domingo, 9 de novembro de 2025

Gestão Tarcísio tira Sabesp do foco e tenta evitar que crise hídrica gere desgaste eleitoral, FSP

 Bruno Ribeiro

São Paulo

Com moradores da Grande São Paulo podendo enfrentar até 16 horas por dia sem água, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) ajusta a comunicação da crise hídrica para evitar desgaste político em torno de uma de suas principais bandeiras: a privatização da Sabesp.

A equipe do governador avalia que um agravamento da crise poderia enfraquecer o momento considerado favorável, com impactos em 2026, quando Tarcísio estará em disputa eleitoral —é cotado na direita à Presidência, mas diz que buscará a reeleição.

Após um ano de decisões criticadas e de recuperação de Lula (PT) nas pesquisas, a atual crise da segurança pública abriu espaço para propostas de Tarcísio contra a violência —tema em que políticos da direita costumam ter mais visibilidade que a esquerda.

Um homem de camisa clara está falando em um microfone em um palco, com uma plateia visível ao fundo. O ambiente é um auditório com iluminação suave e várias pessoas assistindo. O homem parece estar gesticulando enquanto se dirige ao público.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), durante evento em Araçatuba, no interior do estado - João Valério - 16.out.25/Governo do Estado de SP

Mesmo após repassar o controle da companhia ao setor privado, Tarcísio acompanha de perto a comunicação da Sabesp. Há três meses, recebeu em seu gabinete, em reuniões fora da agenda oficial, o publicitário Nizan Guanaes, encarregado da publicidade da empresa, e Felipe Nunes, da Quaest, que neste ano fez pesquisa de opinião para a companhia.

"Estive meses atrás para mostrar a campanha sobre o enorme esforço de transformação de consertar, renovar e inovar uma rede que tem quatro vezes e meia a volta à Terra", disse Nizan à Folha. Nunes também confirmou o encontro.

Em nota, a gestão Tarcísio afirmou que "quanto às reuniões entre o Governo de São Paulo e as empresas concessionárias que atuam no estado, elas são importantes para o acompanhamento da prestação de serviços essenciais à população e tratam de temas do mais absoluto interesse público, inclusive relacionados às campanhas de utilidade pública".

A possibilidade de impacto no abastecimento, porém, fez a atenção ser redobrada. Na crise hídrica de 2014-2015, com a Sabesp ainda estatizada, decisões do governo eram anunciadas pela empresa e vice-versa. O então governador Geraldo Alckmin (PSB), ainda tucano, chegou a garantir em debate eleitoral que não faltaria água, para depois admitir a necessidade de racionamento.

Neste ano, a Sabesp não foi chamada para o anúncio da consulta pública sobre a metodologia para reduzir o consumo, que prevê diminuir a pressão do sistema por até 16 horas por dia, atingindo principalmente os bairros mais afastados. Segundo o governo, a metodologia apresentada se aplica tanto a Sabesp como a nove concessionárias municipais reguladas pela Arsesp, que terão que apresentar plano de contingência em até 120 dias.

O governo afirma que a Sabesp não formula políticas públicas e que poderá se manifestar ao longo dos 30 dias de consulta.

"Nós fizemos muito a questão de preservar os papéis institucionais de cada ente. A Sabesp é operadora, ela mexe nas válvulas do sistema. Ou seja, ela tem a obrigação de cumprir essas determinações, essas reduções de pressão. Mas a Sabesp não é formuladora de política pública e ela não é autônoma para definir as próprias regras de operação", disse Thiago Mesquita, presidente da Arsesp (agência que fiscaliza a concessão).

A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natália Resende, tem defendido tanto a privatização quanto as ações da empresa. Em audiência na Alesp (Assembleia Legislativa), ela disse à Folha que, sem privatização, a rede corria risco de "desestruturação" —embora a Sabesp se mantivesse superavitária e com capacidade de investimentos.

A secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, Natalia Resende - Jardiel Carvalho - 9.mai.25/Folhapress

"A privatização da Sabesp veio para fortalecer a resiliência hídrica. Caso contrário, a gente teria um problema de desestruturação da infraestrutura", afirmou. Ela afirmou que o contrato da desestatização prevê aumento da resiliência contra estiagem.

