sábado, 10 de dezembro de 2022

Brasil perdeu a soberania da Amazônia nestes quatro anos, diz João Moreira Salles, FSP

 

MANAUS

"Arrabalde", livro que o documentarista João Moreira Salles lança nesta segunda-feira (12) pela Companhia das Letras, nasceu de duas constatações do autor. Uma, de que estava de costas para a Amazônia, como a maior parte do país. A outra, do estado de abandono, desprezo e criminalidade a que a região foi relegada pelo governo de Jair Bolsonaro (PL) –e pelos militares de seu entorno.

"Os militares sempre tiveram a obsessão da soberania. A grande ironia é que nesses quatro anos o Estado brasileiro perdeu a soberania da Amazônia", disse Salles em entrevista à Folha, por vídeo, na manhã de sexta (9).

Para ele, "a gente ia virar uma autocracia dinástica" em caso de reeleição de Bolsonaro, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 30 de outubro.

Vista de drone de um rio com grandes manchas de terra no lado direito
Rio Curuá na Terra Indígena Baú, no Pará, que está dividida pelo garimpo; a margem esquerda, da aldeia Baú, está preservada, enquanto a direita, da aldeira Kamaú, está destruída pelo garimpo - Lalo de Almeida - 1º.jul.2022/Folhapress

O livro é resultado de um período de seis meses em que o documentarista morou no Pará. Salles constatou que as cidades amazônicas também estão de costas para a floresta, e que soluções de renda para os moradores da região devem passar por essas cidades.

O diretor de "Entreatos", "Santiago" e "No Intenso Agora" pertence a uma das famílias mais ricas do Brasil. É fundador da revista piauí, onde publicou os artigos que deram origem ao livro. Ele e o irmão Walter Salles, também cineasta –diretor de "Central do Brasil"–, deixaram o quadro de acionistas do Itaú Unibanco em fevereiro deste ano. A participação foi transferida a outros irmãos acionistas.

"Quis ter mais liberdade de poder atuar politicamente", afirmou.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

No livro, o senhor diz que, antes dessa incursão pelo Pará, não havia estado na Amazônia nem por quatro dias. Já fez reflexão sobre o porquê? O livro foi escrito para responder a essa pergunta. O patrimônio mais importante que o Brasil tem era desconhecido para mim. O Brasil está de costas para a Amazônia. A Amazônia é um arrabalde do Brasil. A gente a trata como periferia do país. Como diz o Luiz Braga, um baita fotógrafo de Belém, a Amazônia é resto para o Brasil.

A ironia dessa história é que o resto se tornou o centro. Para o concerto geral das nações, o Brasil é um país quase irrelevante, salvo pela Amazônia hoje em dia. Isso ficou claro para mim ao longo dos anos e particularmente depois da eleição do Bolsonaro. Ao cabo dos seis primeiros meses do governo, ficou claro que a Amazônia estava abandonada, entregue ao crime.

O Estado simplesmente abdicou da sua responsabilidade em relação à Amazônia. Eu tive muita vontade de ir para lá para saber o que estava acontecendo.

Retrato de João usando camisa polo cinza, sentado em um banco diante de um painel de madeira
O cineasta João Moreira Salles - Zô Guimarães - 10.abr.2017/Folhapress

O senhor descreve como as pessoas de fora não se adaptam à floresta, mas tentam fazer com que a floresta se adapte a elas... A floresta não se adapta. A complexidade de vida, a desordem e a anarquia de uma floresta acabam substituídas pela ordem da lavoura, do pasto.

O livro se dedica à história de formação de cidades do Pará e seus personagens. Por quê? A Amazônia é essencialmente urbana. As pessoas estão nas cidades, que têm muito pouca conexão com a floresta. Os empregos precisam ser gerados nas cidades, e não se pensa nas cidades amazônicas como uma solução para a floresta. A gente conhece as mazelas das cidades brasileiras, e na Amazônia é ainda pior.

"Arrabalde" foi concluído em setembro, momento em que Bolsonaro tinha chances de ser reeleito. O senhor diz que "o ciclo de destruição em curso pode ser revertido". Como isso seria possível se o presidente ganhasse novo mandato? Talvez eu não quisesse ali pensar na alternativa trágica de uma reeleição. Se ele se reelegesse, a gente teria duas agendas.

A primeira seria o fortalecimento da sociedade civil brasileira, que na Amazônia é robusta. E haveria uma agenda fora, que seria uma conversa com a Europa, os americanos, para que começassem a punir o Brasil pelo que faz na Amazônia. É um lobby desagradável, mas essencial. Graças a Deus, não será mais necessário.

