terça-feira, 13 de outubro de 2015

Fiascos e destaques do grande encontro de empresários brasileiros no Uruguai, Brasil Econômico do alerta CAPEZ


O que aconteceu nos bastidores durante os quatro dias do Meeting Internacional, em Montevidéu, que reuniu executivos, presidentes de empresas e parlamentares

Presidente da Abert, Daniel Slaviero falou sobre dificuldades das empresas de comunicação
Divulgação/Lide
Presidente da Abert, Daniel Slaviero falou sobre dificuldades das empresas de comunicação
O esfriamento da economia brasileira e os tempos de altíssima temperatura na política marcaram os quatro dias do Meeting Internacional, encerrado neste domingo (11) em Montevidéu. O evento acontece há 20 anos e é promovido pelo Lide (Grupo de Líderes Empresariais), do empresário João Dória Júnior.
Apesar das ironias disparadas por alguns empresários e políticos que participaram do encontro, Dória, pré-candidato tucano para a Prefeitura de São Paulo, evitou politizar as discussões – justamente o oposto do que foi visto no Fórum de Líderes Empresarias de Comandatuba (BA), realizado em abril passado e onde se ouviu o tempo todo a defesa do impeachment da presidente Dilma Rousseff e o ataque ao PT.
Confira os melhores e os piores lances dos quatro dias do Meeting Internacional:
Momento vale a pena ver de novo
A estrela dos quatro dias de evento foi a deputada federal Jô Moraes (PCdoB-MG). A parlamentar arrasou no bom humor, aguentou bem as diretas e as indiretas direcionadas ao governo, do qual seu partido faz parte. Teve humor, rapidez de raciocínio e não se intimidou diante do ataque tucano. Fernando Capez, presidente da Assembleia paulista, entrou no clima de bom humor e ganhou o título de provocador do encontro. Cutucou a parlamentar para debates ideológicos entre comunismo e neoliberalismo e até prometeu reestatizar a Vale. A comunista e o tucano caíram na gargalhada. Mas houve quem criticasse a parlamentar entre um cafezinho e outro. "Como pode ficar neste hotel de luxo?", disse um empresário. Outro participante comentou: "Que espécie de deputada comunista tem coragem de trocar a viagem de ônibus pelo carro de luxo?". "Vim aqui e dei o meu recado", comemorou a deputada, que ganhou palmas no voo de volta do Meeting.
Momento para ser esquecido
Por unanimidade, a participação de Alberto Alves, secretário-executivo do Ministério do Turismo. Não se preparou para representar o País no painel sobre relações bilaterais entre Brasil e Uruguai e foi engolido pela clareza e pela experiência da ministra do Turismo do país vizinho, Liliam Kechichián. Ao fim dos minutos de improviso, Alves disse a um dos presentes: "Melhor do que não ter falado nada. Na próxima eu melhoro." Momento "vergonha alheia". Foi embora antes do final do encontro e não deixou saudade.
Momento campanha antecipada
Pouco antes de desembarcar em São Paulo, João Dória Júnior não resistiu e mandou o recado tucano: "Apesar da Dilma, continue acreditando no Brasil". Desnecessário.
Momento saia justa
Edson Bueno, presidente do Conselho de Administração da Amil, um dos grandes patrocinadores do Lide, aproveitou o tempo a perder de vista dado pelo organizador do Meeting Internacional para mandar um recado a João Dória Júnior. Pediu para que os eventos do Grupo de Lide Empresariais não atrelem suas discussões empresariais aos temas políticos. Dória engoliu seco e sorriu, mas não quer dizer que concordou com o pedido do amigo.
Momento "é melhor ter um inimigo por perto"
João Dória Júnior e Fernando Capez, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (PSDB), saíram de São Paulo na quinta-feira (8) pela manhã como adversários tucanos na disputa pela prefeitura paulistana. Mas ambos se saíram muito durante os eventos. Dória prestigiou Capez em vários momentos, com direito a brinde e lugar de destaque em uma das mesas de discussão. O deputado federal, por sua vez, elogiou o colega de partido e em um dos brindes disse: "Que seus sonhos se realizem." Resta saber se o desejo inclui os planos eleitorais do empresário
Momento pires na mão
Daniel Slaviero, presidente da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Tellevisão (Abert), foi convidado para falar no painel sobre liberdade de expressão – um tema caro para os brasileiros que até menos de 30 anos atrás conviviam com a censura dos anos de chumbo no País. Preferiu aproveitar seus minutos para criticar o Partido dos Trabalhadores, que seria culpado pela crise financeira das empresas de comunicação, já que cortou parte da verba publicitária do setor. Slaviero se referiu particularmente ao momento da Rádio Jovem Pan, segundo ele muito prejudicada pela baixa nos repasses publicitários do governo federal.
* A jornalista viajou a convite do Lide (Grupo de Líderes Empresariais)

