domingo, 9 de novembro de 2025

Série republica 105 colunas de grande repercussão da história da Folha, FSP

 Guilherme Genestreti

São Paulo

Em 1983, Paulo Francis desdenhou de uma entrevista que Caetano Veloso fez com Mick Jagger e o chamou de "pajé doce e maltrapilho" num texto publicado na Folha. O compositor baiano daria o troco, seis anos mais tarde, na letra de "Reconvexo": "Meu som te cega, careta, quem é você?".

Três décadas mais tarde, Antonio Prata usou seu espaço no jornal para contar a história de um taxista viúvo que lamentava não ter guardado fotos mais espontâneas da esposa, "fazendo as coisas dela". A crônica, que gerou muitos comentários nas redes, inspiraria um curta-metragem.

Oito retratos individuais organizados em duas fileiras de quatro. Pessoas de diferentes idades, gêneros e etnias aparecem em fundos neutros ou ambientes internos, algumas usando óculos. Expressões faciais são neutras ou sorridentes, com variações de iluminação e enquadramento.
Retratos dos autores Paulo Francis, Djamila Ribeiro, Contardo Calligaris, Mariliz Pereira Jorge, Antonio Prata, Milton Santos, Fernando Henrique Cardoso e Suzana Herculano-Houzel, que escrevem ou já escreveram para a Folha

Já Mariliz Pereira Jorge, tratando da morte da cantora Marília Mendonça, criticou a pressão estética sobre os corpos das mulheres, "que não deixam de ser julgadas por sua aparência nem quando morrem", em texto que viralizou em 2021.

São exemplos de colunas de grande repercussão publicadas pela Folha. Para dar a largada nas comemorações dos 105 anos do jornal, em fevereiro de 2026, uma nova seção irá republicar 105 artigos até a data do aniversário.

O primeiro vai ao ar neste sábado (8). É uma crônica do chargista Belmonte, criador do personagem Juca Pato, satirizando os jornalistas paulistanos da década de 1920.

Na lista, há ainda nomes como Tom JobimOscar NiemeyerLygia Fagundes Telles e Milton Santos, refletindo sobre suas áreas de atuação. Também há textos históricos de colunistas que ainda mantêm seus espaços por aqui, como Elio GaspariFernanda Torres e Ruy Castro.

Djamila Ribeiro, por exemplo, comentou o álbum "Black Is King", lançado em 2020 por Beyoncé, de quem não se diz fã, "apesar de respeitar tudo o que ela representa". A neurocientista Suzana Herculano-Houzel falou do seu diagnóstico de autismo, no ano passado: "Há coisas lindas no modo como nós, canhotos mentais, vivenciamos o mundo".

A seleção passeia por vários temas —política, economia, cultura, esporte— e contempla pontos de vista variados.

Em "Antimanual de jornalismo", publicado em novembro de 1984, seis meses após assumir a direção de Redação da FolhaOtavio Frias Filho escreveu: "Cada frase deve conter uma só ideia. Se há mais frases do que ideias, o texto fica redundante. Se há mais ideias do que frases, ele fica enigmático".

Estavam ali descritos alguns dos princípios que nortearam o Projeto Folha, responsável por modernizar o jornalismo brasileiro a partir dos anos 1980.

Em alguns casos, o que chama atenção é o inusitado. O psicanalista Contardo Calligaris, por exemplo, se declarou fã de música sertaneja em um texto de 2005. Já Demétrio Magnoli, defensor do impeachment de Dilma Rousseff ao longo de 2016, escreveu, seis anos mais tarde, que aquela sua posição havia sido equivocada: "Foi um erro político grave".

José Sarney, então recém-saído da Presidência, falou dos bastidores do poder em "A arte de fritar ministros", de 1991. E Fernando Henrique Cardoso, 13 anos antes de subir a rampa do Planalto, pediu licença para não falar de política e lamentou a morte de Elis Regina. "Eu choro hoje pelo abraço que não dei", escreveu, em 1982.

Em 1948, Monteiro Lobato, criador de "Sítio do Picapau Amarelo", se derretia por "Fantasia", da Disney, nas páginas do jornal: "Tudo tão novo, tudo tão inédito, que o vocabulário crítico usual mostra-se impotente".

O poeta Ferreira Gullar, por sua vez, ditou sua última coluna na Folha da cama do hospital em que morreria, dias depois, em dezembro de 2016: "Não custa nada imaginar que, em função das novas tecnologias, uma nova arte esteja para nascer".