sábado, 22 de agosto de 2020

Fernando Haddad Imunidade seletiva, FSP

 

Em duas décadas de disputa por diferentes projetos de futuro, tanto PT, pela centro-esquerda, como PSDB, pela centro-direita, tiveram que se aliar ao passado. Representantes da modernidade, trabalhismo, de um lado, e liberalismo, de outro, se alternariam no poder, enquanto negociavam sustentação com o parasitismo partidário, tido como remanescente do atraso que se superaria aos poucos.

Nos últimos anos, o passado se impôs e converteu o atraso em nova vanguarda. A história recente não deixa de ser também a história dessa viravolta em que o centrão se transformou no núcleo duro do governo e, a julgar pelos últimos movimentos, pode liderar setores que, no passado recente, governaram o país.

Refiro-me à aproximação de Michel Temer e Aécio Neves ao bolsonarismo. Temer, que se autointitula conselheiro de Bolsonaro e que trata o governo deste como continuação do seu, chefiou a seu convite missão de solidariedade ao Líbano, depois da tragédia que destruiu Beirute. Texto do jornal O Globo relata que “deputados do PSDB ligados a Aécio tentam aderir à base do governo”.

Sabemos o que significou o Joesley Day na vida política destes dois personagens. Aécio queria novas eleições, após refutar o resultado eleitoral de 2014. Temer trabalhou pelo impeachment que, inclusive, poderia contar com o PSDB num arranjo parlamentarista. Temer levou a melhor, até que Joesley implodiu seu governo presidencialista. Agora, sabe-se que o advogado de Flavio Bolsonaro, Frederick Wassef, que “cuidou” de Fabrício Queiroz por um ano, recebeu recentemente da JBS (do mesmo Joesley) a bagatela de R$ 9 milhões, segundo investigação do MP-RJ reportada pela revista Crusoé.

A Lava Jato sempre contou com duas vertentes: a de Sergio Moro, que tinha a finalidade de destruir uma força política, o PT, e poupava de melindres as demais (revejam as fotos de Moro com Aécio e Temer); e a de Rodrigo Janot, o artífice do Joesley Day, que queria implodir todo o sistema político-partidário. A primeira partia do pressuposto de que no PT só tinha joio; a segunda, de que em todo canto o trigo era tão pouco que não compensava poupar.

Ambas as estratégias favoreceram a ascensão do bolsonarismo, mas só a primeira interessa agora a Bolsonaro, desde que ela esteja sob seu controle, ou seja, centralizada numa PGR submissa que ofereça imunidade seletiva a uma base ampliada dela demandante.

O joio assim preservado pode ser um ingrediente necessário daquilo que o ministro Edson Fachin, hoje temeroso de um futuro despótico, chamou de “escalada do autoritarismo no Brasil”.

Fernando Haddad

Professor universitário, ex-ministro da Educação (governos Lula e Dilma) e ex-prefeito de São Paulo.

Se é militar, é bom, Alvaro Costa e Silva FSP

 As eleições no Rio prometem ser um teste de força para Bolsonaro. Há quase dois anos, no segundo turno para presidente, ele obteve a maioria dos votos em todos os bairros, com exceção de Laranjeiras. Hoje está colado em Marcelo Crivella (ou este colou nele), que, engajado no projeto de poder da Igreja Universal, tenta uma reeleição complicada.

No boca a boca, sua fama é a de “pior prefeito da história do Rio”. Um governo que chegou a ter, em dezembro de 2019, 72% de rejeição, segundo o Datafolha, e que, durante a pandemia, fez mais teatro do que combateu o novo coronavírus. Resta saber se a população aprovou a encenação —o município passou de 9.000 mortos, com alta nos últimos dias no número de casos.

O presidente Jair Bolsonaro e prefeito Marcelo Crivella se cumprimentam
O presidente Jair Bolsonaro e prefeito Marcelo Crivella - Marcos Corrêa - 14.ago.20/PR

Apesar de ter afirmado que não pretendia apoiar candidatos na disputa municipal, Bolsonaro não esconde o cacho com Crivella. Na semana passada, como se não tivesse nada para fazer, o presidente esteve no bairro do Rocha para inaugurar uma escola cívico-militar ao lado do prefeito. Parêntesis para a vida real, sempre distante dos atos de campanha: para o Orçamento de 2021, o governo federal prevê um corte de 13% na área da educação.

Crivella quer a deputada Major Fabiana como candidata a vice. Ela é do PSL, partido do qual Bolsonaro está se reaproximando. A indicação de Fabiana, ex-PM que ficou famosa por aparecer em fotos na internet de arma em punho durante um tumulto na favela do Jacarezinho, evidencia a moda da farda na política brasileira: se é militar, pode confiar; é pessoa mais do que preparada para resolver qualquer problema.

O maior adversário do bispo é Eduardo Paes. Para a Folha, o prefeito da Olimpíada resumiu sua estratégia: “Bolsonaro era papo de 2018. O papo agora é o Rio”. Terá de convencer os cariocas. Muitos deles ainda nem se aperceberam que daqui a menos de três meses terão de comparecer às urnas.


Hélio Schwartsman Populismo científico, FSP

 

Um dos mantras do governador João Doria nesta pandemia tem sido o de que todas as suas ações são pautadas pela ciência. Na comparação com o presidente Jair Bolsonaro, um negacionista renitente, Doria pode parecer um pináculo da racionalidade, mas receio que sua relação com a ciência não seja tão maravilhosa quanto ele quer fazer crer. Suspeito até que tenha algo de abusivo.

É o que se depreende do projeto de lei (PL nº 529) que o governo acaba de enviar à Assembleia Legislativa. Se for aprovado como está, esvaziará os cofres das três universidades estaduais paulistas e o da Fapesp. O objetivo do pacote doriano é sanar as finanças do estado. Não tenho nada contra o equilíbrio das contas públicas. Aliás, desconfio bastante de certo negacionismo econômico muito em voga, segundo o qual não haveria necessidade de fazer com que receitas e despesas se encontrem.

O governador João Doria, durante coletiva na terça-feira (21), no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP
O governador João Doria, durante coletiva na terça-feira (21), no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP - Zanone Fraissat/Folhapress

Acredito até que várias das medidas propostas no PL, um calhamaço de 46 páginas, façam sentido. Mas o dispositivo que prevê a transferência, ao final de cada exercício, do “superávit financeiro” de autarquias e fundações para a conta única do tesouro estadual (art. 14) não é um deles. Na prática, o governo se apropriaria do que estivesse no caixa das universidades e da Fapesp e não tivesse sido utilizado até o fim de cada ano contábil.

É um tremendo de um problema porque impediria as instituições de constituir reservas. E não dá para fazer ciência sem a garantia de um fluxo constante de verbas para manter pesquisas cujo prazo de maturação pode ser longo. O tempo da ciência não é o tempo dos políticos.

No mais, quem preza tanto a ciência deveria ser capaz de ver que o incentivo passado pelo PL aos reitores e à direção da Fapesp é o de que devem gastar, gastar rápido e de qualquer jeito, para não correr o risco de “perder” a verba. Se a proposta vingar, Doria inaugurará a era do populismo científico.