segunda-feira, 5 de agosto de 2019

O mito do nordeste vermelho, FSP

O eleitor é o árbitro de trade offs entre ganhos federais e locais

Como explicar o voto presidencial no PT e o local nas oligarquias predatórias tradicionais?
Nas eleições municipais de 2012, o PC do B elegeu cinco prefeitos no Maranhão. Quatro anos depois, este número pulou para 46, aumento de 920%. O Maranhão elegeu 58% do total de prefeitos eleitos pelo partido no país.
Como explicar mudança de tal magnitude? Houve massiva conversão do eleitorado ao programa do partido? Não, a explicação é mais simples: O PC do B fez o governador em 2014.
A força centrípeta dos governadores nos estados pobres (efeito incumbente) é a chave para entender o fenômeno que tem dado margens a interpretações de que teria havido realinhamento partidário à esquerda na região. Essa visão ignora que a contraparte do voto para presidente no candidato petista é o voto para outros cargos nas oligarquias familiares ultraconservadoras e predatórias que controlam historicamente a política.
Os governadores do Nordeste Renan Filho, Camilo Santana, Wellington Dias, Flávio Dino e Fátima Bezerra em encontro em Brasília, em maio
Os governadores do Nordeste Renan Filho, Camilo Santana, Wellington Dias, Flávio Dino e Fátima Bezerra em encontro em Brasília, em maio - Agência Brasil
O voto presidencial tem sido influenciado pela política social. Sob FHC ela nacionalizou-se. Até então sua dinâmica era subnacional: atores locais e estaduais eram responsabilizados por programas de cunho redistributivo (exceção à política de salário mínimo e às frentes federais de emprego).
Com isso o eleitorado pobre vota nas eleições presidenciais em quem se mostrar mais eficiente em programas redistributivos federais. Em Imperatriz (MA) ou Guarulhos (SP), o eleitorado vota racionalmente: premia quem redistribui mais ou melhor. Pesquisas empíricas mostram que, controlando pela renda, há pouca variação regional do voto presidencial.  
O que muda regionalmente é a centralidade do governo estadual na política. Nos estados pobres, o governador controla a máquina que alimenta as redes políticas locais. Para o eleitor pobre, a estratégia dominante é votar nos candidatos dessas redes por sua capacidade de atrair investimentos e por receio de ser excluído dos benefícios gerados por elas.
O eleitorado premiou o PT por programas redistributivos. Mas medidas de Temer e Bolsonaro —aumentos reais e 13º para o Bolsa Família— mostram que redistribuir renda tornou-se imperativo político. É o efeito previsível do conhecido teorema do eleitor mediano.
Nem tudo é renda: há outras dimensões na política —regionalismo e pauta de costumes— que, no Nordeste, têm traços conservadores.
Os governadores da oposição beneficiam-se do efeito incumbente, mas chegaram ao poder através de alianças (derrotadas), nas eleições presidenciais, que são, portanto, instáveis.
O mapa do voto reflete incentivos múltiplos e não se reduz a identidades partidárias ou ideológicas. O eleitor é o árbitro de trade offs entre ganhos “federais” e “locais”.
Marcus André Melo
Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA).

