sexta-feira, 17 de abril de 2020

Em posse de Teich, Bolsonaro defende abertura de fronteiras e comércio e critica governadores, FSP

Bolsonaro, porém, reconheceu que não pode decidir sobre ações de isolamento social nos estados

  • 54
BRASÍLIA
O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu, nesta sexta-feira (17), a reabertura de fronteiras e comércios no Brasil e voltou a criticar medidas tomadas por governadores no combate à pandemia do novo coronavírus.
“Essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro. Porque se agravar, vem para o meu colo”, declarou Bolsonaro, durante cerimônia de posse de Nelson Teich como novo ministro da Saúde no lugar de Luiz Henrique Mendetta (DEM). “O que eu acredito? Muita gente já está tendo consciência que tem que abrir”, complementou.
Na mesma declaração, Bolsonaro afirmou que defendeu junto ao ministro Sergio Moro (Justiça) a reabertura de fronteiras terrestres no Brasil, que estão fechadas em razão da emergência sanitária.
“Na minha opinião, começar a abrir as fronteiras. Por que está fechada com o Paraguai? É uma fronteira seca e não temos como fiscalizar. O mesmo com Uruguai”.
Bolsonaro investiu novamente contra governadores e disse que jamais mandaria forças de segurança prenderem pessoas que estejam violando regras de quarentena.
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta - Pedro Ladeira/Folhapress
“Essas prisões mais que ilegais, atingem a alma de cada cidadão brasileiro. Não podemos admitir isso. Não vou pregar desobediência civil, mas medidas como essas têm que ser rechaçadas”.
[ x ]
Embora não o tenha citado, a referência de Bolsonaro é uma crítica ao governador de São Paulo, João Doria (PSDB), considerado pelo Planalto um possível adversário em 2022.
Doria chegou a afirmar que cidadãos que desrespeitassem regras de quarentena no estado seriam advertidas e orientadas a voltar para casa, mas quem em casos de reincidência poderia haver prisão.
Apesar das críticas, Bolsonaro reconheceu que não pode decidir sobre ações de isolamento social na resposta à crise do Covid-19, uma vez que o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que estados têm competência para tomar essas medidas.
Bolsonaro disse ainda que, em seu governo, qualquer portaria ministerial envolvendo medidas restritivas passará antes pelo crivo da Casa Civil.
O presidente afirmou ainda que havia opiniões diferentes entre ele e Mandetta, o que motivou a demissão do agora ex-ministro.
“A visão do Mandetta, muito boa, é a da saúde e da vida. A minha também é a da saúde e da vida, mas entra também o Paulo Guedes, a economia e o emprego. Desde o começo eu tinha uma visão que nós devemos abrir o o emprego. O efeito colateral do combate ao vírus não pode ser, do meu ponto de vista, mais danoso do que o próprio remédio."
Ao novo ministro, Bolsonaro pediu que ele também leve em conta a necessidade de preservar empregos.
"Junte eu e o Mandetta e divida por dois: pode ter certeza que você vai chegar naquilo que interessa pra todos nós. Não queremos vencer a pandemia e daí chamar o doutor Paulo Guedes [ministro da Economia] para solucionar as consequências de um povo sem salário, dinheiro, e quase sem perspectiva em função de uma economia que está sofrendo sérios reveses", afirmou o presidente.
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta, na foto cumprimentando o presidente e o novo ministro com o cotovelo, sem apertar as mãos
O presidente Jair Bolsonaro durante cerimônia de posse do novo Ministro da Saúde Nelson Teich, que substitui Luiz Henrique Mandetta, na foto cumprimentando o presidente e o novo ministro com o cotovelo, sem apertar as mãos - Pedro Ladeira/Folhapress
Teich e Mandetta também falaram na cerimônia. Sem mencionar propostas efetivas, o novo ministro da Saúde fez um discurso afirmando que fará uma gestão com foco nas pessoas e defendeu uma maior integração com outras áreas no combate ao novo coronavírus.
“Uma coisa importante que temos que entender é que a Covid abrange todas as atenções, mas tem outras doenças. Se você tem menos acesso, menos diagnóstico, será que não vai prejudicar o diagnóstico de pessoas com câncer? O que vai acontecer quando a pessoa fica em casa com medo de ir ao pronto-socorro e não chega ao hospital?”, questionou. “Tem que acompanhar também os indicadores sociais. Se tivermos mais desemprego e pessoas que perderem os planos de saúde, isso vai impactar no SUS.”
Teich iniciou sua fala apresentando sua formação como médico de família e oncologista para dizer que tem contato próximo com pacientes e que sua formação terá foco “nas pessoas”.
“O foco de tudo o que vamos fazer é nas pessoas. Por mais que fale em saúde, em economia, o final é sempre gente. Trazer uma vida melhor para a sociedade e as pessoas do Brasil”, disse. “Não podemos esquecer que as pessoas mais frágeis, mais pobres são aquelas que mais vão sofrer. A atenção para as pessoas tem que ser total.”
Teich disse que vai defender a visibilidade de mais informações sobre a doença na tentativa de “administrar o comportamento de uma sociedade que hoje está com muito medo”.
Em seguida, disse que trabalhará com planejamento para a construção de uma solução para a pandemia do novo coronavírus, mas admitiu que poderá trabalhar em um cenário de incertezas.
“A gente vai ter que trabalhar esse cenário de muita incerteza, mas hoje vemos medicamentos que estão surgindo com muita possibilidade”, disse.
Citando seu histórico empresarial, ele defendeu a necessidade de “formar times” para que haja condições de trabalho.
“É pegar não só a área do ministério mas as outras áreas, uma lista de problemas de cada área.”
A posse também teve um episódio envolvendo o Conass e o Conasems, conselhos que representam secretários estaduais e municipais de saúde.
Representantes das entidades, que são as outras duas pontas da gestão do SUS, foram barrados na entrada. Os conselhos lamentaram e repudiaram não terem tido o acesso permitido na cerimônia.
​O ministério da Saúde disse, em nota, que devido à crise do coronavírus o ato no Palácio do Planalto foi restrito a poucas pessoas. De acordo com a pasta, os conselhos serão convidados para uma reunião de apresentação e trabalho no ministério.

