quarta-feira, 15 de abril de 2020

A difícil arte de respeitar a crise e evitar retrocessos, Jorge Abrahão, FSP

Começam a surgir propostas oportunistas que, sob o álibi da Covid-19, propõem retrocessos para a democracia

  • 1
Em um momento tão grave é delicado trazer temas que não são da ordem do dia e não têm relação direta com a crise humanitária que vivemos. Mas alguns assuntos têm a ver com o encaminhamento de soluções no médio e longo prazos e impactam a vida de todos nós. É o caso das eleições municipais de 2020, que são de suma importância para o futuro do país.
Nesta crise, está evidente a importância da política e da democracia. São os políticos, para o bem e para o mal, que assumem o protagonismo no enfrentamento da Covid-19. Sobressai também o importante papel do poder público para a organização da sociedade e a preservação da vida. Não cabe debater o Estado máximo ou mínimo, mas ressaltar sua relevância para o futuro da nação e a necessidade de ter recursos suficientes para o investimento em infraestrutura necessária, sobretudo nos países em desenvolvimento. Há recursos na sociedade para isso, que estão concentrados nas mãos de muito poucas pessoas, e enfrentar esta questão é um desafio do Estado.
Neste contexto, começam a surgir propostas oportunistas que, sob o álibi da Covid-19, propõem retrocessos para a democracia ao defender interesses menores, que nada têm a ver com o interesse público.
Há uma proposta no Congresso para reduzir o prazo de tramitação de medidas provisórias, o que dificultará a participação e a contribuição da sociedade civil nos processos. Em diversas áreas, observa-se a redução da transparência de dados, o que atrapalha significativamente o monitoramento de programas e políticas.
Sob a alegação do controle de aglomerações, corre-se o risco de avançar na privacidade dos cidadãos e na vigilância de dados, sem uma visão mais ampla uma avaliação mais criteriosa sobre o tema. E há um debate no Congresso sobre o adiamento das eleições municipais de 2020, com senadores propondo a prorrogação dos mandatos e o adiamento das eleições para 2022, unificando os pleitos federal, estadual e municipal.
A Constituição brasileira prevê eleições alternadas a cada quatro anos, depois de um exaustivo debate que considerou a importância do amadurecimento político do país.
O desafio para evitar esse adiamento será o de buscar, mesmo em um momento grave como este, propostas que combinem o enfrentamento da crise com a preservação da democracia, respeitando a Constituição do país.
Alguns processos essenciais têm sido mantidos e adaptados ao momento, como as vacinações, que tiveram o calendário ampliado para evitar aglomerações. Neste sentido, o adiamento das eleições para dezembro, por exemplo, ainda dentro do atual mandato, não comprometeria o processo sucessório. O período das eleições poderia ser alongado para alguns dias ou semanas, também para evitar aglomerações.
Enfim, o importante é que haja um debate na sociedade e que ela não seja surpreendida com medidas repentinas e de cima para baixo em um tema que tem tamanho impacto na vida de todos.
Uma crise como a que vivemos evidencia cada vez mais a desigualdade de nosso país: de renda e de acessos à saúde, à água, ao esgoto e a habitações dignas. Todos estes temas exigirão, mais do que nunca, uma resposta da política e da sociedade.
As eleições podem ser uma oportunidade para que as propostas para o enfrentamento de questões urgentes de nossas cidades e do país ganhem a merecida prioridade, e para que sejam eleitos políticos com propostas para enfrentá-las de fato. Neste sentido, as eleições municipais podem gerar um alinhamento maior da política com os anseios da sociedade.
Em momento sensível como este, devemos evitar riscos para a democracia e insegurança jurídica, além de criar precedente perigoso que justifique mudanças do calendário eleitoral no futuro.
Jorge Abrahão
Coordenador geral do Instituto Cidades Sustentáveis, organização realizadora da Rede Nossa São Paulo e do Programa Cidades Sustentáveis.

