quarta-feira, 13 de março de 2024

Lula reclama que só a Azul compra Embraer, diz presidente da ApexBrasil - FSP

 Julio Wiziack

BRASÍLIA

Em missão pelos EUA, o presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, se surpreende com a penetração de marcas brasileiras no país, mas quer alavancar uma política comercial que faça do Brasil um fornecedor permanente de insumos e de manufaturados, aproveitando-se da rivalidade oriunda da disputa geopolítica dos EUA com a China.

Em entrevista ao Painel S.A., Viana afirma que os gigantes de alimentos, como JBS e BRF, já dominam 35% do mercado norte-americano e os jatos da Embraer respondem por um terço dos voos regionais no país.

Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, durante seminário em Pequim (China)
Jorge Viana, presidente da ApexBrasil, durante seminário em Pequim (China) - Thomas Peter - 29.mar.23/Reuters

Em crítica a Gol e Latam, ele afirma que o presidente Lula não entende porque somente a Azul compra Embraer para destinos no interior do país.

China e EUA mantêm uma disputa geopolítica. Como a promoção comercial do país se posiciona diante dessa rivalidade?
As duas nações são amigas e os dois principais parceiros comerciais, mas os negócios estão à parte. Não vamos repetir o posicionamento político do governo Bolsonaro. O governo Lula faz uma diplomacia presidencial. Vamos aprofundar a parceria com os EUA, sem esquecer a China, nosso maior comprador.

O México se aproveitou mais da brecha deixada pela China na pandemia como fornecedor de insumos para os EUA. Perdemos essa oportunidade?
Ainda há possibilidades para o Brasil e é por isso que estamos aqui [em missão oficial]. Temos uma cadeia de biocombustíveis, soluções para a transição energética na indústria automobilística. Nossas empresas já estão muito presentes nos EUA. JBS, BRF, Marfrig e Minerva, os gigantes da proteína animal, já possuem 35% de participação no mercado norte-americano. O suco de laranja, 70%. Estamos conversando com a turma do vinho, máquinas e equipamentos. A Embraer já vendeu mais de 1.000 aeronaves e os aviões estão presentes em um terço das rotas regionais. O presidente Lula até reclamou que Gol e Latam não compram nossos aviões para usar em rotas regionais. Só a Azul. A Embraer já vendeu mais de US$ 7 bilhões para os EUA e está aqui conosco em uma nova rodada com investidores.

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O que vocês pretendem, efetivamente, fazer em relação aos EUA?
Creio que, em um mês e meio, a gente consiga anunciar o que estamos chamando de Mapa da Atração de Investimentos. Queremos definir claramente onde estão as oportunidades de negócios no Brasil e para brasileiros nos EUA, mas não será uma coisa de governo. A ideia é que seja de empresário para empresário, uma coisa mais prática.

Os EUA são nosso segundo maior comprador [a China é o maior], mas é o maior investidor direto no país. Cerca de 23% de quase US$ 1 trilhão investido por estrangeiros no Brasil nos últimos anos partiu de empresas norte-americanas. Queremos desenvolver uma estratégia de país com os EUA. Se conseguimos exportar para a Ásia, a despeito de todas as nossas dificuldades logísticas, temos condições de nos colocarmos como parceiros na oferta de insumos e produtos com maior valor agregado.


Raio-X | Jorge Viana

Engenheiro florestal formado pela UnB (Universidade de Brasília), Jorge Viana foi prefeito do Acre entre 1993 e 1996, duas vezes governador do estado (1999 – 2006) e senador pelo PT entre 2011 e 2018. Ocupa a Apex desde janeiro de 2023.


Lula reativa um pesadelo, Elio Gaspari, FSP

 Parece a volta de um pesadelo. Depois de uma desastrada carga de cavalaria em cima da Vale, Lula avançou sobre a Petrobras e derrubou seu valor de mercado em R$ 55 bilhões. Diante das más notícias, a repórter Malu Gaspar revelou que o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, mostra uma carta na manga: o anúncio de um "Mar de Oportunidades", com um programa de investimentos de até R$ 80 bilhões em plataformas, navios sonda e barcos de apoio.

Tudo isso já aconteceu. Deu na Operação Lava Jato, com roubalheiras confessas, dezenas de prisões, a deposição da presidente Dilma Rousseff e um clima de descrença que desembocou na eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Lula em cerimônia de divulgação dos resultados do novo PAC Seleções, em Brasília - Gabriela Biló - 7.mar.24/Folhapress

Lá atrás, as coisas pareciam simples e fáceis, comprou-se uma refinaria nos Estados Unidos, criaram-se estaleiros virtuais e, no escurinho do Planalto, adotou-se uma "contabilidade criativa" depois chamada de "pedalada". Deu no que deu. O pesadelo voltou semanas depois da falência da Sete Brasil, a joia da coroa que produziria 28 navios-sonda para a Petrobras.

O senador Rodrigo Pacheco tem sido um sereno aliado do governo. Diante dos avanços do Planalto disse uma valiosa obviedade: "Se a União é parte interessada como acionista, em tese é legítimo ao governo se posicionar, mas deve compreender seus limites de atuação considerando a governança das empresas e a independência delas. Não digo que o governo os ultrapassou porque não conheço a situação. Digo apenas que eles precisam ser observados".

Pacheco não falou na tentativa de empurrar o ex-ministro da Fazenda goela abaixo do conselho da Vale para presidir a empresa. Também não quis ser específico com o caso dos dividendos da Petrobras.

