terça-feira, 17 de março de 2026

Mulheres na Ciência: pesquisadora transforma resíduos em biocombustíveis e soluções sustentáveis para a agricultura – Tribuna de Jundiaí

 Para encerrar o mês de fevereiro e celebrar o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência, comemorado em 11 de fevereiro, o Tribuna de Jundiaí entrevistou a pesquisadora Fabíola Oliveira, profissional que une ciência, sustentabilidade e inovação no desenvolvimento de soluções biológicas para a agricultura.

Formada em Engenharia Biotecnológica pela UNESP Assis (Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”), Fabíola é mestre em Engenharia Química pela UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), com parte do mestrado realizado na UAB (Universitat Autònoma de Barcelona). Atualmente, atua como pesquisadora na startup Ikove Agro Bioinsumos Agrícolas Ltda., desenvolvendo novos fertilizantes e defensivos à base de microrganismos, com foco em tornar a agricultura mais produtiva e sustentável.

Com quatro anos de atuação em pesquisa e desenvolvimento, ela também é inventora de duas patentes depositadas no INPI: uma relacionada ao desenvolvimento de um novo processo de produção de flavonoides por fungos filamentosos e outra referente a um novo equipamento para fermentação em estado sólido.

O início na ciência: curiosidade desde a infância

O interesse pela ciência surgiu cedo. Segundo Fabíola, tudo começou ainda na infância quando assistia a desenhos e programas com experimentos e se imaginava em um laboratório, “descobrindo coisas novas e entendendo melhor como o mundo funciona”. Apesar de, naquela época, enxergar esse universo como algo distante — especialmente por não conhecer ninguém que trabalhasse com pesquisa —, a curiosidade sempre falou mais alto.

No ensino médio, ela ainda tinha dúvidas sobre qual curso seguir, mas já sabia que queria uma área ligada a experimentos, biologia ou química. A primeira experiência em laboratório, já na faculdade, foi decisiva.

“Foi um momento muito marcante, porque senti que estava finalmente vivendo algo que despertava meu interesse desde criança”.

Hoje, ela reconhece que essa curiosidade foi o fio condutor de toda a sua trajetória até a escolha pela pesquisa científica como profissão.

Projetos voltados à sustentabilidade e inovação

Ao longo da trajetória acadêmica e profissional, Fabíola concentrou seus projetos na sustentabilidade e no reaproveitamento de resíduos, buscando transformar passivos ambientais em soluções de valor para a sociedade.

“Sempre trabalhei com projetos voltados à sustentabilidade, principalmente com o objetivo de transformar resíduos em produtos úteis. Na graduação, comecei pesquisando a produção de biocombustíveis a partir de restos de alimentos e resíduos urbanos, mostrando que aquilo que seria descartado pode se tornar fonte de energia, como etanol e biodiesel”.

Depois dessa etapa, ela direcionou a carreira para a agricultura sustentável, com foco no desenvolvimento de bioinsumos capazes de reduzir o uso de fertilizantes e defensivos químicos.

Durante o mestrado, produziu soluções agrícolas a partir de fungos cultivados em resíduos agroindustriais e, em estágio internacional, ampliou essa abordagem ao estudar o aproveitamento de resíduos como borra de café e de cerveja.

“Atualmente, continuo nessa linha de pesquisa, desenvolvendo soluções biológicas para o controle de pragas na pecuária, como o carrapato bovino, buscando alternativas mais seguras e sustentáveis em comparação aos produtos químicos tradicionais”.

Entre os principais destaques da carreira estão o desenvolvimento de biocombustíveis a partir de resíduos urbanos e a pesquisa em bioinsumos agrícolas, área estratégica para tornar a produção de alimentos mais sustentável.

Cientista apresenta amostras em pesquisa sustentável (Foto: Arquivo pessoal/Fabíola Oliveira)

Projetos marcantes e reconhecimento internacional

Algumas experiências marcaram de forma decisiva a trajetória da pesquisadora, seja pelo impacto ambiental, pelos desafios superados ou pelas conquistas alcançadas ao longo do caminho.

“Alguns projetos foram especialmente marcantes para mim, tanto pelo impacto quanto pelos desafios e conquistas que proporcionaram. Um deles foi o projeto de produção de etanol a partir de resíduos urbanos. Nesse trabalho, conseguimos demonstrar que grandes quantidades de resíduos que são descartados diariamente poderiam ser reaproveitadas para produzir biocombustível. Isso mostra o potencial de transformar um problema ambiental em uma solução sustentável, com benefícios tanto para o meio ambiente quanto para a sociedade, especialmente se aplicado em larga escala”.

