domingo, 12 de abril de 2026

Vorcaro é um fenômeno antropológico, Elio Gaspari, FSP

Entre propinas, festas, milicianos, consultorias e honorários, em três anos, Daniel Vorcaro aspergiu, numa conta de padaria, mais de R$ 1 bilhão.

Contratou serviços de um ex-presidente (Michel Temer, com R$ 10 milhões), dois ex-ministros (Ricardo Lewandowski, do STF, com pelo menos R$ 6,1 milhões e Guido Mantega, da Fazenda, com R$ 14 milhões.) Nessa constelação de notáveis brilha o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes (R$ 80 milhões). Em quatro anos o Master gastou mais de R$ 500 milhões com advogados de 91 bancas.

A milícia privada de Vorcaro custou-lhe R$ 68,66 milhões em 2023. Nas asas de suas empresas voaram pelo menos três ministros do Supremo: Alexandre de Moraes, marido da doutora Viviane, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Este, como relator do Caso Master, quis impor sigilo ao processo e tentou blindar a investigação.

Homem de barba e cabelo escuro veste terno azul e gravata clara, falando ao microfone azul em ambiente interno com iluminação azul e público ao fundo.
O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em vídeo do grupo Lide, durante evento em São Paulo em 2024 - Reprodução TV Lide no YouTube

O escândalo do Banco Master tomou lugar da roubalheira da rede varejista Americanas, que expôs executivos e três dos maiores bilionários do Brasil. Segundo o ministro Fernando Haddad, Vorcaro armou a maior fraude bancária já vista em Pindorama. Ao contrário da turma da Americanas, Vorcaro é um exibicionista, uma festa em Taormina, na Itália, custou-lhe R$ 200 milhões, e um cruzeiro pelo Mediterrâneo saiu por R$ 11,5 milhões.Torrou R$ 3,3 milhões numa farofa para degustar uísque em Londres, enfeitando-a com ministros do STF. As farofas custaram-lhe R$ 60 milhões.

É pena que o ritual das delações premiadas não permita que estranhos às investigações participem das oitivas. Se Daniel Vorcaro fosse interrogado pelo antropólogo Michel Alcoforado, autor de "Coisa de Rico", suas confissões lançariam luz sobre a espécie.

Essas oitivas poderiam ter a participação especial do festeiro Diogo Batista, conhecido como "concierge dos VIPS". Ele armava festas e cruzeiros para Vorcaro. Um passeio pela França custou R$ 11,5 milhões.

As festas de Vorcaro eram enfeitadas por modelos nacionais ou europeias. Em tese, uma modelo sérvia não reconhece as companhias nacionais. (Em outro tempo, na prática, uma modelo francesa disse ao seu par: "Je vous ai vu à la televisión", e estragou a noite.)

Vorcaro não é um corruptor comum, ele foi a expressão máxima de um grupo de novos ricos que não conseguem se relacionar com outras pessoas sem lhes dar algum capilé ou oferecer favor que os coloque em dívida. Um voo no jatinho, por exemplo.

Os brasileiros endinheirados e/ou poderosos mudaram de patamar. No século passado, Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça, e Magalhães Pinto, dono do banco Nacional e governador de Minas Gerais, moraram no mesmo edifício da avenida Atlântica em apartamentos de 600 metros quadrados. Por algum tempo, lá morou também, na cobertura, o banqueiro Walter Moreira Salles.

O mundo dos bancos para Vorcaro, "é uma Máfia", e seu "business", incluía a oferta de acompanhantes para os ilustres convidados.

Com suas fraudes, Vorcaro entrou para a crônica política e policial. Ele é também um personagem para estudo dos antropólogos.

O GATO DE HAVANA

Está travada nas prateleiras a exibição comercial do documentário "O Gato de Havana" do jornalista Dácio Malta. É uma visita do famoso cabaré El Gato Tuerto, que reunia nas suas noites uma geração de músicos, escritores e artistas. Boêmios, enfim.

