quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quais são os setores que estão contratando durante crise do coronavírus, FSP

SÃO PAULO
A crise sanitária da pandemia do coronavírus resultou na paralisação de diversos setores da economia, levando o governo a liberar a realização de acordos para a suspensão de contratos de trabalho e redução de jornada de trabalho e salário na tentativa de conter demissões.
No meio disso tudo, porém, há quem esteja conseguindo ir na direção contrária, abrindo vagas e ampliando o quadro de funcionários efetivos e temporários.
A maioria desses postos de trabalho está em atividades mais requisitadas justamente devido à crise, como é caso dos empregos em hospitais, farmacêuticas e drogarias.
Funções ligadas à tecnologia também estão mais em alta do que nunca –de desenvolvedores a pessoal para trabalhar com marketing digital–, além de mão de obra para atender à alta demanda de compras principalmente em supermercados.
Funcionário limpa carrinhos de compras com álcool; supermercados tiveram que aumentar a força de trabalho - Mathilde Missioneiro/Folhapress
No grupo Pão de Açúcar, 5.000 temporários já foram contratados para atender as lojas físicas e online de Pão de Açúcar e Extra e das startups James e Cheftime. Outros 200 estão sendo selecionados por meio do Infojobs para analisar crediário, operar caixas e supervisionar lojas das operações Minuto e Mini Extra.
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O Carrefour está com quase 1.000 vagas abertas para operador de caixa, fiscal, repositores e gerentes comerciais. O BIG (antigo Walmart) está selecionando para 6.000 postos em diversos locais do Brasil. A PepsiCo está com 500 vagas temporárias para promotor, vendedor, auxiliar de logística e de produção e motorista carreteiro.
As gigantes da tecnologia IBM e Amazon estão com várias seleções em andamentos. Na primeira, o site para inscrições tem cinco páginas –são 139 funções como desenvolvedor android, analista de suporte e especialista em testes aguardando candidaturas.
No Brasil, a Amazon –que está reforçando o time em todo o mundo– tem 174 postos de trabalho. O maior número de vagas é para a função de arquiteto de soluções.
Empresas de inovação como a Zupi e a Escale também estão com seleções abertas por meio do site Revelo.
A diretora de operações do site de vagas Catho, Regina Botter, diz que o crescimento de vagas em alguns setores extrapola o que se consideraria normal.
Ela afirma que, em outros momentos, o aumento motivado por alguma situação específica fica em torno de 15%. Com a crise do coronavírus, algumas vagas tiveram crescimento de 700% na oferta.
Foi o caso da procura por enfermeiros de UTI –foram 718% mais vagas anunciadas ante o mês de março do ano passado. Em apenas uma semana, a Catho chegou a registrar 3.700 anúncios para o setor de saúde.
No segmento farmacêutico, o laboratório Eurofarma tem 19 vagas efetivas para início imediato e outras 16 para cadastro de reserva.
Na Luandre, empresa de RH, 2.519 vagas na área de saúde estão abertas e outras 1.600 para atender o varejo em funções como repositores de supermercados e atendentes de farmácia.
Francine Amadeu, superintendente da Luandre, diz que, tradicionalmente, o mês de março é um período de alta demanda por mão de obra temporária para atender as campanhas de Páscoa.
Com a crise da pandemia, essas contratações foram substituídas por pedidos de seleções nas áreas de saúde e logística, além de teleatendimento. “Toda a cadeia varejista de supermercados está muito aquecida, com muita gente comprando online e presencialmente” afirma.
A demanda por mais profissionais da área de saúde chegou também à central de vagas ligada à prefeitura de São Paulo. No CATe (Centro de Apoio ao Trabalho e Empreendedorismo), seleção iniciada nesta semana tem 320 vagas para profissionais de enfermagem trabalharem em UTIs de hospitais.
Os cadastros de currículos terminam nesta quarta (15). Outros 1.000 enfermeiros foram selecionados para trabalhar no hospital provisório montado no Anhembi, na capital paulista.
Ainda no setor de tecnologia, a fintech Stone está contratando para o setor comercial em Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, todas cidades do ABC paulista.
Para a área de tecnologia, a fintech está contratando para trabalho remoto e, por isso, os candidatos podem ser moradores de qualquer cidade no Brasil. Quem for selecionado vai trabalhar na área de inovação –há chances para desenvolvedores de software e designers.
Também no segmento de serviços digitais de pagamento, a Wirecard contratou dez pessoas desde o início da quarentena e mais 50 posições para atuar com tecnologia e infraestrutura estão abertas.
No Boticário, duas seleções estão em andamento. Uma delas, com 30 colocações, busca trabalhadores com deficiência para postos de trabalho em São Paulo, Rio de Janeiro de Salvador, nas áreas de finanças, planejamento de demanda e comercial, recursos humanos e comunicação. A outra tem 76 colocações para o desenvolvimento de produtos digitais do grupo em Curitiba e São Paulo.
Para atender o programa Jovem Aprendiz os Correios estão com inscrições abertas para 4.462 vagas.
O novo momento mexeu também com os métodos de seleção, que agora estão sendo conduzidas a distância e com entrevistas não presenciais.

