quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

EDSON FACHIN - O futuro da justiça, FSP

 Edson Fachin

Ministro do Supremo Tribunal Federal

Encerra-se 2022. A ninguém restou indiferente este período. Os fatos do presente interpelam o espírito de autoridade do qual ordinariamente deveria se revestir o direito, uma vez que o intento de diluir as instituições da sociedade e do Estado, especialmente a fim de amesquinhar o Judiciário, tem se revelado persistente. E não irá cessar. O amanhã entremeia sinais de esperança e sintomas de elevada preocupação.

É certo que compromissos significativos foram assumidos para dar efetividade àquilo que a Constituição de 1988 edificou. A busca do justo em cada processo ou diante de casos concretos traduziu-se num desafio que a força obrigatória dos precedentes e a estabilidade da jurisprudência intentam pavimentar na própria segurança jurídica que procuram.

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O ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal - Pedro Ladeira - 23.fev.22/Folhapress

Nada obstante, duas ordens de crises emergiram nessas mais de três décadas de democracia: uma, quanto aos limites e possibilidades da atuação da magistratura constitucional; outra, concernente ao próprio conceito de direito, cuja ideia, na conhecida tríade de Gustav Radbruch, se compõe de justiça, utilidade e segurança. Sem um ou mais desses pilares quebra-se a base de sustentação inerente à legitimidade institucional. Solapar o Judiciário, por isso mesmo, é atentar contra o Estado de Direito.

Assim foi na Alemanha de Radbruch, a qual, depois de 1945, produziu a supremacia da justiça substancial diante de ordens injustas ou de leis escritas incompatíveis com a igualdade.

O verdadeiro fundamento do Estado de Direito é a autonomia do próprio direito garantida pelo Poder Judiciário em sentido amplo (compreendendo todas as funções essenciais à justiça), porquanto somente assim, nas democracias, o poder do Estado se submete ao direito.

Não há dúvida sobre o que a Constituição da República brasileira inscreveu como o modelo da separação dos Poderes. É a doutrina de Montesquieu sobre os três protagonistas do poder estatal: legislador, administrador, julgador.

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O Brasil precisa aprender com seu passado para encontrar um futuro digno e habitável, livre, justo e solidário. Isso não se dará atentando contra o Poder Judiciário, nem restringindo liberdades. Ao Legislativo o que lhe é próprio da espacialidade da política e da representação da soberania popular; ao Executivo o que lhe é da administração e seus afazeres de gestão e execução; e ao Judiciário o direito nos limites constitucionais e legais.

Ao fim deste longo ano de 2022, no qual resiliência, firmeza e serenidade se mostram irmãs siamesas da independência, o porvir que se avizinha não é menos preocupante. Os reptos para a justiça, o Estado de Direito e o próprio Judiciário não se colocam somente por arroubos autoritários, eis que podem advir embalados em pacotes que, no engodo, estiolam a essência da magistratura. Independência e harmonia não podem passar por filtragens ilegítimas, quer de populismos autoritários, quer de interesses de ocasião.

Recentemente, poucos dias faz, o conhecido dicionário norte-americano Merriam-Webster elegeu "gaslighting" como a palavra do ano: "o ato ou prática de enganar alguém"; como se vê, elegeu-se o sentido da mentira, da manipulação, do abuso e da violência de corromper a percepção que alguém tem sobre si e sobre o mundo.

Para 2023 proporia que a escolha, no Brasil ao menos, recaísse sobre a palavra "confiança". Confiança, aliás, para aquele mesmo dicionário Merriam-Webster, significa o que tem relação com o certo e com a verdade. Significa entender, acreditar e aceitar.

Mesmo nos dissensos, nas controvérsias, é fundamental um processo e um procedimento que gere confiança. E como isso se produz? Por meio do entender, do acreditar e do aceitar. É que, no direito, assim como na ética existencial, há diferença entre o certo e o errado, entre a verdade e a mentira.

A confiança deve criar a ponte para 2023, ou se abrirão as valas de um abismo. A diluição da autoridade do direito pode se transformar numa das grandes tragédias de nossa época. Sem justiça, utilidade e segurança, o colapso institucional ruirá a legitimidade do Judiciário.

Queira o porvir assegurar que a autonomia do direito se mantenha preservada como núcleo da conservação do próprio Estado de Direito no Brasil. Respeito integral ao Poder Judiciário e às prerrogativas da magistratura são condições de possibilidade desse objetivo fundamental.

O QUE A FOLHA PENSA - O apagão de Xi

 Durante quase três anos, o líder chinês Xi Jinping apresentou-se como o comandante em chefe contra um insidioso vírus descoberto no fim de 2019 em seu país.

Munido do arsenal que apenas uma tecnoditadura com amplo controle sobre a liberdade de seus cidadãos pode oferecer, assombrou o mundo com sua resposta inicial à pandemia da Covid-19.

Lockdowns draconianos, restrição de entrada e saída, testes, ferramentas tecnológicas de acompanhamento e o desenvolvimento rápido de uma campanha de vacinação fizeram do berço da crise um relativo oásis.

Como seria previsível, Xi usou o desempenho politicamente, bradando a cada discurso a superioridade do tal socialismo com características chinesas sobre os ocidentais que empilhavam seus mortos.

Exportou a propaganda com as vacinas, o que de resto era seu direito: mesmo baseados em tecnologias ora menos eficazes para as novas variantes do Sars-CoV-2, os imunizantes salvaram milhões.

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O triunfo teve um preço. A economia, que havia desacelerado a 2,2% de crescimento em 2020 e tido uma forte retomada de 8,1% em 2021, voltou a engasgar —com 3,2% de expansão projetada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

O Ocidente, por sua vez, buscou algum grau de autonomia quando observou complexos fabris chineses serem fechados por causa de uma mera ocorrência de Covid-19.

Mais importante, multidões protestaram de forma inédita no fim de novembro contra as regras rígidas, atacando o governo do país asiático. Como o mundo de 2022 não toleraria um novo massacre da praça da Paz Celestial, Xi cedeu.

Só que, em vez de lançar mão de um plano B, de transição, ele começou a abandonar todos os preceitos de sua política de Covid zero desde o início do mês.

Pessoas com sintomas respiratórios passaram a ser obrigadas a comparecer ao trabalho, não há mais quarentena para entrar na China e o arcabouço de vigilância está sendo desmontado.

O resultado é uma onda nunca vista de contaminações pelo país, que os apologistas do regime dizem ser aceitável porque a Covid-19 se mostra menos fatal hoje.

É aposta, que incorre no risco de fomentar novas e imprevisíveis variantes, mas o fato de que o governo suspendeu a contagem de casos e a testagem em massa sugere um apagão sanitário já denunciado pela Organização Mundial da Saúde. As mortes poderão ser contadas em milhões, dizem especialistas.

Apenas na segunda (26), Xi enfim falou sobre o tema. Proferiu platitudes, sem citar a opacidade oficial ou prestar contas acerca da reviravolta —uma lembrança de como ditaduras funcionam.

editoriais@grupofolha.com