quinta-feira, 19 de março de 2026

Vorcaro, o macho alfa que desmascara a República, Marcelo Rubens Paiva. FSP

 Personagens pitorescos podem derrubar regimes. O fim do Primeiro Reinado teve a mãozinha da amante do rei. Getúlio caiu em 1954 por conta de crimes e trapalhadas do chefe da guarda pessoal. A crise se estendeu até 1964. Veio a ditadura.

A Nova República caminhou no fio do bisturi por conta de um erro médico em 1985. Se receitassem antibióticos a Tancredo Neves, ele não morria. Lula não foi eleito em 1989 provavelmente por conta de uma ex-namorada, mãe de Lurian. Collor caiu em 1992 por conta do irmão e um Fiat Elba.

Agora, a democracia pode se liquefazer se rolar a delação premiada do ex-apresentador de um programa de música gospel, que conseguiu uma licença para operar um banco, ficou bilionário com consignados do INSS e uma rede de degustadores de uísque, charuto e garotas de programa.

Daniel Vorcaro é um cordeiro com vínculo à igreja Lagoinha, que não é um bucólico templo cercado por um gramado e um laguinho, mas um império com megatemplos, filiais no exterior e uma rede de rádio e TV, a Rede Super.

Ilustração em aquarela azul com ícones brancos de controle de mídia: dois triângulos para retroceder, um triângulo para reproduzir/pausar e dois triângulos para avançar, acima de uma barra de progresso.
Julija/Adobe Stock

Tudo é superlativo nela, cujas filiais lembram academias de ginástica. Mas nem tudo na vida é festa, diria Antonio Palocci, o todo poderoso ex-ministro da Fazenda, que caiu por conta de um caseiro.

A profecia da música "Viva la Vida" (Coldplay), que seria tocada ao vivo no seu casamento, se concretizou: "Eu costumava governar o mundo, mares se erguiam quando eu mandava, mas agora eu durmo sozinho". Vorcaro dorme hoje numa cela de dois metros por três.

A notícia de que ele reclamou que sentia falta da amada Martha Graeff, a quem chamava de "momolada", não passou despercebida e quase humanizou o criminoso.

Por um lado, o vazamento de fotos e conversas íntimas causou repúdio. Mas desenhou a conta-gotas o modus operandi de como corromper uma República, de "b", "c", "s", "t", "f".

Chegaram a dizer que a influencer gaúcha não tem compaixão. Ganhou mimos, milhões e rompeu o noivado mesmo depois da festa em Roma com Ben Harper, acrobatas, flores e velas, ao estilo da franquia "Succession", filmada por drones com "Lose Control" (Teddy Swims), que traduzi como:

"Alguma coisa me pegou recentemente, não me conheço mais, sinto que o cerco está se fechando, e o diabo bate à minha porta".

Um internauta criou a playlist "Vorcaro – Amor Master", que começa com o extraordinário "I Fall in Love to Easily", de Chet Baker, um arrasa-coração cujo refrão entrega tudo:

"Meu coração devia estar calejado, porque já fui enganado outra vez, mesmo assim, me apaixono muito fácil, me apaixono rápido demais".

A lista segue com "Quero ir pra Bahia com Você" (Julio Secchin) —que na verdade deveria ser "Quero ir pra Trancoso com Você", o novo point faria-limer—, "Apenas Mais uma de Amor" (do último romântico, Lulu Santos), passando por "Let’s Stay Together" (Seal).

Onde está o compromisso "prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel..."? Depende.

Quando Vorcaro apareceu com o cabelo raspado, Havaianas pretas, camiseta branca e calça laranja, sem brilho nos olhos, nos dentes e principalmente nos cabelos, antes penteados para trás, era um presidiário como outro qualquer.

Seguíamos seus passos, algemado, até o avião da PF, enquanto Martha seguia decidida para o lado oposto; apagou as referências e fotos do noivo, para distanciá-la o mais rapidamente possível do canalha que as mensagens revelavam, da mansão que iriam compartilhar e do escândalo Master.

A verdade sobre o macho alfa foi um baque. O mineirinho tinha no celular o contato de loiras que recebiam a mesma mensagem de "bom dia", seguida de emoji de sol e coração, que Martha recebia. Era como uma lista de transmissão do prazer.