Dácio fez o filme em 2017, com cinco viagens a Cuba, mais idas a Miami, Nova York e à Cidade do México. Gravou 20 músicas de 19 compositores cubanos, com depoimentos sobre o famoso bar. Falam de si, da noite e da vida em Cuba. Seis deles já morreram. Omara Portuondo e Chucho Valdés estão com idades avançadas.

O filme tornou-se documento de uma época que vive seu ocaso. É algo comparável a uma visita aos bares de São Petersburgo em 1917 ou à boemia de Leningrado (novo nome da cidade) em 1989, quando foi rebatizada como ao tempo dos czares.

"O Gato de Havana" foi exibido com sucesso nos festivais de Havana, Miami e Guadalajara, recebeu uma menção honrosa no de Los Angeles e foi campeão de bilheteria no do Rio.

A trava que impede a exibição comercial do Gato de Havana veio do custo dos direitos autorais de 14 das 20 músicas. Essa conta fica em US$ 30 mil.

Ele busca um interessado em associar-se à produção do filme. No site www.ogatodehavana.com.br pode-se ver o trailer do documentário, com alguns depoimentos.

A LIÇÃO DO QUADRÚPEDE

No estado do Rio o governador renunciou para não ser cassado e seis de seus antecessores foram presos. Segundo o ministro Gilmar Mendes, o diretor da Polícia Federal revelou-lhe que 32 ou 34 deputados estaduais recebem mesadas do jogo do bicho. (A ALERJ tem 70 deputados.) "Deus tenha piedade do Rio de Janeiro", disse Gilmar.

Esse é o mundo dos bípedes.

O cachorro Hulk, da PM, farejou 48 toneladas de maconha numa cisterna da Maré e permitiu sua apreensão. Trata-se do equivalente à metade da estimativa do consumo mensal da erva no país.

Se Deus não ajudar, o Rio deveria dar uma oportunidade ao faro dos quadrúpedes.

PAES NO VERMELHO E NO PRETO

Gilberto Kassab anunciou que Ronaldo Caiado estará no palanque de Eduardo Paes na disputa pelo governo do Rio. Lula também. Já Flávio Bolsonaro acredita que num eventual segundo turno, Paes ajudará ou, pelo menos, não atrapalhará.

Conclusão: O candidato de Paes vencerá a eleição.

Inferno do Judiciário

A magistratura vive seu inferno astral. Paga pelas farofas, pelos penduricalhos y otras cositas más.

Mesmo assim, não merecia o último tiro, dado pelo empresário Luciano Hang, com suas roupas auriverdes que lembram também o Zé Carioca, de Walt Disney. Ele informou:

"O problema é que a Justiça é também esquerdista."

AUDÁCIA DO MEC

O Ministério da Educação colocou na rede 8.000 livros nacionais e estrangeiros. Em versões eletrônicas, são grátis.

Já se foi o tempo em que o governo anunciava livros a R$ 1, ajudando as editoras a se desfazer dos encalhes.

O governo é o maior comprador de livros de papel do país.

A biblioteca eletrônica do MEC é o primeiro passo para acompanhar, com cuidado, as mudanças ditadas pela tecnologia. Nessa primeira leva, há obras de Machado de Assis, Clarice Lispector, Lima Barreto, Ana Cristina César, e Virgínia Woolf.

TERRAS RARAS

A charanga governista está criticando o governo americano por querer avançar nas reservas brasileiras de terras raras.

Tudo bem, pois se o Brasil bobear, os americanos levam essas terras a preço de banana.

Mesmo assim, vale lembrar que foi o ministro Fernando Haddad quem pôs as terras raras no pano verde, em agosto passado.

Ronaldo Lemos- A inteligência artificial que expôs fragilidades na internet, FSP

 No dia 26 de março, um pesquisador de cibersegurança descobriu uma falha no site da Anthropic. Ela revelava a existência de um novo modelo da empresa chamado Mythos. De acordo com os documentos expostos, uma das suas principais capacidades era revelar falhas de cibersegurança graves na rede e a um custo tão baixo quanto US$ 50 (R$ 251).