Outro momento determinante foi a experiência internacional durante parte do mestrado, na Espanha. Ela destaca que a vivência fora do país representou não apenas crescimento pessoal, mas também reconhecimento acadêmico, já que participou de um processo seletivo competitivo e teve o projeto financiado pela FAPESP.

“Destaco o projeto em que trabalhei com o desenvolvimento de processos produtivos utilizando fungos, que resultou na criação de um novo tipo de biorreator. Esse trabalho levou ao depósito da minha primeira patente, o que foi um marco muito significativo na minha carreira, pois representa a transformação do conhecimento científico em uma inovação com potencial de aplicação prática”.

O depósito da primeira patente no INPI simboliza a consolidação de uma trajetória que une ciência aplicada, sustentabilidade e inovação tecnológica.

A importância de incentivar meninas na ciência

Para Fabíola, ampliar a presença feminina na ciência é essencial para transformar realidades e abrir caminhos para as próximas gerações.

“Incentivar meninas e jovens mulheres a seguirem carreira na ciência é extremamente importante, porque a representatividade faz muita diferença. Quando eu olho para trás, percebo que não tive muitas referências próximas, e ter exemplos de mulheres na ciência poderia ter tornado esse caminho mais claro e até mais possível aos meus olhos”.

Ela ressalta que, hoje, reconhece a força de pesquisadoras que se tornaram inspiração e reforçam que as mulheres pertencem a esse espaço. Ao falar diretamente às meninas que sonham em seguir essa trajetória, deixa um conselho claro:

“Para as meninas que sonham em seguir esse caminho, minha principal mensagem é: sejam curiosas e não tenham medo de fazer perguntas. A curiosidade é o ponto de partida da ciência. Busquem aprender, ler, explorar e, principalmente, acreditem que vocês são capazes. O caminho exige dedicação, mas é extremamente gratificante”.

A própria trajetória da pesquisadora evidencia como curiosidade, dedicação e acesso à educação podem transformar sonhos em conquistas concretas no universo científico.

Há necessidade de térmicas a carvão?, Jerson Kelman, FSP

 

Tenho abordado nesta coluna as atuais mazelas do setor elétrico decorrentes de subsídios que há muito deveriam ter sido extintos. Não o foram porque o Congresso Nacional tem se empenhado em aprovar leis que, além de bagunçar o setor, privatizam benefícios e socializam custos.

Entre as mazelas, há o risco de apagões, tanto por excesso quanto por falta de geração de energia, dependendo da hora do dia. O sistema elétrico pode colapsar quando o Sol está a pino (muita geração solar) e o consumo é reduzido, principalmente aos domingos e feriados. Também pode colapsar no início da noite, quando não há geração solar e o consumo é elevado.

Usina industrial com estruturas metálicas iluminadas em amarelo durante a noite. Cinco torres de resfriamento emite fumaça branca visível contra o céu escuro. Vegetação densa aparece em primeiro plano.
Usina termelétrica presidente Médici Candiota 3, em Candiota, no Rio Grande do Sul - Danilo Verpa/7.dez.21/Folhapress

Para resolver esse segundo problema, o governo organizou o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP). A ideia é pagar anuidades às usinas que se comprometerem a gerar energia nos horários de maior consumo, sempre que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) assim determinar.

Como eletricamente não faz diferença qual fonte energética seja utilizada para atender à ordem do ONS, os vencedores do leilão deveriam ser as usinas que aceitassem as menores anuidades. Porém, não será assim. O leilão foi organizado de tal forma que impede a competição entre hidrelétricas e termelétricas e define requisitos elásticos de habilitação, dependendo do tipo de usina. Aparentemente para "atender a todos", como se fosse uma competição entre cães de diferentes raças.

Até as usinas a carvão, que levam um tempo considerável para atingir a plena potência e para esfriar, poderão se sagrar vencedoras. São usinas sem flexibilidade operativa, vocacionadas para "operar na base", não para atender a ponta de consumo. Além de serem campeãs na emissão de gases de efeito estufa.

Historicamente, as usinas a carvão têm sido necessárias durante as secas, quando a produção das hidrelétricas diminui, para atendimento da média, não da ponta do consumo. No jargão do setor, para solução de um problema energético, não de potência. Foram também acionadas em outros períodos por razões políticas. Em 2025, receberam cerca de R$ 1 bilhão de subsídios da CDE (Conta de Desenvolvimento Energético). Com o crescimento vertiginoso da geração renovável intermitente, será que as térmicas a carvão ainda serão necessárias no futuro? Creio que não.

