segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A sequoia selenita, a soja e as sumaúmas, Marcelo Leite FSP (definitivo)

 Foi em Ubatuba que vi o pouso da Apollo 11 na Lua, em julho de 1969. Tinha 11 anos. A TV em branco e preto era só chuvisco, e mais imaginei do que enxerguei quando Neil Armstrong pisou na poeira e disse que seu pequeno passo era um salto gigante para a humanidade.

Tornei-me entusiasta da ciência e da tecnologia, mas também amante da natureza, em meio à mata atlântica. Queria ser astronauta, ou médico, depois biólogo, talvez poeta, acabei jornalista. Entrei na Folha em 1º de fevereiro de 1986, ano do cometa Halley e de duas explosões, no ônibus espacial Challenger e na usina nuclear soviética Tchernóbil.

A imagem mostra uma grande árvore vista de baixo para cima, com um tronco largo e texturizado. A copa da árvore é densa, com folhas verdes que filtram a luz do sol, criando um efeito de iluminação suave. O fundo é composto por outras árvores e vegetação típica de uma floresta.
Samaúma (ou Sumaúma) em trilha em Alter do Chão (PA)

Em 1988, o assassinato do seringueiro Chico Mendes espalhou manchetes pelo mundo sobre queimadas flagradas por satélite. Meses antes tinha visitado o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e o Museu Paraense Emilio Goeldi para conhecer a floresta. Vi a primeira sumaúma. Hoje, após 497 mil km2 de floresta amazônica derrubados, o fascínio segue intacto.

Em 1971, na missão Apollo-14, o piloto da cápsula que permaneceu em órbita do satélite, Stuart Roosa, levou na bagagem uma lata com centenas de sementes de árvores em sacos plásticos separados por espécies: pinheiro-americano, plátano, abeto-de-douglas, liquidâmbar e sequoia-vermelha.

Na volta, durante a descontaminação, a lata passou por uma câmara de vácuo que rompeu os sacos e espalhou sementes de forma explosiva. Nem assim elas perderam o poder de germinar. As sementes espaciais deram nascimento a várias mudas.

Das plantinhas nascidas, as "árvores da Lua", outras mudas foram produzidas por estaqueamento (método reprodutivo a partir de estacas). Deram origem a milhares de novas plantas, doadas para plantio em 40 dos 50 estados dos EUA, em comemoração aos 200 anos da Independência, em 1976.

Como já contei aqui, três mudas desembarcaram no Brasil, duas sequoias e um liquidâmbar. Uma sequoia acabou em Santa Rosa (RS). Foi plantada em 13 de agosto de 1981 na 5ª Festa Nacional da Soja, em cerimônia com o último presidente na ditadura militar, general João Baptista Figueiredo

Quarenta e quatro anos se passaram desde o plantio da árvore lunar em Santa Rosa. A ditadura acabou em 1985, e o primeiro presidente civil, José Sarney, viu crescer a má fama do Brasil como destruidor de florestas e do clima.

Santa Rosa hoje se orgulha por ser uma cidade arborizada. Não deixa de ser ironia que uma árvore majestosa como a sequoia cresça tão mirrada na terra da soja, cultivo que proliferou pelo território nacional e hoje constitui um dos vetores de desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

leguminosa da qual o Brasil é maior produtor mundial também aportou aqui como sementes importadas dos Estados Unidos. Foi 47 anos antes da viagem de Roosa, não numa lata, mas numa garrafa de vidro trazida em 1924 pelo pastor luterano Albert Lehenbauer, que doava as sementes para agricultores pobres do noroeste gaúcho.

Com a expansão da sojicultura pelo país, impulsionada pela tecnologia de plantio da Embrapa, Santa Rosa é hoje mais lembrada como berço da soja, não como a cidade que salvou uma sequoia lunar da solidão de imigrante, como narra o episódio desta semana do podcast Rádio Novelo Apresenta.

