segunda-feira, 25 de novembro de 2019

É preciso mudar partidos e reduzir deputados, diz Janaina Paschoal, FSP

Deputada estadual propõe alterações no sistema político, como liberar candidaturas avulsas

Janaina Paschoal
[RESUMO] Em relato inspirado em sua atuação como deputada estadual por São Paulo, cargo para o qual 
se elegeu com recorde de votos, autora propõe série de mudanças no sistema, como liberação de candidaturas avulsas e redução do número de parlamentares.
Antes de o processo de impeachment de Dilma Rousseff ser concluído, partidos políticos já me convidavam para disputar as eleições de 2016. As propostas evidenciavam a total falta de sensibilidade a respeito da dedicação que o impeachment demandava. Como pensar em uma candidatura em meio à mais complexa batalha jurídica do país? 
Findo o processo, os convites se intensificaram. Um deles se mostrou diferenciado. O autor entrou em meu escritório e, antes de me propor filiação, afirmou ter compreendido meu pedido de desculpas à ex-presidente Dilma, não pelo impeachment (justo e necessário), mas pelo sofrimento que os processos acarretam também aos culpados.
O portador desse convite queria que eu me candidatasse à Presidência da República em 2018. Sua convicção era tal que insistiu até o último dia do prazo para filiação. 
Por que trazer esse fato no bojo de um texto referente às necessárias mudanças no sistema político? Porque o proponente, no intuito de me convencer, disse que, se eu preferisse, poderia até assinar uma carta, assegurando que eu seria mesmo candidata. 
Estranhei. Inocentemente, eu acreditava que se alguém dizia que uma pessoa seria candidata, essa pessoa seria candidata, e ponto final. Na dinâmica partidária, contudo, as coisas não funcionam assim. Não é incomum as pessoas serem, literalmente, vendidas às vésperas das datas estipuladas para apresentação de candidaturas. 
Para que o leitor compreenda, é preciso esclarecer que existe prazo para que um cidadão se filie a um partido político, se quiser concorrer no próximo pleito. Igualmente, existe um prazo limite para apresentação das candidaturas. Esse prazo sempre se dá alguns meses depois do termo final para a filiação.
Isso significa que, quando da inscrição das candidaturas, se o “dono” do partido não quiser dar a legenda para a pessoa filiada ser candidata, essa pessoa não o será, pois não há mais possibilidade de mudar de sigla.
Fato é que, em uma democracia, por força desse sistema arcaico, é possível haver uma pessoa querendo concorrer e muitas outras querendo elegê-la, sem que as partes envolvidas possam exercer essa cidadania básica de votar e ser votado!
O veto das legendas pode se dar por vários motivos, como alguma incompatibilidade entre as partes ou por haver um candidato melhor. Há também situações em que o partido aceita, e até estimula, um indivíduo a se filiar, com o único intuito de neutralizá-lo politicamente. Um atentado contra a democracia motivado por questões financeiras.
Por que Jair Bolsonaro escolheu o PSL? Porque temia que sua candidatura fosse vendida no último minuto. A pequena equipe do então candidato acreditava que ele poderia ser impedido de concorrer à Presidência, caso seu nome crescesse nas pesquisas. 
Visando diminuir quaisquer possibilidades de traição, decidiu-se pela filiação no PSL, pois o presidente do partido, o deputado federal Luciano Bivar, aceitou entregar a gestão real da sigla às pessoas de confiança de Bolsonaro. Assim, Gustavo Bebianno assumiu a direção durante a campanha, e Bolsonaro foi eleito.
Numa discussão a respeito de nosso sistema eleitoral e de uma reforma política, pode parecer descabido mencionar essas passagens. No entanto, dada a tensão vivida naquele momento, faz-se necessário relatar e deixar evidentes os males acarretados pela obrigatoriedade de estar filiado a partidos. 
O caso de um presidenciável é mais notório, mas quantos bons potenciais candidatos a prefeito, neste momento, não são convidados a se filiar a agremiações que, lá adiante, inviabilizarão a candidatura? 
Ainda que não haja má-fé deliberada no processo, o aspirante ao cargo público precisará se submeter àqueles que detêm o poder de lhe conferir, ou não, a legenda, assumindo compromissos em torno de cargos e verbas, uma vez conquistado o mandato.
Resta evidente que o primeiro passo para uma reforma política seria viabilizar as assim chamadas candidaturas avulsas ou independentes. Essa possibilidade não implica acabar com os partidos. Significa apenas admitir que alguém se voluntarie sem se submeter à vassalagem. No dia 9 de dezembro, no Supremo Tribunal Federal, ocorrerá audiência pública para discutir as candidaturas avulsas. Estou otimista.
Os críticos, dentre outras objeções, asseveram que o presidente e os governadores precisam de uma base forte. Indago: desde quando as siglas partidárias garantem tal base?
Quando um congressista está no mesmo partido do presidente da República ou do governador de seu estado, tem a expectativa de que receberá tratamento diferenciado. Quando o chefe do Executivo se porta como deve se portar, ou seja, quando não faz diferenciações e governa para todos, frustra essas expectativas, gerando resistências naquela que deveria ser a base. 
Partidos, como um conjunto de ideias, como representação de um núcleo de valores, simplesmente não existem. Há décadas entoa-se o mantra de que é preciso fortalecer os partidos para fortalecer a democracia, mas o caminho é justamente o contrário.
