domingo, 8 de fevereiro de 2026

Monetização do jeitinho brasileiro ganha escala com amizade do poder com bandidos, VTF FSP

 

São Paulo

Em 2024, Ricardo Lewandowski comprou uma casa de Anajá de Oliveira Santos Yang por R$ 9,4 milhões, segundo relato de O Estado de S. Paulo, confirmado pelo próprio Lewandowski. Anajá é casada com Alan de Souza Yang. Faz década e meia, Alan, o "China", é investigado por adulteração de combustível, pelo que já foi condenado, e rolos maiores.

Não há indício de que a compra de Lewandowski tenha relação com rolos de China. Na verdade, o ex-ministro da Justiça e do STF deve ter sido vítima de golpe. Se a empresa de administração de patrimônio imobiliário de Lewandowski e família, que comprou a casa, tivesse verificado quem era o marido de Anajá, poderia ter descoberto com pesquisa corriqueira de internet que China era enrolado.

A imagem mostra uma escultura da Justiça em primeiro plano, com uma figura feminina de olhos vendados e segurando uma balança. Ao fundo, há um grupo de policiais em trajes táticos, observando a área. O ambiente parece ser um espaço público, com grandes janelas e uma decoração moderna.
Movimentação de grades e policiamento na Praça dos Três Poderes, em Brasília, um dia antes do julgamento da trama golpista de Jair Bolsonaro. - Gabriela Biló 1º.set.2025/Folhapress

Mas esse é um problema privado, até onde se sabe. Interessa é que os "Chinas" passeiam no mundo do poder. Por outro lado, cada vez mais gente da elite é flagrada agindo como "Chinas" —negocia imóveis com dinheiro vivo, oculta participações societárias por meio de fundos de investimento, faz do crime ambiental um negócio ou escraviza trabalhadores.

China é associado a cabeças de empresas criminosas de combustíveis, segundo investigações da Carbono Oculto. São eles Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", e Mohamad Hussein Mourad, o "Primo", foragidos e que negociam delação premiada.

Beto Louco e Primo se valiam de fintechs e fundos de investimento para lavar dinheiro, em parte talvez do PCC, segundo investigadores. Alguns desses fundos eram geridos pela Reag. Antes da ruína, era a maior empresa do ramo, afora aquelas de bancões. A Reag era de João Carlos Falbo Mansur, acusado de se associar a rolos de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master. Vorcaro contratou serviços de Lewandowski, da família de Alexandre de Moraes e de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda. Fundos da família de Vorcaro tinham negócios com a família de Dias Toffoli.

Tudo isso é sabido, quanto a indícios gritantes do esquemão criminoso. No mais, inexiste indício material de associação de Lewandowski, Moraes, Mantega e Toffoli com irregularidades.

Evidente é que a elite se relaciona ou confraterniza com "Chinas" ou é variante "lavada" de "Chinas". Não deveria causar escândalo novo. Por exemplo, um só, Jair Bolsonaro e família além de tudo confraternizavam e trocavam dinheiros com gente da milícia do Rio de Janeiro. Por falar nisso, Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente, comprava imóveis com dinheiro vivo, na tradição familiar.

Sob certo aspecto, o problema da corrupção é superestimado. É a explicação preferida da ciência política e da economia dos pobres de espírito e assunto de demagogo. Sem corrupção e "gastos com político", haveria dinheiro até para tapar déficits, se diz —não é o caso, nem de longe.

Mas a corrupção é um sistema de apodrecimento institucional que se autoperpetua, não só porque o dinheiro financia carreiras e feudos da política. É fator de desgraça econômica, como na ineficiência no uso do Orçamento. No mínimo corrupção moral (networking de favores) pode ser o motivo de tanta lei de efeito econômico desastroso ser aprovada, de subsídios para empresas, como no setor elétrico, a favores como escapar da reforma tributária ou do corte de benefícios tributários.

Tem gente que chama de "lobby" essa variante da monetização do jeitinho nacional. O "lobista" pode ser um "China" muito maior e pior.

Uma leitura útil para Lula antes de falar com Trump, ELio Gaspari, FSP

 Antes de embarcar para Washington, valeria a pena que Lula lesse as conversas de seus antecessores com os presidentes americanos.

São parecidas, com o brasileiro apresentando algum tipo de pleito.

O ponto fora da curva foi o encontro do general Emílio Médici com Richard Nixon. Médici só lhe fez uma insinuação, embutindo um pedido, a promoção a general do coronel Arthur Moura.

Descendente de açorianos, o coronel Moura falava um português impecável e transitava com rara facilidade, do porão ao Alto Comando.

Nixon atendeu o pedido, em termos claros: "Isto é uma ordem e não quero ouvir conversas de burocratas".

