segunda-feira, 19 de novembro de 2018

O Estado Bentinho, FSP

Operação contra Joesley mina colaboração premiada

Joesley Batista deixa sede da PF em São Paulo, após Justiça ordenar sua soltura, no último dia 12 - Leonardo Benassatto - 12.nov.18/Reuters
Pierpaolo Cruz Bottini e André Callegari
​Às 6h do último dia 9, agentes policiais entraram na casa de Joesley Batista e de outros executivos da J&F, anunciando sua prisão temporária. Não foi apenas uma ação contra os empresários --foi um ato que abalou o próprio instituto da colaboração premiada.

Segundo os responsáveis pela ação, Joesley teria omitido informações em seu acordo com a Justiça, deixado de relatar atos de corrupção existentes no Ministério da Agricultura. Daí o nome dado à operação – Capitu, uma alusão à célebre personagem de Machado de Assis suspeita de trair seu marido Bentinho. ​

A referência talvez revele algo do inconsciente institucional. O romance machadiano trata mais da paranoia do esposo do que da efetiva traição de Capitu --cuja existência jamais foi provada. Isso diz muito sobre a prisão em questão. 

No inicio de 2017 Joesley Batista e outros colaboradores da J&F relataram o sistema de corrupção no Ministério da Agricultura à Procuradoria-Geral da República.

Juntaram documentos, planilhas, notas de pagamento e até uma gravação entre os envolvidos.
Compareceram sempre que convocados, prestaram inúmeros depoimentos e esclareceram todas as dúvidas dos investigadores. 

Tais fatos nunca chegariam ao conhecimento das autoridades sem a colaboração dos executivos. Nada deixou de ser relatado, exposto, detalhado.

De repente, essas mesmas autoridades alegaram omissões e usaram documentos e depoimentos dos colaboradores para pedir sua prisão. O Estado que pactuou um acordo, que ofereceu benefícios em troca de informações, de súbito se transformou no algoz daquele que cooperou. 

A prisão foi revogada pelo STJ (Superior Tribunal de Justiça).

Em primeiro lugar, ainda que existissem fatos ocultados, o STF (Supremo Tribunal Federal) já decidiu que isso não pode justificar a prisão de colaboradores. No máximo a rescisão do acordo e o cancelamento dos benefícios.

Em segundo, não houve omissão. Todos os fatos levantados pela polícia tiveram por base as declarações dos empresários. Por mais que se revire o inquérito, nada indica qualquer sonegação de informações da parte de Joesley Batista.

Ao contrário, revela que sua cooperação foi fundamental para a descoberta dos ilícitos.

A decisão pela colaboração é difícil. É um processo delicado, que envolve aspectos pessoais, profissionais e morais. A pessoa se expõe, rompe relações, altera drasticamente seu modo de vida. Se o poder público oferece um benefício por isso e propõe um pacto, suas cláusulas devem ser respeitadas, garantidas, cumpridas. 

Um habeas corpus soltou Joesley dois dias depois. Mas não salvou a colaboração premiada da insegurança jurídica. O uso de informações prestadas contra o colaborador, a imputação de omissões inexistentes para fundamentar sua prisão, a divulgação de dados incorretos --nada disso se espera de um Estado que reconhece na colaboração um importante instrumento de investigação.
Bentinho, com sua desconfiança infundada e desassociada do factual, funciona na ficção. No mundo real, porém, agir como a personagem cismada de Machado não ajudará o Estado a consolidar um instituto calcado na lealdade entre o colaborador e o poder público.
Pierpaolo Cruz Bottini e André Callegari
Professor de direito penal da USP e advogado de executivos da J&F; Criminalista, professor de direito penal no IDP-Brasília e advogado de Joesley Batista

