domingo, 9 de novembro de 2025

Os dois lados da dívida pública, Sanuel Pessoa, FSP

 No caderno de fim de semana do jornal Valor Econômico da semana passada, o economista André Lara Resende (ALR) nos lembrou que a dívida pública tem dois lados. É um passivo do setor público, mas é riqueza, ativo, para o setor privado. Qualquer plano de consolidação fiscal que pretenda reduzir o endividamento público precisa se lembrar dessa dualidade.

Se o setor público pretende promover uma consolidação fiscal que irá reduzir o endividamento de um país, cabe a questão: essa ação será um equilíbrio do ponto de vista dos detentores da dívida pública? Há o desejo, por parte do setor privado, de reduzir seu carregamento de dívida pública?

Sede do Banco Central, em Brasília - Pedro Ladeira - 21.jun.2024/Folhapress

Há sociedades que são muito poupadoras. O excesso de poupança estrutural do setor privado faz com que essas sociedades experimentem permanentemente uma situação de excesso de oferta sobre a demanda. Há uma pressão deflacionária permanente. Nesse caso, o setor público precisa incorrer em déficits permanentes para ocupar o espaço de demanda que o setor privado não ocupa.

O aumento do endividamento financia a demanda pública necessária para manter e economia a pleno emprego e compensar a carência de demanda do setor privado. Tecnicamente, diz-se que o setor público tem a função de demandante residual no mercado de bens e serviços.

Na coluna de 18 de maio do ano passado, mostrei que a dívida pública do Japão era de 252% do PIB em 2023. Os juros reais para o período dos 23 anos anteriores foram negativos em 0,3%, e a inflação, positiva em 0,4%, ambas as taxas anualizadas.

A taxa de poupança do Japão nos mesmos 23 anos foi de incríveis 28% do PIB, apesar do envelhecimento da população.

De sorte que o setor privado carrega nos seus portfólios os 252% do PIB de dívida pública e ainda sobram 80% do PIB para acumular no exterior: o setor privado japonês tem 80% do PIB de ativos contra não residentes. De fato, nesses 23 anos o Japão apresentou superávit de transações correntes de 2,9% do PIB!

Ou seja, o Japão é um caso que descreve bem o fenômeno descrito por ALR em sua coluna. Se o governo japonês quiser proceder a uma forte consolidação fiscal, gerará uma recessão. Haverá carência de demanda agregada, os juros nominais serão zero, e a economia entrará em uma espiral deflacionária. A taxa de desemprego elevar-se-á.

Certamente essa não é a situação da economia brasileira. Nos 23 anos terminados em 2023, a taxa real de juros foi de 5,1%, e a inflação, de 6,5%, já considerando a taxa anualizada.

A taxa média de poupança no período foi de ridículos 16,2% do PIB, e houve déficit nas contas externas de 2,1% do PIB. A consequência é que, em vez de termos ativos no exterior, temos passivos no valor de 39% do PIB.

A expressão de que no Brasil o setor privado não está muito disposto a carregar quantidades expressivas de dívida pública é dada, olhando a dinâmica das quantidades, pelo fato de termos acumulado um passivo contra o resto do mundo —se houvesse uma situação de forte demanda por ativos, acumularíamos no exterior—, e, olhando a dinâmica dos preços, pelo fato de a taxa de juros reais ser muito elevada.

Assim, para o Brasil, se houvesse uma fada que reduzisse fortemente o endividamento público, haveria uma força na direção de redução das taxas de juros domésticas.

LINK PRESENTE: Gosto

Como o Brasil pode acelerar sucessos em ambiente, energia e comida, VTF FSP (definitivo)

 Vinicius Torres Freire

São Paulo

Quase ninguém se lembra do que foi a COP29, em 2024, no Azerbaijão, além de ambientalistas, certos militantes sociais, estudiosos, diplomatas, jornalistas especializados e poucos políticos envolvidos. Como a COP30 é no Brasil, vamos ler mais manchetes dramáticas sob impasses em negociações ou financiamentos frustrados. Dias depois da cúpula, quase todos nos esqueceremos do assunto.

Em parte, é normal, por assim dizer; em parte, não pode ser mais assim. No Brasil, temos condições especiais de fazer que assim não seja. O país progride na área e pode ganhar muito se fizer mais coisa certa.

Além de se tratar da nossa contribuição para atenuar o desastre climático planetário, assuntos como devastação ambiental, transição energética ou modo de produzir alimentos e materiais são centrais para o desenvolvimento socioeconômico do país, se não os principais.

Homem passa pelo logo da COP 30 em Belém - Lucio Tavora/Xinhua

Assim como no caso de segurança, contas públicas ou saúde, os temas que cabem sob o chapéu "ambiente" devem ser objeto de programa nacional duradouro. Parece blablablá. Na prática, significa criar ou definir instituições responsáveis por fazer planos, estabelecer metas, arrumar recursos; definir responsáveis técnicos e políticos pelo cumprimento dos objetivos e explicar as consequências dos fracassos.

Parece abstrato? Mal e mal, isso já existe na economia, com inflação e contas públicas. Quando o Brasil não era tão barbarizado pela ultradireita, criamos e cumpríamos metas de vacinação. Temos dados de desmatamento, mas não um programa institucionalizado, operacional e vinculante, de metas de redução da devastação, que precisa ser apoiado por planos de recuperação da terra (que até começamos a ter, sob Lula 3).

Para tanto, precisamos de liderança política (principalmente federal) e coalizões socioeconômicas para levar a coisa adiante. Por ora, temos coalizões de elites pela destruição ambiental e pelo caos energético, com apoio do Congresso.

É difícil atrair o público para assuntos tão complicados. Mas metas e alterações socioeconômicas derivadas da implementação de programas causam barulho midiático e político. Para ficar no mais banal, cumprimento (ou descumprimento) de metas rende manchetes; mudanças legais e alteração do destino de recursos públicos e privados explicitam conflitos e ajudam a revelar coalizões destrutivas.

Parece abstrato? Vide a reforma tributária. Seu efeito mais profundo e importante ainda é incompreendido pela maioria: redução de distorções (alíquotas muito diversas de impostos) que incentivam o uso improdutivo de capital e trabalho e, pois, reduzem a produtividade, o crescimento econômico. Mas a discussão política da reforma mexeu com o país, confrontou lobbies, explicitou danos e desigualdades.

A reforma foi por décadas barrada pela coalizão de estados que faziam guerra fiscal (isenção de imposto para atrair investimentos); por empresas e profissionais ricos beneficiados; pela ignorância nacional. Colocá-la no centro do debate e dar o apoio federal, de Lula 3, que criou instituição para promovê-la, ajudou a coisa a andar.

Política ambiental e de energia (esta um fracasso de Lula 3) precisam de arranjo institucional transformador. Progressos brasileiros na área precisam de organização e aceleração. Ora são dispersos e inconstantes, quando não vítimas do ultradireitismo. A próxima coluna vai tratar do que o país tem feito de bom e do potencial para fazer mais nessa área.