quinta-feira, 16 de abril de 2020

Lúcia Guimarães - Ricos famosos encarnam as Marias Antonietas de quarentena, FSP

Seria pedir demais que milionários suportassem o confinamento em suas mansões com mais galhardia?

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​Esqueçam “por que não comem brioches?”, a sugestão infeliz da última rainha antes da Revolução Francesa. Na escassez de pão da pandemia, a Maria Antonieta do século 21 haveria de perguntar: por que não fazem em casa, na sua panificadora Cuisinart de R$ 3.000?
Está faltando fermento e farinha nas padarias. Pior do que não encontrar pão fresco é esbarrar virtualmente no produto online porque celebridades não param de fazer pão em casa e exibir o resultado com orgulho comparável ao de Alexander Fleming ao descobrir a penicilina há quase um século.
Seria pedir demais que milionários famosos suportassem o confinamento em suas mansões e a via crucis percorrida em seus gramados com mais galhardia?
O exibicionismo de quarentena é contagioso e parece reduzir o quociente de inteligência emocional de algumas das figuras mais talentosas da cultura popular. A Madonna que sustenta orfanatos no Maláui é a mesma que se cobre de pétalas na banheira enquanto pontifica sobre o vírus como “o grande equalizador.”
Como se os órfãos na África tivessem a opção do isolamento igualitário, menos o banho de pétalas. Como se não fosse evidente que os negros e latinos americanos já morrem mais nesta pandemia, a consequência previsível de sua mortalidade por doenças associadas à renda mais baixa e à falta de acesso a serviços de saúde.
Diante da autopiedade das estrelas em suas gaiolas de ouro, um internauta sugeriu: sua melhor chance de saber se contraiu o coronavírus é tossir na cara de um desses ricos e esperar o resultado do teste —ao qual só eles têm acesso.
Alguns glamorosos suplicantes de Instagram são os mesmos que usam serviços de “medicina concierge”, clubes exclusivos que cobram US$ 40 mil anuais (R$ 209 mil) pelo acesso a especialistas e instalações médicas.
Nelson Schwartzman acaba de publicar "The Velvet Rope Economy: How Inequality Became a Big Business" (a economia da corda de veludo: como a desigualdade se tornou um grande negócio, em português), sobre a quarentena social que já é a realidade da ínfima parcela mais afluente da população.
Ele revela que médicos dos serviços concierge acumularam antecipadamente kits de testes de coronavírus e aparelhos pulmonares como precaução para clientes com problemas respiratórios pré-existentes.
A epidêmica falta de noção adquiriu tom de delírio na terça-feira (14) quando um dos âncoras mais famosos do país, após ter um resultado positivo e exibir sintomas intensos do coronavírus, deu entrevista a uma rádio. Chris Cuomo, o irmão caçula de Andrew, o governador de Nova York, tem ancorado seu programa da CNN americana do subsolo da casa que só seu salário anual de US$ 4 milhões (R$ 21 mi) pode comprar.
Cuomo havia prestado um serviço relatando como teve febre alta e sintomas piores do que da gripezinha inventada pelos ceifadores de morte no Planalto. Mas, ao ser interpelado por um crítico numa caminhada, teve uma crise existencial. Disse que não gostava mais do que fazia e não queria se engajar em “hiperpartidarismo”.
O mesmo Cuomo que pratica a praga do “doisladismo” —fatos podem ter dois lados e, por isso, trumpistas têm passe livre para mentir no estúdio com ele, que rebate, indignado, em típica sinalização de virtude. Horas depois, ele voltou atrás. Ou a febre de Cuomo baixou ou o privilégio subiu à consciência.
Madonna posa nua dentro de banheira enquanto fala sobre o coronavírus
Madonna posa nua dentro de banheira enquanto fala sobre o coronavírus - Divulgação
Lúcia Guimarães
É jornalista e vive em Nova York desde 1985. Foi correspondente da TV Globo, da TV Cultura e do canal GNT, além de colunista dos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo. Colabora com o canal digital MyNews.