Morreu o escritor José Rubem Fonseca. Junto vai o ativista político, Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia


A morte do escritor José Rubem Fonseca enterra também, para sempre, a figura do “ativista” que ele jamais assumiu publicamente. Pelo contrário, nos anos pós 1970, tornou-se o cara recluso, fugidio e avesso às interpelações da mídia. Seus livros, inegáveis obras primas, o fez consagrado, e talvez ele não quisesse misturar os circuitos entre o militante de direita que foi, e o escritor com aura progressista que se tornou. Ironia: chegou a ter o livro “Feliz Ano Novo”, lançado em 1975, censurado e recolhido das livrarias pelo governo dos militares, que ajudou a colocar no poder. Fonseca foi um dos coordenadores do Ipês, (Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais), instituição de fachada para a conspiração do golpe de 1964.
Foi delegado de Polícia e usou a experiência em seu livro “Agosto”, para montar a ambientação e o comissário Mattos, o personagem central, que muitos apontam como o seu “alter ego”. Depois trabalhou como assessor de Antônio Galotti, ex-presidente da Light de 1956 até o final dos anos de 1970, sempre muito próximo ao comando da ditadura. Foi ele quem apresentou o talentoso redator ao general Golbery, quando este, tendo como braço direito o engenheiro Glycon de Paiva, (um dos fundadores da Benfam), fundou o Ipês. 
Ali, José Rubem Fonseca exerceu todo o seu talento com a escrita e a sua objetividade para coordenar o Grupo de Opinião Pública. Cabia a ele não só redigir textos de propaganda a serviço do golpe, como também manter contato através de cartas com as empresas e instituições que pudessem colaborar financeiramente com o núcleo de conspiração. Escrevia a sindicatos - que quisessem contratar cursos para a formação de quadros com viés de direita - e artigos para serem distribuídos na imprensa, assinados por figuras de proa do empresariado. Sim, eles estavam par e passo com os militares na preparação da derrubada do presidente eleito, João Goulart.
Ao pesquisar a documentação do general Golbery, para uma reportagem para o Jornal do Brasil, descobri que o Ipês também produziu um conjunto de 14 filmes de curta-metragem e, para a surpresa geral, que eram de José Rubem Fonseca os roteiros concisos, ágeis e bem elaborados. Terminada a reportagem dediquei-me a escrever o livro: “Propaganda e Cinema a Serviço do Golpe – 1962/1964”, a fim de contextualizar toda esta engrenagem montada pelo Ipês de propaganda e mídia. Ali o foco era convencer a opinião pública a, não só a aceitar o golpe, como a torcer por ele. (Faz lembrar algo?). 
Entre a documentação um dos papéis comprovava - a partir de um bilhete de Carlinhos Niemeyer (produtor do famoso Canal 100), dando instruções e sugerindo mudanças -, que eram de Fonseca os roteiros pró-golpe, que faziam a cabeça de multidões país a fora.
Perto do lançamento, do livro, em 13 de março de 2001, entrei em contato com a assessora do escritor, para que ele se pronunciasse a respeito. Negou-se. Mandou dizer que ninguém tomaria conhecimento do meu livro. Ao ver, porém, no ar, no domingo anterior à data de lançamento, uma extensa matéria feita para o Fantástico, da TV Globo, com entrevista comigo e exibição de trechos dos curtas, entrou em contato com a emissora para encaminhar uma nota a ser lida em seguida da matéria. Nela dizia não se lembrar de ter redigido os roteiros, mas admitia ter participado do Instituto, até o dia do golpe quando, por discordância, havia deixado o cargo. 
Porém, no dia do lançamento do livro, nos jardins do Palácio da República, um senhor de terno azul marinho, que aguardava na fila de autógrafos, me entregou uma pasta. “Vim aqui só para dar isto a você”. Dentro havia a ata de dissolução do Ipês, em agosto de 1972 (quando a esquerda estava sendo dizimada nas ruas e torturada nos porões), com a sua assinatura. “Ele ficou lá o tempo todo”, me disse a pessoa, que misteriosamente se foi, se misturando aos convidados. 
José Rubem Fonseca, o escritor, foi bem maior que isto. Bastava vir a público dizer, com tranquilidade, que participou, mas no final mudou de posicionamento político. Preferiu, porém, carregar pela vida toda esta aura de mistério e fuga, quem sabe, fazendo ele um personagem de si mesmo.