sexta-feira, 20 de março de 2026

'Vladimir', na Netflix, cutuca um vespeiro feminista com humor, FSP

 O quanto a existência de uma relação de poder —financeiro, político, físico, intelectual— é determinante para configurar uma dinâmica de assédio entre adultos, mesmo com aparente consenso entre as partes? E o quanto o exercício desse poder com fins sexuais é uma particularidade masculina?

É esse o vespeiro chacoalhado em "Vladimir", minissérie que estreou neste mês na Netflix e provoca o espectador para rever ideias prontas. O título é uma referência óbvia ao autor de "Lolita", Vladimir Nabokov, embora aqui não se fale de menores de idade.

A protagonista-narradora é uma professora universitária e escritora de 54 anos, apresentada apenas como M., que se torna obcecada por um colega mais jovem no mesmo momento em que o marido é acusado de assediar alunas. E é dela que estudantes e colegas exigem resposta.

Não se trata de um conto moral, mas de um registro dos nossos tempos. Baseado em um romance lançado em 2022 por Julia May Jonas, o roteiro vertido para a TV por ela mesma é permeado por discussões atuais sobre cancelamento, sexualidade e consentimento. Mas do (raro) ponto de vista de uma mulher que cresceu nos anos 1970 e pensava ter atingido o ápice da liberação sexual até trombar com a geração Z, aquela que diz ter inventado o poliamor.

Rachel Weisz ("O Jardineiro Fiel"), num incomum papel cômico, é M., que contabiliza uma carreira acadêmica respeitável, livros de sucesso com a crítica e com o público, um casamento aberto e sólido com um colega de ofício e uma filha adulta encaminhada. Ah, sim, ela também é bonita.

Ainda assim, por vezes essa mulher que parece um holograma aspiracional nos sai pela tela como uma criatura odienta, cínica e narcisista, que nos força a perguntar: a sensação seria a mesma se o personagem fosse homem? (Spoiler: o marido da protagonista, uma versão de cuecas dela própria vivida por John Slattery, de "Mad Men", é apresentado como um sujeito simpático e agradável.)

Afinal, como ela pode compactuar com o cônjuge predador? Saber que ele saía com alunas de graduação e não ver problema? Mesmo quando as alunas começam a se queixar que, em seus 20 e poucos anos, eram ingênuas e se deixaram atrair pelo professor experiente, que sempre oferecia um elogio certeiro sobre seus escritos, ambições, planos de carreira?

É quando M. está nesse estado de suspensão que surge Vladimir (Leo Woodall, de "The White Lotus" e "Um Dia"), professor e best-seller aos 30 e poucos, com mulher e uma filha pequena. E as fantasias eróticas começam a engolir a vida da narradora, sempre nariz a nariz com o medo de transformar suas lucubrações sexuais em um caso de fato.

Narrada com sarcasmo, a série exaure o recurso da quarta parede —M. fala com o espectador o tempo todo, lembrando o Francis Underwood de Kevin Spacey em "House of Cards" (talvez não por acaso). Nos piores momentos, cansa; nos melhores, instiga aquela fatia mais experimentada e cínica do público a empatizar com a protagonista imperfeita.

A sacada está em retratar os homens como sujeitos passivos e M. como a responsável pelas situações,
obrigando-nos a refletir sobre desejo, agência, consentimento, arbítrio e outras palavras bem em voga.

'Vladimir'

  • Onde Netflix
  • Autoria Julia May Jonas (autora do livro homônimo) e Jeanie Bergen
  • Elenco Rachel Weisz, John Slattery, Leo Woodall, Jessica Henwick, Ellen Robertson e Matt Walsh
  • Direção Shari Springer Berman e Robert Pulcin
  • Gênero Comédia
  • Duração Oito episódios de 30 minutos (minissérie)

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quinta-feira, 19 de março de 2026

Lidando com o choque do petróleo, Braulio Borges - FSP

As tensões no Oriente Médio prosseguem e, com isso, o preço do petróleo tipo Brent subiu ainda mais nos últimos dias, aproximando-se de US$ 110. Ou seja, trata-se de uma alta de quase 60% ante o patamar de cerca de US$ 70 que estava vigorando antes desse conflito regional. As negociações realizadas nos mercados futuros de petróleo apontam que os preços somente deverão cair para menos de US$ 100 em julho, aproximando-se dos US$ 80 no fim de 2026 e dos US$ 70 no final de 2027.

Embora seja bastante difícil antecipar os desdobramentos desse conflito, os mercados futuros parecem precificar uma dinâmica bastante semelhante àquela que efetivamente ocorreu em 2022, logo após o início da guerra entre Rússia e Ucrânia. Naquele episódio, a alta inicial do preço dessa commodity foi da ordem de 50%, permanecendo acima dos US$ 100 por cerca de seis meses, recuando para um valor semelhante ao observado antes da guerra aproximadamente um ano depois (a despeito de o conflito entre os dois países europeus continuar até hoje).

Portanto, na visão do "mercado", estamos diante de um choque de oferta desfavorável expressivo, com um grau de persistência relativamente alto, mas ainda assim temporário. Essa é uma informação crucial para orientar a reação da política econômica.

Homem com roupa branca tradicional e gorro branco desfocado em primeiro plano à esquerda, com navio cargueiro laranja ancorado em corpo d'água ao fundo sob céu claro.
Petroleiro ancorado na entrada do Estreito de Hormuz - Benoit Tessier - 18.mar.26/Reuters

No caso brasileiro, já observamos algumas reações por parte do governo federal, que reduziu impostos sobre combustíveis em caráter temporário, compensando essa perda de receita com a majoração, também temporária, do imposto sobre exportação de petróleo. Discute-se agora a possibilidade de redução do ICMS pelos estados, que seriam compensados pela União pela perda de receita associada a isso.

