sábado, 18 de setembro de 2021

Alberto Dines foi pioneiro da crítica de imprensa, Folha 100, FSP

 


SÃO PAULO

Em 6 de julho de 1975, começava assim a primeira coluna “Jornal dos Jornais”, assinada por Alberto Dines na Folha.

“O direito à informação não funciona apenas num sentido, mas tem múltiplas direções: serve aos veículos para informar ao público e serve ao público para se informar sobre os veículos”.

O jornalista Alberto Dines, morto em 2018 aos 86 anos - Folhapress

Era um experimento ousado, pelo pioneirismo de fazer uma discussão da imprensa pela imprensa e pela ideia de levá-lo adiante no ambiente pesado da ditadura.

A coluna marcou a primeira passagem de Dines, morto em 2018 aos 86 anos, pela Folha. Hoje, é amplamente considerada o embrião do que viria a ser a função de ombudsman, implementada pelo jornal em 1989.

“De fato ele é o precursor, eu rendo essa homenagem. Ele foi muito colaborativo comigo, me ajudava, dava conselhos”, afirma Caio Túlio Costa, primeiro a exercer esse cargo na Folha.

“Quando eu assumi como ombudsman, o Dines me mandou uma cartinha desejando sucesso. Sugeriu que eu não tivesse nem ira sagrada, nem entrasse numa missão salvacionista, porque isso tinha lhe custado mais do que uma dúzia de ferrenhos inimigos, sem que tivesse sido quebrado o bezerro de ouro”, acrescenta.

Dines chegou à Folha convidado pelo então diretor de Redação, Claudio Abramo, após uma passagem marcante pelo Jornal do Brasil. Virou chefe da sucursal do Rio e teve a ideia de fazer a coluna sobre mídia em razão de sua experiência como professor visitante em Columbia (EUA).

“Lá ele viu como a crítica à imprensa havia surgido no episódio Watergate. Conversando com o Frias [Octavio Frias de Oliveira, publisher do jornal], deu a ideia de fazer o mesmo na Folha. O Frias perguntou se ele tinha certeza, porque ele ia ser muito atacado, o pessoal era muito vingativo. Mas o Dines não se importou”, diz Luiz Egypto, que foi editor do site Observatório da Imprensa, criado por Dines na década de 90 com a mesma função, de debater a mídia.

A coluna sobre mídia foi encerrada em 1977, num momento em que crescia a tensão entre o jornal e a ditadura militar. Dines passou a assinar artigos sobre política com as iniciais, “A. D.”.

Em 1980, ele enviou uma coluna com o título “São Paulo e os dois Paulos”, em referência ao cardeal Paulo Evaristo Arns e ao então governador paulista, Paulo Maluf. O texto, com críticas a Maluf, não foi publicado, o que levou Dines a reclamar de censura.

Editor-chefe à época, Boris Casoy tem outra versão. “O texto era muito forte, com impropérios pessoais contra o Maluf. Levei ao Frias, que propôs tirar o texto da página 3, onde era publicado, e levar para uma página interna, e com ele assinando o nome, não as iniciais. Ele não aceitou. Dizia que foi censurado, mas foi demitido por não respeitar uma decisão do jornal”, diz.

Dines retornaria à Folha nos anos 1990, onde manteve uma coluna na Ilustrada.

“Ele era um dos jornalistas mais cultos do Brasil, um repositório fantástico de leituras, alguém com interesses muito diversos”, diz Caio Túlio, que se tornou seu amigo.

Egypto concorda. “O Dines era um erudito sem polaina, sem a menor empáfia. E sempre teve muitos projetos em mente. Trabalhava como um garoto de 30 anos. Para ele, domingo era dia normal. Era mestre em sair do escritório às 3 horas da manhã”.

A segunda passagem também terminou em atrito. Sua coluna foi encerrada após ele ter escrito um texto no Observatório da Imprensa, em março de 1999, com críticas à Folha.

Nos anos seguintes, o jornalista e o jornal se reconciliariam, e o então diretor de Redação, Otavio Frias Filho, chegou a ir ao programa que ele apresentou na TV Brasil até pouco antes de morrer.

Lá, Dines mantinha acesa a missão a que se propôs naquela coluna pioneira na Folha, quando justificou numa frase a necessidade de a imprensa também passar por escrutínio: “democracia vale para todos, caso contrário não é democracia”.