O direito de votar e ser votado constitui garantia fundamental, insculpida no Pacto de San José da Costa Rica, ou Convenção Americana de Direitos Humanos, da qual o Brasil é signatário. De fato, o cidadão vota em alguém com suas ideias, com suas propostas, com seus compromissos, mas seu voto acaba por beneficiar um grupo que, em regra, não compartilha dos ideais da pessoa votada.
A despeito do número de votos recebidos, os deputados têm direito a um único voto nas votações das casas legislativas a que pertencem. E cada deputado desfruta de absoluto poder sobre como conduzir seu mandato e organizar seu gabinete. Será que esse sistema pode ser considerado democrático? 
Aliás, mesmo a máxima de que cada parlamentar vale um voto, na prática, pode ser contestada. Haja vista a possibilidade de as votações serem simbólicas, resta possível uma lei ser aprovada com o plenário vazio. Pior: quando se olham os registros, tem-se a impressão de que foi aprovada por unanimidade. Fraude institucionalizada.
A situação é mais grave do que parece, dado que essa modalidade de votação permite que o autor da propositura legislativa faça passar a lei, muitas vezes nebulosa, sem sequer subir à tribuna. Ora, a transparência pressupõe que o eleitor possa acompanhar como votou cada parlamentar. Importante consignar que a votação nominal dificulta o lobby, pois o proponente precisa entender o que está propondo para explicar ao povo e, principalmente, a seus pares.
Além da votação nominal, a devida fiscalização passa, forçosamente, pela diminuição do número de congressistas. Antes de vivenciar a política mais proximamente, eu já reclamava desse fator, por força dos gastos. 
Ocorre que esse elevado número de representantes traz consequências bem mais deletérias do que as despesas em si. Como acompanhar o trabalho de mais de 500 pessoas? Reduzir o número de vagas legislativas força a qualificação, uma vez que a visibilidade de cada congressista será maior.
Bolsonaro foi eleito com a bandeira da mudança. Muito se fala nas reformas econômicas, mas ele poderia se notabilizar enviando ao Congresso um projeto com vistas a diminuir o número de parlamentares. 
Igualmente, não acho que seria ruim extinguir os fundos partidário e eleitoral. E, mais uma vez, não só por motivos econômicos. Penso que a vida partidária deveria funcionar em paralelo à vida no voluntariado. O cidadão tem sua família, seu trabalho, suas atividades religiosas, sociais e também políticas. Ninguém deveria viver de partidos.
vasta quantidade de dinheiro público destinada às agremiações atrai dois grupos de pessoas: as incapazes, por incompetência, de ter uma vida fora da política e as mal-intencionadas. Há gente boa? Há, mas em menor escala. Retiremos o dinheiro dos partidos, e os encostados, que são muitos, vão procurar outros destinos. 
Em outro ponto, ainda reflito sobre essa dinâmica de parlamentares distribuírem emendas. Muitos, por sinal, concentram todos os seus esforços nesse sentido. Todo santo dia, nas Assembleias, ocorre uma via-sacra de vereadores a pedir emendas. O deputado se sente poderoso ao atribuí-las e, por conseguinte, o governador se sente poderoso por dizer qual deputado terá as suas pagas. 
Sim, há as impositivas. Mesmo estas, contudo, sofrem a censura do Poder Executivo, que sempre pode encontrar um entrave formal. Retirar essas tais emendas, a princípio, poderia favorecer um planejamento real por parte dos Poderes constituídos.
Colagem com mãos segurando uma cobra e algumas engrenagens
Ilustração - Alex Kidd
Ademais, seria importante refletir acerca da viabilidade de os legisladores se encontrarem apenas algumas vezes no ano, para produzir o mínimo de leis possível. No Texas, por exemplo, os parlamentares seguem com suas vidas normalmente e, em alguns períodos, encontram-se para debater projetos significativos. 
Por aqui, gasta-se tempo e dinheiro na criação de dias comemorativos, na atribuição de nomes a locais públicos e na instituição de campanhas que ninguém faz ou vê. 
O caminho almejado deve ser o da profissionalização da máquina e da diminuição do poder de influência dos vários atores da cena política. Essa mudança, eu sei, demandará ainda muito tempo, pois a solução pela amizade está internalizada no próprio povo. Muitas são as pessoas que me dizem, algumas até me escrevem, que jamais teriam votado em mim se soubessem que não resolveria suas situações particulares. Costumo responder que o arrependimento é um direito.
Essas breves reflexões não intencionam criticar quem quer que seja. Passamos por um grande processo de depuração e evolução —este relato tem o objetivo de, quem sabe, ajudar nessa transformação.
Não sei se seguirei na política, não sei se conseguirei fazer tudo o que gostaria pelo país, mas, para além das incumbências inerentes ao cargo, encaro meus quatro anos de mandato como deputada estadual como um trabalho de campo. Se antes me manifestava baseada por estudos teóricos, agora o faço alicerçada na experiência. Como entusiasta da obra de Tobias Barreto e Miguel Reale, essa nova condição faz toda a diferença.
Estivesse elaborando uma tese, o sumário provisório seria o seguinte: candidaturas avulsas, votação nominal como regra, diminuição no número de parlamentares, extinção dos fundos eleitoral e partidário, fim do sistema pautado em emendas, encontros pontuais de parlamentares apenas para debater projetos estruturais e profissionalização do quadro de assessores. Há muitos outros, talvez menos relevantes neste primeiro momento. 
Na verdade, cada um desses itens renderia uma tese. E já temos muitas teses, muita teoria. Carecemos de pessoas ousadas para alterar a prática. Pessoas que consigam sair do lugar-comum do “sempre foi assim”. Impossível seguir neste modelo que dá certo apenas para uns poucos. Voluntários da Pátria, onde quer que estejam, habilitem-se! 