A crise pode nos ajudar a reencontrar um equilíbrio entre os valores da segurança e da liberdade, FSP

Ideia de um Estado-príncipe regrando a vida a partir de uma concepção moral seria fatal com a tecnologia de controle digital

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Ainda me lembro da conversa com Zigmunt Bauman, junto com o amigo Mário Mazzilli, em sua velha casa de Leeds, na Inglaterra, alguns anos atrás. Os tempos eram outros, havia certo otimismo com a recuperação da crise, e o velho professor nos lembrou da dicotomia posta por Freud, em “O Mal-Estar na Civilização”, entre liberdade e segurança.
Nunca se descobriu o equilíbrio perfeito entre os dois valores, disse ele, acrescentando desconfiar que o pêndulo havia girado em demasia na direção da liberdade. E que logo as pessoas demandariam (e já haviam sinais) mais segurança.
O momento parece ter chegado, professor Bauman, em circunstâncias que ninguém poderia prever ou desejar.
Demandas por segurança implicam, em graus variados, o apelo ao Estado. É natural. O Estado está aí para nos proteger precisamente em situações como a que vivemos. O risco é percebermos, no fim do dia, que novamente deixamos o pêndulo flutuar demais, dessa vez para o lado contrário.
Diria que o maior risco vem da retórica do novo conservadorismo iliberal. O apelo à quebra dos valores liberais, do direito de ir e vir à liberdade de expressão. Tudo parece perder um pouco do sentido diante do medo. Medo do vizinho no elevador, da perda do emprego, da morte. O medo hobbesiano.
Foi isso que levou Adrian Vermeule, o jurista iliberal de Harvard, a fazer seu mais duro ataque ao liberalismo, em artigo recente, pregando entregar poder ao Estado sob o manto de um “legalismo iliberal que vá muito além do conservadorismo tradicional” e sua submissão às regras do Estado de Direito.
O avanço de ideias como as de Vermeule seria a pior consequência da crise. O pluralismo é uma marca de nossas sociedades abertas. A ideia de um Estado-príncipe regrando a vida a partir de uma concepção moral é uma tese pré-moderna, e seria fatal com o uso de tecnologias de controle digital hoje disponíveis.
A outra vertente fala da migração de uma era de “consenso neoliberal” para a reconstrução do “welfare state”. A tese soa elegante mas é feita de meias-verdades. O dito consenso neoliberal jamais foi propriamente um consenso, e o “welfare state” de fato nunca saiu de cena. A última década, pós crise de 2008, assistiu à ascensão de líderes de traço autoritário e populista (Orbán e Trump são apenas dois exemplos). É um erro situá-los em um consenso liberal.
Não se deve confundir um momento dramático, como o atual, com tendências sociais mais a longo prazo. Intuo que a questão sobre “mais Estado” logo será substituída por uma pergunta mais racional: de que tipo de Estado estamos mesmo falando?
Não sei dar uma resposta ampla a esta pergunta, mas arrisco algumas ideias.
A primeira distingue o que são demandas legítimas por proteção e boa regulação daquilo que é essencialmente captura do Estado por setores organizados, no mercado político. Vale para nossos modelos de renúncia fiscal. Vale para o modelo aprovado nesta semana de apoio a estados e municípios, sem contrapartidas.
A segunda reconhece que funções tradicionalmente desempenhadas pelo Estado podem ser executadas pelo mercado e sociedade civil. Da gestão de hospitais, no Brasil, a programas de transferência de renda, no Quênia. Tamanho não define a eficiência do Estado.
Por fim, a superação da falsa oposição entre rigor fiscal e políticas sociais. Foi a irresponsabilidade fiscal o principal fator que nos levou aos 12% de desempregados com os quais entramos na pandemia.
O desafio é evitar velhos equívocos, como a oposição ingênua entre Estado e mercado, liberdade e justiça. A experiência moderna vai na direção inversa. O liberalismo foi domesticado e incorporou uma extensa agenda social, e a moderna social-democracia fez o mesmo com políticas de responsabilidade fiscal e reforma do Estado.
A crise oferece o tempo de repensar. Tempo de mexer no pêndulo e quem sabe chegar mais perto da Golden Rule imaginada pelo velho professor entre aqueles dois valores, que no fundo definem muito de nossa condição humana.​
Fernando Schüler
Professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo.