segunda-feira, 6 de março de 2023

Joel Pinheiro da Fonseca Todos saem perdendo com a retomada de invasões pelo MST, FSP

 


Ao invadir terras produtivas da Suzano na Bahia, o MST testa as águas do novo governo para ver o quanto consegue obter. As invasões, que já começaram a aumentar ano passado, devem crescer ainda mais. Se forem premiados pela invasão, é evidente que dobrarão a aposta. Inclusive é o que já promete.

Para a Suzano, é péssimo. Milhões de reais perdidos e mais dor de cabeça. Para o governo Lula, então, nem se fala. Essa invasão é concretização —em meros dois meses de mandato— dos piores fantasmas projetados pela extrema direita em 2022. A cereja no bolo é que o presidente da Suzano foi se engajou publicamente na defesa da democracia em 2022, ou seja, contra o projeto bolsonarista. Parece ser punido por suas virtudes.

Trabalhadores rurais sem terra, que invadiram fazendas de eucalipto da Suzano Celulose na Bahia, na semana passada - @mstnabahia no Instagram

Para o próprio movimento, é uma estratégia arriscada. Ao longo dos últimos anos, o MST vinha construindo uma imagem muito positiva junto à opinião pública. Não era mais visto como os encapuçados armados de foices e tochas, prontos a destruir fazendas, da caricatura dos anos 90. Agora o MST se mostra como a grande promotora dos orgânicos e da agricultura familiar, dona de quitandas conscientizadas e doadora de alimentos para os necessitados. A invasão e depredação de uma terra produtiva é a volta do antigo fantasma revolucionário, querido por uma certa militância, mas rejeitado pela maioria da sociedade, que acredita em ordem e trabalho.

A invasão de propriedade, se generalizada, é profundamente desestabilizadora para a sociedade. Gera imprevisibilidade, seca investimentos, dificulta planejar o futuro, reduz vagas de emprego.

Segundo entrevista dada por Evanildo Costa, membro da direção do MST na Bahia, para a Carta Capital, a invasão (ou, como ele prefere, "ocupação") de terras produtivas é "um instrumento que os trabalhadores têm de pressionar". É verdade. Eles nem têm interesse nas terras que foram invadidas, e sim em outras, que já foram separadas para assentamentos no passado que nunca foram efetuados. Quem sabe agora finalmente agilizem o processo.

A lógica do protesto disruptivo das leis da sociedade é perigosa. No mínimo, quem nele se engaja deve ter a coerência de aceitar as consequências legais de seu ato. E se cada grupo com uma demanda legítima resolvesse invadir e depredar empresas ou vias públicas, impedindo a vida normal de milhões? Está instalado o caos. Todos saem perdendo.

A questão é como empresa, governo estadual e governo federal responderão a essa pressão. Da parte da Suzano, a resposta foi clara e correta: negociação só depois da total desocupação. As decisões judiciais de reintegração de posse já estão aí, falta serem cumpridas pelo governo.

Já o governo Lula ou dá um sinal claro de que o MST só tem a perder —inclusive na Justiça— com essa estratégia de invasões, ou estará contratando mais desordem para o futuro próximo.

A demanda por justiça social no campo brasileiro é justa e histórica. Para quem duvida, basta ver a outra notícia sobre o trabalho rural que tomou a imprensa nas últimas semanas: centenas de trabalhadores no RS mantidos em regime análogo à escravidão, com direito a surras e choques. A maioria é baiana. É difícil não nutrir algum tipo de ímpeto revolucionário frente a uma notícia dessas.

Em ambos os casos, que se cumpra a lei. Empresários criminosos têm que saber que suas práticas criminosas serão duramente punidas, e empresários honestos precisam ter a segurança para seguir investindo, contratando trabalhadores em regime justo e gerando valor.

Michael França Expectativas são um elemento central para a ação humana, FSP

 

"Pô, do jeito que estou aqui no morro, vendendo droga para comer um arroz e feijão, não vou chegar lá nunca. Eu já estava no crime a milhão. Minha mãe morreu, meus irmãos morreram, não tinha nada a perder. Aí veio uma luzinha: não é porque você não tem sua mãe que vai ficar sem estudar. Vai ter de estudar e cantar ao mesmo tempo. Então entrei na escola".

