sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Essa medida era para ajudar o meio ambiente - mas pode ter piorado o aquecimento do planeta, Fernando Reinach - OESP

 Por Fernando Reinach

Atualização: 

Agora é oficial, o ano de 2024 foi o mais quente já registrado. Ninguém mais duvida que nosso planeta está esquentando. Em 2024, pela primeira, vez atingimos 1,5ºc acima das temperaturas da era pré-industrial. A alta das temperaturas foi muito maior do que a esperada pelos mais pessimistas e desencadeou debate acirrado.

Será que 2023 e 2024 são pontos fora da curva e o aquecimento continua no ritmo das décadas anteriores? Ou será que esses são os primeiros anos de uma nova tendência, sinalizando aumento na velocidade do aquecimento? Se o segundo caso for verdade podemos dar adeus aos limites do acordo de Paris. Eles já foram superados.

Redução na quantidade de enxofre emitida pelos grandes navios pode ter influenciado as temperaturas do planeta nos últimos anos
Redução na quantidade de enxofre emitida pelos grandes navios pode ter influenciado as temperaturas do planeta nos últimos anos Foto: Sinechana /Adobe Stock Gerado com IA

PUBLICIDADE

Centrais nesses debates são as medidas que indicam que existiram eventos extraordinários nos dois últimos anos que justificariam esses pontos fora da curva. Um forte candidato são as anomalias na duração e intensidade do sistema El Niño, que provocou aquecimento anormal do Oceano Pacífico.

Mas outro fator que contribuiu para o aquecimento foi a alteração no combustível usado pelos navios que cruzam os oceanos.

Grande parte dos combustíveis fósseis, como gasolina e óleo diesel, contém compostos que têm enxofre na sua composição. Quando queimados nos motores, liberam dióxido de enxofre na atmosfera. Esse dióxido é toxico e pode ficar até 20 dias na atmosfera.

Publicidade

Mas se houver umidade se transforma em ácido sulfúrico. Além de ser tóxico para humanos, o acido sulfúrico acidifica a chuva, causando a chuva ácida, que no passado foi responsabilizada pela destruição de florestas na Europa.

Devido a essas características, o teor de enxofre nos combustíveis usados por veículos terrestres e indústriais passou a ser regulado. A remoção do enxofre nas refinarias é um processo caro, mas que foi adotado na maioria dos países. É por isso que a fumaça dos ônibus deixou de ser tão escura quanto era na minha infância. Foi um progresso no controle da poluição.

O problema é que essa redução na quantidade de enxofre emitida por navios transatlânticos só se tornou obrigatória em 2020. Afinal, pensavam os reguladores, soltar fumaça em alto mar é menos grave do que soltar nas cidades. Em 2020 esse combustível começou a ser regulado e foi exigida redução de 80% na emissão de enxofre pelos navios. E isso se concretizou em 2023 e 2024.

Quando os navios que emitiam enxofre são rastreados por satélites, foi demonstrado que deixam rastros de nuvens poluentes que permaneciam na atmosfera por até 20 dias. Algo semelhante aos traços brancos deixados pelos aviões, mas com tamanho e duração maiores. Essas nuvens de poluição podem ser observadas por satélites e foi demonstrado que elas refletem parte da luz solar que chega à atmosfera.

Pois bem, com a introdução a partir de 2023 dos combustíveis sem enxofre essas nuvens que refletem a luz solar deixaram de existir e a luz que antes era refletida passou a incidir diretamente nos oceanos, aumentando a luz absorvidas pelos oceanos e, portanto, seu aquecimento. É como se um espelho tivesse sido retirado da atmosfera e a luz solar antes refletida agora chegasse ao mar.

Publicidade

Os cientistas calcularam quanto a mais de energia solar atingiu a Terra em 2023 e 2024 devido à remoção desse poluente. Chegaram à conclusão que isso equivale a 0,12 watts por metro quadrado.

