Brasil vem aumentando a incorporação de biodiesel feito a partir de óleos vegetais e gorduras animais (o chamado B100) ao diesel fóssil nos últimos anos. Hoje, já estamos com uma mistura com 15% de biodiesel e 85% de diesel fóssil, gerando o B15 vendido nas bombas. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, estabeleceu que poderemos chegar ao B25 em meados da próxima década.

Embora novos aumentos dessa mistura de biodiesel estejam condicionados a estudos de viabilidade técnica, diversos testes já apontaram que, com poucas modificações, caminhões e ônibus com motores de ciclo diesel mais modernos (produzidos a partir de 2012) podem rodar com o B100. O principal ponto de atenção é a estocagem do biodiesel, que, se não for adequada, pode impactar negativamente os motores.

Também deverão entrar em breve no mercado os motores com sistemas flex diesel/etanol, reduzindo a dependência de diesel, bem como as emissões de gases de efeito estufa. O aumento da oferta doméstica de biometano, produzido a partir de diversos tipos de resíduos, também poderá substituir gradativamente o uso do diesel fóssil nos transportes e reduzir as emissões (a Lei do Combustível do Futuro também definiu mandatos crescentes de uso desse combustível).

Nossa maior vulnerabilidade está nos fertilizantes, particularmente nos nitrogenados —que são produzidos a partir do gás natural fóssil. O Brasil importa cerca de 90% do consumo doméstico. O uso do biometano como insumo pode ser uma alternativa, mas não imediatamente, uma vez que são poucas as unidades produtoras desses fertilizantes em nosso país.