quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Fala de Guedes traduz governo que se abastece de sonhos autoritários, FSP

Bolsonaro busca pretexto para repressão e fica confortável em ameaças à democracia

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BRASÍLIA
O desembaraço com que Paulo Guedes menciona o risco de um novo AI-5 é a tradução fiel de um projeto que se abastece diariamente de sonhos autoritários. Em busca de pretextos para aplicar uma agenda de repressão, o governo vai ficando cada vez mais confortável para ameaçar os princípios da democracia.
O ministro da Economia seguiu a moda lançada por Jair Bolsonaro e passou a trabalhar com protestos hipotéticos e vândalos presumidos. Em viagem aos EUA, ele disse que não seria surpresa se houvesse cobrança por medidas de arbitrário em caso de manifestações contra o governo.
“Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo para quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem, então, se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez?”, declarou.
O ministro da Economia, Paulo Guedes, em Washington
O ministro da Economia, Paulo Guedes, em Washington - Olivier Douliery/AFP
A indignação de Guedes tinha endereço certo. O governo freou parte de sua agenda de reformas econômicas depois que o ex-presidente Lula deixou a prisão e passou a atacar essa pauta para mobilizar suas bases políticas. O petista não exortou militantes a agirem com violência, mas citou manifestações no Chile como exemplos de que o povo deve defender seus interesses.
O ministro sugeriu que as falas sobre um novo AI-5, inauguradas por Eduardo Bolsonaro, eram uma resposta ao tom usado por Lula depois de sair da prisão. Só se o filho do presidente fosse vidente: o petista foi solto oito dias depois da declaração de Eduardo sobre o assunto.
O governo rasga, a cada hora, um novo pedaço de uma fantasia já retalhada. Está inscrito na pele desse grupo o desejo de recorrer a medidas autoritárias para responder a qualquer obstáculo do jogo democrático.
Há alguns dias, Delfim Netto, ministro da ditadura militar, disse ao jornal O Estado de S. Paulo que o governo tem um lado sombrio e outro iluminado. O segundo seria a equipe econômica. Quem quiser fechar os olhos para os abusos do governo em nome da agenda de Guedes agora sabe que a escuridão é o ambiente predominante por ali.
Bolsonaro insiste na ideia de dar superpoderes às Forças Armadas para reprimir protestos. Quando era candidato, ele chegou a apoiar as manifestações de caminhoneiros que pararam o país em 2018. Alguns pregavam um golpe de Estado e bloqueavam estradas. Houve casos de violência entre motoristas.
Os militares foram chamados, mas não para atirar. Serviram de choferes de luxo e só manobraram as carretas que impediam o trânsito.
Bruno Boghossian
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

Virtude na marra, Helio Schwartsman, FSP

A criançada não está curtindo muito o cardápio vegano em escolas na Bahia

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O veganismo é perfeitamente válido como escolha individual. Entra na mesma categoria das religiões, credos filosóficos, opções políticas, gostos literários e fetiches sexuais. Isso significa também que o Estado não tem legitimidade para impô-lo a ninguém e nem mesmo para incentivar cidadãos a segui-lo --da mesma forma que não pode puxar a sardinha para nenhuma fé religiosa.
À luz desses truísmos, é esquisita a história da militante vegana e promotora de Justiça Letícia Baird, do Ministério Público da Bahia, que vem obrigando escolas públicas de algumas cidades do sertão baiano a assinar termos de ajustamento de conduta nos quais se comprometem a reduzir paulatinamente o teor de proteínas animais na merenda servida aos alunos até substituí-las por produtos vegetais. Hoje, 32 mil estudantes de 154 escolas da região já consomem duas vezes por semana um cardápio sem itens de origem animal.
Crianças comem salada de frutas na creche Cheiro de Amor, na cidade de Serrinha (BA) - Raul Spinassé/Folhapress
Obviamente, o MP baiano não descreve o programa Escola Sustentável como evangelização vegana, hipótese em que estaria confessando um desvio, mas sim como uma iniciativa destinada a melhorar a saúde das crianças, reduzir gastos e diminuir o impacto ambiental da merenda.
A narrativa tem dois problemas. Em primeiro lugar, embora alguns profissionais de saúde, em geral veganos, afirmem que crianças podem adotar sem problemas uma dieta exclusivamente vegana, o consenso médico recomenda que, nestes casos, haja suplementação de ferro e de algumas vitaminas. E é complicado pensar em suplementação numa área em que a metade da população tem renda mensal inferior a meio salário mínimo.
Em segundo lugar, a criançada não curte muito o cardápio vegano e deixa grandes quantidades de sobras no prato, o que compromete a ideia de que a iniciativa promove a eficiência do gasto público.
O mundo melhoraria bastante se as pessoas parassem de tentar determinar como os outros devem viver.
 
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".