quarta-feira, 18 de março de 2026

Agnotologia: ignorar essa palavra nunca mais, Sergio Rodrigues, FSP

 Por décadas, entre os anos 50 e os 90 do século passado, a indústria do cigarro soube que seu produto era uma catástrofe para a saúde pública, mas trabalhou para semear a dúvida. Comprou pesquisas científicas e artigos jornalísticos. Ganhou tempo.

Com isso, provocou conscientemente a morte de um número de pessoas que se conta em dezenas de milhões, na mesma prateleira numérica da Segunda Guerra. Motivação? Bilhões de dinheiros –que, como se sabe, costumam falar mais alto que milhões de vidas.

A atriz Bette Davis em cena de filme em meados do século 20 - Reprodução

Foi a turma cigarrífera que levou um historiador da ciência da Universidade Stanford, Robert Proctor, a cunhar nos anos 90 a palavra "agnotology", dicionarizada no Brasil como agnotologia.

Parente do agnóstico —com quem compartilha o elemento grego "agn-", relativo a ignorância—, agnotologia nomeia o estudo da ignorância pública fabricada, intencional, monetizada.

Anúncio publicitário retrô com fundo rosa, mostrando um bebê de olhos grandes e expressão surpresa no centro. Balão de fala do bebê diz: 'Gee, Mommy you sure enjoy your Marlboro'. Abaixo, texto em inglês destaca que não é necessário sentir-se excessivamente fumante, chamando isso de 'Milagre do Marlboro'. No canto inferior esquerdo, mulher sorridente segura um cigarro. À direita, maço aberto de cigarros Marlboro com detalhes em preto e branco e assinatura manuscrita. Rodapé menciona opções de pontas de cigarro: Ivory Tips, Plain Ends e Beauty Tips (Red).
Propaganda de cigarro dos anos 1950 - Divulgação

A indústria da inteligência artificial segue hoje o manual que sua prima corporativa mais velha e fedorenta criou. Cultiva a incerteza e nela se escuda para tocar seu negócio pisando no acelerador, embora saiba que o produto que vende é nocivo para os viciados, digo, usuários.

Como a complexidade real da IA é bem maior que a de um canudo de fumo picado, basta um modo levemente enviesado de contar a história para que fugir da responsabilização seja mais fácil para as big techs do que era para o pessoal da terra de Marlboro.

Se você acha que a comparação de IA com cigarro é muito forte, eu concordo. Mais forte é saber que saiu da boca de Alondra Nelson, ex-diretora de política científica da Casa Branca de Joe Biden.

Também consultora da ONU para assuntos de IA, Nelson atualizou o neologismo de Proctor e lançou há três semanas numa conferência em Paris –reportada pela podcaster norte-americana Shae Omonijo– o conceito de "agnotologia algorítmica".

Que me lembre, eu nunca tinha esbarrado na palavra agnotologia, mas desde que fomos apresentados não a tiro da cabeça. Como é possível que, existindo há três décadas, uma ideia tão luminosa ainda seja obscura, distante demais do estrelato político, acadêmico e midiático que merece?

A agnotologia pôs em foco o que, o tempo todo, dançava borrado diante do meu nariz: que a ignorância fabricada é uma das fibras mais resistentes do tecido social contemporâneo, do negacionismo climático à usina de desinformação política das mídias sociais.

Com o advento da internet e sobretudo das redes, o trabalho dos fabricantes de ignorância pública ficou bastante facilitado, enquanto o dos agnotólogos se complicou ao infinito.

Nunca foi tão fácil confundir, criar incerteza, fugir de regulações, pôr abaixo estruturas psicossociais construídas ao longo de séculos, transformando toda a população da Terra em cobaia de artefatos tecnológicos que são propriedade de meia dúzia de pessoas.

Se o estudo da ignorância fabricada aponta para o futuro, vale lembrar que não é uma invenção recente. Ao dizer que "a crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto", Darcy Ribeiro foi um genial precursor da agnotologia.

TCU suspende R$ 2,6 bi de aportes do governo federal para o túnel Santos-Guarujá, FSP

 Alex Sabino

São Paulo

Em decisão unânime, o TCU (Tribunal de Contas da União) suspendeu o repasse de R$ 2,6 bilhões em recursos federais para a construção do túnel imerso entre Santos e Guarujá, no litoral paulista.

