domingo, 8 de fevereiro de 2026

Hélio Schwartsman - O jogo da linguagem, FSP

 A linguagem humana está fundada na biologia ou é o resultado de uma grande gambiarra cultural? Morten Christiansen e Nick Chater, autores de "O Jogo da Linguagem", apostam na segunda alternativa. Embora ambos tenham sido treinados no paradigma da linguística chomskyana, que pressupõe uma espécie de instinto biológico para a linguagem, eles mudaram de lado e defendem que os idiomas humanos se originaram num exercício de improvisação, um grande jogo de mímica, no qual indivíduos ávidos por se comunicar se valem de gestos, expressões faciais e sons para fazer-se entender. E, se você joga mímica várias vezes com as mesmas pessoas, logo emergem maneirismos e simplificações que são compreendidos por todos. Num processo análogo a esse é que teriam surgido palavras e as estruturas gramaticais que desembocaram nas nossas línguas.

Annette Schwartsman

É um conceito que tem pedigree filosófico. Wittgenstein fala em jogos de linguagem. Johan Huizinga, que lamentavelmente não é citado no livro, também desenvolveu ideias interessantes a respeito. Mas Christiansen e Chater, sem ignorar a dimensão filosófica da proposta, se esforçam para dar-lhe substrato linguístico e das ciências cognitivas. Achei que eles montaram um bom caso. Seria obviamente precipitado afirmar que eles destronam Chomsky e seguidores como Steven Pinker, autor de "O Instinto da Linguagem", mas provocam um interessantíssimo debate.


Num texto gostoso de ler, dirigido a não especialistas, e rico em exemplos, eles visitam os grandes temas chomskyanos, como a recursividade, a extrema facilidade com que crianças aprendem a falar (o que seria uma evidência da base biológica) e o lugar da sintaxe na comunicação. Dão também uma atiçada na imorredoura dicotomia biologia x cultura. Abordam ainda questões prementes da modernidade, como a inteligência artificial (IA) e seus modelos de linguagem. Nesse ponto voltam a aproximar-se de Chomsky. Eles são todos bastante céticos em relação à possibilidade de as IAs serem inteligentes de verdade.

Trump é cabo eleitoral inesperado de Lula, até agora, Editorial FSP

 Boa parte do sucesso dos dois primeiros governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se deveu a uma conjuntura internacional excepcionalmente favorável para os países exportadores de produtos primários agrícolas e minerais.

Impulsionado pela demanda da China, o boom de commodities catapultou o crescimento de economias emergentes e, no caso brasileiro, levou a um aumento da arrecadação de impostos que equilibrou as contas públicas.

Lula teve a sensatez de aproveitar o período para acumular vultosas reservas em dólar e, ao contrário do que fizeram seus congêneres na Venezuela e na Argentina, não dilapidou os ganhos da bonança. Sua sucessora e correligionária, Dilma Rousseff, é que poria tudo a perder.

Neste seu terceiro mandato, o líder petista não conta com ventos externos tão favoráveis nem mostra a prudência orçamentária de outrora, o que faz antever uma disputa árdua pelo Planalto em outubro. Ele conseguiu, porém, um cabo eleitoral inesperado —Donald Trump.

A primeira grande ajuda involuntária do presidente americano ao brasileiro foi o estúpido choque tarifário, no ano passado, descaradamente apresentado como retaliação ao julgamento de Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.

PUBLICIDADE

Ali, o republicano logrou a tripla proeza de entregar a Lula o papel de defensor dos interesses nacionais ante uma agressão estrangeira, tornar a condenação de Bolsonaro ato de soberania institucional e opor lideranças de direita às forças produtivas.

Foi um erro tão crasso que até o tresloucado Trump o percebeu. O tarifaço foi abrandado, a defesa da causa bolsonarista foi esquecida e um diálogo amistoso com o petista foi iniciado.

O republicano é pródigo em trapalhadas, entretanto. À desordem provocada por sua ofensiva protecionista somam-se ataques ao banco central e tumultos geopolíticos que incluem até uma afronta aos aliados da Otan com a cobiça pela Groenlândia.

A consequência econômica direta do desgoverno nos Estados Unidos é o enfraquecimento do dólar, que favorece o Brasil e Lula de modo mais duradouro. Esta segunda metade de mandato seria mais amarga se a cotação da moeda americana permanecesse na casa dos R$ 6, patamar atingido ao final de 2024 em razão da deterioração das finanças do Tesouro.