A gente tem finalmente um desafio à altura de uma grande nação. Se a gente reelegesse Bolsonaro, seria julgado por isso, por entrar para o lado errado da história, iria se perfilar a países que em determinados momentos fizeram escolhas trágicas. A eleição do Lula é a nossa chance de estar à altura dessa responsabilidade que nos foi dada.

Da agenda de Bolsonaro, o que foi pior para a Amazônia? E por que ele chegou tão forte na disputa, com apoio maciço do meio empresarial? Sobre o pior, depende para quem você pergunta. Se perguntar aos indígenas, foi a invasão das suas terras, a morte de seus defensores, a desvalorização de tudo que eles são.

Passei o mês de outubro em Rondônia. Estava com uma líder indígena no dia do primeiro turno, e o resultado foi muito assustador. Em determinado momento, ela começou a falar para o companheiro dela: "As pessoas não entendem o que significa você viver num lugar em que ninguém te quer".

É mais que o desprezo, é a negação antológica deles. O garimpo ilegal e a ocupação das terras públicas brasileiras configuram uma coisa curiosa, se levarmos em conta que esse governo é muito ligado ao pensamento militar. Os militares sempre tiveram a obsessão da soberania. A grande ironia é que nesses quatro anos o Estado brasileiro perdeu a soberania da Amazônia.

É na Amazônia que facções disputam poder. As armas e ferramentas do garimpo não são mais dragas que roem as margens do rio. É isso, mais [fuzil] AR-15. Você não entra mais.

Isso fica claro em cidades amazônicas, inclusive com cooptação de indígenas por facçõesÉ isso que eu chamo de perda de soberania. Uma pessoa me perguntou: "Você se pôs em alguma situação de risco?". Eu disse que não, que quem se arrisca são ativistas, religiosos em Anapu [no Pará].

Você chega em cidades como Itaituba e Novo Progresso e sente claramente que não deve ficar ali mais do que 48 horas.

São muito frequentes ameaças de mortes a lideranças indígenas nas próprias comunidades... É perda de soberania, insisto muito nisso. É uma palavra que os militares usam o tempo todo para justificar os descalabros na Amazônia.

Pois bem, amigos, vocês queriam preservar a soberania da Amazônia. Perderam. Hoje a soberania é do crime.

Lula vai ter muito mais dificuldade de fazer hoje o que a equipe da Marina [Silva] fez [nos anos 2000]. A Amazônia virou um território de anarquia criminal.

O senhor passou um mês em Rondônia para um documentário? Sim, estou fazendo um documentário sobre a Txai Suruí [coordenadora da Juventude Indígena de Rondônia e colunista da Folha].

Como enxerga a possibilidade de documentários na Amazônia, em razão das dificuldades extras para, por exemplo, conviver com os personagens? Não só documentários, as pessoas precisam fazer música sobre a Amazônia, pintar a Amazônia, fazer poema, peças de teatro, livros. Claro que muito disso já existe. Mas a floresta não impregnou a nossa imaginação, não faz parte do nosso patrimônio simbólico. E falo de nós brasileiros que não moramos lá.

Parte do poder econômico brasileiro se comporta como oligarquia. Fomos salvos por quem ganha menos de dois salários mínimos. Essas pessoas são aquelas que precisavam desesperadamente do Auxílio Brasil. Receberam o dinheiro e não se deixaram corromper, ao contrário do andar de cima, da oligarquia, que em troca de seus próprios privilégios se deixou vender e votou no Bolsonaro.

O senhor dirigiu "Entreatos", sobre os bastidores da campanha de Lula em 2002. Que paralelos faz entre as campanhas de 2002 e 2022? A campanha de 2002 consolidava a democracia brasileira. Vínhamos de um período de democracia plena, com Fernando Henrique Cardoso, um democrata. Ele, um sociólogo, passava a faixa para o líder operário, mostrando que a transição de poder era possível.

Ali tive a sensação que a nossa democracia estava garantida. Estava enganado.

A eleição de 2022 salvou a democracia. Vamos ver, por enquanto parece que salvou. Então é muito diferente. Uma consolidava, a outra salvava.

Não tenho a menor dúvida de que se Bolsonaro se reelegesse a gente estaria no rumo de uma Turquia ou até de uma Rússia. Ele ia mexer no Supremo, centralizar o poder, ele e a grei dele, os filhos e tal. A gente ia virar uma autocracia dinástica.

Bolsonaro é pior que o regime militar. Ele é uma volta à Idade Média. É por isso que quis fazer esse filme. De novo um processo eleitoral, o mesmo candidato, numa situação muito diferente, num Brasil muito degradado.