A reportagem questionou o governo se havia evidências que sustentassem o argumento e recebeu como resposta uma nota que trouxe projeções baseadas em um estudo privado usado no processo de privatização que apontou a possibilidade de a Sabesp perder clientes para concorrentes.

O estudo "previa uma perda potencial de 50% dos municípios operados pela Sabesp estatal em 15 anos (2038). A desestatização foi, portanto, fundamental para garantir a continuidade do modelo regional vigente, que permite a integração das infraestruturas", afirmou o texto.

A opção por tirar a Sabesp das discussões é criticada por parlamentares de oposição. "Para conseguir falar com a Sabesp, é uma batalha. O governo quer tratar tudo via Arsesp", disse o deputado estadual Antonio Donato (PT), que também questiona o impacto da redução de pressão. "Quem acaba punido é o morador da periferia".

Sob reserva, um técnico da empresa aponta outro potencial foco de desgaste que está fora dos planos do governo: metas de consumo per capita. Mesmo com modelos não punitivos, como bônus a quem economiza, a proposta pode ser interpretada como racionamento.

Este técnico, contudo, afirma que, caso o regime de chuvas fique dentro da média histórica, o risco de agravamento da escassez é baixo. O cenário deste ano é mais próximo ao enfrentado em 2021 do que em 2014, segundo o governo.

A secretária diz que medidas já implementadas pelo governo são consideradas suficientes no momento atual e que a imposição de metas de consumo obrigatórias não se faz necessária. "A gente tem estudado todas as medidas necessárias. As que a gente colocou no plano de contingência, e que têm dado resultado, são aqueles que a gente viu que a gente consegue alcançar os resultados", disse.

Quais as causas da riqueza das nações?, Marcos Lisboa, FSP

 Nos últimos 250 anos, houve uma revolução na vida cotidiana. Até o fim do século 19, a expectativa de vida nos países mais ricos era perto de 40 anos. A cesta de consumo de uma pessoa de renda média nesses países custaria cerca de R$ 10 por dia em valores atuais.

Pouco mais de dois séculos depois, a expectativa de vida dobrou nas principais economias e a renda por habitante multiplicou cerca de 50 vezes, em alguns casos ainda mais.

Desenho em preto de perfil direito de uma cabeça humana com touca alada, sobre fundo vermelho. Três pontos rotulados como A no rosto, B na parte traseira da cabeça e C no topo da touca, com linhas pontilhadas indicando cada ponto.
Edson Ikê/Folhapress

Estudar as causas desse fenômeno foi um dos temas fundadores da economia. Nos últimos 30 anos, houve avanços nessa agenda de pesquisa, que resultaram em vários Prêmios Nobel de Economia, inclusive o deste ano, conferido a Joel Mokyr, Philippe Aghion e Peter Howitt.

O desenvolvimento ocorreu nos diversos países, mas de forma desigual. Ele se inicia na Inglaterra e na Holanda no fim do século 18, se espalha pelos Estados Unidos, depois na Europa ocidental do Norte e, mais tarde, na América Latina. O restante da Europa e o sudoeste da Ásia tiveram desempenho impressionante desde 1990.

Robert Fogel, Nobel de 1993, e Angus Deaton, Nobel de 2015, mostram como os avanços são impressionantes, porém esse processo não é homogêneo, nem linear. No começo do século 19, por exemplo, parte da população urbana da Inglaterra apresentou indícios de perda da qualidade de vida, com redução da altura média e aumento dos índices de mortalidade.

A imensa migração dos campos para as cidades e a falta de políticas públicas resultaram nessa piora temporária.

Em algumas décadas, o quadro se reverteu. Os salários começaram a aumentar com a produtividade e se iniciou um aumento da expectativa de vida, de perto de 50 anos em 1900 para mais de 60 anos em 1930.

Avanços desmedidos, mas com alguns retrocessos localizados, continuaram no último século.

Esse processo foi reforçado por reformas na política pública. O fim do século 19 inicia uma agenda de seguridade social, de políticas de segurança e de meio ambiente, entre outras.

