domingo, 23 de agosto de 2026

Ter tirado as Forças Armadas da frigideira foi a maior proeza de Lula 3, Elio GAspari - FSP

 Nos dias tensos do final de 2022, quando o presidente Jair Bolsonaro e alguns generais palacianos tramaram um golpe de Estado, Natasha temeu pelas instituições. Passou o tempo e soube-se o que aconteceu: as Forças Armadas não acompanharam os golpistas.

Os comandantes militares (salvo o da Marinha) negaram-se a acompanhá-lo. O primeiro, explícito, foi o brigadeiro Carlos Baptista Junior, da Aeronáutica. Ele acaba de publicar o livro "Eu Disse Não - Uma Trincheira Antigolpista".

Palavras do Comandante da Aeronáutica, tenente-brigadeiro do AR Carlos de Almeida Baptista Júnior - Isac Nóbrega - 1º.abr.22/DivulgaçaoPR

Numa entrevista à repórter Bela Megale, o brigadeiro disse que, durante a fervura, ele advertiu Bolsonaro: "Presidente, olha aqui o que está acontecendo. Depois de tudo isso, quem vai levar toda essa carga são as Forças Armadas". Bingo. Pelo comportamento de Bolsonaro, o golpismo estava deslizando para o colo dos militares.

Baptista Júnior reconheceu que essa incerteza teve um preço: "As Forças perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra".

Não é. A palavra é confiança. Felizmente a desconfiança durou pouco, graças a atitudes como a de Baptista Júnior, Lula está no Planalto e 23 notáveis da trama estão presos, inclusive Bolsonaro.

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Pode-se achar que o governo de Lula não tem marca, mas ter retirado as Forças Armadas da frigideira foi sua maior proeza, o que não é pouca coisa.

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Moraes e Dino erram em série em caso envolvendo Luís Pablo, Marcos Augusto Gonçalves, FSP

 Um jornalista ou veículo da mídia desfrutam, numa democracia, do direito de se inclinar à esquerda ou à direita, defender teses políticas, simpatizar com um partido, detestar um governo e escolher a seu critério os assuntos que consideram relevantes. No exercício dessa atividade, embora não seja o ideal, podem ser parciais, tendenciosos e até fazer mau jornalismo.

O que não podem é cometer crimes. Para isso existem leis, tribunais e o devido processo legal.

O caso do maranhense Luís Pablo embaralha perigosamente essas fronteiras. Dono de um blog dedicado à política local, ele publicou textos sobre o suposto uso irregular de veículos oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão por Flávio Dino e familiares.

Homem de barba e cabelo curto está sentado em mesa de madeira com laptop Apple aberto à sua frente. Atrás dele, prateleiras na parede exibem livros, relógios e objetos decorativos. À direita, há uma moldura com foto e um suporte para celular.
O jornalista maranhense Luís Pablo, alvo de inquérito após textos contrários ao ministro Flávio Dino

Luís Pablo veio a ser investigado por suposta perseguição ao magistrado, que estaria sendo exposto em sua segurança. A pedido da Polícia Federal, e com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República, Alexandre de Moraes autorizou busca e apreensão contra Luís Pablo. Seus equipamentos foram examinados e a PF chegou a Raimundo Cutrim, após escandalosa permissão para violar o preceito constitucional que assegura o sigilo da fonte jornalística.

Moraes argumentou no STF que a garantia não pode servir para acobertar crimes cometidos pelo jornalista. Ainda que se considere o argumento, é de se perguntar: onde está o crime.

Relatório da PF enviado ao magistrado afirma não ser possível concluir que uma movimentação de R$ 100 mil relacionada a Luís Pablo tenha sido pagamento por publicações contra Dino. Muito estranhamente, no relatório, a polícia notou uma "tendência política" nos textos.

E daí?

Tendência política não é crime. Se Luís Pablo publicou informações falsas ou ofensivas, há instrumentos legais para responsabilizá-lo. Se participou de algum delito para obter informações, que isso seja demonstrado. Mas sua orientação política não pode servir como indício criminal.

O episódio é mais preocupante porque não ocorre no vazio. Há anos decisões do STF são questionadas por juristas que veem nelas afrontas a preceitos constitucionais. Permanece vivo, por exemplo, e a gerar desdobramentos, o famigerado inquérito das fake news, aberto de ofício em 2019.

Reconhecer esse problema não significa aderir à campanha bolsonarista contra o Supremo. Moraes teve papel fundamental na reação institucional à tentativa de golpe, e o STF merece o reconhecimento dos democratas. Mas defender a democracia não concede salvo-conduto para decisões futuras.

Como escreveu recentemente na Folha a cientista política Marjorie Marona, a memória do 8 de Janeiro não pode servir para desqualificar críticas necessárias ao STF.

Boa parte dos ministros resiste a reforçar sua legitimidade pela abertura, transparência, responsabilidade e capacidade de conter o ativismo do tribunal, cujos excessos têm chamado a atenção da opinião pública e da sociedade.

Não é preciso considerar Luís Pablo um modelo de jornalismo para defender seus direitos. Garantias constitucionais não servem só para proteger jornalistas que aprovamos. O princípio basilar do sigilo da fonte precisa ser respeitado. Moraes e Dino erraram —e avançaram no erro com a ideia de reimplantar a obrigatoriedade do diploma de jornalista.

Ruy Castro - Legados ao vento, FSP

 Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.

E não importa o tamanho do morto. Exemplo? De 1930 a 1960, ninguém mais presente, poderoso e influente na música popular do que Ary Barroso (1903-1964). E dava razões para isso: fora o primeiro sambista a ficar famoso, o principal abastecedor de Carmen Miranda e Francisco Alves e fixador de gêneros como o samba dolente ("Faceira", 1931), o samba-canção ("Maria", 1934), o samba de Carnaval ("Foi Ela", 1935), o samba dramático ("Na Batucada da Vida", 1935), o samba baiano ("Na Baixa do Sapateiro", 1938), o samba-exaltação ("Aquarela do Brasil", 1939) e muitas outras variantes. Como compositor de piano, tinha uma orquestra nos dedos.

Não só. Foi também o primeiro compositor brasileiro a ser chamado por Hollywood; o mais ouvido locutor esportivo de seu tempo; sinônimo do Flamengo, do qual foi cartola secreto; descobridor de talentos em seu programa de auditório; inspirador da bossa nova (Tom Jobim e João Gilberto o adoravam); e, embora provocasse ciúmes até em Villa-Lobos, dizia-se, com orgulho, um sambista. Pois, com tudo isso, Ary está esquecido.

Estou falando de Ary Barroso, mas poderia citar outros compositores, cantores, atores, escritores, pintores ou bailarinos de calibre equivalente, no masculino ou feminino, cujo "legado" –a obra que deixaram-- está há muito fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil. Você poderá citar outros.

Em compensação, Tom Jobim, Cartola, Cazuza, Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Tarsila do Amaral nunca morreram. Por enquanto.