A decisão de deixar o quadro de acionistas do Itaú tem relação com esses projetos na Amazônia? E o que diz sobre a fixação de Bolsonaro pelo nióbio na Amazônia, explorado pela CBMM [da família Moreira Salles] em Minas Gerais? Sobre nióbio, é mais uma obsessão do pensamento mágico de Bolsonaro. Cloroquina, nióbio, grafeno, tudo é muito superficial, atravessado por ideias mágicas, como se um único metal pudesse solucionar os problemas de um país. Eu não levaria muito a sério isso, é mais um sintoma da pobreza intelectual desse sujeito.

Em relação ao banco, nunca tive nenhuma relação formal, profissional. É estranho a mim. Não fazia muito sentido eu permanecer lá.

A Amazônia é um dos campos onde quero atuar. Não está no meu horizonte entrar na vida política partidária, mas apoiar gente que está, como [deputado Alessandro] Molon, [deputado Marcelo] Freixo e tantos outros. Fico amarrado sendo acionista do banco.

Quis ter mais liberdade de poder atuar politicamente sem precisar prestar conta. Meus irmãos e os outros acionistas do banco entenderam isso.


RAIO-X

João Moreira Salles, 60
É documentarista e produtor de cinema. Foi fundador da revista piauí. Entre os documentários que dirigiu estão "Nelson Freire" (2003), "Entreatos" (2004), "Santiago" (2006) e "No Intenso Agora" (2017).

AS HISTÓRIAS QUE RESTAM NESTA COPA Por Márvio dos Anjos*, Meio

 Bandeiras dobradas, camisas no cesto de roupa suja, goles de cerveja que descem menos macios do que de costume. Agora é a hora do desabafo do torcedor e da torcedora, frustrados em seus desejos de mais festa, mais confraternização. A Copa do Qatar se encerrou para o Brasil no estádio da Educação, em Doha, e é até difícil falar que houve lições a serem aprendidas. Porque é muito, muito difícil saber quais.

Depois de 118 minutos de amplo controle defensivo do Brasil, uma defesa que não foi nem um pouco ameaçada por Luka Modric e sua turma cedeu o que não podia. Num inexplicável contra-ataque rápido, parável principalmente no meio-campo, a bola chegou de Mislav Orsic, alcançou Bruno Petkovic. O camisa 16 chutou, auxiliado por um desvio no joelho de Marquinhos, um zagueiro que não merecia carimbar a trave na quarta cobrança de pênalti – aquela que encerrou os trabalhos, sem permitir que Neymar tivesse a oportunidade de cobrar o que seria o quinto, talvez não o último, ante uma Croácia que converteu todos os quatro chutes que deu. Antes, Rodrygo, que abriu as cobranças e tinha melhorado o Brasil ao entrar como ponta esquerda no lugar de Vini Jr, desperdiçara o seu.

A derrota é reflexiva. Vasculharemos tudo que essa seleção fez de errado, uns com mais, outros com menos lealdade. O gesto de Tite, indo ao vestiário assim que as cobranças se encerraram, será esquadrinhado como aquilo que nunca se viu e soará como uma das culpas da derrota. Talvez seja mais difícil enxergar o brilho do goleiro Dominik Livakovic, 27 anos, que viu o Brasil acertar a direção de 11 de 19 chutes e só permitiu a entrada de um, quando Neymar simplesmente o driblou e chutou alto, após receber o passe de Lucas Paquetá. Um Neymar que, com esse gol, igualou os 77 gols que Pelé marcou contra seleções. Mas jamais imitará o gesto de ocupar o pódio mais alto do futebol mundial.

Se Neymar confirmar que essa é a sua última Copa do Mundo, encerra-se uma era. Sim, porque Neymar foi uma era na seleção brasileira desde 2010, quando se cogitou, pela primeira vez, que o menino do Santos pudesse ser levado por Dunga para a disputa da Copa do Mundo na África do Sul. O postulante brasileiro a suceder Lionel Messi e Cristiano Ronaldo como maior do mundo sucumbiu (in)justamente ao time de Luka Modric, o meia criativo com traços de Deborah Colker no rosto, o cara que conseguiu aproveitar o vácuo da Copa do Mundo de 2018, em que nenhum jogador se destacou tanto assim, e abocanhou o prêmio da Fifa e outros mais.