A mudança estrutural ocorrida no Brasil nos últimos dez anos, detalhada na minha coluna anterior, cria maior margem de manobra para lidar com esse choque, já que altas dos preços internacionais dessa commodity elevam nosso saldo comercial e, também, a arrecadação fiscal.

Há também outras possibilidades, que podem não somente amenizar o impacto inflacionário mas também ajudar a lidar com o risco de déficit de suprimento, sobretudo de derivados (somos superavitários em petróleo bruto, mas importadores líquidos de diesel e fertilizantes).

O Brasil vem aumentando a incorporação de biodiesel feito a partir de óleos vegetais e gorduras animais (o chamado B100) ao diesel fóssil nos últimos anos. Hoje, já estamos com uma mistura com 15% de biodiesel e 85% de diesel fóssil, gerando o B15 vendido nas bombas. A Lei do Combustível do Futuro, de 2024, estabeleceu que poderemos chegar ao B25 em meados da próxima década.

Embora novos aumentos dessa mistura de biodiesel estejam condicionados a estudos de viabilidade técnica, diversos testes já apontaram que, com poucas modificações, caminhões e ônibus com motores de ciclo diesel mais modernos (produzidos a partir de 2012) podem rodar com o B100. O principal ponto de atenção é a estocagem do biodiesel, que, se não for adequada, pode impactar negativamente os motores.

Também deverão entrar em breve no mercado os motores com sistemas flex diesel/etanol, reduzindo a dependência de diesel, bem como as emissões de gases de efeito estufa. O aumento da oferta doméstica de biometano, produzido a partir de diversos tipos de resíduos, também poderá substituir gradativamente o uso do diesel fóssil nos transportes e reduzir as emissões (a Lei do Combustível do Futuro também definiu mandatos crescentes de uso desse combustível).

Nossa maior vulnerabilidade está nos fertilizantes, particularmente nos nitrogenados —que são produzidos a partir do gás natural fóssil. O Brasil importa cerca de 90% do consumo doméstico. O uso do biometano como insumo pode ser uma alternativa, mas não imediatamente, uma vez que são poucas as unidades produtoras desses fertilizantes em nosso país.

Ozempic a preço de banana é ameaça para os rodízios, Marcos Nogueira - FSP

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São Paulo

Sextará forte nesta sexta-feira (20). A data é esperada há tempos por milhões de brasileiros: será o dia da quebra da patente das canetas emagrecedoras à base de semaglutida, hoje vendidas a preço de ouro por um único laboratório sob os nomes Ozempic e Wegovy.

É evidente que o efeito nos preços do medicamento não será imediato, mas o surgimento de genéricos e similares tem tudo para multiplicar o uso das canetinhas nos próximos anos.

Tigela branca contém pimentões vermelhos e amarelos assados, cortados em pedaços, imersos em azeite. Fundo é tecido listrado em tons claros.
Receita de antepasto de pimentão - Marcos Nogueira/Folhapress

Já se fala bastante sobre como o fenômeno afeta tanto a indústria alimentícia quanto o setor de restaurantes, com redução de porções e adequações afins. É só o começo, amigos, é só o começo.

Com a concorrência crescendo e os preços declinando, o mundo terá menos apetite —sei lá, o emprego do termo "fome" me soa leviano para um tópico que, por ora, só interessa à faixa mais abonada da sociedade.

Não antevejo uma quebradeira geral dos restaurantes —eles sempre se adaptam—, mas suspeito que as transformações serão grandes. Alguns esquemas de serviço, que já se encontram em decadência, tendem a encolher até desaparecer quase por completo.

É o caso dos rodízios. De churrasco, de pizza, de comida japonesa. E dos bufês com preço fixo, do tipo para comer até estourar o botão da calça.

Esses tipos de restaurantes se assemelham a cassinos. Cobram uma grana preta e desafiam o cliente a quebrar a banca, comendo mais do que pagou. Isso raramente acontece, e a maioria das pessoas já percebeu que a aposta não vale a pena—tanto que o número de rodízios, uma febre no fim do século passado, é cada vez menor.

Em uma sociedade inapetente, o comer até passar mal perde de vez o sentido. Quem ainda trabalha com rodízio provavelmente vai ter de repensar o negócio.

O 20 de março também entra no calendário como o Dia Mundial sem Carne. Assim, a receita da vez é 100% vegana: um antepasto de pimentões.

Tem um pessoal que não curte pimentão porque diz que é indigesto. O problema desaparece quando você tem pimentões maduros, bem cozidos e sem pele: para removê-la, é só torrar o exterior da hortaliça no forno, na air fryer ou direto na chama do fogão.

A receita a seguir rende duas porções pequenas, ideais para quem está na canetinha emagrecedora.

ANTEPASTO DE PIMENTÕES

Dificuldade: fácil
Rendimento: 2 porções
Tempo de preparo: cerca de 1 hora

INGREDIENTES

  • 4 pimentões maduros (vermelhos, amarelos, laranjas)
  • 2 dentes de alho laminados
  • 2 colheres (sopa) de azeite
  • 1 colher de sopa de vinagre de vinho branco
  • Sal, pimenta-do-reino e ervas aromáticas a gosto

MODO DE FAZER

  • Queime a pele dos pimentões no forno alto, na air fryer ou direto na chama do fogão. Deixe-os esfriar num saco fechado: o vapor liberado vai fazer a pele se soltar com facilidade
  • Remova a pele queimada, talos e sementes dos pimentões. Corte-os em tiras
  • Misture os temperos ao pimentão e guarde-o em um pote na geladeira por ao menos um dia. Coma com pão