quarta-feira, 15 de abril de 2020

Ruy Castro Bolsonaro positivo, FSP

Mas assintomático. Isso explicaria por que ele pode saracotear à vontade

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Já que faz os exames e não mostra os resultados, toda suposição é válida. Eis uma. O teste de Jair Bolsonaro para a Covid-19 deu resultado positivo no dia 12 de março. Positivo, mas assintomático. Significa que ele pegou o coronavírus, mas este não o afetou e, 15 dias depois, estava teoricamente imunizado. Os outros dois exames a que se submeteu confirmaram o resultado.
Isso explicaria que Bolsonaro possa saracotear à vontade, tirar ouro do nariz e despejar perdigotos em sua claque --sabe que não contaminará nem será contaminado. Passa por valente e mostra que "tinha razão". O fato de que seu exemplo pode levar a milhares de mortes longe dali não lhe diz nada. "Terão mortes", ele já admitiu, esfaqueando a língua. "Paciência", resignou-se. Veremos o que dirá quando essas mortes começarem a se dar em massa entre seus eleitores --será como se os tivesse contaminado um a um.
Mas esqueça o Contaminador nº 1, que estimula o povo a apostar a vida enquanto a dele está garantida pela imunidade física e presidencial. Pense nos que, por arrogância ou ingenuidade, estão desprezando o confinamento. Ao sair para passear, comprar cerveja ou bater papo com a turma na esquina estão esbofeteando um profissional da saúde —que, neste exato momento, trabalha nas mais dramáticas condições e arrisca sua vida por eles. O mesmo sujeito leviano e insensível que se julga invulnerável pode vir a lamentar a falta de médicos —que também se contaminam— no posto a que precisará recorrer quando chegar a sua vez.
É duro saber que o vírus de que tais idiotas serão portadores atingirá médicos, assistentes, enfermeiros, anestesistas, faxineiros e até motoristas de ambulância, por mais protegidos que estejam.
Não será preciso esperar o fim do pesadelo para que os profissionais da saúde sejam alçados, sem discussão, à única categoria a lhes fazer justiça --a de santos modernos.
Bolsonaro lança perdigotos ao falar no Palácio da Alvorada - Joédson Alves - 27.mar.2020/EFE
Ruy Castro
Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues

Alto lá, ditadores, FSP

Não há motivo para criar discriminações extras contra os mais velhos

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Hoje eu estou bravo. Ainda não tenho 60 anos, de modo que certos prefeitos podem dormir tranquilos. Mas, se tivesse e algum alcaide populista tentasse me impedir de fazer o que é facultado a qualquer um com 59 anos, eu resistiria, recorrendo à força se preciso. O direito, afinal, autoriza cidadãos a usar de todos os meios necessários para repelir injusta agressão.
Estou falando de iniciativas, como a do prefeito de Porto Alegre, Nelson Marchezan Júnior, de multar maiores de 60 anos que estejam circulando pela cidade sem justificativa, e de ideias, como a do alcaide carioca, Marcelo Crivella, de impor hospedagem compulsória a idosos em hotéis.
Sim, vivemos tempos excepcionais que justificam medidas excepcionais. Entendo e defendo que se instituam restrições momentâneas aos direitos de ir e vir e de reunião, mas não há nenhum motivo para estabelecer discriminações extras contra os mais velhos. A circulação de idosos não representa uma ameaça maior para a sociedade do que a de jovens; o perigo que saídas desnecessárias implicam para o próprio sujeito é do âmbito da autonomia individual.
Funcionários da prefeitura limpam terminal de ônibus efaz lavagem em Porto Alegre - Dani Barcellos/Enquadrar
Não quero, com essas observações, negar que pessoas mais velhas corram mais risco com a Covid-19. As estatísticas deixam isso muito claro. Os idosos devem mesmo se precaver. Vou mais longe: as famílias têm legitimidade para usar de todos os artifícios da chantagem emocional para demover pais e avós da superexposição, mas não cabe aqui tutela por parte de nenhuma autoridade.
Não é preciso mais do que um simples experimento mental para ver o absurdo da coisa. Negros, pela maior prevalência de hipertensão arterial e diabetes, também estão sob maior risco de desenvolver quadros severos de Covid-19. Vamos então proibir esse grupo étnico de circular "sem justificativa"?
Vivemos um momento difícil, que exige ações assertivas, mas nada justifica a criação de novos apartheids.
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".