Emílio Garrastazu Médici (ao centro) na inauguração do estádio do Morumbi em São Paulo - 25.jan.70/Folhapress

Moura foi a general e ficou no Brasil até 1975. Mais tarde, trabalhou na empreiteira Mendes Júnior.

Um diplomata que serviu a esse tempo na embaixada contou: "O verdadeiro orientador político da embaixada era o general Moura. Eu participei de reuniões que ele praticamente presidia".

Moura era um protegido do general Vernon Walters a quem conheceu como tenente. Em 1971, Walters foi o intérprete da conversa de Médici com Nixon e dias depois escreveu ao amigo: "Arthur, a tua estrela está garantida".

A pássaro no Post

Em 2013, quando Jeff Bezos comprou o diário Washington Post, sua entrada no negócio foi saudada como uma redenção.

Bastaram três anos para que o encanto se quebrasse.

jornal anunciou que demitirá um terço de seus funcionários. Sua redação, que tem cerca de 800 jornalistas, mandará embora 300.

O Post esteve nas mãos de um banqueiro, cujo genro era considerado um gênio, até que começou a ter um comportamento errático e meteu uma bala na cabeça.

O Post ficou para a herdeira Katharine Graham (1917-2001), uma simples viúva rica.

Foi com ela que o Post viveu seus dias de glória, com o escândalo do Watergate. Kay Graham foi tudo isso e também a mais requisitada figura da vida social no serpentário de Washington.

Há palestras e pale$tra$ de ministros do STF, ELio Gaspari, FSP

 Liderando a bancada do Supremo Tribunal Federal que se opõe à pactuação de um código de conduta pela corte, o ministro Alexandre de Moraes argumentou que, "como o magistrado só pode dar aulas e palestras, passaram a demonizar as palestras".

Será?

Ministro careca veste toga preta sobre terno azul e gravata lilás, falando ao microfone em ambiente institucional.
Ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes em sessão da Primeira Turma - Rosinei Coutinho - 16.dez.25/Divulgação STF

Em julho de 2023, o ministro viu-se envolvido num lastimável episódio no aeroporto de Roma quando foi insultado por bolsonaristas. Na versão inicial, Moraes vinha de uma palestra na renomada Universidade de Siena. Instituição milenar, sua faculdade de direito lustraria a biografia do magistrado, mas o repórter Eduardo Oinegue mostrou que a coisa não era bem assim.

O Fórum Internacional de Direito, patrono do evento, pertencia à empresa UniAlfa, controladora de uma faculdade de direito de Goiânia, todas integrantes do Grupo José Alves, dono de um laboratório onde produzia a ivermectina, prima da cloroquina.

O fórum onde Moraes falou reuniu-se antes na cidade espanhola de Valladolid. Dos 31 conferencistas arrolados pelos eventos, 20 eram brasileiros e 11 pertenciam aos quadros da UniAlfa.

Quem demonizou o quê? Em 2024, um ministro do Supremo recebia R$ 44 mil mensais. Era um bom dinheiro, acompanhado de uma invejável infraestrutura. Aquele ano foi o do esplendor das farofas de magistrados. Entre junho de 2023 e maio de 2024, os juízes estiveram presentes em ao menos 22 agendas internacionais. Quase todas no circuito Elizabeth Arden (ParisLondresNova York e Roma.)

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Quem demonizou as palestras foram os magistrados metidos em farofas demoníacas. Registre-se que os juízes não têm o monopólio dessas farofas nem a anomalia é brasileira. O genial juiz Antonin Scalia, da Corte Suprema dos Estados Unidos, morreu em 2016 durante uma farofa. Em 2024, o ex-primeiro ministro inglês Tony Blair —farofeiro cosmopolita— participou de um evento em Londres. Pagou pela sua presença o falecido Banco Master.

É impossível criar-se uma métrica para o valor de palestras. Mesmo assim, para servidores ativos do Estado e até mesmo para jornalistas, é razoável acreditar que uma palestra vale, no máximo, a quarta parte dos vencimentos mensais do bem-aventurado. Afinal, ele cobrará a remuneração de uma semana por um ou dois dias de trabalho.

Pelo andar da carruagem, o código de conduta de Fachin e Cármen Lúcia faz água. Quanto mais condutas condenáveis houver, maiores serão as dificuldades.

As palestras são a parte mais visível da erosão do Supremo, e não se consegue sequer que os magistrados informem quanto receberam ou de quem.

Se tão pouco é tão difícil, mexer com exuberantes parentelas seria tarefa de Hércules. Pode-se torcer pelo código, mas pode-se também acompanhar cada passo do seu funeral ou da sua diluição.