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O Brasil virou mau exemplo - EDITORIAL ESTADÃO


O ESTADÃO - 12/10

Com exceção de Brasil e Venezuela, a América Latina manteve uma boa imagem na reunião conjunta do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, realizada em Lima, no Peru. A última assembleia na região havia sido em 1967, no Rio de Janeiro. Enormes desequilíbrios marcaram a maior parte das economias latino-americanas, entre o fim dos anos 60 e primeira metade dos 90. Nos primeiros anos do século 21, documentos do FMI começaram a chamar a atenção para os padrões de estabilidade alcançados naqueles países. Seriam duradouros?

Em alguns deles, políticas de baixa qualidade comprometeram os avanços conseguidos principalmente nos anos 90. Mas a nova imagem se mantém para a maioria dos países ao sul dos Estados Unidos. Isso é especialmente significativo num momento de sérias dificuldades para os dependentes de exportações de matérias-primas. Todos crescem menos agora do que nos anos anteriores. Em todos ou quase todos a piora dos preços de produtos básicos afeta a receita de impostos. Além disso, a depreciação cambial se transmite aos preços internos e aumenta o risco de inflação.

O teste é difícil, mas o FMI, o Banco Mundial e os mercados apostam nesses países. Na maioria deles, as contas públicas são sustentáveis. Alguns têm folga para manter o gasto público e dar algum estímulo à economia. A inflação, de modo geral, continua na faixa de 3% a 5%. As taxas de crescimento econômico devem ficar, na maior parte dos casos, na faixa de 2% a 3%, depois de vários anos acima de 4%. Mas ainda serão positivas, apesar dos choques e da desaceleração.

No entanto, a média projetada pelo FMI para a América Latina e o Caribe é um número negativo, -0,3%. A explicação estatística é simples. O peso de duas grandes economias puxa o conjunto para baixo. O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil deve encolher 3%, neste ano, segundo os técnicos do FMI. O da Venezuela deve diminuir muito mais, 10%. Para o Equador também se estima um resultado ruim, um PIB 0,6% menor que o do ano passado, mas o peso da economia equatoriana é muito menor.

O desempenho econômico do Equador, nos últimos anos, foi semelhante ao das economias mais prósperas da região e o país continua com inflação moderada e contas públicas administráveis. Os desafios, no entanto, são muito severos, porque a economia enfrenta dois problemas somados, a queda dos preços do petróleo e a valorização do dólar. Como o país é dolarizado, o efeito do câmbio em sua balança comercial é especialmente severo.

As más condições do Brasil e da Venezuela têm explicações muito menos bonitas. O governo venezuelano desperdiçou recursos e oportunidades quando os preços do petróleo eram muito mais altos. Devastou tanto a agropecuária quanto a indústria, desarranjou as contas públicas, criou inflação e realizou a façanha quase incrível de tornar o dólar escasso num país com um grande setor petrolífero. O PIB da Venezuela diminuiu 4% no ano passado, deve encolher 10% neste ano e recuar mais 6% em 2016, segundo o FMI. A inflação deve bater em 190% em 2015 e continuar subindo no próximo ano. O déficit primário de suas contas públicas deve chegar neste ano a 21,3% do PIB.

O governo brasileiro foi incapaz, até agora, de cometer erros tão espantosos quanto os observados na Venezuela. Mas ninguém deveria menosprezar as tolices acumuladas a partir de 2010, especialmente no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff.

Em relatório sobre a região, economistas do FMI apontaram a crise dos últimos anos como proveniente, em grande parte, de um erro de diagnóstico perpetrado ainda na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As ações de estímulo à demanda acumuladas a partir daí alimentaram uma inflação sempre superior à meta oficial e comprometeram as contas públicas. As condições da oferta foram obviamente negligenciadas. Mas o caso brasileiro envolve também, e isso aparece no relatório, problemas de corrupção e uma severa deterioração das condições políticas. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, elogiou a política econômica do Paraguai e apontou o Brasil e a Argentina como fontes de problemas para a região. Essa é a nova América Latina.

Quebrada, mas muito generosa - SAMANTHA LIMA REVISTA ÉPOCA

  


Os funcionários mais graduados da empresa norueguesa Odfjell Drilling, no Rio de Janeiro, compartilham com milhares de pessoas as preocupações com a derrocada da indústria de petróleo no Brasil. Mas o pessoal da Odfjell pode relaxar a tensão da incerteza exercitando-se em uma sofisticada rede de academias, que cobra mensalidades de R$ 500. Os filhos dos funcionários estrangeiros da Odfjell estudam em escolas cujas mensalidades chegam a R$ 4 mil, mais uma taxa de matrícula de R$ 14 mil. O custo não sai de seus bolsos, nem do caixa da Odjfell. Quem paga a conta é a Sete Brasil, a empresa criada para fornecer à Petrobras sondas capazes de chegar ao petróleo alojado na camada pré-sal, mas que vive nas profundezas da falência.

