domingo, 8 de fevereiro de 2026

Trump é cabo eleitoral inesperado de Lula, até agora, Editorial FSP

 Boa parte do sucesso dos dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se deveu a uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável para os países exportadores de produtos primários agrícolas e minerais.

Impulsionado pela demanda da China, o boom de commodities catapultou o crescimento de economias emergentes e, no caso brasileiro, levou a um aumento da arrecadação de impostos que equilibrou as contas públicas.

Lula teve a sensatez de aproveitar o período para acumular vultosas reservas em dólar e, ao contrário do que fizeram seus congêneres na Venezuela e na Argentina, não dilapidou os ganhos da bonança. Sua sucessora e correligionária, Dilma Rousseff, é que poria tudo a perder.

Neste seu terceiro mandato, o líder petista não conta com ventos externos tão favoráveis nem mostra a prudência orçamentária de outrora, o que faz antever uma disputa árdua pelo Planalto em outubro. Ele conseguiu, porém, um cabo eleitoral inesperado —Donald Trump.

A primeira grande ajuda involuntária do presidente americano ao brasileiro foi o estúpido choque tarifário, no ano passado, descaradamente apresentado como retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.

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Ali, o republicano logrou a tripla proeza de entregar a Lula o papel de defensor dos interesses nacionais ante uma agressão estrangeira, tornar a condenação de Bolsonaro ato de soberania institucional e opor lideranças de direita às forças produtivas.

Foi um erro tão crasso que até o tresloucado Trump o percebeu. O tarifaço foi abrandado, a defesa da causa bolsonarista foi esquecida e um diálogo amistoso com o petista foi iniciado.

O republicano é pródigo em trapalhadas, entretanto. À desordem provocada por sua ofensiva protecionista somam-se ataques ao banco central e tumultos geopolíticos que incluem até uma afronta aos aliados da Otan com a cobiça pela Groenlândia.

A consequência econômica direta do desgoverno nos Estados Unidos é o enfraquecimento do dólar, que favorece o Brasil e Lula de modo mais duradouro. Esta segunda metade de mandato seria mais amarga se a cotação da moeda americana permanecesse na casa dos R$ 6, patamar atingido ao final de 2024 em razão da deterioração das finanças do Tesouro.

Graças à taxa de câmbio, hoje pouco acima dos R$ 5,20, o controle da inflação foi facilitado e o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes dos juros, evitando desaceleração mais grave da economia. Ao mesmo tempo, capitais que deixam os EUA alimentam recordes na Bolsa de Valores, celebrados por Lula como evidência de acertos de seu governo.

Não é um trunfo dos mais seguros, todavia. Trata-se de dinheiro especulativo, que pode deixar o país tão rapidamente quanto entrou —ainda mais se a credibilidade da política econômica doméstica continuar a se esvair.

editoriais@grupofolha.com.br

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O alto valor das emendas parlamentares, Bráulio Borges, FSP

 Segundo dados do portal Siga Brasil, do Senado, o gasto total do governo federal com emendas parlamentares atingiu R$ 45,4 bilhões em 2025, levando em conta tanto o pagamento de emendas referentes ao ano passado como os restos a pagar de anos anteriores. Em 2024, esse montante havia sido de R$ 42,6 bilhões (valor já atualizado pela inflação do IPCA). A leitura de 2025 corresponde ao maior valor da série histórica, iniciada em 2015.

Como é amplamente sabido, o grande salto nessas despesas ocorreu de 2020 em diante: na média de 2016/17, o gasto anual havia sido de cerca de R$ 6,6 bilhões. Em 2020 já subiu para quase R$ 30 bilhões, nível que se manteve em 2021 e 2022 (R$ 32 bilhões). No período de 2023 a 2025, tivemos mais uma rodada de elevação, chegando aos R$ 45 bilhões citados anteriormente. O Orçamento aprovado pelo Congresso no final do ano passado previa R$ 61 bilhões em 2026, mas o presidente Lula vetou pouco mais de R$ 7 bilhões desse montante em meados de janeiro.

Área extensa de floresta desmatada e queimada no centro da imagem, cercada por vegetação densa e verde. Uma estrada de terra clara corta a imagem da parte inferior até o topo, passando ao lado da área desmatada. Pequenas construções ou estruturas estão visíveis próximas à estrada, em meio à vegetação.
Trecho de estrada no Acre feita com recursos de emendas parlamentares e sem o devido processo de licenciamento ambiental - Henrique Santana - 3.out.25/Folhapress

A despeito de esse veto presidencial ter sido modesto —afinal, um valor de cerca de R$ 54 bilhões ainda representa um acréscimo expressivo ante os R$ 45 bilhões do ano passado—, os congressistas reclamaram, como se esse patamar já não fosse uma excrescência.