Quarentena em São Paulo é prorrogada até 10 de maio, FSP

SÃO PAULO
O governo de São Paulo anunciou nesta sexta-feira (17) que a quarentena vai até 10 de maio, pelo menos, para todos os municípios do estado.
SP tem 11.568 contaminações confirmadas pelo novo coronavírus e 853 mortes. Há ainda 1.125 pessoas internadas em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva).
"Para reabrir o comércio e os serviços precisamos controlar melhor a contaminação e ter o sistema público de saúde em condições de atendimento para salvar vidas", afirmou o governador João Doria (PSDB).
O índice de isolamento no estado caiu para 49%, segundo o governador. O índice ideal estimado pelo estado é de 70%.
"Nada vai adiantar se a população não seguir as medidas recomendadas. Agora tem que ser todo mundo em casa, pelo bem de todo mundo", afirmou o prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB). "Precisamos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para diminuir a disseminação do vírus."
[ x ]
isolamento social foi determinado por decreto em 24 de março e já foi prorrogado uma vez, em 8 de abril, com validade até o dia 22, próxima quarta-feira. Agora, foi prorrogado de novo.
Nos últimos dias, prefeitos do interior do estado têm emitido decretos municipais permitindo a reabertura parcial ou total do comércio.
"Se tiver uma boa resposta da população, do interior, do litoral, da capital e da região metropolitana, sim, poderemos reavaliar [o fechamento dos comércios]", afirmou Doria. "Nós não temos nenhum prazer em prorrogar o período da quarentena."
O secretário da Saúde, José Henrique Germann, afirmou que fará uma reunião virtual com os prefeitos do interior na tarde desta sexta para reafirmar a necessidade de manter os comércios fechados.
O coordenador do comitê de combate ao vírus, David Uip, afirmou que a impressão de que os casos estão limitados à capital e à região metropolitana é falsa. "Dados mostram como o vírus está entrando em todo o interior e também no litoral", disse. "O vírus é invisível. As pessoas têm falta impressão de que ele não acontece na sua cidade. Não é assim que funciona."
"Eu fico surpreso de as pessoas não entenderem o que já aconteceu", afirmou ele, citando países com alto número de mortos, como Itália e Estados Unidos. "Temos a oportunidade de nos antecipar."
Uip afirmou também que o estado monitora os municípios de estados vizinhos limítrofes a São Paulo, cujos cidadãos por vezes se tratam em cidades paulistas.
Doria afirmou que não há previsão de fechar as rodovias do estado.
Reportagem da Folha desta quinta (16) mostrou que as cidades contam mais de 1.000 casos e mais de 100 mortes que o governo do estado.
Os hospitais públicos de referência da capital já têm mais de 80% de ocupação dos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) por causa da Covid-19.
As mortes nas periferias também têm aumentado. E cemitérios municipais já contabilizam cerca de 1/3 dos enterros como sendo de vítimas do novo coronavírus ou pessoas com exames de detecção da Covid-19 pendentes.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Máscara com função bactericida e antiviral é fabricada no Brasil, FSP