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RAIO-X

Alberto Dines (1932-2018)

Nascimento: Rio de Janeiro

Carreira profissional: trabalhou em veículos como Manchete, Última Hora, Diário da Noite, Jornal do Brasil, Folha, O Pasquim, Exame, TVE e TV Brasil

Carreira acadêmica: professor-visitante na Universidade Columbia (EUA) e criador do Labjor, da Unicamp

Livros: "Morte no Paraíso - A Tragédia de Stefan Zweig", "O Papel do Jornal", entre outros

Startups ligam pontas da cadeia de reciclagem e ajudam a gerar renda, FSP

 SÃO PAULO

De todos os resíduos urbanos que poderiam ser reciclados no Brasil, só 4% cumprem esse destino. É essa realidade que startups focadas em soluções socioambientais querem mudar, ligando consumidores, cooperativas, recicladoras e indústrias para gerar lucro e renda.

“Funcionamos como um hub, colocando a indústria em contato direto com as cooperativas e garantindo um valor mais alto pela venda dos materiais descartados”, afirma Saulo Ricci, 38, criador da Coletando Soluções, sediada em Barueri (região metropolitana de São Paulo).

Silvio Ricci, dono da Coletando Soluções, no galpão da empresa na Grande São Paulo
Silvio Ricci, dono da Coletando Soluções, no galpão da empresa na Grande São Paulo - Keiny Andrade/Folhapress

Empresas que atuam no setor também viabilizam a aquisição de notas fiscais sobre a reciclagem de determinados volumes de resíduos, de modo a assegurar a confiabilidade da logística reversa.

No caso da Coletando, a rastreabilidade das embalagens permite identificar onde os produtos foram comercializados e consumidos, informações que são vendidas a marcas interessadas.Segundo Saulo, o empreendimento evitou que 800 toneladas de embalagens acabassem em lixões e aterros nos últimos três anos. Esse material gerou mais de R$ 380 mil em renda para cooperativas e catadores. O faturamento saltou de R$ 150 mil em 2018 para R$ 2 milhões nos primeiros seis meses de 2021.

Em 2020, a startup iniciou um programa de licenciamento de marca, ao qual já aderiram 13 cooperativas e outras 195 são candidatas. Elas recebem treinamento e um caminhão ou triciclo.

A fórmula da Coletando contempla outros elos da cadeia de reciclagem. Donos de pequenos comércios trocam seus recicláveis por valores creditados em um cartão de crédito pré-pago fornecido pela startup.

​Quem participa do programa de vantagens de outra empresa, a so+ma —presente em Salvador, São Paulo e Curitiba—, entrega resíduos e ganha pontos. Os créditos podem ser trocados por alimentos, itens de higiene, cursos e descontos em produtos e serviços. Os relatórios mostram que, de 2015 até agosto de 2021, mais de 11 mil famílias resgataram quase 37 mil recompensas.

Claudia Pires, 49, fundadora da empresa, aposta na mudança de comportamento dos consumidores para elevar o índice nacional de reciclagem, que patina em 3,8%, de acordo com o ISLU 2020 (Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana). Para comparar, a União Europeia reciclou 48% dos resíduos sólidos urbanos em 2016.

Claudia diz que o apoio da Heineken foi decisivo para a so+ma desenvolver a cadeia de reciclagem do vidro na capital baiana. “Por um lado, oferecemos a uma indústria vidreira de Sergipe as embalagens recolhidas pelos cooperados de Salvador e, por outro, garantimos que a fabricante de cerveja compre a produção de garrafas da fábrica sergipana.” Assim um material antes desprezado ganhou rentabilidade.

“Às vezes o que é reciclável não é lucrativo, por isso recomendo estudar bem a Política Nacional de Resíduos Sólidos e entender quais sãos os materiais que podem ser trabalhados”, diz Eder Max, consultor do Sebrae e especialista em marketing digital, inovação e planejamento.

Por incluírem componentes de ouro, prata e platina, computadores, TVs e celulares apresentam maior valor agregado. Contudo, como adverte Max, também contêm elementos tóxicos e exigem licença especial para armazenamento e reciclagem.

De acordo com o consultor, mesmo quem apenas oferece um ambiente virtual para compradores e vendedores deve estar atento à legislação. “Se pneus, eletrônicos ou outros materiais se extraviam e vão parar na natureza, o dono do marketplace está sujeito à responsabilidade solidária”, afirma.