O que mais dói é perder essa atmosfera, esse grande parque de diversões mental, que bloqueia os dutos do noticiário e suaviza até mesmo as importunações do trabalho. As crianças, tadinhas, serão salvas daqui a pouco por Papai Noel. Nós, os adultos que atravessamos o inesquecível Rubicão do 7 a 1 e só queríamos um pouco mais de ópio do povo, não; teremos que viver a realidade de um mundo em que alguma magia é emprestada por esse grande Concerto das Nações que, realizado no deserto qatariano, nos legou apenas areia, politização do irrelevante e uma passagem de bastão entre ídolos que não viraram heróis. Saem Thiago Silva (por idade) e Daniel Alves (idem). Neymar ainda não se decidiu. Ficam Marquinhos, Casemiro, Vini Junior, Rodrygo, Antony, Raphinha e Gabriel Martinelli, na mais estonteante geração de pontas que o Brasil apresenta desde Garrincha, Zagallo e Joel. Tite deixa a seleção com uma Copa América de 2019, um vice na mesma competição em 2021 e um trabalho que não começará do zero para quem quer que venha a ser seu sucessor.

Mas ainda há Copa para alguns. A Argentina bateu a Holanda num jogaço que chegou a estar 2 a 0 para os vizinhos. A Holanda buscou, levou para a prorrogação numa jogada ensaiada — e a Argentina ainda botou uma na trave no final. A disputa, que quase descambou para cenas lamentáveis umas três vezes, foi para os pênaltis. Messi foi o primeiro bater. Converteu. O goleiro argentino Emiliano Martínez pegou dois. Argentina é semifinalista. Lidemos com isso.

Neste sábado, chegamos àquele momento em que o futebol recria batalhas por meio daqueles que mal as estudaram. França e Inglaterra reencenam a Guerra dos Cem Anos, num confronto em que Kylian Mbappé, o mais entusiástico candidato a melhor jogador da Copa, enfrentará a mais interessante geração de jogadores ingleses. Os jornais da terra do rei Charles III se debruçaram, tática e liricamente, sobre a tarefa de como parar o fulgurante artilheiro do Paris Saint-Germain. Dono de uma arrancada comparada a de gente como Ronaldo Fenômeno e Jairzinho, Mbappé chega a essa quarta de final numa equipe favorita. Mas não será rei da França se não for rei da Inglaterra, invertendo o que Henrique V dizia na peça de Shakespeare, antes da vitória em Agincourt, disputada em 1415.

Ser rei da Inglaterra, nesta acepção, será passar pelo produto que mais evoluiu com a Premier League, a organização fundada em 1992 que transformou o Campeonato Inglês de futebol na competição anual mais lucrativa do mundo. Repleta de craques, essa seleção aprendeu a correr certo, aprendeu a dibrar e a formar jogadores com enorme repertório na sua base. Nesse caso, estamos falando de Phil Foden (Manchester City), Jude Bellingham (Borussia Dortmund) e Bukayo Saka (Arsenal), a mais nova geração a tentar levar o futebol “de volta para casa”. O principal astro é Harry Kane, centroavante habilidoso do Tottenham Hotspur, que terá vida dificílima diante da marcação de Dayot Upamecano (Bayern München) e Varane (Manchester United).

Na outra partida, portugueses e marroquinos acertam as contas da lendária batalha de Alcácer-Quibir, à qual o rei Dom Sebastião se lançou em 1578 para nunca mais voltar — a não ser como criador do sebastianismo, essa palavra que tomamos emprestada sempre que esperamos o retorno de um grande salvador da pátria. A nobreza portuguesa foi destruída, encerrou a dinastia de Avis (nenhuma relação com a locadora de carros) e custou a Portugal 60 anos de independência. Gerou ainda uma ópera do italiano Gaetano Donizetti, que só os mais estudiosos do gênero são capazes de assoviar.

Trata-se também de um Portugal questionando seu monarca. Depois de ter manifestado desgosto em público por ser substituído, Cristiano Ronaldo foi sacado da última partida e não fez falta alguma no time de Fernando Santos, esse senhor de corpo fechado em paletó amarrotado. Gonçalo Ramos entrou, fez três gols na Suíça, o placar foi fechado em 6 a 1, Portugal assombrou o mundo e pode estar realmente credenciado a ser campeão do mundo — caso passe pelos marroquinos.

Os magrebinos liderados por Ziyech e Brahim Hakimi tentam aquilo que nenhuma equipe africana conseguiu: chegar às semifinais do Mundial. Camarões perdeu para a Inglaterra (3 a 2) em 1990, Senegal se despediu na antiga regra da morte súbita contra a Turquia, num fatídico gol de ouro de Ilhan Mansiz, e Gana caiu nos pênaltis ante o Uruguai em 2010. Chegam até aqui apresentando uma das defesas mais ferozes da Copa do Mundo e credenciados pela eliminação da Espanha, nas oitavas, e da Bélgica, na fase de grupos. A Copa do Mundo continua, graças a Deus. Nós é que não temos mais nenhuma história para contar, até que a CBF anuncie o sucessor de Tite, uma nova história, outras camisas de diferentes tons de amarelo, e o palco se reabra na América do Norte, à espera de 48 seleções e um planeta de sonhos.

