domingo, 18 de janeiro de 2026

Ruy Castro - As tripas das palavras- FSP

 

Já contei aqui que Tom Jobim não gostava de falar sobre música. Ela só existia em sua cabeça e se destinava ao piano, não a papos de botequim. O que o fascinava nas rodas de amigos era conversar sobre a língua portuguesa discutir a origem das palavras, o uso que fazíamos delas, do que consistiam suas tripas. Em certa época, um de seus assuntos favoritos eram as palavras de origem árabe. E, à menor solicitação, desfiava-as: "Alarido, alambique, alaúde, albornoz, Albuquerque, alcachofra, alcaçuz, alcaide, álcool, alface, alcateia...", não em ordem alfabética, como escrevi, mas à medida que lhe ocorriam.

Mas, claro, Tom não era um linguista. As palavras em "al" são uma espécie de clichê da matéria, e ele ficaria surpreso de saber que os arabismos em português abrangem muito mais formas. Palavras como aduana, atum, azar, azeite, azul, enxoval, girafa, safári, salamaleque, sucata, sultão, xadrez, xerife e zarabatana também são. Assim como açougue, armazém, azeitona, cetim, elixir, espinafre, fulano, haxixe, laranja, limão, tabefe, talco, tarifa e zero.

Infelizmente, também não sou linguista e, antes que me perguntem de onde tirei tudo isso, informo que foi num artigo do titular de língua e literatura árabe da USP, o professor Mamede Mustafá Jarouche, na edição de fim do ano da indispensável revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, dirigida por Rosiska Darcy de Oliveira. Uma das surpresas do texto foi a palavra "caramba", com o mesmo sentido de surpresa. Outra, a de "tomara" —do árabe "atamma-llah", ou "se Deus quiser".

Conhecer a formação das palavras pode abalar conceitos que acolhemos de ouvido e nem sempre têm a ver com a realidade. Como, por exemplo, ao aprender com o professor Mamede que "mulato" e "mulata" vêm de "muladi" ("muwallad", em árabe clássico), com o sentido de mestiço, "nascituro de casamento interétnico, no caso, árabes e visigodos". Nenhuma relação, portanto, entre "mulato" e "mula".

Vivendo e aprendendo, já dizia o Conselheiro Acácio.

O homem impossível, Helio Schwartsman, FSP

 Ele é um dos maiores físicos matemáticos de todos os tempos, mas nunca gostou muito de álgebra, com a qual tem até um pouco de dificuldade. Se há algo com o que ele nunca teve problema, foi em contrariar consensos científicos, mesmo os justificáveis. Estamos falando de Roger Penrose, um cientista para lá de singular. Foram, aliás, seus estudos sobre outro tipo de singularidade, os buracos negros, que lhe valeram o Nobel de Física de 2020.

Annette Schwartsman

"The Impossible Man", de Patchen Barss, pela riqueza dos detalhes e pela densidade psicológica que transmite, é uma biografia que impressiona. Mas Barss corre riscos. Ele violou o primeiro mandamento de Ruy Castro, que é o de jamais biografar pessoas vivas, para não se ver traído pelo personagem. Penrose, aos 94, segue vivo e atuante.

Penrose é a materialização do poder da geometria. Ele parece ser capaz de enxergar as várias dimensões do universo. Essa forma singular de pensar o levou a desenvolver teorias como a dos twistores, que, se não bastaram para unificar a mecânica quântica com a relatividade geral, serviram para pôr a discussão num patamar mais refinado. O veio geométrico aparece em sua dimensão estética. Penrose criou os mosaicos de Penrose e concebeu dezenas de "figuras impossíveis" com as quais alimentava o genial artista gráfico holandês MC Escher.

Embora Penrose tenha colaborado bastante com Barss —eles conversaram semanalmente ao longo de cinco anos—, "The Impossible Man" não é uma biografia oficial. Há vários momentos em que o biografado não aparece muito bem. Devido a suas ideias exóticas sobre consciência quântica, Penrose se envolveu com figuras controversas como Stuart Hameroff. E foi por pouco que não se deixou financiar por Jeffrey Epstein.

Outra dimensão em que o biografado não se sai bem são as relações familiares. Pai ausente e marido distante, Penrose jamais hesitou em sacrificar relacionamentos pelo trabalho. Barss até tenta evitar, mas achei que, nessa parte, o livro adquire um tom meio moralista.

Mais cuidado com as áreas verdes de São Paulo, FSP

 

Área de construção em zona urbana com máquinas pesadas, incluindo escavadeira e equipamento de perfuração. Montes de terra e materiais de construção espalhados, com árvore grande ao fundo e prédios residenciais e comerciais ao redor sob céu nublado.
Árvore que seria derrubada em obra de empreendimento imobiliário no bairro de Pinheiros, em São Paulo (SP) - Rafaela Araújo - 15.jan.26/Folhapress

As mobilizações populares em defesa da arborização da capital paulista, ao lado de decisões da Justiça, têm produzido efeitos sobre a gestão de Ricardo Nunes (MDB).

Na última segunda (12), a prefeitura suspendeu por tempo indeterminado a autorização, emitida em agosto do ano passado, para que uma construtora derrubasse três árvores em empreendimento no bairro de Pinheiros.

A medida junta-se a outra do governo Nunes, que em novembro interrompeu o corte de 14 árvores na associação A Hebraica, clube da comunidade judaica.

Pode parecer pouco, mas cada metro quadrado de área verde importa numa metrópole permeada por ilhas de calor e que vem sendo cada vez mais impactada pela mudança climática oriunda do aquecimento global —como os temporais que derrubam árvores e o fornecimento de energia.

Quando a água liberada por plantas evapora, retira-se calor do ambiente. Já asfalto e concreto absorvem grande quantidade de calor durante o dia e o liberam lentamente à noite. Surgem as ilhas de calor: zonas mais quentes da cidade, que continuam assim mesmo após o pôr do sol.

Ademais, áreas verdes retêm a água das chuvas, contendo alagamentos. Centros na Europa e na China já estão implementando desenhos urbanísticos conhecido como cidades-esponja, que visam drenar e escoar essa água de forma natural por meio do aumento da vegetação.

O elevado custo desse tipo de projeto pode ser por ora impeditivo no Brasil, mas a cidade mais rica do país tem o dever de ao menos manejar suas áreas verdes de forma racional, levando em consideração a crise do clima.

O Judiciário paulista precisou intervir. Em dezembro, determinou a paralisação imediata de supressão arbórea na obra de uma construtora no chamado Bosque dos Salesianos, no Alto da Lapa.
Um mês antes, a derrubada de 384 árvores por um empreendimento imobiliário no Butantã foi interrompida pela Justiça.

Não se trata de travar o desenvolvimento, mas autorizações devem ser criteriosas e menos açodadas, e as políticas de compensação podem ser reavaliadas em prol do bem-estar da população.

Com suas duas suspensões recentes, a prefeitura parece ao menos estar atenta. Em outubro, deu início ao Inventário da Arborização Urbana, que vai identificar e catalogar as mais de 650 mil árvores em vias públicas da capital e está previsto para ser concluído em três anos. Trata-se de mapeamento crucial para o manejo técnico da vegetação que há muito tempo já deveria ter sido feito.

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