Cenas de morte, Ruy Castro , FSP

Muitas das maiores sequências do cinema têm a ver com a morte

Ouço dizer que os corredores da alta cultura têm se ocupado com a discussão sobre se a sequência da morte de Mufasa, pai do herói do desenho “O Rei Leão”, em cartaz, é mais eficaz do que a da mãe de Bambi em, idem, “Bambi” (1942). A do leão, pisoteado por milhares de cascos e ainda caindo de um despenhadeiro, é mostrada em detalhes. A da corça não se vê. Nem precisa. Ouve-se um tiro, e só. É clássica.
A morte sempre foi importante para o cinema. Muitas das maiores sequências da história têm a ver com ela. A de “King Kong” (1933), em que o macaco, metralhado pelos aviões, despenca do edifício Empire State. A de “Sabotador” (1942), de Hitchcock, em que Robert Cummings tenta salvar o nazista Norman Lloyd de cair da estátua da Liberdade, segurando-o pelo paletó, mas os pontos da roupa vão se desfazendo. A espetacular morte de Anna Magnani em “Roma, Cidade Aberta” (1945), em que ela é fuzilada ao correr para seu marido. 
A da velhinha na cadeira de rodas, que Richard Widmark, com uma diabólica risadinha, faz rolar da escada em “Beijo da Morte” (1947). A de James Cagney, no alto do gasômetro em chamas, em “Fúria Sanguinária” (1949), gritando: “Olha só, mamãe! Estou no topo do mundo!”. E qual diretor começaria uma comédia com uma chacina? Só Billy Wilder, em “Quanto Mais Quente, Melhor” (1959). 
Adoro a morte de Jean-Paul Belmondo em “Acossado” (1959), caído na rua depois de levar vários tiros pelas costas e soltando a última baforada do cigarro. E a de Janet Leigh, no chuveiro, em “Psicose” (1960). Já a falsa morte do ET em “E.T.” (1982) é só uma das costumeiras trapaças sentimentais de Steven Spielberg. 
Quanto ao leão morto que “volta” para o filho numa nuvem no final de“O Rei Leão” é um recurso manjado. Começou com Jeanette MacDonald e Nelson Eddy, que, depois de mortos em “Primavera” (1937), “ressuscitam” na nuvem, cantando “Ah, Sweet Mystery of Life”.

É a ecologia, estúpido!, José Henrique Mariante, FSP

ÃO PAULO
Uma das maiores redes de hotéis do mundo vai deixar de oferecer os pequenos frascos de xampu e condicionador, aqueles que usamos e levamos para casa. Serão substituídos por recipientes reutilizáveis de cerâmica até o fim de 2021. InterContinental, Holiday Inn e Crowne Plaza abrem mão de 200 milhões de potinhos/ano, um milhão de quilos de plástico. Correm atrás do Marriott, que já cortou o mimo em 1.500 de seus estabelecimentos.
Em editorial de capa, The Economist diz que o “Brasil tem o poder de salvar ou destruir o mundo”. Escreve que as políticas do governo JairBolsonaro aceleram o desmatamento da Amazônia e que o processo pode alcançar ponto irreversível.
Na capa da revista britânica The Economist, a Amazônia ameaçada pelo "vandalismo" de Bolsonaro
Na capa da revista britânica The Economist, a Amazônia ameaçada pelo "vandalismo" de Bolsonaro - Reprodução
A revista lembra ainda que o “mundo deveria deixar claro a Mr. Bolsonaro que não tolerará seu vandalismo” e que consumidores precisam pressionar as empresas de alimentos a recusar carne e soja produzidas em áreas desmatadas, como já fizeram nos anos 2000.
Rascunho de relatório em discussão no IPCC (painel do clima da ONU), ao qual o Guardian teve acesso, afirma que a crise climática não é mais possível de ser resolvida apenas cortando emissões de veículos, fábricas e usinas. Humanos, que exploram 72% da superfície não congelada do planeta, precisam alterar o modo como produzem comida.
Para tanto, diz o texto, o manejo da terra precisa ser sustentável, com a recuperação de florestas e áreas alagadas; as sociedades precisam caminhar em direção a dietas mais vegetarianas e veganas —teria o presidente lido o documento?
Tudo isso aconteceu na semana passada. Se o leitor não vê relação entre a extinção dos potinhos e a da floresta, ou entre o tom deBolsonaro e o da Economist, sem problema. Se concorda com o pânico em relação ao clima ou acha exagero, conspiração, globalismo, tanto faz. 
Não importa o que achemos. O mundo desenvolvido há tempos acordou para o risco ambiental. E já acordou para o risco Bolsonaro.
Vamos pagar caro.
José Henrique Mariante
Engenheiro e jornalista, é secretário-assistente de Redação da Folha, onde trabalha desde 1992