domingo, 8 de fevereiro de 2026

Celso Rocha de Barros - Trump quer roubar a eleição, FSP

 O supremacista branco Donald Trump pretende fraudar as eleições de meio de mandato deste ano nos Estados Unidos.

Durante a invasão do Minnesota pela milícia ICE, o governo Trump ofereceu às autoridades estaduais condições para interromper a matança nas ruas. Entre elas estava a entrega, para autoridades federais, dos registros de eleitores do Minnesota.

Isso seria altamente irregular. As eleições americanas são organizadas pelos estados. Não há uma autoridade central que as organize, não há sequer o equivalente de nossa Justiça Eleitoral. Sempre foi assim, e é consistente com os princípios de um país que, afinal, se chama "Estados Unidos".

O presidente Donald Trump, ao embarcar em Maryland, - Brendan Smialowski - 6.fev.26/AFP

O objetivo declarado de Trump é passar um pente-fino nas listas de eleitores para impedir que imigrantes ilegais votem. Até aí, você pode dizer: beleza, ué. Os imigrantes ilegais não têm mesmo o direito de votar.

Mas eu te responderia com outra pergunta: eles têm votado?

Faça o seguinte: vá ao site da Heritage Foundation, o think tank trumpista que redigiu o famoso Projeto 2025, o plano autoritário que Trump vem colocando em prática no segundo mandato, descrito no ótimo livro "O Projeto", de David Graham (Zahar, 2025).

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A Heritage mantém um site que cataloga casos de fraude eleitoral ocorridos nos Estados Unidos desde os anos 80. É possível pesquisar neste banco de dados. Vá lá e coloque, em "Keywords" ("palavra-chave") o termo "alien" (estrangeiro, não cidadão).

O resultado da busca são 41 casos em que imigrantes ilegais votaram nos Estados Unidos entre 2003 e 2006. O Bipartisan Policy Center (BPC) revisou os registros da Heritage manualmente e encontrou 77 casos em que não cidadãos votaram entre 1999 e 2023. Um outro estudo do BPC, analisando 23,5 milhões de votos da eleição de 2016, encontrou apenas 77 exemplos (entre 136 milhões de pessoas que votaram) em que não cidadãos votaram.

Ou seja, para todos os propósitos práticos, o número de imigrantes ilegais nas eleições americanas é arredondável para zero. E é fácil entender por quê. Para votar ilegalmente, você precisa enganar uma autoridade quando se registra e outra no dia da eleição. Imigrantes ilegais, naturalmente, evitam o contato com as autoridades, especialmente as que têm propensão a pedir documentos.

Portanto, Trump não quer nacionalizar a contagem dos votos –como ameaçou fazer semana passada– para corrigir esse problema inexistente. O plano, parece óbvio, é inventar uma mutreta para reclassificar cidadãos americanos como eleitores irregulares.

Na eleição em que perdeu em 2020, Trump foi gravado ordenando que o secretário de estado da Geórgia "encontrasse" os 11.780 votos que lhe garantiriam virar o estado a seu favor. O secretário, um republicano honesto, recusou-se a participar da fraude.

Após anos de completo aparelhamento do Partido Republicano –que controla o Congresso e a Suprema Corte–, Trump sabe que seus novos subordinados não terão dificuldades para "encontrar" votos na próxima eleição.

Afinal, quem se recusar pode se deparar com a fúria da base trumpista. E ela já aprendeu, com a anistia aos invasores do Capitólio, que qualquer crime que cometa será perdoado pelo presidente.

Secretário de Segurança de SP diz que demissão de aliados de Derrite partiu de indicado por Tarcísio, FSP

 Carlos Petrocilo

São Paulo

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Osvaldo Nico, confirma que a exoneração de ao menos 14 pessoas ligadas ao seu antecessor, Guilherme Derrite, partiu de escolhas do novo número 2 da pasta, o coronel Henguel Ricardo Pereira.

Desafeto de Derrite, Henguel era secretário-chefe da Casa Militar e coordenador da Defesa Civil, dando expediente no Palácio dos Bandeirantes. Ele foi nomeado para a pasta da Segurança por Tarcísio de Freitas com a missão de expurgar os aliados do antigo secretário, que vivia processo de desgaste com o governador.

Dois homens vestidos com ternos escuros e gravatas estão próximos um do outro. O homem à esquerda, com cabelo grisalho, olha para frente com expressão séria e levanta o polegar da mão direita. O homem à direita, de cabelo curto e escuro, sorri enquanto ajusta a lapela do terno do outro homem. O fundo é desfocado, sugerindo um ambiente externo com estrutura metálica.
Nico e o seu antecessor no comando da Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite - Danilo Verpa - 1º.dez.25/Folhapress

Nico, que era o secretário-executivo de Derrite, afirma que as demissões são algo natural e rejeitou qualquer embaraço com o antecessor.

"É uma coisa normal, sempre as pessoas que chegam trazem outra turma. Quando o Derrite assumiu, trouxe a turma dele. E o Henguel trouxe as pessoas de confiança dele", afirmou.

Ele deu como exemplo trocas feitas por Derrite ao assumir a pasta. "Lembre quando o Derrite mudou mais de 30, 34 coronéis. Não tem polêmica nenhuma, e eu falo com o Derrite todo dia. O meu espírito é mais de conciliar. Nossos inimigos são os bandidos", prosseguiu Nico.

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As exonerações, antecipadas pela Folha na quarta-feira (4), fazem parte de um processo de meses de desgaste entre Tarcísio e Derrite. O governador deu carta-branca para Henguel, empossado na segunda, fazer as mudanças.

