terça-feira, 20 de novembro de 2018

Desabamento público, FSP, Opinião

Em 5 de novembro de 2015, rompeu-se a barragem do Fundão em Mariana (MG), da empresa Samarco. Houve 19 mortos, e o dano social e ambiental criou a maior tragédia do gênero no Brasil, cuja reparação consumirá décadas.
Em 6 de fevereiro de 2018, despencou uma seção da passagem elevada do Eixão, no coração de Brasília. Não houve acidentes fatais; um diretor do DER-DF perdeu o cargo após criticar a falta de verbas para manutenção de pontes e viadutos na capital federal.
Neste 15 de novembro, o dia da República, foi a vez de um viaduto na marginal Pinheiros, uma das principais vias paulistanas. Após ceder cerca de 2 metros, a estrutura segue instável e a causar enormes distúrbios no trânsito da maior cidade do país.
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Só não sobrevieram mais vítimas porque esses desastres aconteceram em horários pouco movimentados. Há mais que coincidência, contudo, entre os três: seu conjunto constitui sintoma da inoperância do poder público na fiscalização de obras de infraestrutura.
Contemple-se o caso das barragens. Há mais de 24 mil delas identificadas no país, em hidrelétricas, mineradoras, represas e açudes. Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), só 3% foram vistoriadas em algum momento. Três por cento.
A informação acabrunhante consta de relatório sobre segurança obtido por esta Folha, o segundo compilado pela ANA após o sinistro de Mariana. Há mais motivo para alarme, porém: cresceu o número de estruturas consideradas vulneráveis: eram 25 em 2016, e em 2017 contavam-se 45.
Nem parece que há uma Política Nacional de Segurança de Barragens. Sobre mais de três quartos do total faltam informações que permitam dizer se estão adequadas.
Um número modesto de funcionários (154) está disponível para vistoriar as instalações. O contingente se espalha por órgãos federais e estaduais, com escassa coordenação. Uma especialista relata alta rotatividade de servidores, que acabam conseguindo empregos melhores depois de treinados.
São variados os sinais de que rateia no Estado brasileiro, de despesas elevadas e mal distribuídas, a capacidade de cumprir funções básicas, como garantir a segurança dos cidadãos --e não só em matéria de criminalidade.

Servidores custoso, Opinião . fsp

Gastos com pessoal caminham para ultrapassar a casa dos R$ 300 bi anuais

O presidente Michel Temer e o presidente eleito, Jair Bolsonaro - Pedro Ladeira - 7.nov.2018/Folhapress
Está correto, em sua essência, o diagnóstico a respeito dos gastos federais com pessoal apresentado pelo governo Michel Temer (MDB) à equipe de transição do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).
Como reportou esta Folha, os economistas da atual administração alertaram que, acima da quantidade de servidores públicos, são os salários exagerados a principal anomalia a inflar essa despesa.
Segundo esse raciocínio, a futura gestão deveria rever os critérios da remuneração do funcionalismo, adequando-a à do setor privado. Além disso, seria importante adiar os reajustes de vencimentos programados para 2019.
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Louvem-se a civilidade da transição de governo e a boa qualidade do material oferecido ao grupo de Bolsonaro. Lamente-se que a gestão Temer não tenha posto em prática o que agora receita.
Pouco depois de assumir o Planalto, em 2016, o emedebista concedeu um pacote de aumentos escalonados aos quadros do Executivo —o que provocou um salto de encargos com pessoal ativo e inativo, que caminham para superar os R$ 300 bilhões anuais (quase 23% da despesa não financeira total).
Argumentou-se, na época, que as medidas já vinham sendo negociadas sob Dilma Rousseff (PT). Na prática, o novo presidente cuidava de evitar um conflito com as corporações logo após um já traumático processo de impeachment.
Fato é que, em plena ruína orçamentária e na vigência de um congelamento da despesa da União, o governo escolheu transferir mais renda da sociedade para um de seus estratos mais privilegiados.
Comparações internacionais não indicam um número especialmente elevado de funcionários no país (a não ser no Judiciário). Entretanto os salários da máquina federal superam em 67% os do setor privado, considerados nível educacional, idade e experiência —a maior discrepância encontrada pelo Banco Mundial em 53 países.
A área técnica da administração conduz estudos para reduzir as remunerações de ingresso no setor público, distanciando-as dos ganhos no topo da carreira.
Tal trabalho não deveria se perder nas gavetas da burocracia: trata-se não apenas de providência para a poupança futura, mas de instrumento crucial para incentivar a dedicação do servidor ao longo da vida profissional.
Essa constitui verdadeira reforma administrativa —não a extinção simbólica de ministérios. Ela exige que se enfrente, porém, um lobby poderoso nos três Poderes.