Janaina Paschoal é deputada estadual (PSL-SP) e professora licenciada de direito penal na USP. Foi coautora do pedido de impeachment que resultou na cassação de Dilma Rousseff (PT) em 2016.
Ilustração de Alex Kidd

Um rio desbocado, por Manoel de Barros, com introdução do Álvaro

Caros,
O Rio Taquari, um dos mais importantes do centro-oeste brasileiro, afluente do rio Paraguai, é um dos principais formadores do Pantanal. Em seu curso alto corre por planaltos arenosos, com imensos problemas de erosão, para, finalmente, descansar nas planícies suaves da região pantaneira e finalmente desembocar no rio Paraguai. Esse rio e sua bacia hidrográfica tem sido muito estudados por força das perturbações que vem sofrendo e causando com fenômenos de erosão e assoreamento, vítima que tem sido do mau manejo agrícola e pecuário das terras de sua bacia.
Pois bem, como tão bem disse Freud "Aonde quer que eu vá, eu descubro que um poeta esteve lá antes de mim”, os estudiosos dedicados ao estudo do Taquari encontraram em uma poesia do Manoel de Barros, “Um rio desbocado” (vejam a seguir), a mais preciosa descrição de sua dinâmica fluvial. Um retrato exato do comportamento desse rio. Ponto para os poetas.
Álvaro


UM RIO DESBOCADO (Manoel de Barros)

Definitivo, cabal, nunca há de ser este rio Taquari. Cheio de furos pelos lados, torneiral, ele derrama e destramela à-toa.

Só com uma tromba d'água se engravida. E empacha. Estoura. Arromba. Carrega barrancos. Cria bocas enormes. Vaza por elas. Cava e recava novos leitos. E destampa adoidado...

Cavalo que desembesta. Se empolga. Escouceia árdego de sol e cio. Esfrega o rosto na escória. E invade, em estendal imprevisível, as terras do pantanal.

Depois se espraia amoroso, libidinoso animal de água, abraçando e cheirando a terra fêmea.

Agora madura nos campos sossegado. Está sesteando debaixo das árvores. Se entorna preguiçosamente e inventa novas margens. Por várzeas e boqueirões passeia marinheiro. Erra pelos cerrados. Prefere os deslimites do vago, o campinal dos lobinhos.

E vai empurrando através dos corixos, baias e largos, suas águas vadias. Estanca por vezes nos currais e pomares de algumas fazendas. Descansa uns dias debaixo das pimenteiras, dos landis, dos guanandis, que agradecem.
De tarde, à sombra dos cambarás, pacus comem frutas.
Meninos pescam das varandas da casa.

