segunda-feira, 6 de setembro de 2021

LENIO LUIZ STRECK É a Constituição, estúpido!, FSP

 

Lenio Luiz Streck

Jurista, professor e advogado

“É a economia, estúpido”, respondeu o marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, quando afirmou, contra tudo e contra todos, que George Bush não era invencível. Aqui, a frase é: “É a Constituição, estúpido”!

Um bom conceito de Constituição é: “trata-se de um remédio contra maiorias”. Outro: “é o estatuto jurídico do político”.

Foi a partir do segundo pós-guerra que reinventamos o conceito. A Constituição virou norma jurídica. Tem de ser cumprida.

Dentro da Constituição temos “um quarto do pânico”, onde nos protegemos dos bárbaros. Quando vêm os inimigos, temos as cláusulas pétreas. Não é de qualquer jeito que se pode mudar a Constituição.

As democracias contemporâneas são sólidas porque, fundamentalmente, fazem o filtro da política por meio do direito. Isto é, a política paga pedágio ao direito —às Constituições.

Ninguém na Europa (Espanha, Alemanha, Portugal, França, Inglaterra) pensa em propor golpes ou alterações constitucionais quando surgem crises políticas ou econômicas. Mas aqui, no Brasil, não absorvemos essas conquistas. Por aqui é: quem paga pedágio para a política acaba sendo o direito.

As recentes decisões do Supremo Tribunal Federal tendem a demonstrar que é o direito que pode salvar a democracia. A história mostrará o acerto do STF. Fora do direito, portanto, do respeito à Constituição, não existe salvação.

As democracias fortemente atacadas como a nossa podem ser salvas pelo direito? Para mim, a resposta é positiva. Sou otimista, como o autor de "Fragilie Democracies", Samuel Issacharoff. E isso passa pelo papel das Supremas Cortes, mormente em países periféricos. E o somos.

Nesse ponto, o Brasil é um caso exemplar. Daí a importância da incisiva atuação do Supremo Tribunal Federal. Tanto na pandemia como na preservação da democracia, delimitando os espaços institucionais transpassados constantemente pelo presidente da República.

O presidente, de tanto atravessar o Rubicão, já fez ponte. A questão é saber como lidaremos com isso.

Bolsonaro aposta na desinstitucionalização. Dia a dia. Na degeneração do direito. E, por consequência, naquilo que sustenta a Constituição: o Supremo Tribunal Federal. Por isso a ênfase nas críticas e ataques à Suprema Corte.

Regimes populistas somente se mantêm quando as instituições são fracas. Ou enfraquecidas. Se o discurso golpista vingar, isso mostrará que fracassamos. E ficará claro que o direito, no Brasil, ficou relegado a um desossado braço da política. E, assim, manipulado por quem tem poder. Com tantas faculdades de direito, formamos uma multidão de reacionários e antidemocratas? A ver.

Bolsonaro aposta nisso. Tirando do direito (Constituição) o papel de filtro da política e contraponto do poder, o caminho fica livre para golpismos. Ou o caos institucional. “Vamos enquadrar os ministros”, diz o presidente.

Não fosse por nada, isso pode configurar vários crimes. Até mesmo, a depender dos arroubos do 7 de Setembro, pode configurar crime previsto na lei que recentemente ele mesmo sancionou. Além disso, pode ser coautor intelectual de uma tragédia.

Avisos não faltam. Por isso, permito-me, republicanamente, “dar uma” de assessor de Clinton: “É a Constituição, estúpido”.

É ela que vai nos segurar. Sem o seu cumprimento, você estará como o sujeito que mora com vários inimigos. O que impede que o joguem do 10º andar onde moram? Simples. Uma cláusula que diga que, sob hipótese alguma, estará em jogo qualquer votação que diga respeito à vida e à integridade física da minoria: você. É a cláusula pétrea, estúpido. É a democracia, estúpido. E a dignidade de uma nação!

Morre aos 75 anos o economista João Sayad, FSP

 

SÃO PAULO

Morreu neste domingo, aos 75 anos, o economista e professor João Sayad, em decorrência de complicações onco-hematológicas.

Ele estava internado desde o dia 30 de agosto no Sírio Libanês para tratamento hematológico e oncológico, informou o hospital. Segundo pessoas próximas, um câncer que o acometeu há pouco mais de dez anos debilitou o economista, que estava vivendo no interior de Sâo Paulo, mas ainda próximo da capital paulista.

Sayad faria 76 anos no dia 10 de outubro. Nascido em São Paulo, formou-se em economia pela FEA-USP (Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo) em 1967 e começou a dar aulas na instituição já no ano seguinte. Concluiu o mestrado em 1970 e desde 1978 era livre-docente.

Além de uma vasta vida acadêmica, Sayad ocupou diversos cargos públicos e em instituições ligadas à educação e à economia desde o fim dos anos 1970.

O economista João Sayad, durante entrevista em março de 2015 - Luis Ushirobira-19.mar.15/Valor/Globo

Na gestão de José Serra (PSDB), em 2007, foi secretário de Estado da Cultura de São Paulo e presidiu a Fundação Padre Anchieta, responsável pela gestão da TV Cultura.

Na Cultura, planejou e investiu em equipamentos como a Biblioteca de São Paulo –erguida onde era a o presídio do Carandiru, na zona norte de São Paulo–, o Complexo Cultural da Luz e o novo MAC (Museu de Arte Contemporânea).