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Carvão que abastece a termelétrica em Candiota, no Rio Grande do Sul - Danilo Verpa - 13.dez.21/Folhapress

Para resolver um problema, é preciso enunciá-lo corretamente: a contratação das usinas térmicas a carvão não visa solucionar um gargalo energético ou garantir a segurança do fornecimento. Trata-se, isso sim, de um subsídio disfarçado de política energética. O governo está, na prática, utilizando a conta de luz de todos os brasileiros para subsidiar algumas comunidades em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul.

Embora a preocupação com o sustento dessas populações seja legítima e necessária, é um erro utilizar o setor elétrico para camuflar esse custo. A solução não deveria passar por contratos de longo prazo (dez anos) para continuar queimando carvão a preços significativamente não competitivos, ignorando os efeitos sobre as mudanças climáticas.

Se a questão é social, a solução deveria ser custeada pelo Orçamento da União, com transparência, não pela tarifa de energia elétrica.

É preciso encarar o problema social com políticas sociais. E deixar o setor elétrico ser eficiente.

Documentários incorporam câmeras amadoras na era em que todos filmam suas crises, FSP

  

São Paulo

Não era a primeira vez que Pavel Talankin, organizador de eventos numa escola russa, filmava estudantes. Com uma Sony A6300, câmera portátil e de fácil operação, ele costumava registrar gincanas, atividades de culinária e outras descontrações. Naquele dia, porém, foi obrigado a gravar um exercício militar com armas, envolvendo crianças.

Revoltado, ele firmou uma parceria online com o cineasta David Borenstein, e o aparelho amador virou disfarce para Talankin, que buscava denunciar a propaganda do governo russo. "Imagens são uma forma de controle, e o excesso delas, hoje, tem sido menos usado para convencimento e mais para nos desgastar", diz Borenstein, que criou um roteiro para ordenar os materiais de "Um Zé Ninguém Contra Putin", que chega ao Brasil pela Filmelier+ no próximo dia 26, e disputa o Oscar junto de Talankin.

"Por um lado, a onipresença das imagens virou parte da mídia e instrumento de ideologias modernas. Por outro, essa onipresença pode ser subvertida", afirma ainda. "Sou um pouco cético em relação à tecnologia, mas a noção sobre filmagens e câmeras se dispersou e parece que todos podem ser parte de uma história e ter algum poder em mãos."

Pavel Talankin em cena de 'Mr. Nobody Against Putin', documentário de David Borenstein indicado ao Oscar
Pavel Talankin em cena de 'Mr. Nobody Against Putin', documentário de David Borenstein indicado ao Oscar - Divulgação

O documentário não é o único da lista atual da Academia que utilizou câmeras amadoras. No subúrbio americano, tensões num bairro de classe média são retratadas por câmeras corporais da polícia. Reunidas pela documentarista Geeta Gandbhir, as gravações de "A Vizinha Perfeita" recapitulam a execução de uma mãe negra, baleada por uma mulher branca que implicava com crianças da região e foi presa em 2023.

Produzido pela Netflix, o filme é um dos favoritos ao troféu de melhor documentário e pode ser encontrado na busca por "true crime". Baseado em crimes reais, o termo designa títulos de não-ficção e vem ampliando sua popularidade via podcasts, séries e longas voltados ao cotidiano de responsáveis por atos terríveis.

Atualmente, o termo também tem gerado polêmica por ser aplicado a produções que ficcionalizam a história de criminosos reais, como Jeffrey Dahmer e os irmãos Erik e Lyle Menendez. Para Luis Felipe Labaki, pesquisador e curador do festival documental É Tudo Verdade, "A Vizinha Perfeita" mobiliza o rótulo "true crime" como estratégia de atração para um público fascinado pelo gênero, mas, ao mesmo tempo, desmonta os recursos narrativos que costumam transformar esses casos em espetáculo.

Saem de cena reconstituições criminais e depoimentos de especialistas, que costumam antecipar eventos e esclarecer jargões criminais. Em entrevista ao The Washington Post, Gandbhir disse ter priorizado a imersão e a capacidade do público de formular opiniões próprias.

