quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Consultoria PSR mostra como painel flutuante reorganiza uso de energia solar, FSP

 

São Paulo

Quase duas Itaipus. Essa seria a capacidade de geração de energia solar se uma fração mínima —de 0,5% a 1% da área total— dos lagos de hidrelétricas fossem ocupados com placas fotovoltaicas flutuantes. Falando em números, algo entre 17 e 25 GW (gigawatts) de capacidade instalada.

O potencial foi medido por um estudo técnico conduzido pela PSR, uma das mais conceituadas consultorias especializada em energia do país. Num exercício de projeção, o levantamento identificou, por exemplo, que se todos os lagos de usinas do país fossem cobertos por painéis, a geração solar poderia chegar a 3.800 GW —quase 20 vezes a capacidade instalada atual do Brasil.

Painel solar flutuante instalado em reservatório de água com área urbana ao fundo. Estrutura retangular de painéis solares ocupa parte da superfície da água, cercada por barreiras flutuantes.
Usina Fotovoltaica Flutuante Araucária na represa Billings, em São Paulo; maior projeto do gênero é um exemplo do potencial dessa alternativa de geração - Divulgação

"Claro que ninguém vai fazer isso, mas dá uma dimensão do que estamos falando", afirma o coordenador do estudo e diretor executivo da PSR, Rafael Kelman.

Parece uma conversa de maluco falar em mais energia fotovoltaica no momento em que o Brasil lida com efeitos adversos do excesso dessa produção. Houve crescimento exponencial dessa fonte, especialmente na modalidade de GD (geração distribuída), oferecida por painéis independentes de casas e cooperativas. Hidrelétricas, eólicas e até parques solares sofrem com o "curtailment", o corte de geração para equilibrar oferta e demanda.

No entanto, o que o levantamento tentou entender foi a capacidade de geração solar flutuante, em nível nacional, associada à estrutura das hidrelétricas, e os benefícios desse casamento para aprimorar a gestão do sistema elétrico. A PSR publicou os resultados no relatório internacional chamado "Accelerating the Brazilian Energy Transition – Solar Hydro Energy".

Flutuando sobre a água de um lago de hidrelétrica, a placa solar esquenta menos e rende mais e, principalmente, aproveita toda a infraestrutura existente que local tem acesso, como subestações e linhas de transmissão já conectadas à usina. Nesse casamento, energias hídrica e solar podem trabalhar juntas, criando um modelo de geração híbrido.

"Durante o dia, a energia solar entra na rede e a hidrelétrica reduz sua geração, guardando água para gerar à noite. A ideia é usar a infraestrutura existente, sem precisar investir em novas linhas. Assim, o limite não é o tamanho do lago, mas o espaço de injeção de energia na rede", explica Kelman.

A instalação da placa no lago de uma hidrelétrica também ajuda a aprimorar o planejamento para a expansão desse tipo de fonte e a sua participação na interligação ao sistema. A falta de conexão dos empreendimentos de energia renovável foi um outro problema que ocorre no setor. Muitos projetos ficaram prontos antes da instalação de uma linha de transmissão. Esse descompasso também gerou prejuízos.

O estudo da PSR foi feito a partir de uma base de dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), que reúne informações sobre área e capacidade das hidrelétricas que estão sob sua gestão. O cálculo considerou fatores como radiação solar, produção média das usinas e o espaço ocioso nas subestações, simulando diferentes cenários de compartilhamento entre as duas fontes.

O país já tem algumas usinas solares flutuantes, mas são projetos de pequena escala, que funcionam mais como pilotos. O primeiro do gênero foi instalado na hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, usina que abastece Manaus e não está no escopo do ONS.

Há outra no lago de Sobradinho, na Bahia, empreendimento que fica no guarda-chuva de geração da Axia Energia, ex-Eletrobras. Tem capacidade de 1 MW (megawatt) no pico de geração.

maior projeto do país, a Usina Fotovoltaica Flutuante Araucária, não está numa hidrelétrica, mas na represa Billings, em São Paulo, e opera como GD. Injeta direto na rede da Enel, concessionária da região metropolitana. Essa usina, no entanto, é um caso particular.

A Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), que controla a represa, quando ainda era estatal, fez uma licitação para viabilizar a usina flutuante. Tem 5% do empreendimento. Os demais 95% pertencem a Universo Energia, que faz a gestão e tem como sócios as empresas KWP e Comerc.

Sua grande vantagem é estar colada no maior centro de consumo de energia do país. "O custo de transmissão é baixíssimo, e o impacto na rede é mínimo. É uma forma de gerar energia limpa sem precisar ocupar terrenos caros", diz o superintendente de Novos Negócios da Emae, Henrique Verdan.

O executivo conta que as placas em si têm efeitos positivos. Ajudam a reduzir a evaporação na represa, e a sua sombra atrai os peixes.

A íntegra do projeto prevê a instalação de 130 MW, mas está sendo implantado em fases. A primeira planta, inaugurada no ano passado, tem 5 MW e demandou um investimento de R$ 35 milhões. "Temos mais de 180 quilômetros quadrados de reservatório, e mesmo se instalássemos todos os 130 megawatts previstos, ocuparíamos menos de 1% da área total.


