terça-feira, 22 de setembro de 2026

Pesquisadores usam fezes humanas para criar concreto mais resistente, DW FSP

 Felipe Espinosa Wang

DW

O concreto é um dos grandes vilões do aquecimento global: o setor da construção é responsável pela emissão de 8% dos gases de efeito estufa do planeta. Por isso, pesquisadores buscam alternativas para reduzir esse impacto.

Todos os anos, o mundo produz cerca de 4 bilhões de toneladas de concreto: uma mistura de areia, brita, água e cimento. E, entre todos esses componentes, há um particularmente problemático: o cimento.

Embora represente uma parcela relativamente pequena da composição, ele responde por grande parte do impacto climático. Segundo a revista Popular Mechanics, o cimento corresponde entre 7% e 15% de uma mistura convencional e, ainda assim, é responsável por cerca de 88% do CO₂ associado à fabricação do concreto.

Concreto fresco é despejado de uma calha metálica sobre uma estrutura de madeira em um canteiro de obras. Areia e paredes de concreto cercam a área de trabalho.
Concreto é um dos grandes vilões do aquecimento global - Valentyn Semenov/Shotshop/picture alliance

Diante de um impacto tão significativo, cientistas de várias partes do mundo buscam há anos substitutos parciais para o cimento. Entre as alternativas exploradas estão materiais inspirados na formação de conchas e corais, além de resíduos como borra de café, casca de arroz e serragem transformados em biocarvão.

Agora, uma equipe liderada pelo engenheiro civil Raghuvesh Tiwari, da Universidade Manipal de Jaipur, na Índia, em colaboração com a Universidade Tecnológica da Luisiana, nos Estados Unidos, testou algo que ninguém imaginava encontrar em uma obra: fezes humanas.

Para isso, os pesquisadores recorreram a estações de tratamento de lodo fecal, instalações que processam de forma segura resíduos provenientes de fossas sépticas e sistemas de saneamento. Neste caso, o material utilizado veio de Warangal, na Índia.

O processo de conversão desse lodo em biocarvão consiste em secá-lo e, em seguida, aquecê-lo em um ambiente com pouca presença de oxigênio, a temperaturas entre 350°C e 450°C, até a completa carbonização. O produto resultante é moído e peneirado até se transformar em um pó fino, pronto para ser misturado ao cimento convencional.

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Cimento e biocarvão de lodo fecal

Para descobrir quanto biocarvão poderia ser incorporado à fórmula sem comprometer o desempenho, a equipe preparou uma mistura convencional e outras três nas quais substituiu 5%, 10% e 15% do cimento.

Em seguida, vieram os testes de resistência e durabilidade: os pesquisadores avaliaram o comportamento das amostras sob compressão e flexão, além de analisar absorção de água, porosidade e retração. A evolução da resistência foi acompanhada durante um período de cura de até 91 dias.

Os resultados, publicados no início do mês na revista Scientific Reports, mostraram que proporções moderadas de biocarvão podem melhorar algumas propriedades do concreto. Após 91 dias de cura, a mistura com 10% de substituição registrou aumentos de 21% na resistência à compressão e de 42% na resistência à flexão. Com 5% de substituição, os ganhos foram de 20% e 36%, respectivamente. Já no caso de 15% de biocarvão, a resistência ficou abaixo da observada nas misturas com 5% e 10%.

Qual é a explicação?

Uma das explicações propostas está nos minúsculos poros do biocarvão. Durante a mistura, eles podem reter água e, à medida que o concreto endurece, essa umidade permanece disponível dentro do material. O resultado seria uma espécie de reserva interna de água que favorece as reações associadas ao processo de cura.

Além disso, o material é rico em sílica, que participa de reações químicas capazes de reforçar o concreto, um princípio já utilizado pelos romanos em suas construções, embora com cinzas vulcânicas em vez de fezes.

Por fim, as partículas finas do biocarvão podem preencher pequenos vazios na mistura e favorecer uma estrutura mais compacta. Em observações microscópicas, o concreto contendo 5% de biocarvão apresentou uma estrutura mais densa e mais coesa do que a mistura convencional.

O estudo também observou que, à medida que a quantidade de biocarvão aumentava, diminuía a concentração de metais pesados detectada nas amostras. Os resultados sugerem uma possível redução da liberação dessas substâncias, embora ainda haja dúvidas sobre seu comportamento a longo prazo.