As sumaúmas que se cuidem.


domingo, 8 de fevereiro de 2026

Demétrio Magnoli- 'Esta é a nossa cidade', FSP

 Gregory Bovino ingressou na Patrulha da Fronteira em 1996, aos 26 anos. Sua carreira cinzenta só decolou três décadas mais tarde, quando seu estilo agressivo chamou a atenção do governo Trump, catapultando-o ao comando das operações policiais do ICE, a agência federal de imigração, em Chicago e Los Angeles. Diante do letreiro de Hollywood, Bovino postou uma foto do que batizou como "mean green team" (equipe verde malvada) e proferiu a seus homens a ordem de combate: "Esta é a nossa cidade".

O governo Obama deportou 407 mil imigrantes no ano fiscal de 2012. Ao longo de 2025, Trump deportou cerca de 230 mil. A diferença: as atuais deportações não se concentram na fronteira ou nas prisões, mas nas cidades, atingindo imigrantes integrados às comunidades, inclusive milhares de portadores de vistos humanitários subitamente revogados. A principal missão de Bovino não era multiplicar o número de deportações, mas semear o terror na "nossa cidade".

Quatro agentes da polícia em uniforme tático estão em uma rua urbana com carros estacionados. Um agente no centro segura um objeto prateado, enquanto outro à esquerda segura uma câmera. Pessoas observam ao fundo próximo a um prédio de pedra.
Gregory Bovino durante ação do ICE em Minnesota - Octavio Jones - 8.jan.26/AFP

Ocupar a cidade. Subjacente às operações do ICE encontra-se um conceito militar: retomar terras conquistadas por inimigos. Tudo se passa como se os imigrantes fossem invasores estrangeiros. A noção estende-se aos governos das cidades-santuário, que inscreveram em leis locais a proibição de cooperação de suas polícias com o ICE. A Casa Branca conduz uma guerra doméstica e, inspirado por regimes autoritários, Trump habituou-se a utilizar a expressão "inimigo interno".

A imagem é tudo. Numa investida, agentes do ICE desceram de helicópteros sobre um conjunto residencial, em cordas de rapel, para capturar um punhado de imigrantes inofensivos. A ação cinematográfica foi filmada pela agência e postada em redes sociais. Disseminar o medo –eis a estratégia oficial.

O número de agentes do ICE saltou de 10 mil para 22 mil entre agosto de 2025 e janeiro de 2026. O recrutamento acelerado baseia-se em propagandas de apelo mercenário e ideológico. O "mean green team" foi treinado às pressas. Aprendeu que opera acima da lei, sob a proteção direta de Kristi Noem, secretária de Segurança Interna. São combatentes de uma milícia presidencial –e, por isso, circulam com rostos encapuzados. Bandidos federais.

imigração, legal ou indocumentada, pertence à estrutura da sociedade americana. Mineápolis provou que é impossível deportar indiscriminadamente –nas ruas, residências, escolas e locais de trabalho– sem romper o tecido da vida social. A onda de manifestações de protesto contra o ICE, pontuada pelos assassinatos de Renee Good e Alex Pretti, entrelaçou o tema da imigração ao das liberdades públicas e civis nos EUA. Os manifestantes que defendem os imigrantes estão, no fim das contas, erguendo uma paliçada em torno dos direitos constitucionais dos cidadãos americanos.

"Esta é a nossa cidade", não a de vocês. Mineápolis encerrou a curta temporada de glória de Bovino. Dois dias após a morte de Pretti, o chefão foi removido do comando da milícia. Agora, anunciou-se a retirada de 700 agentes milicianos. "Fora ICE": a resposta popular ao arbítrio federal é uma exigência de restauração da lei. A estratégia interna do governo Trump atingiu uma encruzilhada decisiva. A Casa Branca não pode avançar sem implodir suas bases partidárias e eleitorais. Mas não pode recuar de fato sem renunciar a seu projeto autoritário.

O STF e a força da humildade institucional- Oscar Vilhena Vieira, FSP

 

Uma das principais virtudes dos regimes democráticos é a sua capacidade de absorver críticas e corrigir a direção. A falta de humildade em reconhecer problemas e ajustar os rumos é a receita certa para a deterioração das instituições.