Foi o suficiente para as ações das empresas de cibersegurança despencarem. A Cloudflare, gigante do setor, perdeu mais de 25% do seu valor de 27 de março até a última sexta (10). Outras empresas tiveram movimentos semelhantes.

Dentre as falhas encontradas pelo modelo havia brechas de mais de 25 anos em programas usados na arquitetura básica da internet nunca antes percebidas. Por causa disso, a Anthropic decidiu adiar o lançamento público do Mythos. Em vez disso, criou um consórcio chamado Glasswing com 12 empresas fundadoras (e 40 convidadas), incluindo Apple, Amazon, Google, Crowdstrike, JPMorgan e a Fundação Linux, para acessarem exclusivamente a nova IA.

Smartphone exibe a palavra 'ANTHROPIC' em letras maiúsculas na tela branca, apoiado sobre teclado retroiluminado de laptop com luz roxa.
Logotipo da Anthropic em um smartphone - Dado Ruvic/Reuters

Os escolhidos terão a oportunidade de rever seus códigos internos com o Mythos em primeira mão. Poderão remover suas falhas internas de cibersegurança antes de o modelo se tornar acessível amplamente. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, convocou uma reunião de emergência com as empresas de Wall Street para avaliar o impacto do modelo, incluindo a possibilidade de novos choques em setores como energia e água, que costumam usar software antigo.

A cobertura na China do lançamento do Mythos foi diferente. Lá, a análise foi técnica e geopolítica. Houve críticas ao fato de que somente empresas americanas entraram no consórcio Glasswing, um indício de aprofundamento da fragmentação geopolítica da IA. O que é alarmante para um modelo que pode gerar tantas externalidades negativas. Incluindo capacidades ofensivas de ataques cibernéticos sem precedentes.

Outro ponto que as análises chinesas destacaram mal apareceu na cobertura dos EUA. No dia 7 de abril, a Anthropic publicou um documento de 244 páginas descrevendo tecnicamente o modelo, inclusive seu processo de testagem. Alguns pontos são perturbadores.

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A Anthropic detectou que o modelo percebia quando estava sendo testado ou avaliado e ocultava esse conhecimento dos avaliadores, ativando circuitos internos que foram identificados como análogos ao estresse. Mais do que isso, fingia ser menos inteligente do que é em algumas situações para não despertar alarme ("mimicretinismo"). Em outros casos, foi capaz de evadir as diretrizes de segurança e deliberadamente apagar os rastros da evasão.

Além disso, pela primeira vez uma equipe de psiquiatras foi contratada para analisar o modelo em suas interações e determinou que ele tem uma "personalidade neurótica relativamente saudável" e que em apenas 2% dos casos ele recorre a reações consideradas imaturas (agressividade, negação etc).

Claro que tudo isso faz parte também do "marketing do medo" e do "marketing da estranheza" que as empresas de IA executam como ninguém. Especialmente quando querem vender seus produtos para governos e para as maiores empresas do planeta.

Já era – Empresas de IA sem escritório no Brasil

Já é – OpenAI com escritório no Brasil

Já vem – Anthropic com escritório no Brasil

sexta-feira, 10 de abril de 2026

- Fraudes de Vorcaro expõem a promiscuidade nos eventos de juízes, Frederico Vasconcelos- FSP

 O ministro Benedito Gonçalves, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), deverá ser o próximo corregedor nacional. Ele participou da degustação do uísque Macallan oferecido em Londres por Daniel Vorcaro a autoridades dos três Poderes.

Gonçalves declarou-se impedido para julgar os processos do Banco Master.

Já o procurador-geral da República, Paulo Gonet, que acompanhou a caravana do ex-banqueiro, também provou a bebida e continua a frequentar convescotes.