*Márvio dos Anjos é jornalista e crítico musical. É head de Relações Institucionais da OneFan. Foi repórter na “Folha de S.Paulo”, editor no “Jornal do Brasil”, “Destak Brasil” e “O Globo”, onde chefiou a editoria de Esportes. Apresenta o podcast “Deus te Ouça”, na Folha, e escreve para “O Globo” e “The Times”. Na Copa do Qatar, apresenta o #MesaDoMeio Especial Copa, com Pedro Doria e David Butter, no canal do Meio no YouTube.



Edição de Sábado: Arthur Lira, o artífice, por Luciana Lima - Meio

 O tapete vermelho estava estendido desde a porta da Chapelaria. Subia as escadas, contrastava com o carpete verde do salão e chegava à porta do plenário da Câmara dos Deputados. Poucas horas antes do início do julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a constitucionalidade das emendas de relator, o mestre no manuseio dessa ferramenta cuidava da política. Como se nada estivesse para acontecer no outro vértice da Praça dos Três Poderes.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), abriu a sessão que, ao mesmo tempo, concedeu medalha do Mérito Legislativo à primeira-dama, Michelle Bolsonaro, e rendeu homenagem póstumas ao jornalista Dom Phillips e ao ambientalista Bruno Pereira, mortos na Amazônia durante uma missão para denunciar a degradação ambiental. Foram condecoradas 31 pessoas. Lira abotoou a honraria no pescoço de Michelle, primeira a receber a medalha, por indicação da deputada evangélica Rosângela Gomes (Republicanos-RJ). Ficou no palco por mais alguns minutos para condecorar duas indicações suas: o presidente da Associação Brasileira das Empresas Aéreas (Abear), Eduardo Sanovicz; e o diretor da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Rafael Vitale — o mesmo que, um dia antes, havia deixado de comparecer a uma audiência da Comissão de Viação e Transportes para esclarecer denúncias de corrupção investigadas pela Polícia Federal.

Lira nem viu quando a viúva de Dom Phillips, Alessandra Sampaio, chorou ao receber a honraria. Coube ao líder do PT, Reginaldo Lopes (MG), consolá-la e aparecer na foto, ao lado também da antropóloga Clarisse Jabour, que representou o indigenista Bruno Pereira na cerimônia. Após passar as funções ao vice, deputado Lincoln Portela (PL-MG), Lira percorreu todo o plenário entre cochichos e cumprimentos. Vencido o corpo a corpo, alcançou o elevador do cafezinho, que o levou direto para a Chapelaria. Dali, partiu para a Residência Oficial, onde um almoço com o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, e a cúpula do PSB o aguardava. No percurso, Lira chegou a ser questionado sobre suas expectativas em relação ao julgamento do STF que estava para acontecer. “Como vou ter expectativa em relação a julgamento do Supremo?”, devolveu e seguiu o baile.

No encontro com Alckmin, os dois chegaram a comentar en passant a PEC da Transição que vai à Câmara na próxima semana. Mas o assunto principal foi menos indigesto: o apoio do PSB à recondução de Lira à presidência da Câmara em 2023 e, em contrapartida, a intenção de Lira de não criar problemas para o novo governo.

“O alagoano não é de ideologias.” É assim que o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder da bancada evangélica, traduz Lira em conversa com o Meio. O pastor tenta um espaço como vice na Mesa Diretora da Câmara na chapa — até agora unânime — de Lira. “Ele é pragmático. O maior diferencial dele é a capacidade de dialogar com a esquerda e com a direita, com a mesma facilidade e com o mesmo respeito. E agradar a todos”, elogiou. A síntese do Centrão profissional.

Na parte da manhã, porém, os evangélicos haviam experimentado outra característica conhecida de Lira: a de não prometer o que não pode cumprir. A bancada o chamou para uma ceia em um dos auditórios da Casa. Diante de uma mesa enfeitada com toalha rendada, flores, pães e ramos de trigo, Lira recebeu uma listinha de desejos. Não acatou. “Minha vida não é difícil de ler. Sou correto, muito correto com os amigos e previsível nas ações. Eu não ofereço nada mais e nada menos do que posso entregar”, respondeu.