PUBLICIDADE

Essa energia chega ao oceano e é imediatamente convertida em calor, contribuindo para o aquecimento global de 2023 e de 2024. Esses mesmos cálculos indicam que essa quantidade de energia não é suficiente para explicar o aquecimento dos últimos anos, mas essa substituição de combustíveis vai aumentar a temperatura em 0,01ºC por década.

Essa é uma descoberta interessante por dois motivos. Primeiro, uma medida que visa a combater a poluição protegendo nossos pulmões e a vida terrestre, aumenta o aquecimento global, o que por sua vez prejudica os seres vivos e o ambiente em que vivemos. Veja como é complicada nossa interação com a atmosfera.

Em segundo lugar, esse é um experimento que demonstra diretamente que partículas presentes na atmosfera aumentam a luz refletida e diminuem o aquecimento. Essas modificações na atmosfera, injetando nela partículas refletoras, vêm sendo propostas como uma maneira de amenizar o aquecimento global. Experimentos nessa direção vem sendo feitos em muitos países. Claro que nesse caso o experimento foi feito ao contrário, e demonstrou que a retiradas dessas partículas aumenta o aquecimento.

Se você pudesse escolher entre poluir com enxofre ou aquecer a atmosfera, o que preferiria?

Suzana Herculano-Houzel - E assim chegamos aqui, FSP

 Estes são tempos ruins para humanos com consciência. É inverno em Nashville, mas a temperatura é de primavera, 15 graus acima do normal. Um bilionário invadiu departamentos do governo, com o aval do presidente, e se apossou dos dados pessoais de todos os residentes dos EUA.

E ninguém fez nada.

Entendo que o sapo cozendo no planeta que se aquece paulatinamente não assusta como deveria, mas era para a megainvasão de privacidade ser um banho de água escaldante na população. Por outro lado, também entendo perfeitamente que é difícil dar bola para o que pode vir a ser quando a presença amanhã de comida na mesa não é certa.

Fato é que, de um jeito ou de outro, o estresse da vida moderna é crônico e incontornável.

Mas foi com um artigo que acabei de ler que a ficha com o tamanho da perversidade da situação da humanidade caiu.

O artigo, vindo do laboratório de Mazen Kheirbek na Universidade da Califórnia em San Francisco e publicado recentemente na revista Nature, mostra que tomar porrada da vida um dia sim e outro dia também muda o modo como o cérebro representa o prazer mais fundamental de sentir um sabor doce na boca.

Os pesquisadores submeteram camundongos jovens a agressão por camundongos maiores, mais velhos e violentos durante dez dias seguidos. As fêmeas precisavam ser cotidianamente salvas de estupro pelo agressor. A realidade da vida desses animais se tornou um estresse só, previsível, crônico e inevitável.

Kheirbek descobriu que todo hipocampo que toma porrada assiduamente "ganha" mais neurônios sensíveis à presença de açúcar na água oferecida aos animais, no que talvez seja um reajuste automático à nova dura realidade, em que toda e qualquer possibilidade de prazer agora é digna de nota.

Nic Antaya/Getty Images via AFP

O apelo crescente do prazer fácil de rolar telas em redes sociais vem à mente.

Ainda assim, boa parte dos indivíduos derrotados pelo agressor diário sucumbe à sua impotência e, na prática, deixa de se empenhar em beber a água doce –como humanos deprimidos que já não ligam para nada.

O problema está na amígdala desses indivíduos, que não se tornou nem um pouquinho mais sensível ao açúcar. Os outros indivíduos são resilientes: aqueles que, agora com mais neurônios sensíveis ao prazer da água doce também na amígdala, continuam buscando por ela e, aliás, peitando novos invasores, apesar de toda evidência em contrário.

"Jamais desistir" é o lema do meu pai e dos resilientes (inclusive camundongos), que, por sua vez, são o motor da resistência aos agressores. Mas os agressores são, por definição, maiores e muito mais fortes —ou não agrediriam ninguém— e têm do seu lado a perversidade do efeito da agressão contínua sobre o cérebro derrotado: a anedonia (falta de prazer), que leva à apatia (falta de ação), que é a chave da submissão. Os resilientes apenas ainda não foram espancados o suficiente.