Foi o que disse o músico e ator Mauro Mateus dos Santos, também conhecido pelo nome artístico Sabotage, em uma entrevista. A última antes de ele levar quatro tiros na cabeça e um no peito.

O rapper Sabotage na favela do Canão, zona sul de São Paulo, em 2000 - Zanone Fraissat/Folhapress

Expectativas são um elemento central para a ação humana. Elas são fruto da decodificação do amplo conjunto de informações que nos rodeiam. A cada instante entramos em contato com novas experiências. Por meio delas fazemos inferências sobre os potenciais resultados de nossas escolhas.

O retorno esperado de cada trajetória baliza o comportamento. Não é por acaso, por exemplo, que alguns passam grande parte de suas vidas estudando. O prêmio salarial médio da educação é elevado. Porém não é igual entre os distintos grupos da sociedade.

Pesquisas mostram que, mesmo considerando nível semelhante de educação, existem outros fatores que fazem com que aqueles pertencentes aos grupos mais proeminentes obtenham maior retorno de suas habilidades do que os demais. Isso entra no processo de tomada de decisão e afeta, negativamente, as escolhas educacionais e as trajetórias profissionais das minorias.

PUBLICIDADE

No mundo do crime, o cenário não é muito diferente. Ele também pode ser pensado sob a ótica das expectativas individuais e coletivas. Os indivíduos comparam o retorno esperado entre ir para a atividade criminal e ficar dentro dos limites da lei. No meio disso, há diversas instituições que representam um meio de gerar adestramento social.

Criar leis rigorosas, ampliar o policiamento e intensificar a punição pelos crimes são algumas formas de coagir as pessoas a seguir determinadas trajetórias. Elas representam um meio de diminuir o retorno esperado de algumas escolhas. Entretanto, o custo agregado não costuma ser baixo. No contexto brasileiro, para além das vidas de policiais e civis perdidas, também há elevados gastos para manter um sistema penitenciário e de Justiça que, não raramente, age de forma viesada.

Presos são mantidos sentados nus em pátio de presídio de Formiga, em Minas
Detentos no pátio de presídio de Formiga, Minas Gerais - Reprodução

No caso das drogas ilícitas, sabemos que, apesar dos seus danos, o consumo não é eliminado apenas pela força da lei e da vontade de parcela da sociedade. A oferta delas tende a continuar porque há uma demanda difícil de reprimir. Demanda essa que faz com que o retorno esperado de participar de algumas atividades ilegais, especialmente para grupos socioeconomicamente desfavorecidos, seja, muitas vezes, superior ao de seguir outras trajetórias.

Tal demanda não tem classe social. Embora as mortes, geralmente, tenham. No final, milhares de jovens morrem. Morrem para entorpecer, também, parcela de uma elite que sai quase ilesa desse processo de moer gente.

No caso de Sabotage, o Maestro do Canão, ele começou a vender drogas aos oito anos de idade. Teve seus primos assassinados. Com 15 anos já tinha perdido mãe e irmãos. Porém algo o fez mudar suas expectativas e, assim, seu percurso. Ao fazê-lo, acabou virando uma grande voz de uma parcela excluída e violentada do país.

Enquanto revolucionava o rap, frustrava as expectativas que a sociedade tinha sobre ele. Mas, no final, não conseguiu contrariar a própria expectativa de vida. Foi assassinado por volta de 5h50. Logo depois de ter levado a esposa ao trabalho. Morreu com 29 anos de idade e cinco tiros em seu corpo.

Este texto é uma homenagem à música "Mun ", de Sabotage. Em certo momento, ele diz: "O itinerário de um puteiro é o Brasil brasileiro". Me parece uma forma, talvez até mais sofisticada, de falar: "O Brasil não é para principiantes".


João Pereira Coutinho Stálin é o único leitor que tinha na estante autores que mandara matar, FSP

 Sempre tive uma curiosidade mórbida pela biblioteca dos ditadores. Mórbida porque sei que vou encontrar lixo, não obras refinadas de autores refinados. Mas insisto no meu masoquismo literato.

Anos atrás, escrevi nesta Folha sobre a biblioteca de Hitler. O velho Adolfo teria uns 16 mil volumes. Sobreviveram 1.200, hoje nos Estados Unidos. Mas uma análise do espólio e das anotações que ele foi espalhando pelas páginas permitia reconstruir a cabeça do personagem. Conclusões?

