quinta-feira, 21 de novembro de 2019

O detalhe esquecido da Constituição, Fernando Schüler, FSP

Modelo misto de gestão da educação se transformou, numa alquimia bem tropical, em monopólio estatal

Lembrar de duas histórias nos ajuda um pouco a entender o que se passa hoje na educação brasileira. Uma delas nos leva a 1987, nos debates da Constituinte. Um dos temas em jogo era o monopólio ou não do Estado sobre a educação pública.
A questão era se os recursos para a educação deveriam ser usados apenas nas redes estatais de ensino, no modelo tradicional que todos conhecemos, ou se poderiam também ser investidos em escolas não estatais, sem fins lucrativos, a partir de contratos celebrados com estados e municípios.
A posição vencedora foi a segunda. Está lá, no artigo 213 da Constituição. Recursos públicos serão destinados “às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas”. Até hoje acho engraçado que muita gente boa desconhece, ou faz de conta que desconhece, esse trechinho da Constituição.
Esta é a primeira história. A segunda nos leva a exatos 20 anos depois, quando foi criado o Fundeb, o principal instrumento de financiamento da educação básica do país. Para resumir a história, a lei, por estas coisas bem brasileiras, decidiu restringir o uso dos recursos apenas para as redes estatais de ensino.
Com o requinte de vetar o seu uso, no ensino regular, exatamente para os tipos de escolas que a Constituição havia autorizado: as filantrópicas, confessionais e comunitárias.
O que era para ser um modelo misto de gestão da educação, instituído na Constituição, se transformou, numa alquimia bem tropical, em um quase-monopólio da educação estatal sobre nossa educação básica.
Os resultados são conhecidos. Apenas 1,6% dos nossos alunos (dados do MEC) alcançam o nível “adequado” de aprendizagem em língua portuguesa, ao fim do ensino médio. É difícil exagerar nas dimensões deste desastre.
O efeito mais perverso foi a criação de nosso silencioso apartheid educacional: a classe média correu para o setor privado, protegendo (no seu direito) seus filhos, enquanto os mais pobres ficaram amarrados ao Estado. O nome disso é desigualdade. Daquela que não vem dos céus, mas do modelo que nós mesmos criamos, e por vezes fingimos que é a nossa única alternativa.
Há uma chance agora de corrigir isso tudo. A vigência do Fundeb vai até 2020 e o Congresso deverá aprovar o seu novo regramento. A pergunta simples a fazer é: 31 anos após a promulgação da Constituição, autorizando o sistema misto, vamos continuar mantendo o monopólio estatal?
A questão não é decidir, em abstrato, se o ensino estatal é melhor do que o privado ou vice-versa. O ponto é dar autonomia para os mais de 5.500 municípios e 27 estados brasileiros façam essa análise à luz da realidade local e das melhores evidências disponíveis. A maior delas nós já temos: a falência do modelo atual. A pergunta é: quais as alternativas às quais estamos deixando de prestar atenção?
Observar, por exemplo, a experiência das “charter schools” em Nova York, na gestão Bloomberg. O Center for Research on Educational Outcomes, de Stanford, analisou os resultados obtidos e a conclusão é bastante clara: alunos negros pobres nas escolas charter tem um ganho de aprendizagem equivalente a 68 dias extras ao ano, em matemática, em relação a seus pares em escolas públicas tradicionais.
Esses dados são discutidos no detalhe em Reinventing America’s Schools, de David Osborne. Osborne é um progressista, conselheiro de Clinton e Gore, e tem uma visão interessante sobre o tema: é preciso livrar as escolas da burocracia do Estado.
Retomar o controle do governo, e dos professores, sobre a qualidade da educação, ao invés de culpar os alunos e o destino quando os resultados são pífios.
No Brasil, este tem sido um discurso comum. A tese conveniente de que os piores resultados obtidos pelos alunos mais pobres não seria resultado da má qualidade do ensino público, mas deles próprios.
Estudos feitos na base de dados do Pisa e do Enade mostram exatamente o contrário.
Algo que qualquer um que leciona em boas instituições que integram alunos de menor renda, via sistemas de bolsas, sabe da experiência: alunos mais pobres podem aprender, virar o jogo, desde que recebam a oportunidade de estudar em pé de igualdade.
Vivemos um tempo de muda. Ficamos mais velhos. Quem sabe dessa vez nossa elite, que não abre mão de colocar os filhos em boas escolas privadas, mas insiste no monopólio da escola estatal para os filhos dos outros, repense alguns conceitos.
Três décadas depois de feita a Constituição, a palavra está novamente com o Congresso.
Fernando Schüler
Professor do Insper e curador do projeto Fronteiras do Pensamento. Foi diretor da Fundação Iberê Camargo.