O choque de realidade em Bolsonaro, FSP

Governo de transição expõe presidente eleito e o obriga a dar mais satisfações

Divisões no núcleo duro do governo, mal-estar com o Congresso, apelo de governadores por dinheiro, ministros enrolados com o passado, outros questionados pelo currículo duvidoso, e o risco de colapso de relevante programa social.
Após três semanas de transição, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, começa a se dar conta de que é muito mais fácil fazer campanha do que governar. No caso dele, uma campanha sem debates, com raras entrevistas e uma comunicação feita via rede social, escapando do contraditório. 
O futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, e o presidente eleito, Jair Bolsonaro - Pedro Ladeira - 14.nov.2018/Folhapress
A formação do novo governo inevitavelmente expõe Bolsonaro e o obriga a dar mais satisfações  do que desejaria. Ele não disfarçou o incômodo em ter de responder sobre a segunda suspeita de caixa dois em torno do seu ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni“100% (da minha confiança) ninguém tem, ok?”, afirmou aos repórteres em relação ao episódio divulgado pela Folha.
Onyx, aliás, tem sido alvo de críticas de parlamentares pela dificuldade de interlocução com o Congresso. 
Chefe da economia, Paulo Guedes percebeu que o menosprezo ao Legislativo tem efeito nocivo para os interesses do Planalto. Não à toa, procurou o presidente do Senado, Eunício Oliveira, para aparar as arestas.
Panelas ficam evidentes na nova gestão. Há o grupo dos generais, a turma da relação política, a ala econômica e o clã familiar do presidente eleito. Cada patota tentando ocupar espaços, dar palpite e influenciar no jogo de xadrez bolsonarista.
O gesto da ditadura cubana de anunciar a saída do programa Mais Médicos jogou antes da hora no colo de Bolsonaro o desafio de provar que suas convicções ideológicas não comprometerão os mais necessitados. Ficará nas mãos do seu governo a vida de quem precisa de assistência médica nos rincões do país.
Nada dito aqui é novidade na política brasileira. FHC, Lula, Dilma Rousseff e Michel Temer enfrentaram, reservadas as circunstâncias, problemas parecidos. A diferença é que, no caso de Bolsonaro, o governo de fato ainda nem começou.
Leandro Colon
Diretor da Sucursal de Brasília, foi correspondente em Londres. Vencedor de dois prêmios Esso.

Paulo Guedes confirma Roberto Castello Branco como futuro presidente da Petrobras, FSP

O economista da FGV substituirá Ivan Monteiro; em artigo, já defendeu privatização da estatal

SÃO PAULO , BRASÍLIA e RIO DE JANEIRO
Consultor para a área energética da equipe de transição do governo Jair Bolsonaro, o economista Roberto Castello Branco será o novo presidente da Petrobras, confirmou nesta segunda (19) a assessoria do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes. 
Defensor da privatização de estatais, o futuro presidente da Petrobras fez parte do conselho de administração da empresa em 2015. Ele deixou o colegiado antes do fim de seu mandato por divergências com a gestão Aldemir Bendine - que em 2017 foi preso pela Operação Lava Jato.
Roberto Castello Branco durante seminário organizado pela Folha sobre o futuro da Amazônia - Reinaldo Canato - 27.nov.2017/Folhapress
presidente atual, Ivan Monteiro, deixará a Petrobras no dia 1º de janeiro, disse a companhia em nota divulgada nesta segunda. Monteiro foi nomeado em julho, após renúncia de Pedro Parente, e seu mandato terminaria em março de 2019.
[ x ]
Roberto Castello Branco é professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), onde ocupa o cargo de diretor do Centro de Estudos em Crescimento e Desenvolvimento Econômico da Fundação Getúlio Vargas. Tem pós-doutorado pela Universidade de Chicago e ex-diretor do Banco Central e da Vale. 
Chegou ao conselho da Petrobras em 2015 por indicação do ex-presidente da mineradora, Murilo Ferreira, que havia sido nomeado por Dilma Rousseff para presidir o conselho da petroleira estatal. 
Deixou a empresa com críticas ao ritmo das mudanças na gestão da estatal, que vivia momento agudo da crise pós-Lava Jato. Considerava na época que de reestruturação interna e de venda de ativos eram tímidos.
Em artigo publicado na Folha em julho, após a criação do programa de subvenção ao diesel, em meio à críticas à concessão de subsídios ao preço dos combustíveis, defendeu a privatização da Petrobras.  
"É inaceitável manter centenas de bilhões de dólares alocados a empresas estatais em atividades que podem ser desempenhadas pela iniciativa privada, enquanto o Estado não tem dinheiro para cumprir obrigações básicas, como saúde, educação e segurança pública", escreveu.
A definição do nome chegou a gerar disputa entre autoridades do futuro governo. Enquanto Guedes defendia a indicação de Castello Branco, o vice-presidente eleito, General Hamilton Mourão, demonstrava preferência por um nome da área militar no comando da estatal.
Castello Branco é amigo de Paulo Guedes desde a década de 1980, quando Guedes presidiu o Ibmec, rede ensino que ele fundou.
 A estatal Petrobras disse que não recebeu comunicação oficial do governo de transição sobre a indicação de Castello Branco, segundo comunicado da companhia à CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
A Petrobras afirmou que "irá aguardar a devida oficialização pelo seu acionista controlador para adotar os trâmites internos pertinentes".
Esses procedimentos, segundo a empresa, incluirão a submissão da indicação aos procedimentos de governança corporativa da Petrobras, "incluindo as respectivas análises de conformidade e integridade necessárias", com apreciação pelo Comitê de Indicação, Remuneração e Sucessão da estatal e "posteriormente, deliberação pelo Conselho de Administração".
Mais cedo, a Petrobras havia publicado comunicado em que informava apenas que seu atual presidente, Ivan Monteiro, deixará a companhia a partir de 1° de janeiro.
Débora Sögur Hous , Bernardo Caram e Nicola Pamplona