ENTENDA A SÉRIE

série "Economia Verde na Prática" apresenta soluções de mercado que demonstram o potencial das empresas no Brasil para atuarem como protagonistas na descarbonização. As experiências abordadas pelas reportagens foram coletados entre integrantes de duas alianças empresariais criadas para a COP30, a C.A.S.E., que reúne Bradesco, Itaúsa, Itaú-Unibanco, Marcopolo, Natura, Nestlé e Vale, e a Coalizão do Setor Elétrico para a COP30, composta por 73 empresas e oito associações.

Vale baixa a temperatura na fervura do minério de ferro para cortar emissões de carbono ,FSP

 

Belém (PA)

Não é fácil encontrar lugares na natureza onde a temperatura fique em 1.300°C. O núcleo da Terra encosta nisso. A maioria dos vulcões não vai a tanto.

Porém, é nesse nível de calor extremo, com queima de combustível, consumo de água e alto uso de energia, que se consegue aglomerar partículas para criar pelotas de minério de ferro, a matéria-prima do aço —base de uma imensa gama de utensílios do nosso cotidiano, como carros, bicicletas, eletrodomésticos, geladeiras ou talheres.

Há décadas, inúmeras empresas investem em pesquisa para o desenvolvimento de alternativas capazes de esfriar essa mistura, e a Vale chegou lá.

Duas mãos adultas seguram várias sementes de cacau secas, de cor marrom escura, com textura rugosa. Fundo desfocado em tom cinza.
Punhado de briquetes; insumo desenvolvido pela Vale reduz drasticamente temperatura do processo de produção na cadeia do aço - Mosaico Imagem/Vale

A uma temperatura de 250°C, com uma quantidade infinitamente menor de energia —porque elimina uma etapa do processo—, sem forno de queima ou uso de água, a companhia conseguiu um aglomerado de nome briquete, um termo que vem do francês e significa tijolinho, por ter um formato mais cilíndrico.

Em relação ao tradicional processo de produção da pelota, por exemplo, o briquete representa uma redução de até 70% nas emissões de gases de efeito estufa para a Vale. Na etapa siderúrgica, para os clientes, que leva à produção do aço, o corte é da ordem de 10%, porque elimina a sinterização, um processo intensivo em carbono. Também emite menos óxido de nitrogênio e óxido de enxofre.

"Não foi apenas a Vale buscou essa solução. Ao longo dos últimos anos, mineradoras e siderúrgicas tentaram desenvolver um aglomerado a frio. Mas quem conseguiu chegar numa solução que funciona e performa bem foram os nossos pesquisadores. O briquete é resultado de uma patente de três funcionários da Vale. Foi desenvolvido ali no nosso Centro de Tecnologia de Ferrosos", explica o diretor de Clima, Natureza e Investimento Cultural da Vale, Hugo Barreto.

A nova tecnologia entrou em escala industrial em dezembro de 2023, com a inauguração de uma unidade de produção em Vitória, no Espírito Santo. A projeção é que a unidade encerre este ano totalizando a produção de 500 mil toneladas de briquete. "Não é mais um pilotinho", afirma Barreto.

Para apoiar a descarbonização da cadeia, contribuindo para atender a sua meta de reduzir em 15%, até 2035, as emissões do chamado escopo 3 —ou seja, que não estão diretamente sob seu controle—, a Vale já assinou acordos com mais de 50 clientes siderúrgicos. Juntos, eles representam 35% das emissões de escopo 3 e somam o equivalente às emissões da Nova Zelândia.

Dentro dessa mesma ambição, o briquete é insumo escolhido para sustentar a criação de "mega hubs" de fabricação de produtos siderúrgicos de baixo carbono.

Esses complexos industriais são projetados para utilizar o gás natural como combustível e poderão adotar o hidrogênio verde no futuro, favorecendo a produção de aço com zero emissão, ou o chamado "aço verde".

Seu foco é o HBI ("hot-briquetted iron" ou ferro-esponja), um produto intermediário entre o minério de ferro e o aço. A produção de HBI emite de 50% a 70% menos gás carbônico em relação a produção de ferro-gusa via alto-forno.

A Vale já assinou acordos para a construção de três "mega hubs" no Oriente Médio —na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Omã. Também estuda a criação de "mega hubs" no Brasil e nos EUA.

Da porta para dentro, a meta é atingir, até 2030, redução de 33% nos escopos 1 e 2, que incluem emissões diretas e também as indiretas geradas por compra de energia elétrica, vapor, calor ou refrigeração. Até 2050, a companhia quer ser zero emissões líquidas.

Dentro dessa proposta, a Vale alcançou em 2023 a meta de 100% de consumo de energia elétrica renovável no Brasil, dois anos antes do prazo estabelecido, que era neste ano de 2025. A meta global é de 100% até 2030. Também vem ampliando o uso de biocombustíveis e estudando a eletrificação de suas frotas em diferentes modais.


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