Entre os pontos elencados, estava o Estatuto do Nascituro, proposta que pressupõe direitos a fetos e que contrasta com as permissões de aborto presentes na lei brasileira. Outro ponto era a proposta que permite o “homeschooling”, que se opõe à lei vigente que obriga os pais a mandarem os filhos para a escola. A negativa sutil de Lira aos religiosos, segundo petistas, tem tudo a ver com um compromisso já assumido com o futuro governo: o de descontaminar a pauta da Câmara de matérias “de costumes” e priorizar temas econômicos.

O julgamento do STF se enveredou pela tarde de quarta e foi suspenso no início da noite pela ministra Rosa Weber, presidente da Corte, com a promessa de ser retomado na próxima quarta-feira (14/12). Interlocutores de Lira disseram que ele sequer ligou a TV para acompanhar os arrazoados apresentados. Após o almoço com Alckmin, seguiu sua rotina eleitoral. Recebeu líderes partidários, entre eles o do MDB, Isnaldo Bulhões (AL). À noite, de volta à Câmara, também não teceu nenhum comentário sobre o STF. Manteve o foco em conversas individuais com parlamentares no gabinete.

Essas conversas, tratadas como privadas por seus auxiliares, têm sido a principal rotina de Lira desde o desfecho das eleições. Ele recebe um por um dos atuais deputados. E tem aqueles que servem de cicerones para os novos eleitos. Faz parte do “tour de boas-vindas” a Brasília passar pela casa ou pelo gabinete de Lira. O presidente os recebe com toda atenção e espera, é claro, o retorno.

Muito acordo, pouca ideologia

Mas de onde vem tanto poder? Lira tem fama de “cumpridor de acordos”. Essa é a principal característica citada por deputados de todas as tendências existentes na Câmara. Os parlamentares de direita atestam que o que o diferencia de Eduardo Cunha, ex-presidente da Casa que deu início ao impeachment de Dilma Rousseff, é a falta de apreço pelas “ideologias”. Já os deputados de esquerda apontam que ele não é chantagista. Lira também não é de holofotes e sempre preferiu as negociações de pé-de-ouvido, dessas fechadas nos corredores e dentro dos gabinetes. “Acordo fechado com ele é assim, você pode virar as costas e ir cuidar da vida”, disse o deputado Ênio Verri (PT-PR), que foi líder do partido no ano passado. “Pelo menos durante a minha liderança, foi assim”, ressalta.

Não é só com o PT que Lira mantém boa relação no campo da esquerda. A conversa com o PCdoB, por exemplo, tem sido cotidiana e bastante próxima. A deputada baiana Alice Portugal (BA) é uma amiga. Lira chegou a intermediar conversas dela e da deputada Carmen Zanotto (Cidadania-SC) com o ministro Luís Roberto Barroso, do STF, quando as duas tocavam na Câmara a pauta do piso salarial para a enfermagem. Alice brinca com Lira, dizendo que, se ele tem fama de coronel, ela o considera um “coronel pós-moderno”. “Não venha dar uma de bolsonarista. Isso você nunca foi. Eu te conheço”, provocou a deputada, certa vez, se dirigindo a Lira em uma das conversas em meio a votações. “Ele é um pragmático. Mas não é um bolsonarista. Nunca foi”, repetiu, enfática, a deputada ao Meio.

Quem o conhece desde antes de ele chegar à presidência da Casa diz que sempre foi assim. Lira se dedica mais às articulações feitas nos bastidores e, na maioria das vezes, fora da Câmara, longe dos olhares da imprensa. Tanto é que ele estabeleceu uma rotina semanal inédita desde que chegou ao poder: levou as principais discussões para a Residência Oficial onde, todas as terças, planeja a semana com um café da manhã com os líderes da oposição e um almoço com os da base. Não é uma coisa tão certinha assim. Tem deputado do PT que vai almoçar e tem gente da base que toma café da manhã. Tem ainda os mais chegados que vão nos dois encontros.

O pragmatismo político fez com que Lira, apesar de ter sido o maior articulador da base bolsonarista, mantivesse boa relação com petistas. Odair Cunha (MG), Reginaldo Lopes (MG), Enio Verri (PR), José Guimarães (CE) e até a presidente do partido, Gleisi Hoffmann (PR), estão entre os interlocutores mais assíduos, apesar das divergências.

A abertura da conversa com Lula não dispensou, no entanto, uma satisfação a Bolsonaro. No início de novembro, véspera da reunião marcada com o presidente eleito, Lira esteve no Palácio da Alvorada. Encontrou um presidente abatido pela derrota. Ficou cerca de 30 minutos e avisou-o sobre a agenda que ocorreria no dia seguinte.

