terça-feira, 15 de julho de 2025

É a hora do gás natural, EIXOS

 O movimento do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD), em convocar as indústrias para detalhar um amplo diagnóstico sobre o gás natural pode ser o início da retomada de um setor que é fundamental para o desenvolvimento do Brasil e que deve ser fator-chave para a transição energética, descarbonizando a produção da indústria nacional e ampliando a nossa produção para competir com produtos verdes lá fora.

Nos últimos anos vimos alguns avanços para ampliar o mercado de gás natural no Brasil, mas ainda temos enormes problemas estruturais que impedem que o gás chegue a mais indústrias num preço minimamente razoável.

O resultado é que o consumo industrial está estagnado há doze anos. Com o custo final alto e o preço sendo ditado por quem domina o mercado, não temos competição, poucos se aventuram a entrar no jogo e seguimos dando voltas e caindo no mesmo lugar.

Já sofremos com o fato de nossa industrialização ser tardia. Passamos anos correndo atrás do prejuízo e tentando minimamente ter uma indústria nacional que possa oferecer ao mundo produtos competitivos.

Para isso, precisamos do gás natural. Ele é insumo estratégico para o fortalecimento da indústria nacional, com papel fundamental na transição energética e na reindustrialização do Brasil.

Um mercado de gás natural mais competitivo e eficiente pode impulsionar a produtividade, reduzir os custos de produção e aumentar a competitividade dos produtos brasileiros, especialmente em setores intensivos em energia, como siderurgia, química, vidro, cerâmica e alimentos.

Além disso, o gás natural pode atrair investimentos em novas cadeias industriais e gerar empregos de qualidade, contribuindo diretamente para o crescimento econômico sustentável do país.

E alcançar esse potencial não é tão difícil quanto parece. O primeiro pilar é simples: cumprir as políticas públicas já determinadas e a Lei do gás, aprovada há 4 anos e com base sólida do que devemos fazer para seguir mudando e ampliando o mercado.

Para tanto, são medidas centrais para aumentar a oferta do insumo, estimular a redução da reinjeção de gás nos campos produtores — que ainda representa parcela expressiva da produção nacional — e explorar novas fronteiras geológicas.

  • Do mesmo autor: O drama do gás natural no Brasil Embates sobre nível de reinjeção e acesso às infraestruturas essenciais e concentração de mercado limitam potencial competitivo do gás

Outro aspecto crucial é a criação de um mercado mais dinâmico e líquido por meio da promoção de leilões de gás, especialmente do gás da União, comercializado pela Pré-Sal Petróleo (PPSA), com mecanismos que incentivem a desindexação dos contratos de importação em relação ao petróleo (óleo tipo Brent).

Essa estratégia poderá ampliar a concorrência entre ofertantes, reduzir os preços e permitir maior previsibilidade para os consumidores industriais.

A infraestrutura de escoamento também deve ser foco de atenção. É necessário garantir acesso não discriminatório e a preços justos a esses sistemas, conforme apontam os estudos da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

No caso do segmento do transporte deve-se promover a revisão tarifária de forma a alocar e dimensionar corretamente os custos dos ativos.

Finalmente, a harmonização entre as regulações estaduais e federal é condição indispensável para um mercado integrado e funcional, evitando sobreposição de exigências e promovendo segurança jurídica para investidores e consumidores.

Em suma, temos na mão um potencial muito grande para usar um insumo que temos em abundância para descarbonizar nossa produção industrial.

Temos a vontade política do Ministério de Minas e Energia e o regramento legal para ampliar o mercado, tornar o país mais competitivo e sair de vez do atraso que é o monopólio. Assim, ganha a sociedade brasileira, com mais produtos nacionais baratos, mais emprego, renda e justiça social.


Fernando Teixeirense é diretor de Relações Institucionais e Comunicação da Abrace Energia, associação que representa os grandes consumidores de enérgica elétrica e gás natural.

Método de fermentação transforma frutos imaturos em cafés especiais, AGÊNCIA FAPESP

 André Julião | Agência FAPESP – Na seleção de cafés especiais, aqueles que ganham acima de 80 pontos em testes cegos não têm defeitos físicos nem sensoriais. Os grãos de aparência esverdeada são conhecidos por darem um sabor adstringente (áspero, pungente e ressecante) à bebida e por isso são descartados com os quebrados, pretos, ardidos, brocados ou abaixo de um certo tamanho.

Mas, em estudo publicado na revista Food and Bioprocess Technology, pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em Patos de Minas (MG), realizaram uma série de fermentações com frutos maduros e imaturos da cultivar Arara do café arábica (Coffea arabica). Como resultado, obtiveram bebidas comparáveis, e mesmo superiores, às preparadas somente com grãos resultantes de frutos maduros e seguindo todos os protocolos da Specialty Coffee Association (SCA), organização internacional que estabelece padrões para cafés especiais.

