Um dos estudos que vinha sendo conduzido com acloroquinaemManaus– suspenso por aumento de risco de complicações cardíacas – virou alvo em redes bolsonaristas, com os cientistas sendo chamados de irresponsáveis e acusados de usarem “cobaias humanas”.
Caixa do remédio sulfato de hidroxicloroquina, conhecido como Reuquinol. Foto: Márcio Pinheiro/SESA
O CloroCovid-19, com 70 pesquisadores de instituições renomadas comoFiocruz, Universidade do Estado do Amazonas e daUSP, havia sido autorizado pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Consistia em testar, em pacientes com suspeita de covid com quadro de síndrome aguda respiratória grave (SRAG), duas possibilidades de cloroquina: uma baixa e uma mais alta. A baixa é a mesma que foi recomendada peloMinistério da Saúdepara casos graves e a alta foi a usada em pacientes chineses.
Com alguns dias de trabalho, observou-se a morte de 11 pacientes e a dose alta foi suspensa. Nas redes sociais, publicações davam a entender que o problema teria ocorrida por causa da dose mais alta aplicada.
Em nota, o líder do estudo, o infectologista Marcus Lacerda, explicou que todo o procedimento foi aprovado pelos comitês de ética e que, dos 11 mortos, havia pessoas dos dois grupos: dose baixa e o de alta. A maioria também era de idosos e todos tinham quadro muito grave da doença, vindo a morrer por causa das complicações da covid-19. Ainda é cedo, disse, para falar que a dose baixa é segura.
Não existe dúvida que oisolamento socialé a única maneira de amenizarmos o tsunami de casos decovid-19que está assolando a humanidade. A questão é como sair do isolamento sem que a pandemia volte com força total. Apesar dessa discussão ser complexa e recheada de modelos matemáticos, no fundo só existem três opções. Duas delas são de longo prazo e não temos como controlar seu desenrolar. A terceira está sob o nosso controle, mas depende de informações confiáveis para que o desfecho seja favorável.
Médicos prestam atendimento a paciente em Paraisópolis Foto: TIAGO QUEIROZ / ESTADÃO
A primeira opção é esperar o desenvolvimento de umavacinae simplesmente vacinar a população. Isso leva tempo e o cronograma não pode ser adiantado. Não falta dinheiro para os mais de 70 grupos de cientistas que estão desenvolvendo a vacina, mas isso não garante que tenhamos uma vacina com eficácia e segurança comprovada antes de 12 a 18 meses. Pode levar mais tempo, pode levar menos, é quase impossível prever. E depois da vacina pronta vão ser meses para produzir as doses necessárias e vacinar a população. Essa opção, portanto, está fora de nosso controle.
A segunda opção consiste em esperar que surja um ou mais drogas que ajudem no tratamento da covid-19 e que com seu uso a taxa de mortalidade seja reduzida em uma ordem de magnitude. Isso permitiria a liberação do distanciamento sem incorrer em um grande número de mortes. Tampouco falta dinheiro e esforço nessa direção, mas, como no caso da vacina, isso pode ocorrer logo ou levar muitos meses ou anos. Também está fora de nosso controle.
A terceira opção é afrouxar o isolamento e administrar o número de novos casos que vão aparecer de modo a evitar que o sistema hospitalar entre em colapso. Na sua essência essa opção consiste em deixar crescer lentamente a chamada imunidade de rebanho. Ou seja, deixar que a população se infecte com o vírus, de modo que os mais de 90% dos casos leves, que se recuperam em casa, reduzam a transmissão do vírus. Esse fenômeno acontece porque a medida que uma fração crescente da população se torna imune ao coronavírus ele encontra menos pessoas para infectar e a propagação diminui de velocidade.
Hoje essa é a única opção sobre a qual a humanidade tem algum controle e pode ser implementada após esse primeiro pico de casos. Pode ser que surjam outras opções, mas que eu saiba, por enquanto todas as estratégias giram em torno dessas três. E dada a crise econômica oriunda da paralisação econômica essa tende a ser a estratégia adotada ao redor do mundo.
Como bem lembrou o diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), para ter sucesso nessa estratégia é necessário que o governo (que tem o poder de abrir ou fechar a torneira do isolamento) tenha as informações necessárias para controlar o processo. Essas informações são basicamente de dois tipos: a taxa de ocupação dos leitos de UTI e informações sobre a propagação do vírus. Ambas as informações precisam ser confiáveis e obtidas com a frequência adequada.