Hitler era um mau leitor. Não apenas pelo lixo que consumia (obras de ocultismo, espiritismo, prosa racista de Madison Grant, o nacionalismo rasteiro de Otto Dickel), mas porque gostava de canibalizar o trabalho dos outros para reforçar os seus preconceitos e delírios de base.

Um bom leitor é um ser omnívoro, que gosta de nadar onde não dá pé, movido por uma curiosidade vadia. A curiosidade de Hitler era nula porque os fanáticos são desprovidos de curiosidade ou imaginação.

Podemos dizer quase a mesma coisa sobre Stálin. Nos 70 anos da morte do tirano, resolvi espreitar a sua biblioteca através do livro recente de Geoffrey Roberts ("A Biblioteca de Estaline", edição portuguesa pela Zigurate). Aconselho vivamente.

Stálin vence Hitler em quantidade: teria 25 mil livros, periódicos e panfletos. Mas depois, quando vemos a lista, confirmamos que o mundo de Stálin era tão estreito como a sua cabeça.

Tirando algumas concessões ao romance e à historiografia ocidental, a biblioteca é esmagadoramente soviética, ou seja, pós-1917. Poesia, nem vê-la (idem para Hitler). Em termos de idiomas, temos o russo e o georgiano, nada mais.

Uma  longa estante cheia de livros diante de uma mesa e cadeira vazia, tudo na cor vermelha, em alusão ao Stalinismo.
Ilustração de Angelo Abu para a coluna de João Pereira Coutinho de 6.mar.23 - Angelo Abu

E, na galeria de autores, lá encontramos a fauna do costume: bolcheviques, marxistas diversos, socialistas. Por ordem decrescente, Lênin leva a copa; depois vem o próprio Stálin, Zinoviev, Bukharin, Marx, Kamenev, Molotov, Trotsky, Kautsky, Engels, Rykov, Plekhanov, Rosa Luxemburgo. Originalidade?

Apenas uma: Stálin é talvez o único leitor que tinha na estante autores que mandara assassinar. Imagino que isso seja o sonho úmido de muitos críticos literários.

Mas é quando abrimos os livros e nos confrontamos com os sublinhados e as anotações de Stálin que as afinidades com Hitler se tornam manifestas. Em relação aos santos do seu relicário, nunca há uma palavra de discórdia, de dúvida, de hesitação. Os textos de Marx ou Lênin aparecem imaculados.

Como conta Geoffrey Roberts, a fidelidade de Stálin ao cânone era tão intensa que, muitas vezes, nas discussões políticas, o ditador tinha por hábito tirar da estante um volume de Lênin e proclamar: "Vejamos o que tem Vladimir Ilyich a dizer sobre essa questão". Um televangelista não diria melhor.

Já sobre os inimigos, reais ou imaginários, a marginália era generosa em sarcasmos e grosserias. Um exemplo revelador da "forma mentis" de Stálin acontece na leitura de Karl Kautsky, esse "renegado" que cometeu a heresia suprema de criticar a seita. Para Stálin, Kautsky era um "tolo" por sugerir que o conhecimento humano é sempre limitado e provisório.

Não era. O catecismo marxista-leninista era a última palavra –e só em questões de pormenor, mais por conveniência do que por discórdia substancial, Stálin se desviava do carril.

No fundo, e tal como Hitler, os livros serviam para reforçar dogmas previamente adotados, o que nos leva para um território que não é mais político nem filosófico, muito menos "científico", mas religioso.

São vários os autores que sempre olharam para o nazismo e para o comunismo como "religiões seculares": escatologias que mimetizam a velha religião cristã, substituindo apenas o reino de Deus pelo reino da raça ou do proletariado. A biblioteca e os hábitos de leitura de Hitler e Stálin confirmam.

Escusado será dizer que ambos deixaram seguidores. Não falo dos seguidores mais óbvios –neocomunistas ou neonazistas.

Falo de uma parte da esquerda e da direita contemporâneas, fechadas nas suas bolhas cognitivas, com as suas crenças constantemente reforçadas pelo "echo chamber" (câmera de eco) das redes sociais.

É assim que os vejo: pequenos Hitlers e pequenos Stálins, sem mundo, sem abertura ao mundo, sem curiosidade pelo mundo, cada um com a sua fé. Ou, como na piada, cada um com as suas fezes.