Nos testes de xícara, às cegas, em que se avalia o café quanto a seus atributos sensoriais, os degustadores profissionais (conhecidos como Q-graders) atribuíram a algumas bebidas que continham uma porcentagem de grãos de frutos imaturos notas acima de 80 – que definem um café especial.

Para chegar a esses resultados, os pesquisadores utilizaram a chamada fermentação anaeróbica autoinduzida (SIAF, na sigla em inglês), em que os frutos são colocados após a colheita em biorreatores, barris de poliestireno de 200 litros hermeticamente fechados por até 96 horas. Nesses biorreatores não há entrada de oxigênio e o gás carbônico sai por uma válvula. Os microrganismos naturalmente presentes nos frutos de café realizam, então, uma série de processos bioquímicos que resultam em sabor diferenciado do café. Nesse tipo de fermentação, em alguns experimentos, foram adicionados inóculos, microrganismos específicos previamente isolados para esse fim.

“Com o trabalho, vimos que utilizar a SIAF em diferentes tempos de fermentação, com controle de temperatura e pH e adição ou não de inóculo, pode não apenas minimizar os efeitos deletérios dos grãos imaturos na bebida como torná-la superior, agregando valor ao produto ainda na fazenda”, afirma Luiza Braga, primeira autora do estudo, realizado como parte do seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Alimentos da Faculdade de Engenharia Química (FEQ-UFU), em Patos de Minas.

O trabalho integra projeto apoiado pela FAPESP no âmbito de acordo com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), numa parceria entre a UFU e a Universidade Federal de Lavras. O estudo teve ainda financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

“A fermentação anaeróbica, realizada logo após a colheita e antes da secagem, não é um processo tradicional. No entanto, cafeicultores e especialistas têm buscado conhecimento sobre o processo por conta do ganho de sabor e aroma provocado na bebida, que assim pode atingir preços superiores aos praticados no mercado usualmente”, diz Líbia Diniz Santos, professora da FEQ-UFU e coordenadora do estudo.

Os autores do trabalho integram o grupo de pesquisa Da Semente à Xícara, criado em 2019 para reunir em torno da cafeicultura pesquisadores, alunos, pós-graduandos e técnicos tanto da FEQ como do Instituto de Genética e Bioquímica e das faculdades de Engenharia Elétrica e de Computação, todas no campus de Patos de Minas da UFU. O grupo tem, inclusive, uma marca de café especial, o Porandu, que em tupi significa “pesquisar”, “investigar”.

Análises

A cultivar Arara foi lançada em 2012 pela Fundação Procafé após 15 anos de estudos na busca de um café resistente a doenças e adaptado a diversas condições climáticas do Cerrado. A bebida é valorizada pelas notas cítricas e corpo robusto, o que a torna atrativa tanto para o mercado doméstico quanto para exportação.

Usando uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pelo grupo de pesquisadores, os autores do estudo notaram que 70% dos frutos utilizados nos experimentos, colhidos na Fazenda Chuá, em Patos de Minas, eram imaturos.

Os autores ressaltam que, apesar de terem usado grãos verdes nas bebidas provadas pelos degustadores, os outros critérios da SCA continuaram sendo seguidos à risca. Dessa forma, grãos quebrados e pequenos foram descartados na preparação. Com isso, os grãos verdes na bebida representaram 13% a 30% do total. “Acreditamos que se fossem 70% de grãos verdes na bebida, mesmo fermentados, isso seria perceptível no produto final”, ressalva Santos.

No total, 32 tratamentos foram testados: diferentes tempos de fermentação, que variaram de 24 a 96 horas, com e sem controle de temperatura. As combinações contaram ainda com presença ou ausência de inóculo e fermentação submersa (com 30% do biorreator com água) ou em estado sólido, sem água.


Fermentação anaeróbica autoinduzida (SIAF) é realizada em biorreatores onde microrganismos induzem alterações nos grãos de café (foto: Grupo da Semente à Xícara/arquivo)

O pH e a temperatura foram monitorados por meio de um dispositivo eletrônico desenvolvido pelo grupo que transmite o dado para um monitor externo a partir de sensores no interior do biorreator. Com isso, não há necessidade de abrir o barril e interferir no experimento para coletar a informação.

“Quando fizemos o controle da temperatura externa a 27 °C, observamos que as pontuações foram maiores, inclusive com notas superiores às de preparos em que só havia grãos maduros. Com isso, podemos demonstrar que a fermentação anaeróbica, principalmente em estado sólido, acrescenta atributos sensoriais que elevam o café para a categoria especial”, explica Braga.

Agora o grupo pretende entender qual ou quais compostos gerados no grão verde fermentado fornecem os atributos sensoriais que o tornam um café com atributos especiais. Os próximos trabalhos devem, ainda, explorar o efeito da fermentação anaeróbica em outras variedades de café.