Deputado eleito, Derrite deixou o comando da SSP no final de 2025 para voltar ao Congresso e focar em sua campanha ao Senado pelo PP.

O gesto trouxe alívio para o governador, que se incomodava com uso da secretaria por parte de Derrite para pavimentar sua campanha política.

Por outro lado, Derrite vinha se queixando da falta de investimento na área de segurança, uma das principais promessas de campanha de Tarcísio.

Victor Srougi - Atenção, você pode ser uma commodity para o seu médico, FSP

 Victor Srougi

Médico urologista, é assistente-doutor da Divisão de Urologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, pós-graduado em urologia pelo Instituto Montsouris (Universidade de Paris)

Um amigo e paciente teve o azar de adquirir um câncer agressivo, dos que concedem poucas chances de revidar. O percurso foi longo, afligindo amargamente o coração dos que acompanharam o sofrimento de um pai, despedindo-se a prazo daqueles que cresceriam sem a sua presença.

No processo de esvaecimento do corpo, de tudo foi tentado. Cirurgias, drogas, suplementos e dietas. Algumas ações retardaram a doença. Outras passaram desapercebidas pelo tumor inescrupuloso. E quando o fim já era inevitável, de tudo continuou sendo tentado. É surpreendentemente difícil jogar a toalha, admito. Mas isso não justifica tratamentos exagerados e indevidos, que nem prolongam a existência nem aliviam o sofrimento.

Profissionais de saúde praticam reanimação cardiopulmonar em manequim adulto em ambiente hospitalar. Um aplica compressões torácicas enquanto outro utiliza bolsa de ventilação manual para insuflar ar no manequim.
Doutorandos de medicina durante aula em centro de simulação - Carlos Macedo - 30.mai.25/Folhapress

Enquanto a família padecia, um grupo de médicos com motivação questionável se gabava pelos corredores do hospital sobre o desafio clínico que enfrentavam. No final, o que restou foi uma família melancólica e endividada.

A história nem sempre é tão trágica, mas expõe um fenômeno crescente: a prática médica tem se transformado num mercado de commodities, cuja mercadoria é o paciente. Movidos por incentivos financeiros ou ambição profissional, médicos e instituições induzem a demanda por intervenções excessivas, muitas vezes sem benefícios clínicos proporcionais. Paralelamente, vem aumentando a supermedicalização, que trata aspectos normais da vida como se fossem doenças. O saldo são mais diagnósticos e prescrições. As cifras sobem. O resultado é uma inversão ética: o bem do paciente se tornou secundário ao interesse do médico.

Um dos motivos para tal situação é a competição, que exacerbou o aspecto mercantilista dos médicos. Em 2025, foi autorizada a abertura de 77 novos cursos de medicina no Brasil, somando um total de 494 escolas. Em 2015, eram 274. A cada ano, serão cerca de 50 mil egressos nesses cursos.

Seria ótima a notícia, porém, longe da utopia, os habitantes dos rincões mais ermos do nosso país continuam aguardando aparecer alguém de avental branco. A Organização Mundial da Saúde recomenda que uma nação tenha acima de 2,5 médicos para cada mil habitantes. Segundo o Conselho Federal de Medicina (CFM) e Cremesp (conselho paulista), a média nacional é de 2,8, no estado de São Paulo é de 3,7 e na cidade de São Paulo é de 6,7.

Com a concorrência acirrada, as instituições e os médicos disputam o mercado dente a dente e, eventualmente, surgem ações imoderadas. Alguns exames excedentes, dias de internação a mais e tratamentos "café com leite" giram a engrenagem das companhias de saúde e somam pontos para o médico. Sorte também dos gestores e acionistas. Azar do paciente.

Não me levem a mal. Não sou contra o marketing e competição saudáveis, que, aliás, estimula empenho e aprimoramento. No final do dia, os médicos também têm que pagar suas contas, assim como vendedores, empresários ou outros profissionais. Mas um médico que busca, acima de tudo, satisfazer suas vaidades ou engordar a conta bancária, esqueceu-se do principal. Devem se lembrar que do outro lado da mesa há um ser humano buscando usufruir da vida com dignidade ou mesmo lutando pela vida.

Outra razão talvez seja o imediatismo de uma geração regida pelo smartphone. A sociedade contemporânea tornou-se intolerante ao tempo, ao processo, à espera. Não surpreende que busque também na medicina respostas instantâneas para desconfortos e frustrações inevitáveis da condição humana. Em um mundo que rejeita a demora, a temperança cede lugar a pílulas, injeções e procedimentos que prometem resultados rápidos.

O ser humano aceita mal a implacável decadência do corpo. Muitos culpam algum número insignificante nos exames pelas mazelas do envelhecimento. Indivíduos saudáveis se submetem a tratamentos mirabolantes para resultados pífios e controversos. Temos demanda e mercado. O cenário é perfeito para vender soluções.

O horizonte é desanimador. Mais de 30% dos cursos de medicina tiveram nota abaixo do exigido pelo MEC em 2025. O que esperar dos futuros médicos? O humanismo é difícil de ensinar e mesmo as faculdades mais conceituadas são incompetentes nessa missão. Desanimado, tenho esperança de que os valores e virtudes que formarão um bom médico, que trate um ser humano como tal, sejam transmitidos em casa.

Parafraseando Geraldo Vandré e plagiando meu pai, o urologista Miguel Srougi, que escreveu nesta Folha e inspirou milhares com humanismo: "Gado a gente marca, tange, fere, engorda e mata. Mas com gente é diferente".