Uma fabricante de brinquedos e uma empresa de base tecnológica nascida em laboratórios universitários anunciaram na manhã desta quinta-feira (16) o início do desenvolvimento, em parceria, de máscaras respiratórias reutilizáveis, produzidas com materiais com propriedades bactericidas, antifúngicas e antivirais.
A Elka, fabricante de brinquedos, buscava uma forma de empregar seu parque fabril ocioso devido à pandemia de Covid-19 no combate à própria pandemia. Por meio de um parceiro em comum, encontrou a Nanox, especializada em aditivos nanoestruturados a base de prata com ações antimicrobianas comprovadas — bactericidas, antifúngicas e antivirais.
As duas empresas desenvolveram, então, o projeto de uma máscara de proteção reutilizável equivalente às hoje famosas N95 (que são descartáveis), com uma vantagem adicional: superfícies ativas que podem ajudar no combate a infecções bacterianas responsáveis pelo agravamento de quadros de Covid-19.
“As micropartículas que produzimos têm ação comprovada contra alguns tipos de vírus. Ainda não houve tempo para os testes com o SARS-CoV-2, mas o potencial existe”, esclarece Gustavo Simões, CEO da Nanox. “Mas, além da produção nacional e do fato de serem reutilizáveis, a ação bactericida pode contribuir na prevenção de outras infecções, especialmente a pneumonia bacteriana, frequentemente associada ao agravamento dos quadros de Covid-19”, complementa.
As máscaras — que receberam a marca Oto — são produzidas com materiais plásticos (poliméricos) associados aos aditivos da Nanox, com espaço para filtros PFF2 descartáveis. Nesta primeira etapa, os aditivos estão apenas na estrutura das máscaras, mas já está prevista a adição aos filtros. Para a higienização, é necessário usar apenas água e sabão. “O protocolo para substituição dos filtros precisará ser estabelecido pelos serviços de saúde. De qualquer forma, sejam eles quais forem, a quantidade de material necessário para a confecção das máscaras é muito inferior ao que é usado nas máscaras descartáveis”, explica Simões.
A fase de pré-reserva foi iniciada hoje, e as primeiras unidades serão entregues a partir de 12 de maio. Inicialmente, a capacidade de produção é de 200 mil unidades por mês, mas a quantidade pode ser facilmente aumentada diante da demanda, para até um milhão de unidades mensais, segundo os responsáveis pela iniciativa. A expectativa é fornecer principalmente para serviços hospitalares, e uma parte será destinada a doações. “Já está definido que até 10% da produção será doada, e estamos construindo os mecanismos para essa possibilidade”, afirma Simões.
Eduardo Kapáz Jr, da Elka, destaca o fato da máscara ter sido desenhada e ser produzida totalmente no Brasil, e de servir, segundo ele, não só aos agentes de saúde na linha de frente no combate à pandemia, mas também à população em geral.
A Nanox é uma spin-off do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Em 2004, a partir de demanda apresentada por uma fabricante de eletrodomésticos, estudantes que realizavam pesquisas de iniciação científica e mestrado no Centro vislumbraram a oportunidade de empreender na área de materiais baseados em nanotecnologia, à época quase inexistente no Brasil.
Na sua consolidação, a empresa recebeu recursos da própria Fapesp e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). “Nada disso seria possível sem o conhecimento acumulado ao longo da minha formação e das outras pessoas envolvidas, e bem antes disso, com recursos públicos. É essa experiência acumulada que agora pode ser rapidamente redirecionada para este objetivo emergencial, para um problema real. É a concretização de investimentos na promoção do relacionamento entre universidade e empresas, por exemplo”, avalia o CEO da Nanox.