A perversão se completa com a disseminação da violência, porque o antídoto para muitos que não têm poder sobre o próprio espancamento recorrente pelos mais fortes é ganhar controle sobre o espancamento alheio, seja ele literal, seja na forma da cassação de direitos humanos e reprodutivos daqueles ainda mais fracos. E assim chegamos aqui.

Para sair daqui, portanto, é preciso encontrar outras formas de empoderar os humanos. Como? Semana que vem eu volto com algum otimismo, prometo.

Com ou sem motos por aplicativo, o trânsito de São Paulo já é mortal, Mauro Calliari, Fsp

 Motos por aplicativo estão em grandes cidades pelo mundo. Em Jacarta e Bancoc, fazem parte da paisagem. Em Nova York ou Londres, existem apenas como serviços pontuais, para driblar o trânsito e chegar ao aeroporto, por exemplo. O passageiro recebe capacete e até colete com airbag.

No Brasil, eles surgiram na década de 1990 e hoje estão em toda parte, muitas vezes sem regulamentação. A polêmica em São Paulo apareceu quando os gigantes Uber e 99 anunciaram sua operação, proibida desde a gestão Bruno Covas. A 99 chegou a ignorar a proibição e a prefeitura reagiu, confiscando as motos dos conveniados. O imbróglio agora está na Justiça.

Movimentação de motoqueiros na av. 23 de Maio - Zanone Fraissat - 15.jul.19/Folhapress

Se tem oferta é porque tem demanda

Independente da questão legal, vale a pena investigar a origem da demanda. Por que alguém se sujeita a sentar na garupa da moto de um desconhecido, pagar mais que uma tarifa de ônibus e ainda enfrentar o trânsito pesado num veículo relativamente inseguro?

Há várias respostas. Para suprir uma lacuna do transporte público. Para levar um pacote pesado pelas subidas estreitas de uma favela. Pelo medo de ficar parada num ponto de ônibus mal-iluminado à noite.

É, portanto, na micromobilidade, ou na última perna do transporte, que está nossa carência: menos de metade dos paulistanos mora a menos de 500 metros de um ponto de ônibus ou 1 km de estação de trem ou metrô. Em Paris, é quase 100%. Isso significa que as pessoas saem do transporte público e ainda têm que enfrentar distâncias, subidas e insegurança para chegar as suas casas.

Se a mobilidade é um sistema, está faltando um pedaço fundamental e a prefeitura deve repensar a função de cada modal no sistema.

Como rever as linhas de ônibus para que cheguem mais perto das casas dos usuários, principalmente nas periferias? Como melhorar o acesso de pedestres e ciclistas até o transporte público? Como incluir os aplicativos na equação? E, claro, como garantir que um serviço de moto (ou patinete, ou o que vier) possa ser regulamentado, testado, avaliado, melhorado, ou, se não der certo, proibido?

O trânsito de São Paulo já é mortal, mesmo sem motos por aplicativo

A preocupação da prefeitura com a segurança é bem-vinda. Mas esconde o fato de tê-la negligenciado nos últimos anos.

O ano de 2024 marcou mais um recorde nefasto, 1.031 mortes no trânsito. Enquanto metrópoles globais diminuem velocidades e aumentam transporte público, São Paulo anda para trás.

A resposta da prefeitura à mortalidade generalizada tem se restringido às faixas azuis. É possível que elas ajudem na fluidez, mas estão em uma fração mínima das vias. Para todo o resto, o plano de segurança viária segue abandonado e a ausência de fiscalização é um sintoma do descaso.

A curto prazo, não dá para fugir da discussão estruturada do transporte em motocicleta (e a própria Folha promoveu um seminário interessante nessa semana). Provavelmente, será melhor regular, fiscalizar e corrigir rotas do que deixar na informalidade.

Melhor, porém, será quando a gestão municipal se dispuser a rever o confuso sistema atual de mobilidade e voltar a fiscalizar as ruas para evitar que tanta gente morra no trânsito todo dia.