O potencial de expansão é grande. Renato Paquet, 29, fez a startup Polen chegar a 24 estados, onde trabalha com quase 200 cooperativas.

“Agora elas contam com duas fontes de receita: uma pela venda dos resíduos e outra pelo serviço ambiental de triagem do lixo, que possibilita às empresas realizar ou comprar os créditos de logística reversa”, diz o empresário.

​Por meio da tecnologia blockchain, o processo é rastreável. Estão acessíveis dados como a quantidade de cada tipo de material reciclável, num total que já supera 50 mil toneladas.


Samuel Pessôa - Os prejuízos da refinaria Abreu e Lima, FSP

 


No domingo passado (12), apresentei resultado de estudo com colegas do Centro Brasileiro de Infraestrutura. O trabalho documentou que a refinaria Abreu e Lima, construída pela Petrobras em Pernambuco, custou, por barril de petróleo refinado por dia, sete vezes mais do que investimentos equivalentes feitos segundo as melhores práticas da indústria.

O presidente da Petrobras à época, Sergio Gabrielli, argumentou que nosso estudo era ideológico e que tinha erros.

O maior erro, segundo Gabrielli, foi que nosso estudo considerou que a capacidade de refino era metade do que deveríamos considerar. A refinaria foi projetada com dois trens de refino, e somente o primeiro trem está em operação.

Dessa forma, segundo Gabrielli, o sobrepreço não teria sido de sete vezes, mas de três vezes e meia. Surpreende que Gabrielli não fique horrorizado com um custo de 250% em excesso ao obtido com as melhores práticas da indústria.

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A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco - Agência Petrobras-3.nov.2020

É possível que o segundo trem entre em operação nos próximos anos. Ou não. Aguardemos. É mais produtivo, portanto, procurar saber o prejuízo que a refinaria causou à empresa.

Em 2016, o Tribunal de Contas da União fez um cuidadoso estudo sobre o caso e concluiu que: "Considerando que o investimento total registrado no momento da reavaliação era de US$ 26,21 bilhões (a valor presente), chega-se ao resultado danoso de US$ 18,93 bilhões (US$ 26,21 bilhões - US$ 7,27 bilhões = US$ 18,93 bilhões). Esse montante corresponde, então, ao total de prejuízo que o Projeto Rnest ocasionou aos cofres da Petrobras. De todo o investimento aplicado pela empresa (US$ 26 bilhões), cerca de US$ 19 bilhões não retornarão ao longo da vida útil da refinaria".

No parágrafo acima, o valor de US$ 7,27 bilhões é o retorno, em valor presente, das receitas subtraídas dos custos operacionais. Receitas estas que já incorporam: o funcionamento dos dois trens de refino; todos os ganhos na cadeia produtiva da Petrobras da instalação de uma refinaria no litoral pernambucano; e a manutenção, por todo o tempo de operação da refinaria, de todos os incentivos ficais concedidos ao empreendimento.

Na sua resposta, Gabrielli sugere que minha coluna teria sido ideológica e refletia a minha "adoração e crença mitológica na capacidade do mercado de resolver os problemas do desenvolvimento".

Não me parece que a avaliação de Gabrielli seja justa com minha coluna. Independentemente de minha ideologia ou de meus pontos de partida, Abreu e Lima custou, na melhor das hipóteses, 250% a mais que o normal –evidentemente se o segundo trem conseguir operar sem grandes investimentos adicionais (o que não parece ser o caso)– e gerou prejuízo para a empresa de US$ 19 bilhões, pouco menos de R$ 100 bilhões.

O relatório do TCU parece concordar com minha avaliação de que houve gravíssimos problemas de governança. No parágrafo 183, lê-se: "Em suma, o que se viu –e que será detidamente demonstrado neste relatório– foi que, apesar de adotar procedimentos sistematizados de implantação de projetos de investimento, os gestores da Petrobras encarregados da Rnest se desviaram das condutas propugnadas, o que contribuiu para levar o empreendimento à situação de inviabilidade econômica".

No ciclo petista, houve enorme esforço de intervenção do Estado para estimular setores produtivos. Como o caso de Abreu e Lima demonstra, os resultados foram muito ruins, para dizer o mínimo.

Esse grupo político tem sólidas possibilidades de retornar ao Planalto em 2023. Seria importante que fizesse uma avaliação franca e honesta dos resultados do seu intervencionismo.