O acórdão proíbe a APS (Autoridade Portuária de Santos) de disponibilizar qualquer dinheiro para o projeto até nova deliberação da corte.

Grupo de dez pessoas em evento formal, com homem ao centro levantando um martelo sobre um pedestal azul com o logo [B]³. Fundo exibe tela com texto técnico sobre projeto de túnel submarino.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), bate o martelo na B3 após o leilão para a construção do túnel - Rafaela Araújo-5.set.25/Folhapress

O processo tem a relatoria do ministro Bruno Dantas. A decisão determina que a APS apresente, em 30 dias, instrumento formal de governança do aporte federal. O documento deverá ser assinado ao menos pelo governo paulista e pela própria autoridade portuária. Também foi prorrogado por 30 dias acórdão anterior que já havia estabelecido exigências semelhantes à APS e à Antaq (Agência Nacional de Transportes).

Em documento de fevereiro, Dantas já havia requerido ao governo de São Paulo e à Artesp (Agência de Transporte do Estado de São Paulo) o aditamento do "contrato de concessão patrocinada para a inclusão formal da Autoridade Portuária como interveniente-anuente. Solicita que lhe seja assegurado o acesso prévio à minuta do termo aditivo para análise formal e, subsidiariamente, caso este Tribunal entenda desnecessário o aditamento, que emita manifestação expressa conferindo segurança jurídica para a operacionalização dos repasses nos moldes atuais."

A reclamação da APS ao TCU era que, embora seja responsável por metade dos R$ 5,14 bilhões de aportes públicos para a obra, não havia sido informada quanto aos termos do contrato já assinado pelo governo de São Paulo e a concessionária, a portuguesa Mota-Engil.

O túnel imerso entre Santos e Guarujá é a principal obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo Lula. A responsabilidade pela obra ficou com o governo de São Paulo.


Liquidante do Master precisa correr para impedir que dinheiro roubado vire pó, Adriana Fernandes, FSP

 

As tentativas em curso de desvios bilionários do patrimônio do Master para fundos e bens de luxo de Daniel Vorcaro não têm recebido a atenção e a velocidade necessárias para impedir que o dinheiro roubado no esquema piramidal de fraudes do banco desapareça ou vire pó.

Enquanto as investigações avançam para mostrar o envolvimento de políticos e autoridades na teia de Vorcaro, não se vê a mesma agilidade para a recuperação dos bens dos envolvidos que estavam em nomes de laranjas e já teriam sido identificados nos cruzamentos de informações dos fundos usados no esquema.

Diagrama mostra Daniel Vorcaro no centro, identificado como dono do Master, com linhas conectando-o a sete pessoas: Fabiano Zettel, Ana Claudia Queiroz de Paiva, Paulo Sérgio Neves de Souza, Belline Santana, Leonardo Augusto Furtado Palhares, Marilson Roseno da Silva e Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, este último apelidado de 'Sicário'
'A Turma' de Daniel Vorcaro, segundo a Polícia Federal - Adriana Mattos e Tatiana Harada - 04.mar.2026/Folhapress

Há um jogo de empurra sobre as responsabilidades. Mas é evidente que o processo comandado pelo liquidante do conglomerado Master precisa ganhar maior robustez, agilidade e também transparência. A forma para isso acontecer cabe aos envolvidos, assim como entregar as soluções.

Um avanço importante foi a decisão 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, que concedeu nesta semana liminar de urgência para evitar a alienação de bens relacionados ao Master e a Vorcaro.

O juiz Adler Batista Oliveira Nobre reconheceu a existência de indícios de desvios. Bingo! A decisão foi uma resposta aos pedidos da EFB Regimes Especiais, liquidante do Master, que identificou a existência de uma série de esquemas de desvio de recursos por meio de fundos de investimento e laranjas. É pouco.

Outras medidas desse tipo são urgentes. Vorcaro tinha uma miríade de investimentos camuflados nas profundezas das inúmeras camadas dos fundos, que passaram ao largo da fiscalização da CVM.
Mesmo com o banqueiro na cadeia, há suspeitas de que obras de arte e imóveis relacionados a ele estejam movimentando o mercado. Vorcaro e comparsas patrocinaram a maior fraude bancária da história do país. Quiçá do mundo.

É preciso correr para recuperar os bens no Brasil e no exterior para ajudar na resposta da principal pergunta que está sendo esquecida com tanta informação sobre o caso: onde foram parar os mais de R$ 60 bilhões desviados do Master?