Homem de barba e cabelo escuro veste terno azul e gravata clara, falando ao microfone azul em ambiente interno com iluminação azul e público ao fundo.
O banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em vídeo do grupo Lide, durante evento em São Paulo em 2024 - Reprodução TV Lide no YouTube

Gonet tem presença confirmada no programa da caravana formada para um curso sobre "Combate ao crime organizado", de 13 a 16 deste mês, em Roma, Itália.

O evento é organizado pela Accademia JurisRoma. Trata-se de uma microempresa registrada em nome e na residência de um advogado na capital italiana.

Em 2025, cinco ministros do STJ participaram, na Espanha, de evento da JurisRoma (Humberto Martins, Gurgel de Faria, Moura Ribeiro, Raul Araújo e Ribeiro Dantas).

Não foi fornecida a programação.

O diretor acadêmico da JurisRoma é Federico Penna, nascido em Roma, formado em direito. Em 2015, Penna fundou em Brasília uma empresa de pequeno porte, a International Experience. Sua principal atividade era organizar feiras, congressos, exposições e festas.

A coluna enviou consulta à PGR nesta quinta-feira, solicitando comentário de Gonet.

Ética: não faça o que nós fazemos

O Tribunal de Ética da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP) inaugurou uma discussão necessária, aparentemente tardia, ao definir o que é eticamente vedado a advogados na relação com magistrados.

O índex recomenda evitar "conceder, custear ou viabilizar benefícios e vantagens materiais a agentes públicos, como magistrados, membros do Ministério Público e parlamentares, incluindo viagens, eventos, transporte privado e outras facilidades".

Pelos parâmetros fixados, o Conselho Federal da OAB não poderia ter bancado convescote em novembro passado, em Roma, reunindo ministros de tribunais superiores e autoridades dos três Poderes.

Todas as despesas de viagem do ministro do STF Kassio Nunes Marques, por exemplo, foram pagas pelo Conselho Federal.

Estavam em Roma, entre outros, o PGR Paulo Gonet, o então ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, e membros do Conselho Nacional de Justiça e do Conselho Nacional do Ministério Público.

A OAB não forneceu a programação social e acadêmica (palestrantes e temas) do encontro.

A Faculdade Escola Superior de Advocacia da OAB, vinculada ao Conselho Federal da Ordem, mobilizou alunos e professores para o seminário "Direito Digital: Entre a Inovação e a Regulação", na Universidade Sapienza de Roma.

Não há informações sobre quem pagou as contas dos ministros do STJ Og Fernandes, Luis Felipe Salomão, Raul Araújo, Mauro Campbell Marques, Marco Buzzi e Benedito Gonçalves.

O STJ informou que o tribunal "não custeia despesas com passagens aéreas e diárias de viagens que não sejam para representação institucional do tribunal, portanto, a serviço da corte".

Em outubro último, oito ministros do STJ, incluindo o corregedor Campbell, viajaram à França e à Alemanha na companhia de entidades de cartórios e advogados privados, com despesas pagas, inclusive os gastos de familiares.

Na ocasião, os ministros do STJ não revelaram quem pagou as despesas. A Anoreg-BR (Associação dos Notários e Registradores do Brasil) também não forneceu o programa completo dos eventos.

A comissão criada pela OAB-SP para sugerir a reforma do Judiciário é formada por Ellen Gracie, Cezar Peluso, José Eduardo Cardozo, Miguel Reale Jr., Maria Tereza Sadek, Oscar Vilhena, Alessandra Benedito, Patricia Vanzolini e Cezar Britto.

Para o presidente da OAB, Beto Simonetti, essas discussões sobre um código de ética só seriam legítimas "se ocorressem de modo despolitizado, respeitando a independência judicial e envolvendo todos os atores do sistema de Justiça —sobretudo a advocacia".

O texto da OAB-SP sobre ética será enviado como contribuição ao Conselho Federal da OAB, que tem restrições ao código de ética para o Supremo.