quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Beber "bem" ou beber "mal", Ruy Castro FSP

 Leio nas folhas que, segundo pesquisa, 6 milhões de brasileiros consomem álcool "em excesso" e correm risco de dependência. Leitores afirmaram que o problema está aí, no excesso. Segundo eles, todo bebedor deveria saber a "hora de parar" —ou seja, quantos drinques o farão desfrutar apenas os prazeres da bebida, como uma deliciosa alteração de consciência, evitando beber de forma a sofrer os efeitos adversos, como o porre, os vexames e a ressaca.

Mulher segura um copo com bebida alcólica
Seis milhões de brasileiros, ou 4% da população adulta, consomem álcool em excesso e correm risco de dependência - Agência Einstein

Isso significa que, depois de chegar àquele estado de alteração, o bebedor voltará magicamente à lucidez, a qual lhe soprará que está na "hora de parar". Tal crença supõe que a humanidade se divide entre os que "sabem beber" e os que "bebem mal", e que todos têm o mesmo grau de tolerância ao álcool. Mas, se fosse assim, como se explica que alguns consigam ingerir duas garrafas de vodca por dia sem demonstrar embriaguez, enquanto, para outros, essa quantidade é absurda, impensável? E por que alguns se embriagam com algumas cervejas enquanto, para outros, a cerveja só serve para fins urinários?

A resposta é: porque as pessoas são diferentes. Estima-se que, na maioria dos países, 15% da população tenham alta tolerância ao álcool, enquanto, para os outros 85%, ele é um tóxico e elas só conseguirão bebê-lo no seu limite —ao ultrapassar esse limite, sentir-se-ão tão mal que pensarão duas vezes antes de repetir a experiência. Donde "a hora de parar" não tem a ver com "saber beber". É orgânico.

Ironicamente, os grandes candidatos à dependência são aqueles a quem o álcool parece não fazer mal. O fato de "beberem bem", de manterem a dignidade e quase nunca terem ressaca não impede que a doença se instale silenciosamente neles.

Como dizia Scott Fitzgerald, primeiro você toma um drinque. Depois, o drinque toma um drinque. E, por fim, o drinque toma você. Mas, para aqueles 15%, esse dia demora a chegar.

Pós-chip, protecionismo dos EUA se volta para o carro elétrico chinês, Nelson de Sá, FSP

 Elon Musk, da Tesla, publicou há duas semanas na plataforma X que "infelizmente é uma tendência para muitas montadoras" a aproximação de seu Momento Kodak: tornar-se obsoleta de uma hora para outra, por não fabricar carros elétricos.

Reprodução/The Wall Street Journal

Na direção oposta, o Wall Street Journal publicou o editorial "Dando a indústria automobilística do Ocidente para a China" (acima). Cita o plano europeu de banir carros a gasolina, o que favoreceria os chineses, "que produzem carros mais baratos devido aos baixos custos de energia e trabalho e às extensas redes de suprimentos".

Acusa democratas e "a esquerda climática" de terem promovido "os vetos a carros a gasolina como necessidade urgente para barrar o domínio do mercado pelos chineses". E agora "EUA e Europa se arriscam a destruir sua indústria local de automóveis por um futuro elétrico largamente Made in China".

Na sequência e com o mesmo viés, o New York Times publicou com alarme que a "China está inundando o mundo com carros", não só elétricos, e que a Europa é "o alvo principal". Mas um mercado ainda estaria resistindo, os próprios EUA, e o jornal chega perto de elogiar o antecessor de Joe Biden pelo feito:

"Quando o governo Donald Trump impôs tarifas sobre as importações da China, o primeiro lote incluía impostos de 25% sobre carros elétricos. As tarifas ainda estão em vigor."

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'BOA VONTADE'

Uma semana depois do lançamento do celular Huawei com chip para 5G, o NYT enfim noticiou, mas sugerindo que a empresa poderá pagar por isso. E que seria pelas mãos da secretária do Comércio, Gina Raimondo, surpreendida em sua "turnê de boa vontade na China".

"O lançamento levanta questão sobre se o departamento de Raimondo continuará tentando construir boa vontade com as autoridades chinesas", indica o jornal, "ou se assumirá uma postura mais agressiva", com "mais restrições tecnológicas" às empresas chinesas.

'ARROGÂNCIA'

Na China, por outro lado, vem sendo "amplamente difundido" o ensaio de um acadêmico de Xangai, Yang Jiemian, sobre por que os "EUA veem a China como uma ameaça". Cita a "disfunção política em Washington" e ideias enraizadas como "excepcionalismo americano".

Vê "três escolas na teoria americana das relações internacionais: realismo, liberalismo e construtivismo, cada uma delas servindo essencialmente à hegemonia dos EUA". Defende que a China persista em sua própria teoria, com ideias como "unidade na diversidade", como "corretivo à arrogância americana".

