terça-feira, 14 de setembro de 2021

ESG = redução de custos, Por Heiko Hosomi Spitzeck. Época Negócios


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São Paulo - A grande promessa da discussão de ESG no mercado financeiro é um custo de capital mais barato. Empresas como a Suzano estão lançando sustainability-linked bonds com condições de financiamento mais atrativas. Porém, para a grande maioria das empresas que estão começando sua jornada de ESG, focar na redução de custos é mais atrativo.

Nas minhas aulas gosto de brincar: “Levanta a mão se você não quer reduzir custos.” Obviamente nunca ninguém levantou a mão. Reduzir custos e aumentar a eficiência são bem-vistos em qualquer empresa, de PMEs até multinacionais. Sobretudo quando uma empresa ainda está no começo da sua jornada ESG e tem várias oportunidades de reduzir custos. Quer alguns exemplos?

Reduzindo custos via eficiência energética

Anos atrás, um intraempreendedor no Walmart sugeriu implementar claraboias. Nos cálculos dele, deixar a luz natural entrar na loja tinha um potencial de reduzir custos de iluminação entre 20-30% dependendo do local. O payback do projeto era menos que 6 meses. Deu certo e o marketing do Walmart aproveitou o projeto para substanciar a narrativa de que a empresa é sustentável, falando do uso de “Smart Sky Lights” e dos benefícios de evitar a emissão de gases de efeito estufa. A Clariant – empresa química baseada na Suiça – investiu numa campanha de eficiência energética e em aplicativos para economizar energia e conseguiu reduzir custos anuais de R$ 10 milhões. O Grupo Casino, dono do Pão de Açúcar, criou uma empresa chamada GreenYellow que ajuda supermercados na transição energética, colocando iluminação LED e portas nas geladeiras (você deixa sua geladeira aberta em casa?). A empresa tinha um crescimento de 77% faturando R$ 166 milhões em 2020 – só com gestão de uso de energia. Então, se a conta de energia é significante no seu negócio, faz o seguinte: investe em eficiência energética e começa a comunicar que sua empresa está reduzindo emissões. É ganha-ganha. A mesma lógica pode ser aplicada para outros insumos significantes que você usa na produção.

Reduzindo custos com atração e retenção de talentos

Meu colega na Fundação Dom Cabral, Paulo Vicente, brinca: “No Brasil, contratar é caro, treinar é caro e desligar é caro”. Ter uma causa, ou até um propósito, além de gerar lucro é cada vez mais um motivador para atração e retenção de talentos – uma questão particularmente relevante para empresas de serviços. A Natura, por exemplo, tem tido a metade da rotatividade voluntária dos colaboradores em comparação com outras empresas do setor de saúde e beleza.

Reduzindo custos com multas e processos jurídicos

Outro ponto de redução de custos pode ser a revisão de multas e processos jurídicos. Quanto a empresa está gastando para se defender frente a ações trabalhistas, impactos ambientais ou reclamações da comunidade? Muitas vezes vale o investimento e mudar a prática de gestão, que resulta numa redução de processos litigiosos com economia em multas e despesas com escritórios de advocacia.

Para empresas que estão começando sua jornada em ESG, há benefícios fáceis de se obter olhando para os maiores blocos de custos da operação. Gasta muito com alguns insumos? Procure caminhos de aumentar a eficiência de uso desses recursos – energia normalmente é um bom ponto de partida e tem efeitos colaterais desejáveis na redução de emissões. Você gasta muito com pessoas? Aí se pergunta: Quais são os anseios dessas pessoas? Como criar um ambiente mais atrativo? Investimentos na melhora do clima organizacional podem render custos mais baixos na atração e retenção de talentos. Focar nos custos pode facilitar seu argumento de “venda” na liderança da organização e motivar sua organização a começar a trabalhar questões de ESG na prática. E quem sabe, continuando esse caminho, algum dia você também se tornará elegível para um financiamento ESG com taxas mais atrativas.

 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

É preciso parar de falar 'usuário' de internet, Ronaldo Lemos, FSP

 

Por alguma razão, a obra de Benjamin Bratton, professor da Universidade de San Diego, na Califórnia, me escapou completamente. Que vacilo! Seu livro de 2015 chamado “The Stack” (“A Pilha”) é uma das leituras mais interessantes para entender o mundo atual (não por acaso, seu subtítulo é “software e soberania”).