Lula entrou em campo com duas afirmações. Numa, repetiu que a Petrobras deve servir ao Brasil. Nada mais certo e, desde sua fundação, ela tem feito isso. A crise que a empresa viveu há dez anos foi produzida pelos larápios que dela se apropriaram.

Na outra, julgou o desempenho de seu governo, disse que estava "muito aquém" do que prometeu e elaborou: "Até agora, preparamos a terra, aramos, adubamos e colocamos a semente. Cobrimos a semente. Este é o ano em que vamos começar a colher o que plantamos".

Lula prometeu devolver um clima de normalidade à política brasileira e cumpriu. Faz mais de um ano que o presidente da República não xinga governador da oposição nem ministro do Supremo. Isso não é pouca coisa.

Todas as lombadas surgidas em seu governo saíram do Planalto. Para piorar, quase todas foram inúteis: Mantega na ValeHitler em Gaza e Nicolás Maduro em Caracas criaram crises sem maior propósito. Isso num governo que conseguiu elevar em 11,7% a renda dos brasileiros. Esse resultado foi conseguido pela boa administração dos instrumentos existentes.

É como se existisse uma alma penada no Planalto. Hoje, há 60 anos, ela disse a João Goulart para ir ao comício da Central do Brasil, depois, soprou a ideia do Acordo Nuclear com a Alemanha ao general Ernesto Geisel, o Plano Collor ao referido senhor e as "campeãs nacionais" a Dilma Rousseff.

Lula disse que está em tempo de semeadura. Pelo andar da carruagem, semeia a erva daninha que já destruiu sua lavoura.

Projeto de novo canal vem recheado de boas intenções, Mauricio Stycer - FSP

 Num mercado aparentemente saturado de canais de notícias, o empresário Douglas Tavolaro anunciou na semana passad o lançamento de uma versão brasileira do norte-americano CNBC, especializado em jornalismo econômico e de negócios.

É a segunda franquia que Tavolaro traz ao país. Em 2020, ele costurou o lançamento da CNN Brasil, mas foi forçado a deixar o comando do canal um ano depois, por iniciativa do seu principal sócio, o empresário Rubens Menin.

Antes disso, por mais de uma década, Tavolaro foi responsável pela direção do jornalismo da Record TV, de propriedade do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal.

Douglas Tavolaro no estúdio da CNN Brasil - Divulgação

Em entrevista à Folha nesta semana, o executivo deu a entender que o canal não se limitará ao jornalismo de negócios: "Existe minha vontade de ter uma grade diversificada, com formatos diferenciados. Dentro do hard news, que tenha política, internacional, esportes, as notícias urgentes de última hora", disse.

Em outras palavras, a CNBC pretende se aventurar por áreas onde já existe fartíssima oferta de noticiário, produzido por GloboNews, CNN Brasil, BandNews, RecordNews e Jovem Pan.

O que mais me surpreendeu nos planos de Tavolaro sobre o futuro canal foi a sua declaração de intenções: "Eu quero ajudar a despolarizar o Brasil, vamos fazer um jornalismo que sempre fiz, que é imparcial e apartidário. Eu quero ajudar a sair dessa polarização que existe no noticiário".

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Que polarização é essa? O fato de os profissionais do jornalismo se situarem, majoritariamente, entre o centro e a esquerda no campo político não me parece ser um grande problema, como alguns enxergam. Porque quem dita a regra do jogo, nas grandes empresas, é o dono.

Os proprietários das grandes empresas de TV sempre tiveram preferência por governos que pendem do centro para a direita e têm rejeição a governos de esquerda, apenas com variações de tonalidade na adesão ou na repulsa.

Esse predomínio ideológico eventualmente se reflete no noticiário, na decisão de enfatizar exageradamente alguns assuntos e na minimização de outros. Mas seria injusto ignorar os muitos exemplos de bom jornalismo praticado pelos canais de TV ao longo do tempo, a despeito da visão política dos donos.

Talvez Tavolaro esteja se referindo a uma novidade que ocorreu, de fato, durante o governo Bolsonaro (2019-2022). Ela diz respeito à clara distinção que se estabeleceu entre os canais que abraçaram com entusiasmo o governo de extrema direita, com vocação antidemocrática, e os canais que enxergaram os riscos envolvidos nessa escolha. Mas isso não é polarização.

Como escrevi há um mês, ainda resta apurar se houve, e qual foi, a contribuição de alguns desses meios de comunicação de massa aos planos golpistas do governo derrotado nas eleições de 2022.

Superado o risco do golpe, me parece que houve um realinhamento natural a um estado anterior, que já vimos antes. Por exemplo, a escolha de deputados radicais para presidir comissões importantes na Câmara dos Deputados é vista pela mídia como derrota do governo, o que de fato é, mas não como um atraso para o país, o que também é.

Num momento de crise no negócio da comunicação, com enxugamento de custos, demissões e revisões de investimentos, é boa notícia, naturalmente, ouvir sobre os planos de criação de um novo canal de notícias.

Enxergar que o país está polarizado politicamente não exige muito esforço. Mais difícil é trabalhar contra a intolerância e em favor de pautas que busquem atrair o interesse de diferentes públicos.

A intenção de Tavolaro é boa, mas não basta dar entrevistas. Quando criou a CNN Brasil, ele também prometeu que o canal não seria "nem de esquerda, nem de direita". Foi um apenas um bom slogan.