O artigo Transforming challenges into quality: the power of controlled fermentation in immature Arara coffee beans pode ser lido em: link.springer.com/article/10.1007/s11947-025-03880-z.

segunda-feira, 14 de julho de 2025

Vai deixar saudades? Nova tentativa da Nokia no mundo dos celulares está perto do fim; entenda, OESP

 Por Henrique Sampaio

A marca que já foi sinônimo de telefonia móvel e inovação está, mais uma vez, à beira da extinção. A HMD Global, empresa finlandesa criada em 2016 para ressuscitar os telefones Nokia, anunciou nesta semana que está encerrando suas operações nos Estados Unidos. O recuo marca não apenas uma mudança de estratégia comercial, mas simboliza o fim definitivo de uma era em que a Nokia era referência global em telefonia móvel.

De forma discreta, a HMD comunicou sua decisão alegando que a medida foi tomada após uma “análise cuidadosa” diante do “desafiador cenário geopolítico e econômico” atual.

Empresa finlandesa relançou em 2024 o clássico Nokia 3210, conhecido como "tijolão"
Empresa finlandesa relançou em 2024 o clássico Nokia 3210, conhecido como "tijolão" Foto: HMD Global/Divulgação

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Na prática, a justificativa aponta para medidas como a taxação do governo de Donald Trump para a importação de produtos fabricados em países asiáticos, onde se concentra a produção da maioria dos eletrônicos do mundo.

Fundada a partir das cinzas da Nokia após a frustrada aquisição da divisão móvel pela Microsoft, a HMD conseguiu, por alguns anos, reanimar a marca em celulares básicos e intermediários com Android. No entanto, nos últimos anos, a empresa passou a apostar em aparelhos próprios e parcerias pontuais, como os telefones temáticos da Barbie e da Heineken, abandonando gradualmente o uso do nome Nokia.

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Para você

Essa guinada se intensificou em 2023, quando a HMD lançou o Skyline, já sem a assinatura Nokia. No início de 2025, os smartphones da marca finlandesa sumiram de vez do catálogo da empresa, restando apenas alguns modelos básicos vendidos em mercados específicos.

Nos EUA, os efeitos já são visíveis. O site oficial da HMD está fora do ar, e não há mais botões de compra ativos para seus aparelhos. Embora ainda seja possível encontrar alguns modelos à venda em varejistas como a Amazon, trata-se apenas de estoques restantes, sem perspectiva de reposição.

Em seu comunicado, a HMD assegura que irá manter o suporte a produtos vendidos e garantias por meio de suas equipes globais. Também promete apoiar os funcionários afetados pela decisão, embora não tenha divulgado detalhes sobre eventuais demissões ou realocações.

Em 2024 a HMD chegou a ressuscitar o icônico Nokia 3210, apelidado carinhosamente de ‘tijolão’ no Brasil. A empresa vinha apostando no mercado de “dumb phones”, celulares com poucos recursos para quem quer evitar os excessos das redes sociais.

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A HMD afirma que segue ativa, com foco em novos mercados e linhas de produto. Mas sua saída dos EUA simboliza uma segunda morte para a Nokia, que um dia já dominou esse mercado.

No Brasil, a HMD Global encerrou discretamente suas operações no final de 2023, após o fim da parceria com a Multi (antiga Multilaser), responsável pela fabricação e distribuição dos celulares Nokia no país desde 2020.

Com vendas fracas, participação de mercado abaixo de 1% e produtos considerados pouco competitivos, a marca não conseguiu se firmar frente à forte concorrência de gigantes como Samsung e Motorola. A saída também acompanhou uma mudança de estratégia global da HMD, que passou a priorizar sua marca própria e descontinuar gradualmente os smartphones Nokia. Desde então, os aparelhos desapareceram do site oficial e das grandes redes varejistas, restando apenas estoques remanescentes.

Entenda a ‘nova’ Nokia

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Pioneira no mercado de celulares, com modelos como o “o celular do jogo da cobrinha” (o Nokia 5110) ou o “bananafone do filme Matrix” (Nokia 8110), a marca finlandesa teve um caminho tumultuado nos últimos anos. Em 2013, a divisão de dispositivos móveis da Nokia foi comprada pela Microsoft. Pouco tempo depois, com o fracasso do sistema operacional Windows Phone frente aos rivais Android (do Google) e iOS (da Apple), a área foi posta de lado pela companhia fundada por Bill Gates.

No final de 2016, por contrato, os direitos sobre a marca “Nokia” retornaram à finlandesa, que permaneceu como fabricante de tecnologia para telecomunicações. A companhia então cedeu o uso da marca para a HMD Global, empresa fundada por ex-funcionários da Nokia para fazer smartphones com sistema Android para o mundo todo. Desde fevereiro de 2017, a HMD Global lança aparelhos em mais de 50 países, incluindo diversos mercados da América Latina. Em abril de 2020, foi a vez do Brasil – na ocasião, a empresa lançou por aqui o Nokia 2.3, um smartphone de entrada.