Em um artigo que preparei para a revista Conjuntura Econômica, do FGV Ibre, em meados do ano passado, tentei aquilatar qual deveria ser o montante de gastos com emendas caso tomássemos como referência os Estados Unidos. Se o Brasil adotasse a regra vigente naquele país desde 2021 —que limita as emendas a 1% das despesas discricionárias—, os gastos deveriam ter sido de aproximadamente R$ 2 bilhões, ou seja, apenas 4,4% do valor efetivamente pago no ano passado.

Alguém poderia contra-argumentar dizendo que o montante de despesas discricionárias no Brasil está sendo cada vez mais espremido pelas despesas obrigatórias, de modo que adotar a métrica acima não corresponderia a uma comparação muito "justa".

Desse modo, preparei outras duas comparações: o peso do gasto das emendas no PIB e o peso no total de gastos primários do governo federal. Usando esses referenciais, os gastos com emendas no Brasil deveriam ter sido de no máximo R$ 6 bilhões no ano passado –ou seja, semelhante ao patamar observado em 2016/17, antes do início da "marcha da insensatez".

O gigantismo assumido por essas emendas é altamente antidemocrático, ao conferir uma vantagem muito grande para os congressistas que buscam a reeleição ("incumbentes"), reduzindo a taxa de renovação do Congresso.

Mas talvez o pior aspecto desse fenômeno esteja associado à falta de transparência e rastreabilidade desses gastos, algo que, além de oferecer muitas oportunidades para desvios/corrupção, também dificulta (deliberadamente?) a realização de avaliações de custo-benefício das políticas públicas financiadas com esses recursos.

Dificilmente o Congresso irá reduzir esses montantes por vontade própria. Por isso é louvável o esforço que o ministro Flávio Dino, do STF, vem fazendo para tentar disciplinar esses gastos.

Não obstante, eu acho cada vez mais que somente um evento traumático –como um novo escândalo dos "anões do Orçamento"– permitirá que esses valores sejam reduzidos —idealmente para algo mais próximo do observado antes da pandemia. Não parece ser um cenário que se possa descartar, uma vez que o noticiário aponta que cerca de 80 de parlamentares e ex-parlamentares estão sendo investigados pelo Supremo.

Recorde com petróleo em tempos de transição energética, editorial FSP

 O Brasil fechou 2025 com a marca histórica de produção média de 3,77 milhões de barris de petróleo por dia, um aumento de 12,3% sobre o recorde anterior de 2023. Em plena era de transição energética, o país ainda conta com resultados assim para atrair divisas e reduzir os déficits persistentes nas transações com o exterior e no Orçamento público.

As exportações do produto alcançaram US$ 44,6 bilhões no ano, liderando a pauta nacional. Esse sucesso se deve em grande parte ao saneamento financeiro e operacional da Petrobras após a dilapidação da estatal nas gestões petistas anteriores, marcadas por investimentos perdulários, endividamento excessivo, corrupção e desvios estratégicos.

A partir de 2016, a companhia revisou drasticamente seus negócios, desinvestiu em ativos não essenciais e concentrou recursos em exploração e produção. Com contas em ordem, mais enxuta e eficiente, no ano passado a Petrobras adicionou 1,7 bilhão de barris às reservas, descobrindo 1,7 barril para cada barril produzido —o suficiente para quase 13 anos de extração no ritmo atual.

O foco em maximizar a eficiência de extração em campos petrolíferos já descobertos, como Tupi, Búzios, Mero e Itapu, permitiu elevar a produção em bases financeiramente saudáveis, sem os excessos do passado.

Os recordes também irrigam as contas públicas. Royalties e participações especiais representam parcela relevante das receitas federais e, sobretudo, dos estados e municípios produtores. Esses recursos financiam saúdeeducação e programas sociais, demonstrando que o petróleo, quando bem gerido, ainda pode contribuir diretamente para o bem-estar da população.

Outro aspecto positivo é a participação crescente de empresas privadas no setor. Em dezembro de 2025, a Petrobras respondeu por menos de dois terços da produção total, o que prova o acerto da abertura, iniciada com o fim do monopólio estatal em 1997 e depois aprofundada, apesar das resistências ideológicas do PT.

Não se pode ignorar, entretanto, o contexto global de busca por energia não poluente. Investimentos futuros precisam avaliar cuidadosamente a viabilidade econômica à luz da descarbonização, e as divisas obtidas devem ajudar a financiar a transição.

Tudo indica que, enquanto houver demanda mundial, o que persistirá por décadas, o Brasil continuará apostando em combustíveis fósseis. Novas fronteiras —com destaque para a margem equatorial, na bacia da Foz do Amazonas— atraem a cobiça de governantes e investidores.

Compreende-se que uma economia de renda média não pretenda abrir mão de seus recursos naturais, porém cumpre planejar o futuro. A crença no desenvolvimento à base de receitas do petróleo explorado pelo Estado, espalhada da esquerda à direita no país, já se mostrava obsoleta antes mesmo das preocupações globais com a crise climática.

editoriais@grupofolha.com.br

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