​Durante a administração de Marta Suplicy na Prefeitura de São Paulo, quando essa ainda estava no PT, de 2001 a 2003, foi secretário de Finanças e Desenvolvimento Econômico. Em nota, Marta lamentou a morte de Sayad. “Éramos amigos”, afirmou.

Na década de 1990, Sayad assinou a coluna Opinião Econômica na FolhaTambém publicou outros artigos e análises no jornal, nos quais tratava principalmente de educação e temas econômicos.

Em 2009, publicou "Que país é este?" (ed. Revan), uma reunião de seus artigos acadêmicos e de opinião. Pelo selo Portfolio Penguin, da Companhia das Letras, publicou em 2015 o livro "Dinheiro, dinheiro: Inflação, desemprego, crises financeiras e bancos".

O educador e jornalista Alexandre Le Voci Sayad, sobrinho e afilhado do economista, descreve o tio como um "ponto de luz" intelectual, alguém curioso, racional e profundamente aberto ao conhecimento.

"Pessoalmente ele também era um pouco heterodoxo, como na economia. Entendia muito de artes, música clássica e filosofia, lia textos filosóficos no idioma original. Era uma referência para a família. Levantou o sarrafo intelectual", diz Alexandre.

"Todo esse conhecimento aparecia na qualidade de tudo o que ele escrevia. Seus textos eram amados."

No Twitter, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT) disse que Sayad foi uma das pessoas mais admiráveis que já conheceu. “Inteligente, bem-humorado, generoso… não cabe num tuíte nem numa biblioteca o tamanho desse ser humano.”

O colunista da Folha Alexandre Schneider, ex-secretário municipal de educação de São Paulo, afirmou, na mesma rede social, que Sayad foi um “gigante da economia, um brasileiro especial.”

Laura Carvalho, economista e professora da USP, disse que "nas poucas trocas" com João Sayad, ele impressionava pela generosidade e gentileza.

O economista Felipe Salto, diretor-executivo da IFI (Instituição Fiscal Independente) do Senado, classificou Sayad como alguém de “espírito público genuíno.”

Também via Twitter, o deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) afirmou que João Sayad “ajudou muito o Brasil como ministro e a cidade de São Paulo, como secretário de finanças.”

"Extremamente triste com a perda de um grande amigo. João Sayad era uma figura ímpar, um economista diferenciado, de espírito iluminado e inquieto, e amplos horizontes intelectuais. Ao longo de quase 3 décadas conversamos por horas sempre que era possível. Mais uma triste perda", escreveu a economista Leda Paulani.

"O conheço desde a década de 1970. Trabalhamos juntos, fomos sócios. Foi uma grande pessoa, um grande economista", disse à Folha o economista Franscisco Luna.

Amir Labaki, fundador do festival É Tudo Verdade, afirmou que João Sayad era dos "raros intelectuais que arregaçava as mangas e agigantava todos os cargos que assumia."

A Associação Brasileira de Bancos divulgou nota de pesar, na qual diz que Sayad deu grande contrubuição às pesquisas acadêmicas em economia.

Segundo registro do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da FGV (Fundação Getulio Vargas), Sayad ocupou seu primeiro cargo na gestão pública em 1983, quando foi secretário de Fazenda do estado de São Paulo na gestão Franco Montoro (1983-1987), atuação que abriu caminho à nomeação para um ministério no governo Tancredo Neves.

Em 1985, sucedeu Antônio Delfim Neto no Ministério do Planejamento do primeiro governo democrático após o fim da ditadura militar.

Ele integrava, na época, o grupo de novos economistas paulistas, do qual também faziam parte José Serra, Luciano Coutinho e André Franco Montoro Filho. Sayad era contra a política econômica de juros altos e corte nos gastos públicos, o que o colocou em conflito com Francisco Dornelles, então ministro da Fazenda.

Sayad estava na equipe que criou o Plano Cruzado, em 1986, em substituição ao cruzeiro. Em 1987, deixou o governo Sarney e voltou a dar aulas na FEA-USP.

No últimos 50 anos, também foi consultor sobre crédito rural para o Banco Mundial, editor da revista Estudos Econômicos, do IPE (Instituto de Pesquisas Econômicas), vice-presidente de Finanças e Administração do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) e fundou o Banco SRL, depois rebatizado para Banco Interamerican Express, após venda para a American Express.

O velório do João Sayad será nesta segunda (06), entre 10h e 16h, na Funeral Home, r. São Carlos do Pinhal, 376, no Bela Vista, na capital. A família pede que, seguindo os protocolos exigidos pela pandemia, aqueles que desejarem se despedir usem máscaras adequadas.

Em 2006, na revista piauí, Sayad se descreveu como um "brasileiro e católico, neto de quatro avós libaneses", que perdeu a fé durante 30 anos, mas que um dia a reencontrou.

Contou que um certo domingo, em Campos do Jordão (SP), onde passava os fins de semana, decidiu ir à missa –"missa das seis da tarde, na Igreja de São Benedito."

"Na fila da comunhão, cada uma daquelas cabeças, que me impediam de ver o altar, estava cheia de ansiedades, problemas e dúvidas iguais ou mais terríveis do que as minhas. Desconhecidos que eram cúmplices, parceiros, irmãos de um destino comum. Senti aconchego e conforto. 'Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles', Mateus 18:20", contou o economista.

"Desde então, vou à missa todos os domingos."

João Sayad deixa a companheira, Tati, e as filhas Beatriz e Cecília.