Graças à taxa de câmbio, hoje pouco acima dos R$ 5,20, o controle da inflação foi facilitado e o Banco Central pode iniciar um ciclo de cortes dos juros, evitando desaceleração mais grave da economia. Ao mesmo tempo, capitais que deixam os EUA alimentam recordes na Bolsa de Valores, celebrados por Lula como evidência de acertos de seu governo.

Não é um trunfo dos mais seguros, todavia. Trata-se de dinheiro especulativo, que pode deixar o país tão rapidamente quanto entrou —ainda mais se a credibilidade da política econômica doméstica continuar a se esvair.

editoriais@grupofolha.com.br

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O alto valor das emendas parlamentares, Bráulio Borges, FSP

 Segundo dados do portal Siga Brasil, do Senado, o gasto total do governo federal com emendas parlamentares atingiu R$ 45,4 bilhões em 2025, levando em conta tanto o pagamento de emendas referentes ao ano passado como os restos a pagar de anos anteriores. Em 2024, esse montante havia sido de R$ 42,6 bilhões (valor já atualizado pela inflação do IPCA). A leitura de 2025 corresponde ao maior valor da série histórica, iniciada em 2015.

Como é amplamente sabido, o grande salto nessas despesas ocorreu de 2020 em diante: na média de 2016/17, o gasto anual havia sido de cerca de R$ 6,6 bilhões. Em 2020 já subiu para quase R$ 30 bilhões, nível que se manteve em 2021 e 2022 (R$ 32 bilhões). No período de 2023 a 2025, tivemos mais uma rodada de elevação, chegando aos R$ 45 bilhões citados anteriormente. O Orçamento aprovado pelo Congresso no final do ano passado previa R$ 61 bilhões em 2026, mas o presidente Lula vetou pouco mais de R$ 7 bilhões desse montante em meados de janeiro.

Área extensa de floresta desmatada e queimada no centro da imagem, cercada por vegetação densa e verde. Uma estrada de terra clara corta a imagem da parte inferior até o topo, passando ao lado da área desmatada. Pequenas construções ou estruturas estão visíveis próximas à estrada, em meio à vegetação.
Trecho de estrada no Acre feita com recursos de emendas parlamentares e sem o devido processo de licenciamento ambiental - Henrique Santana - 3.out.25/Folhapress

A despeito de esse veto presidencial ter sido modesto —afinal, um valor de cerca de R$ 54 bilhões ainda representa um acréscimo expressivo ante os R$ 45 bilhões do ano passado—, os congressistas reclamaram, como se esse patamar já não fosse uma excrescência.

Em um artigo que preparei para a revista Conjuntura Econômica, do FGV Ibre, em meados do ano passado, tentei aquilatar qual deveria ser o montante de gastos com emendas caso tomássemos como referência os Estados Unidos. Se o Brasil adotasse a regra vigente naquele país desde 2021 —que limita as emendas a 1% das despesas discricionárias—, os gastos deveriam ter sido de aproximadamente R$ 2 bilhões, ou seja, apenas 4,4% do valor efetivamente pago no ano passado.

Alguém poderia contra-argumentar dizendo que o montante de despesas discricionárias no Brasil está sendo cada vez mais espremido pelas despesas obrigatórias, de modo que adotar a métrica acima não corresponderia a uma comparação muito "justa".

Desse modo, preparei outras duas comparações: o peso do gasto das emendas no PIB e o peso no total de gastos primários do governo federal. Usando esses referenciais, os gastos com emendas no Brasil deveriam ter sido de no máximo R$ 6 bilhões no ano passado –ou seja, semelhante ao patamar observado em 2016/17, antes do início da "marcha da insensatez".

O gigantismo assumido por essas emendas é altamente antidemocrático, ao conferir uma vantagem muito grande para os congressistas que buscam a reeleição ("incumbentes"), reduzindo a taxa de renovação do Congresso.

Mas talvez o pior aspecto desse fenômeno esteja associado à falta de transparência e rastreabilidade desses gastos, algo que, além de oferecer muitas oportunidades para desvios/corrupção, também dificulta (deliberadamente?) a realização de avaliações de custo-benefício das políticas públicas financiadas com esses recursos.

Dificilmente o Congresso irá reduzir esses montantes por vontade própria. Por isso é louvável o esforço que o ministro Flávio Dino, do STF, vem fazendo para tentar disciplinar esses gastos.

Não obstante, eu acho cada vez mais que somente um evento traumático –como um novo escândalo dos "anões do Orçamento"– permitirá que esses valores sejam reduzidos —idealmente para algo mais próximo do observado antes da pandemia. Não parece ser um cenário que se possa descartar, uma vez que o noticiário aponta que cerca de 80 de parlamentares e ex-parlamentares estão sendo investigados pelo Supremo.