Futuro deputado do PSL quer canal de denúncias contra 'ideologia em escolas' em SP,


Fundador do Direita São Paulo, Douglas Garcia segue exemplo de colega do PSL catarinense


Anna Virginia Balloussier
SÃO PAULO
Se depender de Douglas Garcia, 24, deputado estadual eleito pelo PSL-SP e fundador do Direita São Paulo, também a Assembleia Legislativa do estado terá seu canal de denúncias para que pais e alunos denunciem professores que considerarem estar fazendo "doutrinação ideológica" em sala de aula. 
Douglas segue, assim, a colega de partido Ana Caroline Campagnolo, eleita para a mesma cadeira, só que em Santa Catarina.
O Ministério Público Federal instaurou inquérito civil para apurar a “suposta intimidação" a docentes do estado após a futura parlamentar conclamar estudantes catarinenses a dedurar professores que façam "queixas político-partidárias em virtude da vitória do presidente [Jair] Bolsonaro". 

O deputado estadual eleito Douglas Garcia, do PSL-SP
O deputado estadual eleito Douglas Garcia, do PSL-SP - Zanone Fraissat/Folhapress

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Tanto ela quanto Douglas defendem o Escola Sem Partido, projeto que deseja expurgar o que for considerado "propaganda político-partidária" em colégios —uma proposta abraçada por conservadores que dizem temer conteúdo de viés esquerdista nas redes escolares.
Os textos, multiplicados por casas legislativas do país, também preveem veto a conteúdos “que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos estudantes ou de seus pais”.
Douglas diz à Folha que só oficializará a proposta do canal paulista em fevereiro, quando for diplomado como parlamentar. Assim teria "imunidade parlamentar para me proteger do que está acontecendo agora". Ele considera o inquérito aberto contra Ana Caroline como uma "perseguição por parte do MP".
A ideia, segundo ele, é receber denúncias via email, telefone e WhatsApp. "Assim como existe hoje o SOS Racismo, no gabinete da Leci  Brandão, a gente vai ter um canal para doutrinação no meu gabinete."
A equipe da deputada do PC do B afirma que, na verdade, o SOS Racismo, que tem um disque-denúncia contra o preconceito, a discriminação e a intolerância racial e cultural, é uma iniciativa do deputado Vicente Cândido (PT) —negro, assim como Leci e Douglas. 
Defensora de varrer ideologias para fora da escola, a professora e agora política Ana Caroline posou em 2017 para foto em sala de aula vestindo camisa nas cores da bandeira nacional e com o rosto do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).
Para Douglas, isso nada tem a ver com o projeto que endossam. "Ela ganhou esta camiseta no final, de um aluno que trabalhava vendendo camisetas. Não estava usando enquanto dava aula", afirma o parlamentar de primeira viagem, que disse à reportagem antes de ser eleito ter adorado ver a “esquerda em polvorosa” após criar o bloco carnavalesco Porão do Dops.
A Justiça proibiu a Direita São Paulo de fazer “apologia à tortura”, e o bloco acabou não saindo.
Uma das marchinhas parodiava o clássico “Cachaça Não É Água”: “Você pensa que bandido é gente/ Bandido não é gente, não/ Bandido bom tá enterrado/ Deitado dentro de um caixão”.