Com pouco, esse rio se entedia de tanta planura, de tanta lonjura, de tanta grandura, e volta para sua caixa. Deu força para as raízes.
Alargou, aprofundou alguns braços ressecos. Enxertou suas areias. Fez brotar sua flora. Alegrou sua fauna. Mas deixou no pantanal um pouco de seus peixes.
E empenhou de seu limo, seus lanhos, seus húmus, no solo do pantanal.

Faz isso todos os anos, como se fosse uma obrigação.

Tão necessário, pelo que tem de fecundante e renovador, esse rio Taquari, desbocado e mal comportado, é temido também pelos seus ribeirinhos.
Pois, se livra das pragas os nossos campos, também leva parte de nossos rebanhos.

Este é um rio cujos estragos compõem.

domingo, 24 de novembro de 2019

Os partidos e a política, Opinião OESP

A sensação é de que há muita ‘política’ e pouquíssima política ao mesmo tempo”, escreve Marco Aurélio Nogueira no artigo Partidos, movimentos, democracia: riscos e desafios do século XXI, recentemente publicado na edição brasileira do Journal of Democracy. O professor da Unesp faz referência a um quadro contraditório. Os partidos são ainda estruturas importantes – “permanecem como personagens centrais do jogo político e parlamentar” –, mas “perderam protagonismo como agentes de mobilização, educação política e formatação da cidadania. (...) Deixaram de atuar como fatores de hegemonia – de formação de consensos e da fixação de diretrizes ético-políticas –, processo que se transferiu sempre mais para o mercado (o marketing, a publicidade), a indústria cultural e os diferentes ambientes virtuais”.
A situação de crise vai muito além das fronteiras das legendas. “A derrocada dos partidos (...) passou a reforçar a ideia de que a democracia representativa ingressou em crise de igual proporção, com a ampliação da fuga dos eleitores, o aumento do desinteresse político da população e a desvalorização das eleições como método para a escolha dos governantes”, aponta Nogueira.
A relação entre partidos e democracia vem de longa data. Nas democracias representativas de massa surgidas na Europa a partir do final do século 19, as agremiações partidárias eram vistas como elementos fundamentais para o funcionamento democrático. Tal perspectiva está presente, por exemplo, na Constituição de 1988, que lista a filiação partidária entre as condições de elegibilidade. Com essa medida, mais do que impor um trâmite burocrático, a Carta Magna coloca os partidos políticos entre as instituições fundamentais para a organização do Estado, reconhecendo a esfera partidária como etapa obrigatória para o debate, o aprimoramento e a difusão das ideias e propostas políticas. “Ainda que pouco eficientes no diálogo com a sociedade e a opinião pública, os principais partidos funcionam e conseguem transferir alguma estabilidade ao sistema político”, reconhece o professor da Unesp.
No entanto, e aqui está um dos desafios atuais, tal realidade institucional não é percebida pela população. “Em uma época na qual a política não é devidamente valorizada no âmbito estatal e na opinião pública, os partidos são rejeitados por serem vistos como excessivamente poderosos no controle do processo decisório, o que afastaria os cidadãos das decisões políticas e bloquearia a participação cívica, com o efeito colateral de entregar a política aos interesses unilaterais dos políticos e à corrupção”, diz o artigo.
Diante desse distanciamento entre partidos políticos e sociedade, os movimentos ganham força. “Desejosos de participação e refreados pelas idiossincrasias dos sistemas políticos, muitos cidadãos buscam novos espaços de agregação e atuação. Os movimentos tornam-se, assim, uma espécie de desaguadouro do ativismo que floresce na hipermodernidade, expressando uma vontade coletiva de limitar as oligarquias partidárias, reformar a política e inventar novas formas de atuar politicamente. No horizonte de todos esses movimentos, anuncia-se a perspectiva de não repetir a organização tradicional dos partidos políticos.”
Por isso, o ativismo dos movimentos se dá em paralelo, ou mesmo em oposição, ao mundo da política institucional. É como se a força renovadora dessas novas agremiações, incluída a capacidade de dar voz aos cidadãos, dependesse de um distanciamento da política institucional. No entanto, ao se posicionar assim, tal ativismo limita sua própria capacidade de realização desses desejos de mudança. Referindo-se à situação do Brasil em 2019, Nogueira reconhece haver “muita contestação e resistência aos atos, palavras e decisões governamentais, mas não há propriamente oposição”.
O poder de transformação ainda passa pela política. Ou seja, o tão almejado empoderamento do cidadão passa necessariamente pela política, que é também política partidária. Quando se rejeita esse caminho, a participação política torna-se uma utopia, frustrando expectativas e reforçando ainda mais o círculo vicioso do alijamento do cidadão do poder político.