domingo, 25 de novembro de 2018

Subdesenvolvimento não se improvisa, FSP

Capitalismo de compadres fez Brasil perder o bonde do crescimento

Os mais velhos se lembram do tempo em que telefone era mercadoria valiosa. Em 1990, demoravam-se anos para se conseguir uma linha telefônica pelos meios oficiais (as empresas pertenciam ao governo, mas atendiam mal ao público).
O caro telefone era declarado no Imposto de Renda, desde que adquirido legalmente. A muitos não restava alternativa senão alugá-lo de comerciantes que, sabe-se lá como, tinham alguns disponíveis.
Preços altos e venda ilegal são consequências da intervenção pública atrapalhada e das restrições ao comércio.
Políticas setoriais podem ser bem-sucedidas. Muitas vezes, porém, estão apenas a serviço do oportunismo.
O então presidente Fernando Henrique Cardoso e o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, durante entrevista sobre o leilão da Telebras, em 1994 - Sérgio Lima/Folhapress
Empresas ineficientes demandam proteções e auxílios porque não conseguem vender seus bens aos preços dos importados. Concorrência desleal, argumentam, afinal a taxa de juros por aqui é mais alta e a taxa de câmbio não ajuda.
Pois bem. Na última década assistimos à disseminação das medidas de incentivo setorial, como a concessão de crédito com taxas de juros subsidiadas, desonerações tributárias e regras de conteúdo nacional.
Não deu certo. Como no caso das estatais de telefonia, o resultado da intervenção pública foi um país mais pobre pela insistência nas velhas teses desenvolvimentistas da época Geisel. Recursos da sociedade são desperdiçados com empresas que adotam tecnologia inadequada para produzir bens de baixa qualidade.
As intervenções atrapalhadas prejudicam o restante do setor produtivo que não pode comprar máquinas e equipamentos mais eficientes, por serem produzidos no exterior. Estima-se que entre 40% e 60% da menor produtividade dos países pobres, como o Brasil, decorra das proteções inadequadas a setores e a empresas.
Reformas são bem-vindas, afinal o Brasil há décadas perdeu o bonde do crescimento em razão do seu capitalismo de compadres. A renda por trabalhador cresceu 18% no Brasil entre 1995 e 2016, contra 48% nos Estados Unidos e 127% nos demais emergentes, excluindo a América Latina.
Deve-se abrir a economia ao comércio exterior, reduzir as distorções tributárias e privatizar muitas estatais. Sugere-se atentar para a regulação, afinal nossa telefonia ainda deixa a desejar.
Algumas empresas irão à falência, como ocorreu com os comerciantes de telefones, desempregando seus funcionários. Recomenda-se cuidar das vítimas inocentes e garantir um período de transição, pois muitos apenas seguiram a regra do jogo, por mais equivocada que fosse.
A alternativa é sucumbirmos, mais uma vez, às pressões de empresários e das corporações de servidores públicos. Subdesenvolvimento não se improvisa.
Marcos Lisboa
Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.

Bolsonaro emplaca seu 1º estelionato eleitoral, mas alguém está surpreso?, FSP


Ranier Bragon


Ficaram para trás o governo para todos e o ministério exclusivamente técnico

“É governar pra todos e ponto final. Não é para esse ou aquele setor, é pra todo mundo.” A promessa feita e refeita por Jair Bolsonarorepresenta, até agora, o mais vistoso estelionato eleitoral de uma gestão que ainda nem recebeu a faixa.
Justiça seja feita. O então candidato sempre deu insofismáveis sinais de que faria um governo que pode ser qualquer coisa, menos “pra todos”.
Ele está, por enquanto, seguindo à risca o que esgoelou em entrevistas e nas redes sociais, apesar de vez ou outra ter “dado uma fraquejada” ao prometer unir o país ou formar um ministério exclusivamente técnico e de reconhecida qualificação.
Assim como no comunismo pintado por George Orwell, no bolsonarismo todos são iguais, mas tem gente que é muito mais igual. Ruralistas, pastores evangélicos e empresários, por exemplo. Na economia desponta o ultraliberalismo. O Ministério da Agricultura virou de vez puxadinho da bancada ruralista. No Itamaraty, a resistência ao comunismo que ameaça dominar o planeta, vide a Ursal, determinou a escolha.
Mas nada se assemelha, em tragédia, à definição do ministro da Educação. Ricardo Vélez Rodríguez, mais um da cota do baboseirólogo Olavo de Carvalho, é entusiasta do Escola sem Partido, aquele projeto que alguém salvou dos escombros do Império Bizantino, e assume sob a bênção de líderes evangélicos. Os mesmos que enxergam um Che Guevara em cada professor e militam por ideias que ampliam a discriminação a gays nas escolas e na sociedade. 
Bolsonaro venceu a eleição e tem ampla legitimidade para implantar o governo que propalou nos palanques. E sempre repete que a minoria tem que se curvar à maioria.
Nunca é demais definir essa “minoria” —47 milhões votaram contra o bolsonarismo no segundo turno. Outros 11 milhões apertaram branco ou nulo, ou seja, também não corroboraram essas propostas. A soma representa 50,1% dos que foram às urnas. Será muito salutar ao país que Bolsonaro entenda que a cadeira presidencial não é palanque eleitoral.
Ranier Bragon
Repórter da Sucursal de Brasília, foi correspondente em Belo Horizonte e São Luís. Formou-se em jornalismo pela PUC-MG.