Bratton cria uma boa metáfora para explicar a estrutura dos tempos atuais. A “pilha” do título diz respeito a “empilhamento”. Na visão dele, o mundo de hoje é construído por meio de empilhamentos acidentais e planejados de várias formas de infraestrutura, software, conteúdo e redes de governança.

No mundo de hoje, não é o usuário que usa a tecnologia, mas é utilizado por ela
No mundo de hoje, não é o usuário que usa a tecnologia, mas é utilizado por ela - Damien Meyer/AFP

Nas camadas profundas, temos elementos físicos como os minerais que compõem os microprocessadores. Um pouco acima os cabos submarinos, satélites e redes de fibras ópticas. Depois, dispositivos como celulares e computadores. O software, protocolos e aplicativos. O conteúdo que trafega e é trafegado. Os usuários que utilizam tudo isso. As leis que regulam os fluxos da informação desses usuários, bem como as práticas e costumes de cada comunidade política, e assim por diante.

Esse grande “empilhamento” de coisas diferentes resulta na estrutura do mundo contemporâneo. Quem controla uma parte da pilha pode ter influência que se projeta para muito além da sua camada específica (por isso o tema “soberania” é subtítulo do livro).

Bratton resume essas camadas em seis elementos: a Terra, a Nuvem, a Cidade, os Endereços, as Interfaces e os Usuários. É um jeito elegante de pensar o estado atual das coisas. Particularmente, só tenho uma divergência com Bratton. Acho que seu conceito de “usuário” é ultrapassado. Aliás, essa é uma palavra que deveríamos abandonar. Tornou-se enganosa.

O termo usuário dá a impressão de alguém que usa alguma coisa. No sentido original e romântico da palavra, é quem se senta na frente do computador para fazer algo. Só que no mundo de hoje não é o usuário que usa a tecnologia, mas é utilizado por ela (e pelo “stack”). A palavra ainda passa a ideia de comando ou agência, mas o usuário atual não tem isso. Quando usa a tecnologia, é também usado por ela.

Por isso precisamos de uma palavra nova, talvez um neologismo em inglês como “usered”, mistura de “user” com “used”. Ou, em português, “usuado”, para se referir a quem usa, mas também é usado. Em Portugal, que usa a palavra “utilizador”, seria mais preciso falar em “utilizado”.

Isso porque, no mundo de hoje, em que a tecnologia, sensores e câmeras estão em toda parte coletando dados, é muito mais fácil ser utilizado do que utilizar. Não importa mais se você está logado ou não. Você não é só usuário do seu smartphone, mas está sendo utilizado por ele. O “usuário” não tem acesso às tecnologias embarcadas nele, apenas às interfaces na sua superfície. Os aparelhos que usamos conectam-se a diversas camadas da “pilha” e fazem monitoramento ambiental permanente.

O “usuário” é apenas um dos elementos desse ambiente. Ele é monitorado, não é quem monitora. Por isso é preciso reescrever a popular frase “I fight for the user” (“Eu luto pelo usuário”). O mais correto hoje seria “Eu luto pelo usuado”.

Reader
Já era Smart glass do Google

Já é Smart glass do Snapchat

Já vem Smart glass do Facebook (em parceria com a Ray-Ban)

domingo, 12 de setembro de 2021

Pesquisa aponta que 6,5 milhões de eleitores podem ser classificados como ultraconservadores, OESP

 Nas manifestações do 7 de Setembro, o pastor da Assembleia de Deus Geraldo Malta, de 63 anos, vestiu a camiseta da Seleção Brasileira e se uniu a outras 125 mil pessoas (segundo a Polícia Militar) que foram defender o presidente Jair Bolsonaro na Avenida Paulista. A massa vestida de verde e amarelo ocupou 12 quarteirões, pelos quais se dividiram caminhões de som alugados por empresários do agronegócio, monarquistas, intervencionistas, armamentistas, “ativistas reformistas” evangélicos.

Os organizadores do ato vibraram quando Bolsonaro fez uma ameaça direta ao presidente do Supremo, ministro Luiz Fux. “Ou o chefe desse Poder enquadra o seu (ministro) ou esse Poder pode sofrer aquilo que nós não queremos”, disse, referindo-se às recentes decisões de Alexandre de Moraes contra bolsonaristas.

