domingo, 27 de fevereiro de 2022

FABÍOLA SUCASAS NEGRÃO COVAS O amor enxovalhado, FSP

 Fabíola Sucasas Negrão Covas

Promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, é titular da Promotoria de Enfrentamento da Violência Doméstica

O projeto de lei 6.444/2019 tramita na Câmara dos Deputados para incluir no art. 171 do Código Penal conduta que induz a vítima, com a promessa de constituição de relação afetiva, a entregar bens ou valores para si ou para outrem. Nominada nos meios jurídicos por estelionato sentimental, a prática quer agravar a responsabilidade penal daquele que engana e se aproveita do amor, da fantasia e do sonho de um romance, abusando da lealdade e da confiança da vítima para conseguir vantagem econômico-financeira.

O tema voltou à cena com o documentário "O Golpista do Tinder", da Netflix, que exibe detalhes do tal golpe praticado por um homem via aplicativo de encontros, vitimando várias mulheres, a quem causou prejuízos de milhões de dólares.

Foto de um homem de camisa sentado diante de uma grande janela de vidro
Foto de Shimon Hayut, o "Golpista do Tinder", publicada em seu Instagram - Reprodução/Instagram

Alguns casos ficaram conhecidos no Brasil também. Em seis estados, um homem teria feito mais de 50 mulheres vítimas e só foi descoberto porque elas se uniram em busca de Justiça. Noutro, uma mulher alcunhada por "Loba do Tinder", já presa, deu o golpe em 100 homens.

Nos casos mencionados, o recorte de gênero se evidencia. Enquanto para as mulheres o golpista se utilizou do chamariz do sonho do amor romântico como instrumento para a sedução e o estreitamento da relação de afeto, a golpista teria ameaçado denunciar a relação extraconjugal para se valer da vantagem econômica —enquadramento de extorsão. De um lado, o ideal do príncipe encantado vendido como garantia de felicidade; de outro, a reafirmação da virilidade masculina prestes a abalar a fidelidade conjugal. Isso sem falar das ameaças de vazamento de "nudes", perseguição ou outros delitos que se somam à conduta fraudulenta.

Enquanto não se mergulha nas relações de consumo do tema, as regulações para prevenção e educação em gênero de caráter transversal, o PL 6.444/19 aguarda andamento.

Apensado ao PL 2.512/19, com ele se unem outras 12 propostas para aumentar a pena do estelionatário que venha a atingir pessoas idosas ou que não tenham o necessário discernimento para o ato, além de tantas mais referentes à prática cometida por meio de redes sociais ou em ambiente virtual —apesar da entrada em vigor da lei 14.155/21, que alterou o Código Penal prevendo a hipótese de aumento de pena para o crime de fraude eletrônica e de estelionato cometido contra idoso ou vulnerável.

Nos EUA, as fraudes em aplicativos e sites de relacionamento aumentaram 50% em 2020 ante 2019. O Instituto de Defesa do Consumidor americano afirmou que foram perdidos cerca de US$ 300 milhões com a prática criminosa.

No Brasil, não deve ser diferente, apesar da falta de dados oficiais. A pandemia de Covid-19 já retratou o aumento da violência praticada contra as mulheres, o que ensejou a aprovação de alguns projetos de lei ao longo dos últimos dois anos, a exemplo dos crimes de violência psicológica e "stalking" (perseguição virtual ou presencial). A violência patrimonial, por sua vez, segue infelizmente fortalecida, recrudescendo a vergonha e silenciando a dor de um amor enxovalhado.

Invasão da Ucrânia é má notícia para a esquerda e motivo de confusão na direita, Celso Rocha de Barros FSP

 No que se refere à invasão da Ucrânia por tropas russas, duas coisas devem ser óbvias para a esquerda latino-americana: em primeiro lugar, ninguém precisa nos explicar que os Estados Unidos também são capazes de agressões imperialistas. Em segundo lugar, ninguém aqui aceita a ideia de que potências nucleares têm o direito de invadir países vizinhos que tentam sair de suas áreas de influência.


A Ucrânia é um país soberano que deve ter suas fronteiras preservadas.

Qualquer outra posição dentro da esquerda está errada. Não, uma vitória russa não será um triunfo do anti-imperialismo; será uma vitória do imperialismo russo.

Não, um fortalecimento do imperialismo russo não aumentará a margem de manobra dos países mais pobres para extrair concessões econômicas dos impérios em disputa: a Rússia continua sendo um país com graves problemas econômicos que não está em condições de ajudar ninguém.

E, pelo amor de Deus, uma vitória russa não representará progresso para os ideais de esquerda. Isso já não era verdade na época da União Soviética: a exportação da revolução pelos tanques soviéticos foi sempre uma tragédia. Mas no caso do regime russo atual a ideia é francamente bizarra: Putin é um conservador militarista que governa aliado a oligarcas.

Um grupo de pessoas aglomeradas com bandeiras da Ucrância e cartazes com os dizeres "paz", "stop putin" e uma placa com o rosto de Putin com a marca de uma mão sangrando
Manifestantes em Madri usam cartazes críticos a Putin em protesto contra a Guerra na Ucrânia - Gabriel Bouys - 27.Fev.2022/AFP

Sim, com todos esses problemas, a Rússia pode ser um aliado na formação de um mundo multipolar. Mas se você acha isso, a guerra é uma tragédia: um aliado potencial do multipolarismo se enfiou em um conflito que pode lhe tirar legitimidade na arena internacional por muitos anos.

Por fim, há gente comemorando a invasão como desafio à ordem internacional pós-Guerra Fria. Na verdade, o que se viu na esfera internacional nos últimos anos foi o seguinte movimento: tudo que a globalização capitalista tem de mais selvagem —superexploração da força de trabalho, degradação ambiental, especulação financeira— prolifera livremente.

O que entrou em crise foram os esforços de tornar esse processo um pouco mais civilizado, como a ONU ou a União Europeia. A invasão reforça essa tendência.

Enfim, a invasão da Ucrânia foi uma notícia muito ruim para quem defende os valores da esquerda ou para os liberais que esperam que o capitalismo seja acompanhado das instituições de uma sociedade aberta.

Para quem defende as versões mais reacionárias do capitalismo, porém, alguma confusão ideológica diante da guerra na Ucrânia é compreensível.

Na semana passada, políticos e comentaristas de extrema-direita americanos, como Steve Bannon, elogiaram o atual regime russo: segundo Bannon, na Rússia as pessoas sabem em que banheiro ir, sem essa história de transgênero.

Não é por acaso, portanto, que o bolsonarismo ficou atordoado com a invasão da Ucrânia. Bolsonaro havia acabado de ir à Rússia proclamar-se "solidário" a Putin; mas seus militantes sempre defenderam "ucranizar" o Brasil, referindo-se às táticas da extrema-direita ucraniana.

Bolsonaro gostaria de unir-se à Otan, como o governo da Ucrânia, mas também gostaria de instaurar uma ditadura como a de Putin.

Sonha exatamente com o capitalismo sem civilização que vem ganhando espaço, mas não tem coragem de desafiar os Estados Unidos. Como Steve Bannon diante do banheiro, Jair ficou paralisado pela dúvida e sujou as próprias calças.