domingo, 8 de fevereiro de 2026

Escândalo Master chega perto de Alcolumbre, Adriana Fernandes, FSP

 A operação da Polícia Federal contra a Amprev, fundo de previdência dos servidores do Amapá, assustou o mundo político pela proximidade com Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado e uma das autoridades mais influentes do país.

Não é uma conexão qualquer. A ação, que apura irregularidades em investimentos feitos no Banco Master, mirou o diretor-presidente da entidade, Jocildo Silva Lemos. Ele foi indicado para o cargo por Alcolumbre e também trabalhou como tesoureiro da sua campanha nas eleições de 2022.

Dois homens em trajes formais conversam em um ambiente interno. O homem à esquerda tem cabelo grisalho e uma barba bem cuidada, vestindo um terno azul e uma gravata com padrões. O homem à direita tem cabelo escuro e usa um terno escuro com uma gravata azul. Ambos parecem estar em uma conversa séria, com expressões focadas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversa com Davi Alcolumbre (União-AP), presidente do Senado Federal - Evaristo Sá/AFP

Para quem perdeu o fio da meada: o fundo botou R$ 400 milhões em títulos furados do Master e teve um prejuízo, como revelou a Folha, ao colocar dinheiro num fundo de investimentos administrado pelo banco de Daniel Vocaro, que aplicava quase toda a sua carteira em ações da Ambipar, empresa que fez parte do esquema. O incômodo é geral entre os políticos (aliados e opositores de Lula) porque, a esta altura do campeonato, esperava-se que a temperatura do caso fosse arrefecer com a pressão nos bastidores para abafar o caso.

A operação da PF mostrou o contrário. As investigações estão chegando perto de mais poderosos. O próximo passo caminha para conexões do Master com as bets e suas ligações perigosas com congressistas.

Lula determinou que o governo vá "às últimas consequências" nas investigações. Acha que o dano no seu governo e no PT está controlado e que até pode se beneficiar do escândalo. Desde que não chegue a comprometer as alianças políticas nas eleições.

A tempestade não passa e o clima vai ficando esquisito na capital. Tem presidente de partido da oposição, Ciro Nogueira (PP), procurando acordo com Lula, ministros do governo batendo na PF e senador aliado relebrando que Chico Lopes (ex-presidente do BC) já saiu preso de uma CPI.

Quem vê com lupa o cenário em Brasília diz que está ficando claro que o acordão em construção é um tiro certeiro para interromper a CPI do INSS e o governo Lula não avançar na CPI do Master. Um pouso suave para a campanha eleitoral começar.

Hélio Schwartsman - A batalha dos especialistas, FSP

 A multiplicação dos cursos de medicina lança no mercado uma legião de profissionais despreparados, como acabam de demonstrar os resultados do Enamed. Parte desse efeito se deve à precariedade das escolas e parte ao fato de estarmos recrutando alunos mais burros mesmo. Se até 20 anos atrás entrar num curso de medicina exigia aprovação em vestibulares hiperconcorridos, hoje o único requisito é dispor dos cerca de R$ 15 mil para pagar as mensalidades.

Usuários de serviços médicos tentarão se proteger. Um caminho é buscar consultar-se só com especialistas. Profissionais com título de especialista ou fizeram residência na área ou passaram numa prova, tipicamente difícil, ministrada pela sociedade médica correspondente. É um indicativo de qualidade.

Dois profissionais de saúde em jalecos brancos realizam treinamento de reanimação cardiopulmonar em manequim adulto sobre maca. Um aplica compressões torácicas enquanto o outro utiliza bolsa de ventilação manual.
Doutorandos em medicina durante aula de anestesiologia e reabilitação no centro de simulação do Hospital de Clínicas de Porto Alegre - Carlos Macedo - 30.mai.2025/Folhapress

À medida, porém, que o título de especialista se transforma em valor, mais atores se empenharão em obtê-lo ou em obter outras versões de um selo de qualidade que os diferencie. É nesse contexto que surgiu a Ordem Médica Brasileira (OMB), entidade que busca criar um sistema paralelo de certificação do título de especialista.