Yang Jiemian é irmão de Yang Jiechi, o diplomata-chefe que se dirigiu aos colegas americanos em reunião bilateral histórica no Alasca, em 2021, dizendo: "Os Estados Unidos não têm qualificação para falar com a China a partir de uma posição de força", superior.

André Roncaglia - A defesa sem vergonha da plutocracia, FSP

 O artigo "Ser rico não é pecado", publicado no último sábado (2) na Folha, buscou reabilitar a imagem dos super-ricos diante da opinião pública. Cometendo erros conceituais econômicos (diferença entre renda e riqueza) e bíblicos (camelos passando por agulhas...), o texto trouxe uma apologia indigesta à plutocracia.

Mais importante do que o conteúdo do texto é sua motivação: a previsão de isonomia tributária dos fundos exclusivos com o restante dos fundos de investimento. Cerca de 3.000 pessoas investem, pelo menos R$ 10 milhões, nessas versões domésticas dos paraísos fiscais de além-mar (offshore). Juntos, esses heróis sem capa estacionam R$ 966 bilhões nesses fundos, isentos de qualquer imposto, em contraste com o resto dos investidores em fundos, tributados semestralmente (come-cotas).

0Retrato do empresário João Camargo, presidente do Grupo Esfera Brasil, em sua casa, na zona oeste da capital paulista. Camargo é um homem branco de cabelos grisalhos. Ele veste paletó chumbo e camisa lilás.
Retrato do empresário João Camargo, presidente do Grupo Esfera Brasil, em sua casa, na zona oeste da capital paulista - Bruno Santos/Folhapress

Há milênios a imunidade tributária é símbolo de distinção social. A mera isonomia tributária é vista como opressão, ao rebaixar o status social dessa minoria abastada (e autoexilada no exterior): não porque perderá dinheiro (isso não ocorrerá, acredite!), mas por ter seus privilégios reduzidos —do latim, "privus" (privado) e "lex" (lei). É uma questão de identidade.

A retórica de serviços prestados à sociedade, vestida de meritocracia, busca racionalizar e justificar o corporativismo desavergonhado da plutocracia. Isso é uma tendência global.

Consulta ao aplicativo Ngram, do Google, mostra a substituição do termo plutocracia nos livros em língua inglesa a partir de 1958, quando o termo meritocracia é criado pelo sociólogo britânico Michael Young ("The Rise of Meritocracy"), para expressar o avanço das agendas de igualdade de oportunidades e de antidiscriminação.

Ironicamente, a difusão da crença meritocrática ofereceu escudo moral à concentração de poder econômico e político nos super-ricos. Por exemplo, a CPI da fraude da Americanas não convocou os responsáveis para depor e terminou sem apontar culpados. Afinal, o trio Lemann-Telles-Sicupira (da 3G Capital) tem passe livre para acumular patrimônio à custa da boa governança corporativa (o trio enriqueceu R$ 6 bilhões enquanto arruinava as Lojas Americanas).

Ao tratar do desaparecimento da classe média nos EUA ("The vanishing middle class"), Peter Temin mostrou como a crença meritocrática normaliza a desigualdade, bloqueando a democratização das oportunidades na economia de mercado. Michael Sandel expõe como "A Tirania do Mérito" difunde ressentimentos sociais que ameaçam as democracias liberais no Ocidente. Meritocracia é distopia!

Em artigo de 2019, Jonathan Mijs, da London School of Economics, destacou o "paradoxo da desigualdade": a desigualdade socioeconômica eleva a tolerância dos cidadãos aos seus efeitos. Nos países desenvolvidos, a situação socioeconômica é majoritariamente atribuída a decisões pessoais, não às desigualdades estruturais (como as imunidades tributária e judiciária aos mais ricos).

A estratificação social impede que as pessoas experimentem diretamente a desigualdade. Em países altamente estratificados, os indivíduos percebem menos desigualdade de rendimentos no seu local de trabalho, bairros e redes sociais. A segregação molda a compreensão da sociedade a partir de uma posição de isolamento social. Injustiça invisível não causa indignação.

A desigualdade internaliza a crença meritocrática e enfraquece a democracia efetiva. No Brasil, os super-ricos defendem a educação para superar as desigualdades, mas se negam a financiar permanentemente a educação pública (a isenção de lucros e dividendos se liga à defesa de cobrança de mensalidades em universidades públicas). Criam camarotes educacionais altamente lucrativos, reproduzindo a segregação que renova o status social de seus herdeiros.

Evocando Cazuza: a luta por justiça tributária revela "esta festa pobre que os homens armaram pra nos convencer a pagar sem ver" pelos privilégios de poucos.

"Brasil... mostra a tua cara."