A postura depressiva de Bolsonaro, sem reconhecer o resultado das eleições, foi tema de uma das conversas de Lira com o PL. O presidente da Câmara, dessa vez, abusou da sinceridade, provocando olhares perplexos dos recém-eleitos que ainda esperavam que algo acontecesse e mudasse o resultado do pleito. “Sinto informar, mas nada vai acontecer”, disse Lira. “E alguém precisa ir lá e falar com ele (Bolsonaro). Se precisar, eu vou.” Foi desencorajado, no entanto, pelos amigos do presidente. Na mesma reunião, criticou a insistência dos novos eleitos na pauta armamentista. “Essa discussão já passou do ponto.”

Me ajude a te ajudar

Não se constrói uma reputação de cumpridor de acordos em Brasília sem algo a se oferecer em troca. O “toma lá, dá cá”, afinal, tem duas pontas. Foi aí que Lira teve uma sacada na administração das emendas de relator para atender as demandas apresentadas pelos deputados nas “reuniões privadas”. Parlamentares dizem que isso fez com que eles parassem de rodar a Esplanada “com pires nas mãos” suplicando por audiências com ministros e, muitas vezes, tomando um belo “chá de cadeira”. “É muito melhor se comprometer com o presidente da Câmara do que com o ministro de Estado ou com o presidente da República. É bem mais confortável”, disse um deles, sob reserva.

É com esse argumento que Lira vende seu peixe. Ele tem dado um conselho a deputados do centrão após a vitória de Lula. O de que ninguém ganha sendo oposição. Ganha mais quem for independente. E é assim que pretende se manter. Dessa forma, a negociação caso a caso entre o Executivo e o Legislativo fica mantida. Tudo sustentado na lógica de que, com R$ 19,4 bilhões — total destinado para emendas de relator no projeto da Lei Orçamentária Anual (LOA) do próximo ano — para administrar, não há por que ser governista. Pelo menos por enquanto.

“A gente vê muito essa lógica de vender dificuldades para o governo eleito. Ficar independente pode ser estratégico nesse momento, até, para depois, vender mais caro, caso haja adesão no futuro, conseguir melhores cargos, melhores ministérios”, avalia o cientista político Lucas Fernandes, da consultoria BMJ e que acompanha o dia a dia das discussões sobre orçamento na Câmara.

A construção do orçamento secreto

O poder do Congresso de fazer alterações no orçamento vem da Constituição de 1988. Até 2015, as emendas eram apresentadas e aprovadas, só que o governo não era obrigado a executá-las. A primeira alteração constitucional determinou que parte das emendas individuais, ou seja, apresentadas pelos parlamentares de forma independente, teria execução obrigatória. A partir daí, a imposição sobre o Executivo só aumentou. Em 2019, essa obrigatoriedade se estendeu também para as emendas de bancada, aquelas propostas pelas bancadas dos partidos ou dos estados.

Só em 2019, na gestão de Rodrigo Maia, as emendas de relator passaram a ser identificadas com a sigla RP-9, forma que aparece no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siaf). Rodrigo Maia também fez uso desse mecanismo para atender demandas de deputados. Só que, com Lira, essa prática ganhou robustez, principalmente em contraste com a decisão de Bolsonaro de abrir mão da função de controlar a execução orçamentária.

“Esse poder todo que Lira teve na presidência da Câmara não veio a troco de nada. Houve um vácuo no papel de negociação do governo federal. Bolsonaro não quis formar uma base usando a negociação com partidos e se isentou dessa discussão orçamentária. Isso fez com que ele começasse a puxar mais pelas emendas de relator. Até então, elas tinham um papel mais residual no orçamento e passou a ter um papel estratosférico”, apontou Fernandes.

O caráter secreto das emendas vem do fato de que os nomes dos deputados que as requisitaram e foram atendidos não ficam disponíveis para a população. As reclamações apresentadas pelos partidos Cidadania, Rede, PV e PSOL, de oposição ao governo de Jair Bolsonaro, ao STF apontam falta de critério para essa distribuição. Aos amigos do rei, tudo. Aos inimigos, a lei. “Como o relator é indicado por Lira, ele passou a turbinar a base bolsonarista com essas emendas. Foi uma enxurrada de dinheiro para ganharem a eleição”, criticou um parlamentar, sob reserva. No ano passado, o relator do Orçamento era o deputado Hugo Leal (PSD-RJ), membro do Centrão, de quem Lira hoje é virtualmente o dono.