Há já um razoável estoque de médicos sem título, mas que fizeram pós-graduações "lato sensu". No sistema oficial, são apenas as sociedades médicas consorciadas à Associação Médica Brasileira (AMB) que os concedem e o Conselho Federal de Medicina (CFM) os reconhece. A OMB já trava batalhas judiciais com a AMB e o CFM.

A questão é complicada. Deixar a cargo das sociedades médicas, isto é, dos profissionais que já estão no mercado, definir quem poderá ou não entrar gera algum tipo de conflito de interesses. E não há muita dúvida de que o médico que cursou uma pós, ainda que em sentido lato e não estrito, tende a saber mais do que um que não cursou.

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A iniciativa da OMB, porém, tem o grave vício de criar uma enorme bagunça no sistema de titulação que deixará o usuário de serviços médicos sem saber onde pisa. Produtores de vinhos e queijos cuidam com mais carinho de seus selos de procedência e qualidade.


Lara Mesquita Eleições sob risco nos Estados Unidos, FSP

 O sistema eleitoral dos Estados Unidos é radicalmente diferente do brasileiro, e o processo de administração das eleições norte-americanas é um dos mais descentralizados do mundo.

Não existe uma autoridade nacional independente responsável por organizar eleições, como a Justiça Eleitoral brasileira. Lá, cada estado ou condado administra seus próprios registros de eleitores, define procedimentos administrativos e conduz a votação localmente. As autoridades que administram as eleições são frequentemente indicadas pelos governadores. Esse desenho institucional foi pensado para reduzir o risco de controle centralizado do processo eleitoral, evitando que o presidente da vez possa influenciar a organização e o resultado das eleições.

Placa azul e vermelha com texto em branco 'VOTE HERE' fixada no chão de calçada. Pessoa caminha ao fundo com mochila, próximo a blocos de pedra laranja.
Local de votação nas primárias americanas em Utah, em 2024 - George Frey - 5.mar.24/AFP

Quanto ao sistema eleitoral, além de adotar critério majoritário, lá o mandato dos deputados dura apenas dois anos, e dos senadores quatro. Por isso, no meio do mandato presidencial acontecem as eleições chamadas de meio de mandato ("midterm elections"), que são vistas como importante termômetro da aprovação ou desaprovação do presidente. É uma chance de os eleitores mudarem o balanço de poder garantindo maioria legislativa ao presidente ou de puni-lo com a perda dessa maioria.

O presidente Trump está bastante preocupado com o desempenho de seus aliados nas eleições de novembro. Desde sua posse o governo tomou uma série de iniciativas que têm preocupado as autoridades eleitorais estaduais, políticos, acadêmicos e organizações voltadas à saúde da democracia americana.

Um episódio simbólico foi a recente apreensão, pelo FBI, de centenas de caixas contendo cédulas, listas de eleitores e outros registros da eleição presidencial de 2020 no condado de Fulton, na Geórgia. Trata-se do mesmo estado da gravação em que Trump pede a seu correligionário, responsável pela gestão das eleições, que "encontrasse" os cerca de 11 mil votos necessários para ele vencer a disputa no estado em 2020. A operação ocorreu mesmo após múltiplas auditorias e recontagens que descartaram irregularidades.

O episódio ganhou contornos ainda mais incomuns com o envolvimento direto de autoridades de alto escalão do governo federal e com relatos de participação pessoal do presidente nas discussões sobre a investigação, o que pode abrir um perigoso precedente para novas intervenções federais durante processos eleitorais futuros.

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Paralelamente, o Departamento de Justiça solicitou a diversos estados acesso integral aos cadastros eleitorais. O governo do presidente Trump quer ter o poder de excluir eleitores dos cadastros estaduais.

O ambiente de tensão foi reforçado pelas declarações de Steve Bannon. O ex-estrategista de Trump afirmou que gostaria de ver agentes federais de imigração posicionados próximos a locais de votação nas eleições de meio de mandato que acontecem em novembro.

Em democracias consolidadas, a confiança nas eleições depende tanto das regras formais quanto da percepção de neutralidade das instituições que as administram. Ao tensionar essa fronteira, ações como as observadas nos últimos meses deixam de ser apenas disputas administrativas e passam a corroer a legitimidade do sistema eleitoral americano.