Contra a recessão, FMI se alinha à OMS, Editorial OESP

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo
15 de abril de 2020 | 03h00

Conter a pandemia é condição para a retomada econômica, e isso dependerá de medidas como o isolamento social, sustenta o Fundo Monetário Internacional (FMI) em documento sobre as perspectivas mundiais. Economistas e diretores do Fundo mostram-se alinhados com a Organização Mundial da Saúde (OMS), advogando medidas de prevenção para impedir o colapso dos serviços médicos. Boas políticas sanitárias tornarão mais provável a reativação a partir do segundo semestre e algum desafogo em 2021. A melhor forma de atenuar o impacto econômico da pandemia é atacar o vírus, deixaram claro, numa entrevista conjunta em 3 de abril, a diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, e o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus. A experiência, o conhecimento e o bom senso dos técnicos e dirigentes das duas instituições são negados pelo presidente Jair Bolsonaro e seus seguidores. Todos vão morrer algum dia, argumentou Bolsonaro numa declaração recente.
Mesmo com a contenção da pandemia, o balanço geral de 2020 será muito ruim, segundo as projeções da Perspectiva Econômica Mundial (World Economic Outlook), a mais importante publicação periódica do FMI. Na pior crise desde a Grande Depressão de 90 anos atrás, a economia brasileira deve recuar 5,3% em 2020, acompanhando uma contração global de 3%, segundo projeção do Fundo Monetário Internacional.
Mas esse cálculo vale para um cenário com a pandemia chegando ao pico no segundo trimestre e amainando na segunda metade do ano. Num quadro mais tenebroso, o produto global poderá encolher 6%. Para a maioria dos países será um desastre quase inimaginável mesmo neste momento.
A retomada econômica vai depender das condições sanitárias, como já haviam afirmado, no começo do mês, os dirigentes do FMI e da OMS. A defesa da vida criará as condições necessárias para a reativação. Se a difusão da covid-19 for achatada com o isolamento social, os sistemas de saúde poderão enfrentar a doença, e isso levará à reativação, disse a economista-chefe do Fundo, Gita Gopinath. “Nesse sentido”, acrescentou, “não há dilema entre salvar vidas e salvar as condições de sustento.”[DAS FAMÍLIAS]
Mantido o isolamento, os governos terão de continuar apoiando trabalhadores e empresas. Será preciso, segundo o FMI, continuar gastando muito com os sistemas de saúde e com a ajuda às famílias durante a crise. Os bancos centrais devem persistir no estímulo à expansão do crédito. Os governos, dentro de suas possibilidades, precisam manter os cofres abertos por algum tempo.
Muitos países precisam de ajuda. O FMI já iniciou socorro a mais de 90 nações e vem concedendo e recomendando a concessão de facilidades aos endividados, além de doações e de financiamentos em condições especiais. O próprio Fundo maneja um orçamento de US$ 1 trilhão para ajuda a países vulneráveis.
Nenhuma economia ficará ilesa. O crescimento chinês deve passar de 6,1% em 2019 para 1,2% em 2020. Os Estados Unidos devem sofrer contração de 5,9% neste ano. No ano passado houve expansão de 2,3%. Mas a retomada será sensível, em 2021, se a pandemia for contida como no cenário básico. Nesse quadro o Brasil crescerá 2,9% no próximo ano, bem abaixo da média global de 5,8%, por causa das severas limitações do País.
Os cenários incluem um severo choque financeiro. Os emergentes entraram numa tempestade perfeita – pandemia, queda do preço do petróleo, aumento da aversão ao risco e perspectiva de recessão global. Essa avaliação está no Relatório de Estabilidade Financeira Global, também divulgado ontem. As moedas de países exportadores de commodities, como Brasil, Colômbia, México, Rússia e África do Sul, caíram mais de 20% em relação ao dólar no primeiro trimestre, movimento em boa parte explicável pela fuga de capitais.
A recuperação exigirá, em 2021, um duro reparo dos fundamentos econômicos, a começar pelas contas públicas. Mas tudo será pior se a precipitação prejudicar o combate à pandemia. Mais que o atraso na retomada, haverá muitas mortes a lamentar.