A taxa de ocupação de UTIs é mais simples de obter, pois basta organizar um sistema eficiente de coleta de informações em hospitais. Mas os dados sobre a propagação do vírus exigem experimentos que permitam medir isso. Essa é a especialidade dos epidemiologistas. Coletando dados frequentemente seremos capazes de fazer previsões sobre os casos que vão chegar aos hospitais nas semanas seguintes o que, combinado com a taxa de ocupação das UTIs, permitirá tomar decisões sobre o relaxamento do distanciamento social. É por isso que enquanto os médicos estão lutando para salvar vidas nas UTIs, é necessário que os epidemiologistas estejam se organizando para coletar os dados sobre o progresso do espalhamento do vírus na população.
Um dos dados essenciais para orientar as ações governamentais é saber exatamente qual a fração da população já foi infectada pelo vírus em cada momento. Quanto maior essa fração mais difícil será para o vírus continuar a se espalhar e maior pode ser o relaxamento. O problema é que somente testar as pessoas que chegam ao hospital com casos moderados e graves subestima muito esse número. Isso porque sabemos que existem muitos casos assintomáticos e essas pessoas não entram nas estatísticas coletadas nos hospitais.
Durante as últimas três semanas eu tenho ajudado um grupo de cientistas a organizar um projeto piloto cujo objetivo é medir diretamente o número de pessoas já infectadas e que se curaram do coronavírus na região de São Paulo mais afetada pela pandemia. Se esse projeto piloto for bem-sucedido, ele vai poder ser expandido para toda a cidade ou em outros locais com muitos casos.
O grupo de São Paulo é uma colaboração entre médicos e epidemiologistas daUSPeUnifesp, que desenharam o estudo, e o Laboratório Fleury, que validou os testes de laboratório disponíveis (isso levou o nosso consórcio a não utilizar os testes rápidos e a optar por testes feitos em amostras de sangue como as coletadas rotineiramente nos laboratórios de análise clínica). O consórcio conta também com a ajuda de uma matemática que teve sua carreira dedicada ao planejamento e execução desse tipo de estudo, e o Ibope, que ajudou no desenho do estudo. Funcionários do IBPE, juntamente com técnicos de enfermagem do Fleury, vão coletar as amostras de sangue. O Instituto Semeia custeou todo o projeto e auxiliou na sua estruturação.
Na semana que vem doze equipes de coleta vão visitar 500 residências sorteadas ao acaso nos bairros de São Paulo que hoje possuem o maior número de casos de covid-19. Essa região cobre os bairros de Pinheiros e Lapa. Ao chegar à residência os enfermeiros vão explicar os objetivos do teste e sortear um dos habitantes da casa com mais de 18 anos. Caso a pessoa concorde, vão coletar uma amostra de sangue depois da pessoa assinar um termo de consentimento. Essa amostra de sangue será levada ao Laboratório Fleury e a presença e quantidade de dois tipos de anticorpos contra o novo coronavírus serão medidas. Alguns dias depois a pessoa ficará sabendo se possui esses anticorpos. Caso ela possua o anticorpo isso indica que já foi infectada pelo coronavírus e está curada. Essa pessoa muito provavelmente já é resistente ao vírus.
Esse estudo piloto tem como objetivo demonstrar que todo o processo, desde as visitas, a receptividade dos moradores, a coleta e a análise do sangue, podem ser executadas eficientemente e a um custo baixo.
Caso o estudo corra como esperado, saberemos o número verdadeiro de pessoas já infectadas nessa região de São Paulo. E se esse estudo for repetido ao longo do tempo será possível saber como esse número de pessoas está aumentado. Essa informação poderá ajudar o governo a calibrar o relaxamento social.
Eu tenho aqui um pedido para meus leitores: por favor espalhem essa informação aos amigos. Pode acontecer deles estarem entre os sorteados, e se for o caso, eles podem ajudar nessa pesquisa recebendo a enfermeira do Fleury e o entrevistador do Ibope, concordando em participar do estudo e doando uma pequena amostra de sangue. Dessa maneira estarão ajudando o governo a relaxar o isolamento com segurança.
Adendo: Um grupo de pesquisa, de Pelotas, no Rio Grande do Sul, acabou de divulgar os resultados de um estudo semelhante. Infelizmente, devido ao pequeno número de casos na região estudada, os resultados me parecem inconclusivos. Em somente duas das 4.189 pessoas testadas foi detectado o anticorpo contra o coronavírus. Esse número é menor que o número esperado de falsos positivos (quando uma pessoa que você sabe que não tem o vírus testa positivo). Infelizmente o grupo usou um teste rápido, pouco sensível. Talvez esse tenha sido esse o problema. Ciência é assim, cheia de frustrações.
“Os dois sabiam – de certa maneira, estava sempre na cabeça deles – que o que estava acontecendo não iria se manter por muito tempo. (...) Mas também havia vezes em que acreditavam na ilusão não só da segurança como da permanência. Enquanto estivessem naquele quarto, pensavam Winston e Julia, ninguém poderia lhes fazer mal.”