Geraldo Malta
Apoiador do presidente Bolsonaro, o pastor Geraldo Malta diz que Estado deve ser cristão e defende porte de armas. Foto: Felipe Rau/Estadão

A fala, porém, não entusiasmou a todos os presentes. “Sou bolsonarista, mas acho que, às vezes, ele fala besteira no calor do momento. Sou contra a intervenção militar”, disse Geraldo Malta. O pastor começou a atuar na política em 1975, no PCdoB, e depois foi um dos fundadores do PSDB, partido no qual permaneceu até março de 2019. Hoje está no Podemos. “Me considero um conservador de centro, com uma queda para a direita”, afirmou o religioso. Malta prega que o Estado brasileiro seja cristão, defende o porte de armas “para quem quiser” e diz que a Bíblia tem a receita do que é certo e errado. Segundo especialistas, esses elementos, somados a aversão à esquerda, formam a linha central que une a narrativa bolsonarista.

“Das 125 mil pessoas que, segundo a PM, estavam na Paulista, no mínimo metade não se encaixa no perfil mais radical do bolsonarismo. O grupo que é mais diretamente defensor do presidente tem uma característica ultraconservadora, autoritária e machista”, disse o cientista político José Álvaro Moisés, coordenador do grupo de pesquisas sobre a qualidade da democracia do Instituto de Ensinos Avançados (IEA) da USP.

Essa avaliação é respaldada por uma pesquisa inédita do Instituto Locomotiva feita por telefone com 2.600 pessoas de 71 cidades do País. Os dados, obtidos com exclusividade pelo Estadão, apontam que 4% do eleitorado brasileiro – o que equivale a 6,5 milhões de pessoas – defendem ideias classificadas como ultraconservadoras.

Para chegar a essa conclusão, o levantamento selecionou um núcleo de entrevistados que respondeu afirmativamente a três questões: 1) o Estado brasileiro não deve ser laico, mas cristão; 2) mais pessoas devem ter acesso ao porte de armas; 3) as mulheres são melhores para fazer atividades domésticas. Dentro do universo total de entrevistados, 24% concordaram com a primeira afirmação estimulada, 28% com a segunda, 17% com a terceira e 4% com as três. Esse último grupo, então, respondeu a outro questionário com temas como cotas raciais, casamento gay e urnas eletrônicas.

“Esse grupo representa o centro do negacionismo conservador. Existem 6,5 milhões de brasileiros que defendem as principais posições dos Taleban no Afeganistão: o Estado não deve ser laico, as mulheres não devem ter protagonismo e o uso de armas deve ser difundido. Esse perfil certamente esteve nas ruas no dia 7 de Setembro”, disse ao Estadão o pesquisador Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva e fundador do Datapopular.

Ainda dentro do recorte dos ultraconservadores, 63% dos entrevistados opinaram que cotas para negros prejudicam a sociedade, 70% disseram que pessoas do mesmo sexo não podem se casar e 54% pregaram que a polícia tem de ser violenta para combater o crime. A polêmica do voto impresso também entrou no questionário: 63% desconfiam das urnas eletrônicas. “Existe um componente messiânico nessa parcela do eleitorado”, afirmou Meirelles.

Em outro ponto, 43% dos ultraconservadores disseram que a “revolução” de 1964 foi “boa”, e 70%, que a Bíblia tem a receita completa do que é certo e errado. No universo ultraconservador, 60% são homens. 

O cientista político Vitor Marchetti, professor da Universidade Federal do Grande ABC, acha o paralelo com o Taleban exagerado, mas pondera que a pesquisa mede o pensamento radical.

Questionado sobre o peso desse núcleo na cena política atual, e consequentemente nos atos do 7 de Setembro, Marchetti destaca que Bolsonaro reverbera essas posições, mas elas sempre estiveram presentes, mesmo nos tempos que o governo era de esquerda: “Os conservadores precisaram se estruturar politicamente nos últimos anos para defender suas posições porque as pautas progressistas foram ganhando mais adeptos”.

Vice-presidente do PTB de São Paulo, o administrador de empresas Flávio Beal, que também foi tucano, mas acabou foi expulso do PSDB em 2018, estava entre os organizadores da manifestação na Avenida Paulista. O ativista se disse “decepcionado” com o recuo de Bolsonaro, que chegou a elogiar Moraes. 

“Parte da base é descrente e vê o discurso como verborragia e sem efeito prático”, afirmou Beal. Segundo ele, o núcleo ultraconservador não é grande: “Dentro do universo bolsonarista, eles representam 5%. Não tinha na Paulista um caminhão de som machista dizendo que lugar de mulher é na cozinha. Defendemos os valores patrióticos: Deus, pátria, família e liberdade”.