Em seu discurso de abertura do ano judiciário, o ministro Edson Fachin apresentou não apenas uma precisa descrição dos principais desafios colocados à frente do Supremo Tribunal Federal mas também algumas propostas de aperfeiçoamento de nossa jurisdição.

A sobriedade, a consistência e, sobretudo, a autenticidade do discurso causaram enorme desconforto num ambiente político-institucional marcado por posturas cada vez mais toscas. O presidente Lula parece ter sido dos poucos líderes a compreender a gravidade da fala, endossando a necessidade de reformas.

Dois homens em pé em ambiente institucional com parede de mármore ao fundo. À direita, homem de terno preto e toga preta, atrás de mesa com microfone e garrafa de água, sob brasão dourado do Brasil. À esquerda, homem de terno escuro e gravata, com barba branca.
Lula e Edson Fachin na abertura do ano judiciário, na sede do STF - Lúcio Távora - 2.fev.26/Xinhua

Nas últimas décadas, o STF foi tragado para o centro da arena política, em grande medida pela incapacidade dos próprios órgãos de representação de responderem às demandas da sociedade. Quase tudo transbordou para o Supremo, no mais das vezes provocado pelos próprios partidos políticos.

Verdade que o tribunal não ofereceu nenhuma resistência em assumir essa centralidade. O exercício desse protagonismo gerou, no entanto, enorme custo para o Supremo. Num contexto de forte polarização, decisões sobre temas controversos, sobretudo quando tomadas monocraticamente, fomentaram violentas reações.

A defesa do processo eleitoral e a condenação dos que atentaram contra a democracia, por exemplo, inflamaram os ataques à corte. O comportamento heterodoxo de alguns magistrados, por sua vez, também provoca enorme desconforto entre setores que sempre estiveram alertas para defender o Supremo dos inimigos da democracia.

Para que possa exercer devidamente as funções que lhe foram atribuídas pela Constituição, é necessário, portanto, reduzir suas vulnerabilidades. Isso exige dois movimentos concomitantes, ainda que aparentemente contraditórios.

Homem de perfil com cabelos grisalhos e barba recebe vestimenta preta de outra pessoa durante cerimônia formal. Ambiente interno com outras pessoas ao fundo desfocadas.
Dias Toffoli na abertura do ano judiciário - Adriano Machado - 2.fev.26/Reuters

O primeiro movimento, voltado à proteção da imparcialidade e integridade do tribunal, cumpre ao próprio Supremo. A alta exposição dos ministros no debate público; a participação em eventos organizados por setores empresariais com interesses pendentes na corte; a indevida proximidade de escritórios de advocacia que orbitam os tribunais superiores. Todas afetam a confiança da população na imparcialidade do tribunal.

Um bom código de conduta deve contribuir para mitigar esses problemas. Ninguém ficaria proibido de dar entrevistas, participar de seminários ou receber advogados. A questão é a transparência e os termos em que essas atividades podem ser realizadas. A adoção de um código de conduta não pode ser vista como uma panaceia, mas reduziria condutas individuais que colocam em xeque a autoridade do Supremo.

O segundo movimento, que cabe à própria sociedade, volta-se à proteção da independência do Supremo, para que possa exercer a função de guarda da Constituição.

Veja o caso do ministro Flávio Dino, que, neste momento, tem sob sua relatoria os casos das emendas parlamentares e dos penduricalhos e privilégios da alta administração dos três Poderes. Ao defender a Constituição, tornou-se alvo de parlamentares e, agora, dos estamentos burocráticos. O projeto de reforma da Lei do Impeachment, que tramita no Senado, constitui uma ameaça à independência do Supremo, não podendo ser negligenciado por aqueles que defendem a democracia.

Quanto mais íntegro e transparente for o tribunal maior será sua capacidade de se defender dos inimigos da Constituição.

Para se fortalecer, neste momento, o tribunal terá que exercer certa humildade institucional, o que não significa abdicar de suas forças, mas, sim, reconhecer as suas vulnerabilidades e sobre elas agir. E rapidamente.