Os benefícios à Odfjell estão garantidos por uma cláusula inserida em um contrato de 2012, no qual a norueguesa se comprometia a gerenciar a construção das sondas. Assim, só no ano passado, a Sete Brasil gastou US$ 8,3 milhões em reembolsos de gastos desse tipo da Odíjell, inclusive R$ 525 mil pela reforma de uma sala da sede da empresa, em Botafogo, Zona Sul do Rio. A Sete Brasil é generosa - paga a mais e não exige detalhes. Em dois anos, reembolsou US$ 12 milhões em gastos feitos pela Odebrecht Óleo e Gás. A Odebrecht nem detalhou 75% das despesas - alegou direito a sigilo. Outras duas fornecedoras - a Atlas, que tem a empreiteira OAS como uma das sócias, e a norueguesa Seadrill - tiveram o mesmo privilégio. O operador ainda recebe 15% acima do valor da fatura apresentada.

Ninguém prestava atenção em contratos assim, pixulecos em uma indústria que movimenta cifras de dezenas de bilhões de dólares, até que começou a faltar dinheiro. A Sete Brasil corre o risco de quebrar e causar perdas de R$ 9 bilhões a seus sócios e de R$ 16 bilhões a seus credores. No mês passado, a Sete Brasil demitiu 25 de seus 110 funcionários. Na penúria, uma auditoria nos gastos descobriu que a alquebrada desembolsou cerca de US$ 50 milhões, desde 2013, a título de despesa de pessoal de suas fornecedoras, empresas encarregadas de operar sondas que ainda nem saíram do estaleiro. Procurada, a Odfjell confirmou os reembolsos e alegou que eram previstos em contratos. Odebrecht, OAS e Seadrill não responderam aos pedidos de esclarecimento. Em nota, a Sete Brasil afirmou que o contrato "com os operadores foi formulado e aprovado pela administração anterior" e que "o plano de reestruturação da Sete Brasil não prevê esse tipo de contrato no modelo de negócios da companhia".

Criada em 2011, a Sete Brasil é um produto do tipo particular de capitalismo praticado no Brasil. Na empolgação da descoberta do pré-sal, o governo Lula decidiu que, em vez de comprar no mercado internacional, criaria uma empresa brasileira para fornecer sondas à Petrobras. Foi formada uma sociedade entre a estatal Petrobras, fundos de pensão de estatais, como Previ, Petros e Funcef, e bancos - BTG, Bradesco e Santander. O plano era construir 29 sondas. Mas a Sete Brasil já nasceu com o sistema do petrolâo instalado. A corrupção começou antes mesmo da produção. O presidente João Carlos Ferraz e os diretores Pedro Barusco e Eduardo Musa foram indicados aos cargos pela Petrobras. Nos últimos 11 meses, o trio se converteu em delatores da Lava jato. Barusco, ligado ao diretor preso Renato Duque, disse que recolhia propina de 1% nos contratos firmados pela Sete Brasil com estaleiros contratados para construir as sondas. A denúncia fez o BNDES recuar de um financiamento de US$ 10 bilhões, desencadeando a crise que levou a companhia a dar calote em bancos e estaleiros.

A esperança da Sete Brasil é arrancar da também combalida Petrobras um contrato de fornecimento de sondas para evitar que os credores peçam sua falência. Por várias vezes os credores aceitaram prorrogar prazos de pagamento, para evitar o prejuízo. O próximo prazo dado pelos bancos se esgota em 19 de outubro. Porém, dentro da Petrobras, há má vontade contra a Sete Brasil. Com a queda no preço do barril de petróleo, o valor inicialmente previsto para aluguel das sondas, de US$ 400 mil diários, está acima do mercado internacional. O risco de colocar a assinatura em um projeto investigado pela Lava Jato leva os técnicos da estatal a se apegar a filigranas que fazem as minutas do contrato ir e voltar quase indefinidamente. A última tentativa, no mês passado, em uma reunião com mais de 50 pessoas e a presença do presidente da Petrobras, Aldemir Bendine, acabou derrubada. Os sócios querem que a Sete Brasil opere 14 sondas com parceiros e que os contratos sejam estendidos de 15 para 20 anos. A Petrobras quer a Sete Brasil operando apenas cinco sondas, ao lado de outros dois operadores, e por 15 anos. Sem acordo, acaba o sonho da grande Sete Brasil - e mimos como musculação e escola de graça para parceiros.