Na tela, as imagens granuladas das câmeras registram os ambientes em 360 graus. A diretora preserva a longa duração desses registros e, no início, mostra policiais acionados por denúncias da mulher defendendo as crianças do bairro. Após o assassinato, porém, os agentes evitam questionar as aparências sugeridas pelo título.

No caso desse documentário, a verificação dos arquivos criminais foi assegurada pela lei de acesso à informação, mas acusações contra policiais, que supostamente desligam suas câmeras em operações irregulares, geram dúvidas sobre a credibilidade dessa fonte material.

Mesmo assim, Labaki diz acreditar que o recurso será cada vez mais utilizado. Ele cita produções como "Incident", curta vencedor do Oscar que alterna câmeras de rua com câmeras corporais ao denunciar a morte de um homem negro, e o brasileiro "Auto de Resistência", vencedor do É Tudo Verdade de 2018. Na obra, a ferramenta é usada para documentar a violência policial sistemática contra civis.

Entre as grades de uma prisão, "Alabama: Presos do Sistema", também indicado ao Oscar, segue detentos que usam celulares contrabandeados para protestar contra condições precárias. Dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, o projeto mistura noticiários, gravações profissionais e transmissões móveis, com imagens de baixa definição captadas numa unidade de contenção.

Disponível no HBO Max, a obra nasceu do encontro entre o Free Alabama Movement, grupo que expõe agressões frequentes e a má preservação de celas num canal de YouTube, e a dupla de diretores. Em 2003, aliás, Jarecki conquistou o Oscar com "Na Captura dos Friedmans", longa que junta vídeos caseiros de uma família e narra a condenação de pai e filho por armazenamento de pornografia infantil.

O longa mostra uma época em que captações migravam da película —comum a documentaristas como Jonas Mekas, expoente do cinema vanguardista americano— para filmadoras portáteis. Com o tempo, inclusive, esses equipamentos trouxeram novos ângulos de filmagem e possibilitaram gravações em espaços apertados.

"Hoje, numa época em que todos filmam com seus iPhones, as imagens têm se tornado extremamente baratas", afirma Borenstein. Ele sugere que cineastas como o alemão Michal Kosakowski, destaque dos anos 2000 com visuais inventivos, podem ter perdido impacto em meio ao turbilhão de estímulos digitais.

Mas a internet também auxilia trabalhos como os de Kosakowski, reunidos num site próprio em que podem ser alugados ou vistos gratuitamente. Seus temas sensíveis, que embaralham realidade e ficção ao explorar traumas de guerra, dificultam a circulação pelo mainstream. A situação é parecida com a de "Sem Chão", documentário sobre tensões entre Israel e a população palestina que penou para conseguir distribuidores mesmo depois de vencer o Oscar.

O longa despertou debates ao redor do mundo e ganhou fôlego com a criação de um portal, em que é possível fazer doações para a comunidade representada e organizar exibições beneficentes.

"Conforme câmeras compactas e lentes versáteis se reproduziram, os documentários buscaram se tornar mais cinematográficos", adiciona Borenstein, que noutras produções explorou a relação entre a internet e os usuários. "Aquele foi um tempo de muita experimentação, e a impressão que fica agora é a de estarmos aguardando uma nova revolução."

Essas transformações contribuíram para outros documentários de guerra —como "20 Dias em Mariupol", que vê a invasão à Ucrânia pela visão de jornalistas—, mas também contemplam crises pessoais e mesmo produções hollywoodianas. Exemplo disso são os diários pandêmicos que tomaram as redes e nomes como Luc Besson e Charlie Kaufman, que subverteram burocracias da quarentena e de grandes estúdios via aparelhos móveis.

Longe de ser uma necessidade recente —Labaki descreve experimentos dos anos 1920, quando filmes científicos exigiam gravações submersas, por exemplo— a praticidade oferecida por celulares não só alimenta bancos de arquivos e perfis de conteúdo, como também alinha visões de mundo.

"Esses três indicados ao Oscar partem de cineastas que incorporaram imagens produzidas por terceiros", diz. "Em 'Presos do Sistema', por exemplo, os diretores ampliaram o alcance de imagens que já faziam parte daquela rotina." Ele compara o filme de Jarecki e Kaufman com "O Prisioneiro da Grade de Ferro", documentário de Paulo Sacramento, de 2003, em que detentos do Carandiru aprendem a filmar sua rotina.

"Essas pessoas não capturavam imagens para emular o documentário de cinema, mas para melhorar a realidade delas e de muitos outros. Já eram documentaristas da sua própria realidade."