O desenvolvimento das técnicas de estimação de impacto e a construção de grandes bases de dados nos últimos 30 anos têm permitido avanços na pesquisa em economia sobre temas como educação, discriminação e crescimento, entre outros.

Amory Gethin, com uma imensa base de dados global e metodologia inovadora, identificou que, de 1980 a 2019, a educação contribuiu com cerca de 50% do crescimento, 70% do aumento de renda dos 20% mais pobres e 40% da queda da extrema pobreza.

O desenho das regras da política pública e do funcionamento dos mercados é igualmente fundamental para explicar o crescimento. Instituições importam, como sistematizam Daron Acemoglu, Simon Johnson e James Robinson, vencedores do Nobel do ano passado.

As sutilezas de como o sistema Judiciário é desenhado, as normas dos mercados de crédito, as regras de comércio exterior e a regulação dos setores de infraestrutura, por exemplo, estão associadas ao desempenho relativo dos países.

Nos anos 1980, Paul Romer, Nobel de 2018, desenvolveu modelos que contribuíram para analisar o problema. Parte essencial do desenvolvimento econômico decorre de inovações que resultam em aumentos de produtividade.

Ideias bem-sucedidas geram ganhos persistentes porque são não rivais. A mesma descoberta pode ser utilizada simultaneamente por muitos agentes e gerar retornos crescentes de escala: pode-se produzir mais com a mesma quantidade de insumos.

No começo dos anos 1990, Aghion e Howitt desenvolveram um modelo sofisticado para analisar a interação entre concorrência, inovação e crescimento.

O eixo é simples: mercados e concorrência, conhecido desde Karl Marx. As inovações bem-sucedidas de gestão, de tecnologia e de produtos permitem ganhos extraordinários para os seus responsáveis, o que incentiva a criatividade e o empreendedorismo. O resultado são as transformações frequentes a que assistimos no cotidiano.

Os detalhes dessa história, contudo, são sutis. Firmas bem-sucedidas por vezes tentam bloquear o surgimento de competidores, o que restringe a inovação. As regras para garantir o funcionamento adequado de diversos setores são complexas.

Para agravar, as formas de intervenção da política pública dependem das circunstâncias, como as características da tecnologia ou do acesso à informação.

Em "The Power of Creative Destruction" (O Poder da Destruição Criativa)", Aghion e coautores sistematizam os imensos benefícios da concorrência e da inovação para os ganhos de produtividade e os desafios da política pública para garantir um processo saudável de concorrência e de inovação.

Mokyr foi o Prêmio Nobel mais inesperado e merecido. Seu monumental trabalho em história econômica documenta o papel das ideias nos mercados e na política. Uma concorrência permanente de interesses diversos, abordagens alternativas.

Ao contrário do maniqueísmo usual, nem sempre as ideias refletem interesses, nem sempre os grupos mais fortes acabam por dominar o debate. No enfrentamento de ideias, as negociações na política resultam em escolhas das regras, por vezes bem-sucedidas, outras não.

O mesmo ocorre com as inovações nos mercados. Ao contrário da visão usual, por exemplo, de uma Revolução Industrial, houve um processo com muitas inovações, com, por exemplo, centenas de patentes apenas para a máquina a vapor ao longo de décadas.

As primeiras máquinas não eram muito melhores do que os processos tradicionais. Seguidas inovações foram aperfeiçoando-as e as gerações sucessivas foram, lentamente, aprendendo a utilizar a nova tecnologia, que se transformava continuamente.

O mesmo processo ocorreu na agricultura inglesa nos séculos 16 e 17, com aumento da produção de trigo por hectare. Ele continua a ocorrer nas mais diversas atividades produtivas, como os ganhos de produtividade do nosso agronegócio ou nas inovações em medicamentos no resto do mundo. A interação entre concorrência, adequadas políticas públicas e ciência transforma nosso cotidiano.

Em "The Enlightened Economy", Mokyr conta com detalhes a longa e profunda transformação que começou na Inglaterra, nas ideias, nas instituições e na economia que terminaram por transformar o mundo.