Sem isonomia e transparência, brotam escândalos. Há denúncias de compras de tratores superfaturados; cidades pequenas que tinham cerca de 85 caminhões de lixo saltaram para uma frota de 488 veículos; o governo aceitou pagar até R$ 567,6 mil por um ônibus que deveria custar, no máximo, R$ 361,8 mil, além de uma verdadeira inundação de ambulâncias no Piauí, terra do ministro Ciro Nogueira (PP).

Mas é no Maranhão que fica o caso mais emblemático e que está sendo ainda investigado após uma reportagem feita pela revista piauí. "O município de Pedreira tem 39 mil habitantes e, para justificar as emendas recebidas pelo relator, informou ter realizado mais de 540 mil extrações dentárias. Significa ter tirado 14 dentes de cada habitante, incluindo os recém-nascidos, que não tem dente”, disse a senadora Simone Tebet (MDB-MS), durante a campanha eleitoral, em entrevista ao podcast Flow. A reportagem da piauí mostrou ainda que outro município do interior do Maranhão informou ter realizado mais testes de HIV/aids do que toda a cidade de São Paulo, com 12 milhões de habitantes.

Apesar dos escândalos, Fernandes acredita que não haverá por parte do STF uma proibição do mecanismo. “A tendência que estamos projetando é que o orçamento secreto não deve ser declarado totalmente inconstitucional. Deve haver algum tipo de determinação do Judiciário com o objetivo de trazer mais transparência e algum grau de isonomia”, aposta.

Agora, cabe a Lula tentar retomar o controle do orçamento. Fernandes identifica que Lula sinaliza para um caminho diferente daquele de crítica mais incisiva, adotado na campanha, para não melindrar a relação com Lira — afinal, depende dele para aprovar a PEC da Transição. A condenação do orçamento secreto desapareceu do discurso do petista desde a vitória nas urnas. Em vez de atacar o “orçamento de Lira”, Lula tratou de ter o seu próprio orçamento. “Lula tem duas maneiras de retomar esse controle orçamentário. Uma delas seria acabar com as emendas do relator, neste volume, pelo menos. A outra é ampliar o gasto federal como um todo, mantendo as emendas de relator. Parece que é isso que ele está fazendo. Ao propor uma PEC para retirar o Bolsa Família do teto de gastos, Lula tem mais de R$ 100 bilhões para gastar e mobilizar sua base. Me parece que é esse o jogo”, diz Fernandes.

De seu lado, Lira, pelo menos por hora, silenciou sua defesa do semipresidencialismo, pauta que levantou durante seu mandato e que retira atribuições do presidente da República, transferindo competências para o Congresso Nacional. Há cerca de dois meses, o presidente da Câmara também não toca no assunto do “orçamento municipalista”, nome que tentou emplacar para o orçamento secreto, logo após o resultado do primeiro turno.

Lira, o opaco

Da mesma forma que prefere a conversa de bastidor com parlamentares, Lira nunca gostou de sair da reunião de líderes na Câmara e se deparar com um batalhão de jornalistas perguntando o que foi discutido no encontro. Aliás, sua relação com a imprensa demonstra um jeitão meio armado, pronto para contra-atacar.

No ano passado, depois de uma das suas raras derrotas no plenário da Câmara, Lira não se conteve diante de uma pergunta sobre o que havia ocorrido na negociação da proposta que mudava a composição do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), pauta que teve seu empenho pessoal para ser aprovada. “Me faça uma pergunta séria que eu respondo. Essa é deboche”, disse ao jornalista. Só depois desse contratempo, ele respirou e conseguiu dar uma resposta mais condizente a respeito das decisões dos parlamentares. “O plenário vota, nós temos que obedecer o resultado em relação a isso. Não penso em vitória e nem em derrota.”

Mas essa relação mais arredia com a imprensa se desenhou logo no início de seu mandato, quando ele desalojou o comitê de imprensa do espaço que tinha acesso direto ao plenário — e fez dele o seu gabinete. A mudança serviu ainda para evitar que Lira tivesse que atravessar todo Salão Verde, desde o antigo gabinete, até a entrada do Plenário e nesse percurso, ser acompanhado pelos repórteres.

Ao final do ano de 2021, porém, essa postura arredia se arrefeceu sob o aconselhamento de assessores que o orientaram a quebrar o gelo. Lira recebeu jornalistas na Residência Oficial para um almoço de confraternização. Bateu papo, respondeu perguntas, mostrou obras de arte nas paredes da casa. Neste ano, ainda não houve o convite, mas assessores acreditam que ele acontecerá. Afinal, o todo-poderoso está em campanha.