Proposta da Câmara para socorrer estados mantém privilégios e socializa custos, FSP

Aprovação de medidas garantidoras dos interesses da maioria requer desprendimento das lideranças políticas

  • 13
Marcos Mendes
Câmara aprovou na segunda (13) um projeto de socorro aos estados. O custo estimado caiu pela metade, em relação à proposta da semana passada: de aproximados R$ 200 bilhões para R$ 100 bilhões.
Isso é bom? Não.
Primeiro, porque o desenho da ajuda contém incentivos errados e complexidade excessiva. Segundo, porque o custo continua alto. O proibitivo pacote inicial parece ter sido o bode na sala, que tornou palatável o pacote ora aprovado.
O mais lógico seria fixar um valor em reais, a ser distribuído aos estados e municípios por critério per capita, durante três meses. Ao final desse período, se avaliaria a extensão por mais três meses e se recalibraria o valor. Método simples e claro.
Câmara dos Deputados em votação digital nesta semana; texto de socorro aos estados foi aprovado
Câmara em votação digital nesta semana; texto de socorro aos estados foi aprovado - Maryanna Oliveira/Câmara dos Deputados
Optou-se por um seguro-receita: a União pagará a cada estado a diferença entre a arrecadação mensal em 2020 e o mesmo mês de 2019, durante seis meses.
Aí começam as complicações: e se os dados de 2020 não estiverem prontos a tempo? Paga um percentual da receita e depois desconta se tiver pago a mais. E se em 2019 tiver havido receitas extraordinárias: desconta ou não desconta?
As complicações e as nuances de conceitos vão gerar conflito, intermináveis reuniões consumirão o tempo de trabalho dos gestores, e vão acabar na Justiça.
[ x ]
O seguro-receita criado pela Lei Kandir deveria ter acabado em 2002, mas até hoje assombra as contas públicas, com demandas bilionárias dos estados no STF, que exploram lacunas conceituais no texto da lei.
O projeto tentou antecipar alguns problemas e soluções. Mas, quanto mais se escreve, mais se abre brecha para entendimentos diversos.
E quanto aos incentivos? Se a União vai cobrir toda a perda de receita, o governador e o prefeito ficarão tentados e serão pressionados a dar perdão e benefícios fiscais.
O projeto tenta proibir, mais uma vez deixando brechas. Por exemplo: há exceção para pequenas e microempresas e para ações de garantia do emprego. O suficiente para os secretários de Fazenda serem crivados de pressões. Afinal, está escrito na lei que pode dar o benefício!
Mas a questão principal é a total ausência de medidas para limitar despesas. Repetiu-se o roteiro de sempre: começa com um pacote de ajuda com contrapartida de ajuste. Os ajustes somem, e a ajuda fica. Socialização de custos, manutenção de privilégios. O “caronavírus” é endêmico no Brasil.
A crise atual é forte o suficiente para que as grandes lideranças no plano federal e estadual tenham respaldo para tomar medidas justas, que sempre são repelidas pelas corporações.
Já que se está aprovando uma “PEC de Orçamento de guerra”, esta deve distribuir os custos e fazer os que são protegidos pela estabilidade no emprego e têm salários elevados a dar sua cota de sacrifício. Nada mais normal quando empregados do setor privado estão perdendo até 70% dos seus salários, para garantir o emprego.
A lista de medidas está pronta e já consta de outras PECs, hoje em banho-maria.
Vale repeti-la: redução de jornada de servidores com redução de remuneração; contingenciamento do orçamento dos demais Poderes; transferência do saldo dos fundos desses poderes para o Executivo; repasse do pagamento de aposentadorias e pensões para os poderes onde os servidores se aposentaram; inclusão dos inativos nas despesas mínimas de educação e saúde; unificação do gasto mínimo em saúde e educação; limitação das diversas formas de expansão de despesa de pessoal.
Se medidas como essa permitissem uma pequena redução de 5% na folha de pagamento dos estados e municípios, durante um ano, isso produziria uma economia de R$ 45 bilhões. Ou seja, quase metade do pacote de ajuda poderia ser financiada pelos próprios estados e municípios, sem necessidade de jogar a conta nas costas do contribuinte.
A aprovação de medidas duras, porém justas e garantidoras dos interesses da maioria, requer cooperação e desprendimento das lideranças políticas. Agindo na base do cada um por si, de olho nas próximas eleições, e movidos pelo bate-boca cotidiano, os nossos líderes não serão capazes de aprová-las.
Marcos Mendes é doutor em economia pela USP, consultor legislativo do Senado e ex-chefe da assessoria econômica do ministro da Fazenda (2016-2018)