Quando ela descobriu que ele tinha contatos de profissionais do sexo, ele se saiu com esta: "Tenho nojo do tipo de trabalho que essas mulheres fazem". Contou que conhecia mais de cem profissionais, que já deu festas com 300, mas que nunca ficou com essas mulheres, de quem sente nojo.

Para quem?

Martha pensou rápido: o cara gastou milhões na contratação de assessores, advogados, sicários, gente do quilate de ex-ministro do STF, ex-ministro da Dilma, enrolou a PGR, trocou mensagens com Xandão, fez negócios com Toffoli e funcionários do Banco Central.

Tinha na agenda contatos da direita, centrão, presidente e dois ex-presidentes da Câmara, engabelou fundos de pensão até do estado do presidente do Senado, mas não foi capaz de contratar um assessor para assuntos nada ecumênicos? Tratava pessoalmente com hosts das surubas republicanas?

Basta cantar o clássico de Domenico Modugno "Ciao, ciao bambina..." para a relação e, talvez, para a democracia.

A tese antissistêmica vai contaminar a eleição, o debate político e nossos pesadelos. Desta vez, é um playboy esbanjador que pode derrubar o regime atual? "Mamma mia!"

Brasil atinge mínima na mortalidade infantil - The News

 

O Brasil alcançou o menor índice de mortalidade infantil em 34 anos, segundo dados recentes da ONU. A taxa de óbitos de crianças com menos de 5 anos caiu para 14 a cada mil nascidos vivos, uma redução em relação aos 63 por mil registrados em 1990.

  • Esse índice é considerado o principal indicador de qualidade de vida de uma população. Além disso, quando a economia piora ou a fome aumenta, ele é um dos primeiros a subir.

Enquanto a mortalidade infantil geral (0 a 5 anos) caiu mais de 70% desde 1990, a morte neonatal (até 28 dias de vida) agora representa a maior fatia do problema. Isso porque cerca de 50% das mortes antes dos 5 anos ocorrem no primeiro mês de vida. (Aprofunde)


Ruy Castro - '1984' versão hoje, FSP

 Certos livros deveriam ser lidos todo ano. Exemplo: "1984", de George Orwell. Sei de gente que faz isso. Desde sua publicação, em 1949, já vendeu 30 milhões de exemplares –eu próprio comprei vários, inclusive, num leilão, a primeira edição, da Secker & Warburg, de Londres. Pois, seguindo meu próprio conselho, acabo de relê-lo de novo e fiquei ainda mais assustado que da última vez. Com razão –"1984" nunca foi tão atual. Ou Orwell adivinhou tudo ou está sendo seguido à risca.

Vide as teletelas. No livro, elas ficam em todas as paredes, regulando a vida dos cidadãos, e não podem ser desligadas. Hoje estão no nosso bolso ou na palma da mão. São os celulares. Assim como as teletelas, eles nos veem e nos ouvem, queiramos ou não. Já o Grande Irmão é o algoritmo. Sabe tudo sobre nós e nos bombardeia com mensagens dirigidas aos nossos gostos, preferências e, mais que tudo, convicções, permitindo-nos viver numa bolha onde nos sentimos "pertencendo", donde protegidos.

Página de rosto da primeira edição de "1984", livros sobre Orwell e reportagem na revista Manchete, em 1974
Página de rosto da primeira edição de "1984", livros sobre Orwell e reportagem na revista Manchete, em 1974 - Heloisa Seixas

No país de "1984", o culto ao ódio é obrigatório. As pessoas são instadas a pôr para fora a sua raiva contra indivíduos ou instituições sem saber muito bem por quê. Obedecem aos haters das redes sociais, especialistas em destruir a reputação do inimigo da vez –a contaminação é imediata, e o sujeito se vê, de repente, odiando alguém de quem jamais ouvira falar. No livro, não se tem descanso, porque o país está sempre em guerra contra um inimigo a ser odiado. Só que o inimigo de hoje pode se tornar o aliado de amanhã ou vice-versa. Mas o povo reage de acordo, porque acredita em tudo que lhe injetam.

Como a verdade é agora a mentira, alteram-se textos, imagens e biografias para produzir novos "fatos" –as fake news. O povo de "1984" acredita que a Terra é o centro do Universo, em torno da qual giram o Sol e os planetas. Equivale aos que no Brasil a acham plana, telefonam para ETs, rezam para pneus e negam a pandemia.

O país de "1984" é a URSS de Stálin. Os zumbis bolsonaristas não desconfiam, mas viveriam muito bem nele.