Diante do horror, verbos no gerúndio passam a sintetizar nossa existência: fugindo, desesperando, agonizando. Mas, também, sobrevivendo, como no lembrete orwelliano acima – mesmo que mediante as dores da resistência.
O químico e escritor judeu italiano Primo Levi Foto: Basso Cannarsa/AFP
Não bastasse a ameaça invisível da pandemia, eis que nós, brasileiros, precisamos colocar na conta da vida a concretude da crueldade, expressa em gestos, políticas e palavras de desdém, e no elogio à estupidez. Proclamada sem vergonha, propaga como um vírus e se dissipa em autorias múltiplas, orgulhosamente identificadas. Se antes o ódio pedia uma certa capa de anonimato, agora ele frequenta cartões de visita. “Gripezinha” é retórica bélica para quem não faz ideia do que seja humanização. A despedida e o luto por aqueles que, desumanizados, fazem número às estatísticas, são confiscados ao sabor da perversidade do momento.
“É como uma selva, o que me faz pensar ‘como é que consigo aturar?”, anunciava o rap do Grandmaster Flash and the Furious Five nos anos 1980, mas bem podia ser 2020. As perdas se acumulam e, junto a elas, transborda a sensação de sufocamento provocada pelo absurdo. Existe pausa para o horror que se impõe cotidianamente?
A arte e a ciência nunca se furtaram a reconhecer e a escancarar o pior de nós mesmos. Assim como o já citado Orwell, nomes como Pier Paolo Pasolini, Aldous Huxley, Clarice Lispector, Bertrand Russell, Stanley Milgram e Jacques Lacan recusaram a unidimensionalidade atribuída ao sujeito e fizeram questão de reportar a obscuridade constitutiva de todos nós. Na intimidade e no sigilo, pode ser que suportemos isso que nos perturba justamente por ser tão próprio. Cada um tem sua cota de trevas internas para lidar. Porém, o que vazar pode ser destruidor, de si e dos demais.
É do material humano que é feita a monstruosidade, nos advertiu Hannah Arendt a respeito de uma das mais perturbadoras atrocidades, o Holocausto. Nos anos 1930, Einstein questionara Freud sobre as motivações psíquicas pelas quais os homens empreendiam guerras. Antes mesmo que o primeiro conflito mundial pudesse ser digerido como passado, a 2.ª Guerra estava à espreita, em uma lamentável repetição. Repetimos, pois, aquilo que escapa ao nosso entendimento. Somos seres pulsionais que reúnem sob a mesma morada a união e o esfacelamento; com isso, a guerra é uma produção esperada, responde Freud na carta ao físico alemão. Não haveria como excluir, de nossa biografia enquanto espécie, a tendência à destruição.
Ainda assim, a história da humanidade nos conta que há de se viver apesar do horror. Experimentar o mundo em sua essência, com coragem, é o que a vida quer de nós, avisou certo brasileiro com flor no nome. Sobreviver ao mundo-moinho, este triturador de sonhos lamentado por Cartola. É que a mecânica que faz de nós sujeitos, diz Freud a Einstein, inclui laços emocionais e uma disposição para a cultura que são a antítese da guerra. Por entre frestas e letras, transcendências e criações inspiradoras, enfim, perduramos.
Responsabilizar-se pelos próprios desejos e pelo futuro forjado para si é compromisso inadiável em tempos de desintegração da convivência. Da mesma forma, cuidar uns dos outros é a opção ética pelo sublime, o gesto necessário de repúdio à barbárie tão incitada em nossos tempos. Reinventar a vida, com as formações e deformações de mundo, é a medida do possível.
Em retrospectiva sobre os penosos dias e noites passados no campo de Auschwitz, o químico italiano Primo Levi, perseguido pela milícia fascista, encontrou, não sem surpresa, a ordinariedade dos homens que, sob ordens, agrediam e humilhavam prisioneiros. As memórias o mantiveram vivo durante o martírio; a finitude da dor, também: “Cedo ou tarde, na vida, cada um de nós se dá conta de que a felicidade completa é irrealizável; poucos, porém, atentam para a reflexão oposta: que também é irrealizável a infelicidade completa. Os motivos que se opõem à realização de ambos os estados-limite são da mesma natureza; eles vêm de nossa condição humana, que é contra qualquer ‘infinito’.”
Na ponta oposta da barbárie, tem-se o sublime das resistências e persistências, a despeito dos destroços ao redor. Ou, como bem disse Rainer Maria Rilke em seu poema Go to the Limits of Your Longing, “Deixe tudo acontecer a você: beleza e terror. Apenas continue. Nenhum sentimento é final.”
*AMANDA MONT'ALVÃO VELOSO É PSICANALISTA, JORNALISTA E MESTRANDA EM LINGUÍSTICA APLICADA PELA PUC-SP