Os limites de um material ainda distante dos canteiros de obras

Esse material ainda está longe de ser utilizado em obras reais. Os próprios pesquisadores alertam que ainda é necessário verificar seu desempenho em condições reais, como ciclos de congelamento e degelo, ambientes salinos ou temperaturas extremas. O estudo também não mediu o impacto efetivo do processo sobre as emissões de carbono.

Mesmo com essas incertezas, a proposta abre uma possibilidade pouco convencional: aproveitar um resíduo abundante para substituir uma pequena parcela do cimento e, na proporção adequada, melhorar algumas propriedades do concreto. Para um material tão comum quanto problemático do ponto de vista ambiental, isso não seria pouca coisa.

A relação de Moraes com Vorcaro diz algo sobre a trama golpista? - Joel Pinheiro da Fonseca

 As novidades sobre Kassio Nunes Marques (sobre a "turma do KN", conforme revelado pelo Metrópoles) o colocam no mesmo patamar de suspeita que Alexandre de Moraes. Deve ser igualmente investigado. Mas dificilmente encontrará defensores tão aguerridos quanto Moraes.

Pela centralidade de Moraes no combate judiciário a quem queria derrubar a democracia brasileira, e pelos métodos para lá de heterodoxos —para alguns, ditatoriais— empregados por ele, é inevitável que, com os indícios de corrupção, todo o passado recente do Brasil seja colocado em julgamento.

Dois homens sentados lado a lado em cadeiras de couro marrom, ambos vestindo togas pretas. O homem à direita, calvo, olha diretamente para a câmera segurando papéis, enquanto o homem à esquerda, com cabelo grisalho, está focado em documentos à sua frente. O ambiente sugere uma sessão formal, possivelmente judicial.
Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça participam de sessão plenária do STF (Supremo Tribunal Federal) em Brasília - Pedro Ladeira - 3.set.26/Folhapress

A princípio, são duas coisas perfeitamente independentes: o papel de Moraes no combate ao golpismo e seu envolvimento com Daniel Vorcaro. A relação não tinha sequer começado em 2022. Um policial ser pego num escândalo de corrupção não significa que os bandidos que ele prendeu ao longo dos anos eram inocentes. Seria uma situação muito diferente, por exemplo, se descobríssemos que Moraes recebeu dinheiro para condenar Jair Bolsonaro (PL).

É o próprio Moraes, contudo, que tem feito questão de ligar as duas coisas. Primeiro ao usar o inquérito das fake news em causa própria, como arma de ataque contra seu colega André Mendonça. Foi apenas a gota d’água, o ápice de um uso crescentemente autointeressado desse inquérito que tanto mal fez à legitimidade do Supremo.

A segunda ligação que Moraes faz entre a proteção da democracia e a corrupção de Vorcaro é para se defender. No documento protocolado no STF, ele diz: "A tentativa de Golpe não se encerrou em 8/1/2023, simplesmente mudou seu modus operandi". É tudo uma vingança dos bolsonaristas. Para se salvar, o ministro faz pastiche da própria conduta que o notabilizou.

As duas coisas se tocam ainda de uma terceira maneira: os expedientes usados agora para proteger Moraes são as mesmas críticas processuais utilizadas pela defesa dos acusados de atentar contra a democracia. A acusação de Mendonça como juiz investigador, ou juiz acusador. O problema é que essas objeções feitas nos últimos anos sempre foram descartadas.

Os esclarecimentos pedidos por Mendonça sobre a identidade de um interlocutor de Vorcaro parecem insignificantes quando lembramos que, num dado momento, Moraes era ministro do Supremo, relator num inquérito agindo de ofício e Presidente do TSE, aprovando com um chapéu providências que ele próprio pedira com outro, prendendo suspeitos e devassando vidas sem a menor cerimônia. E sempre, é claro, em total sintonia e comunicação com a Polícia Federal.

O poder absoluto corrompe absolutamente. Moraes foi longe demais no uso de seus poderes. O inquérito das fake news foi finalmente tirado das de suas mãos e provavelmente será enterrado. Caso Moraes e seus partidários no Supremo consigam protelar e anular a investigação, contudo, ele será presidente do Supremo no ano que vem. Estará na posição, inclusive, de criar novos inquéritos de ofício para investigar graves ameaças à democracia, como a revelação de fotos suas em jatinhos. Como ele próprio diz, o 8 de janeiro não se encerrou…

A discussão sobre os erros e acertos dos julgamentos da trama golpista seguirá dividindo o país. Não há nada no caso Moraes-Vorcaro que inocente os envolvidos. Isso não impedirá o Supremo Futebol Clube de misturar tudo.