O QUE A FOLHA PENSA Bancada do atraso

Forças de esquerda e de regiões pobres travam avanço do marco do saneamento

Comunidade na avenida Antôno Toze em Guarulhos (SP) - Zanone Fraissat - 23.set.19
Dados os indicadores vergonhosos do país em saneamento básico, impressiona a dificuldade de fazer avançar no Congresso o novo marco regulatório do setor. Interesses políticos mesquinhos e preconceitos ideológicos continuam a bloquear medidas para levar coleta de esgoto aos 100 milhões de brasileiros ainda desassistidos. 
O projeto em tramitação na Câmara dos Deputados, aprovado em comissão especial, traz aperfeiçoamentos consideráveis diante da versão votada pelo Senado.
Além de fixar a autoridade da Agência Nacional de Águas (ANA) para definir padrões técnicos de contratos e metas de universalização, o texto abre caminho para maior participação do setor privado por meio de concessões. 
Este último é o ponto que gera maior resistência entre parte dos deputados e governadores, que parecem mais preocupados em manter os monopólios estatais ineficientes. Curiosamente, o bloqueio parece partir justamente das regiões mais atrasadas no provimento de água tratada e coleta de esgoto —o Norte e o Nordeste. 
Acrescente-se a parcela mais retrógrada da esquerda, que insiste em classificar qualquer abertura como privatização desumana. Escoram-se, para tanto, na tese enganosa de que as regiões menos desenvolvidas ficarão abandonadas, por serem pouco rentáveis. 
O projeto, na verdade, não força a venda de estatais. Simplesmente abre espaço para que a renovação dos contratos existentes, realizados sem licitação, seja feita no regime de concessão, com metas claras de expansão dos serviços e arcabouço regulatório único, definido em âmbito nacional. 
Hoje, 94% do atendimento cabe a empresas controladas pelo poder público —natural, portanto, que um novo regime mais concorrencial reduza essa participação.
O status jurídico das empresas, se privadas ou não, é o que menos importa. Interessa, isso sim, que o vencedor de uma licitação siga regras estipuladas nos editais. 
Tais condições precisam assegurar a universalização a preços razoáveis para todas as comunidades. O maior risco, de abandono de áreas mais carentes, está mitigado no projeto de lei, que prevê a formação de regiões e unidades economicamente viáveis. Os parâmetros serão fixados pelo Executivos estaduais ou pela União.
Outros pontos de atrito, como metas de cobertura, podem ser negociados para levar em conta peculiaridades regionais.
A carência de saneamento está intimamente ligada à morte de crianças e à perpetuação da pobreza —eis o que deveria nortear o debate. Continuar a impedir a modernização do setor configura inaceitável negligência das forças políticas.

#MaisComMenos ou #ComMaisPosts?, Roberto Dias, FSP

Posts vendem ilusão de que o governo atapeta o país a toque de caixa

Folha mostrou que o investimento federal em rodovias está no menor nível desde 2014, e isso causou especial irritação em Brasília.
O governo valeu-se da hashtag #MaisComMenos para responder. “Dizer que há menos para investir é algo óbvio, herdamos um país quebrado”, afirmou o ministro Tarcísio Freitas, da Infraestrutura. “O que não é lógico é associar isso como demérito do governo. Tivemos que fazer muito com pouco.”
Twitter do Ministério da Infraestrutura sobre obras em estradas
Twitter do Ministério da Infraestrutura sobre obras em estradas - Reprodução
Uma ilha de ponderação na Esplanada, o ministro ganhou lugar cativo nas redes presidenciais. Entre seus méritos, está o de ter atraído para as rodovias uma atenção que havia muito não recebiam.
Mas seus posts vendem a ilusão de que o governo atapeta o país a toque de caixa e que o Exército é capaz de resolver problema desse tamanho e urgência —dimensionados pelos 75 mortos no feriado da República, número maior do que no ano passado.
Tome-se a BR-163, uma das preferidas de Tarcísio. Ele fala muito do trecho paraense, finalmente pavimentado. Uma voltinha mais ao sul, porém, ajuda a lembrar que a empresa que assumiu o trecho de MT no governo Dilma até hoje não entregou a duplicação prometida, e vai ficando tudo por isso mesmo.
O ministro gosta de pensar grande. “Se fizermos um diagrama e colocarmos em um círculo todos os países com área maior que 5 milhões de km², em outro todos com mais de 200 milhões de habitantes e um terceiro com [os de] PIB acima de US$ 1 trilhão, você só vai encontrar na interseção 3 países: EUA, China e Brasil. A nossa vocação é ser grande”, diz ele. Na China há um ditado: “Quer ficar rico? Primeiro construa estradas”. Nesta década, os chineses dobraram sua extensão de autopistas.
Por aqui, há pouco dinheiro para investimento público. A malha rodoviária federal soma 76 mil km, só 13% deles são administrados pela iniciativa privada, e o governo Bolsonaro até agora concedeu apenas 437 km. O feed das redes rola mais suave do que o fluxo nas pistas reais.
 
Roberto Dias
Secretário de Redação da Folha.